quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Flor da Rosa, Belver e Amieira do Tejo. Almoço do Arlindo 2017


PESSOAS, PAISAGEM, PATRIMÓNIO



Desta vez, estamos sob o signo do “pê”. Pessoas, porque somos os suspeitos do costume, a razão principal por que vamos, gente catita. Paisagem, porque vamos ter em redor campos dourados alentejanos, mediados por um Tejo de águas tingidas de um azul fortíssimo, contrastante. Património, porque visitaremos legados históricos portugueses.


Já conhecemos o rótulo de anos anteriores, de outras ocasiões. Já todos sabemos ao que vamos. Ao Almoço do Arlindo, evidentemente. Está tudo dito. Tudo, não. Há sempre algo por glossar, muito para mostrar, mais para salientar, tanto para recordar.



Já era um caso sério. Sobretudo, de prazer. E, parafraseando o Arlindo, está a tornar-se um momento de familiaridade excelente, onde a amizade e especialmente o respeito mútuo, reflecte os anos de são convívio que marca a maioria dos presentes. Alguns, valem-se mesmo dos galões da cumplicidade e estoiram com qualquer momento mais sensato ou desatento.




Deve ter sido o Encontro onde estiveram presentes mais elementos da geração mais nova de amantes deste tipo de jornadas lúdicas. Desta vez, seriam mais do que as BMWs, também elas, digamos, uma componente do pragmatismo e liberalidade do Clube.


Desta vez, repetiu-se o sítio de há três anos e reforçou-se o bem-estar. Inventam-se outros lugares de visita e nutre-se o prazer de ir e descobrir. Reaparecem as pessoas e reata-se a convivência, recorda-se a última, a penúltima e enésima vez que estivemos juntos.


Deixamos o solo mais dourado a sul e fomos através dos granitos boleados que incham do solo. Fomos mais a norte, centrados no local de infância do Arlindo. Depois, reaparecemos ao Tejo, trepando ao Hospitalário Castelo de Belver, estendendo daí o olhar sobre o rio.


Vamos descobrir mais cultura, a da higiene, séculos esquecida depois da romanização. No Museu do Sabão ficamos a saber que a cinza branqueia e que os sabonetes demoram menos a fazer do que um presidente. Passamos à gastronomia e se, na noite anterior, já havíamos estado numa alhada de cação, ao almoço descobrimos um sável e um lúcio de nos espantar.

Logo após, ficaríamos com a arte das mantas e das tapeçarias de Belver no seu núcleo museológico. Mais tarde, e depois de uma piscina retemperadora, uma aula de Pilates voltou a repor a forma necessária para enfrentar um excelente bacalhau à casa, seguido de um passeio pedestre nocturno pelas serenas ruas de Alpalhão.


Continuámos sob o signo dos Hospitalários, seguimos no domingo para o Castelo de Amieira, uma fortaleza de meados do século XIV, de onde o vale do Tejo não dista uma légua. Acabámos na Beira Baixa, na Herdade da Urgueira, entre o lago e as simpáticas casas alentejanas, com uma sopa de peixe surpreendente.

FLOR DA ROSA, DEPOIS DE AVIS

Se este périplo tivesse sido feito na época medieval, já há muito que nos teríamos cruzado com cavaleiros Templários, Hospitalários ou da Ordem de Avis. Estamos no Alto Alentejo, a trepar rumo ao Tejo. Andámos pelas planícies do Sorraia, acompanhámos o rio Raia, atravessámo-lo em Pavia e parámos à vista das muralhas de Avis.


Foram os Freires de Évora que o construíram, após a doação das terras pelo rei português, Afonso II. O castelo data da primeira metade do século XIII, cujas obras estiveram a cargo do Grã-Mestre da Ordem Militar de S. Bento de Aviz, mais tarde, Ordem de Avis.


Quem chega de sul, ainda descobre um pano de muralhas e uma torre – salvo já erro, a de Santo António -, além de uma das portas do antigo castelo. Originalmente, o castelo dispunha de seis torres. Porém, hoje, só restam três, sendo que uma delas, salvo erro, a da Rainha, está já integrada na malha urbana mais recente.
No Alentejo, diz-se que as distâncias são enormes. Com efeito, as localidades distam bastante umas das outras, sobretudo se comparadas com congéneres minhotas ou do litoral do país. Porém, ao contrário destas regiões, a planura e a rectilinidade dos acessos, fazem do Alentejo uma zona de rápida progressão.


A distância para Flor da Rosa não ultrapassa muito cinquenta quilómetros, optando pela ligação via Alter do Chão. Em cerca de meia hora, chegamos ao Mosteiro de Flor da Rosa, um conjunto arquitectónico que contempla sobretudo uma igreja-fortaleza e um paço góticos, datados de meados do século XIV.


A obra deve-se a D. Álvaro Gonçalves Pereira, primeiro Prior do Crato, que está aqui sepultado. Albergando actualmente uma Pousada, esta adoptou inclusivamente no seu logotipo o símbolo da Ordem dos Hospitalários, mais tarde, Ordem de Malta.


Além do gótico das muralhas e do paço, as dependências conventuais já mostram traços renascentistas e no claustro notam-se também influências mudéjares. Ainda no claustro, um enorme símbolo dos Hospitalários domina um pequeno tanque central.


Decorria um casamento, que não enchia a sala de estar principal, mas já criava fila para as casas de banho. Mesmo assim, chegámos a estar sozinhos nessa sala abobadada, o que permitiu experimentar um piano sem constrangimentos de público mais exigente…

À entrada, mas ainda no exterior, existe uma loja turística e, no interior, abre-se para um dos lados, um pequeno centro interpretativo do monumento e, para o outro, um Núcleo de Escultura Medieval do Museu Nacional de Arte Antiga. Na ala direita, protegido por grades, e a ocupar lugar principal, está o túmulo do fundador do mosteiro.

DE VOLTA A ALPALHÃO E AO MONTE FILIPE



A etapa seguinte não teria estória se não tivéssemos atrás de nós uma BMW, ‘ein grosse’ BMW, que encobria uma scooter. Não é difícil adivinhar quem vinha atrás de nós. Chegámos juntos ao hotel Monte Filipe, à entrada de Alpalhão, que nos acolheria durante duas noites.
Devemos ter chegado “a horas”, já que outros tinham acabado de parar, numa altura em que só haviam estacionado quatro motos, sendo apenas três do Clube. Desta vez, também havia uma “overdose” de carros. É que não há, por enquanto, outra maneira de trazer os netos para este tipo de eventos. Um side-car era capaz de ser útil…
E lá nos fomos encontrando. Ou seja, enquanto se tiram as malas e se dá um dedo de conversa e se descobre quem venha num clássico ou numa trail, vamos encontrando quem já está e vai recebendo quem chega. Como é habitual, deixa-se meia hora para os preliminares do ambiente, como estás?  vieste de moto?, pois, desta vez, que remédio…!?
Daí a pouco, tudo se esclarece. À mesa, à conversa, a saborear a alhada de cação e as fevras no alguidar, a recordar as jornadas anteriores – soube (mais) sobre a aventura do Cabo Norte), a antever a do dia seguinte (que se esperava soalheiro), a perspectivar as futuras (e lá vem África ao “barulho”).

Estivemos nisto até às tantas, a fazer tempo para uma ida à padaria local, logo após passarmos pelo largo central da vila, cada vez melhor arranjado, e que, agora, já dispõe também de um pequeno campo destinado a futebol de salão, mas onde também poderão ter lugar outras modalidades e actividades.



Estamos em idas terras Templárias, onde a Ordem teria edificado um castelo, entre os séculos XII e XIII, - coisa para ter cerca de oitocentos anos, mas apenas restam vestígios – cuja reprodução está, curiosamente, num painel de azulejos do restaurante Regata, onde jantaríamos no sábado.

BELVER (E) O TEJO


A caravana estava na estrada pelas nove e meia da manhã, Seguimos via Gavião, a caminho da ponte de Belver. Tem cerca de cento e dez ans de idade e está em obras. Parámos no semáforo que controla a passagem numa via, esperámos uns minutos e fomos avançando devagar já à vista da vila e do castelo. 
 

Da ponte, e mesmo durante a subida para a vila, quer a imponência do castelo – está situado numa colina acima da vila – bem como o fausto do Tejo, que se deixa ver durante alguns quilómetros de um lado e do outro da ponte, dão uma ideia do que nos espera.



Parámos no Largo 5 de Outubro na proximidade da Igreja Matriz, cuja edificação original data do século XVI. Aquela hora, ainda havia bastantes lugares de estacionamento. Pouco depois, já ter sido arriscado, uma vez que teríamos concorrência de um grupo muito superior em número de participantes.

AO CASTELO


Daí a pouco, estamos a trepar as escadas para o castelo. Paramos a meio, olhamos o Tejo, esticamos o olhar para a ponte, para vila, para a barragem, mas também para a natureza e para nós próprios. Uns já descansavam, outros estão mortinhos por ver até onde vai o repuxo do bebedouro…



Da entrada do castelo, a paisagem é soberba, principalmente sobre o Tejo, quer para o lado da praia do Alamal, quer para o lado da ponte. Percebe-se que o olhar medieval estivesse mais dedicado à moirama mas, sobretudo depois de subir ao adarve das muralhas, a vista ganha espaço e o panorama revigora-se.


O início da construção do castelo data da última década do século XIII, altura em que as incursões árabes ainda obrigavam a reforçar a linha defensiva do Tejo. Entregue ao prior da Ordem dos Hospitalários, Afonso Pais, na segunda década do século seguinte já guardava no seu interior os dinheiros do tesouro real.



Dois cubelos desiguais ladeiam a porta principal, mais tardia, que se abre então para o rio, em arco de volta redonda, onde se reconhece de imediato a “pedra de toque”. Olhando em redor, logo após a entrada surgem numerosas seteiras, curiosamente na base das muralhas, apontadas” para baixo.



Tivemos como anfitrião um amante da história, um médico veterinário que nos foi pondo ao corrente da história e das estórias do castelo. Guiou-nos ao longo da muralha, destacou as cisternas, salientou a de São Brás e subiu connosco à torre de menagem.



Na pequena capela de São Brás, substancialmente nua de mobiliário, o destaque foi para o altar-mor, ladeado de muitos bustos-relicários, dedicada à guarda e ao culto de relíquias, semelhantes aos que vimos no último passeio do Porto na igreja dos Grilos.



Saímos a caminho da torre de menagem onde assistimos a um vídeo sobre os primórdios do lugar, a influência das Ordens religiosas e militares e dos sucessivos senhores do castelo, da importância estratégica e do foral atribuído a Belver por D. Manuel.



No espaço dedicado à interpretação, lá estavam mapas com a distribuição daquelas Ordens, uma cópia do foral, uma miniatura do castelo, a cronologia, ilustrações, bem como vestígios de povoamento com séculos e existência. Em destaque, um fragmento de uma inscrição funerária em xisto datada do século I, bem como o foral atribuído à vila por D. Manuel!



O que continua a maravilhar é a vista desde os adarves ou das torres. Agora, parece que o Tejo se azulou e o contraste com o branco das casas e o tijolo das telhas é mais nítido. Todavia, ao longe, ainda se distingue a central termoeléctrica do Pego a fumegar…



Nada que impeça os valentes motociclistas de descer a colina para, logo após, subir outra, do outro lado da vila, a caminho do Museu do Sabão. Apesar de estarmos na margem direita do Tejo, ainda é Alentejo. Por tal, qualquer cabeço ou morro de maior quebra, dispõe sempre de um banquito onde qualquer sexagenário pode dar laRgas à sua serenidade.
AOS MUSEUS


Há um painel com sabão azul e branco e sabão amarelo que nos dá as boas-vindas. Sabemos estar no reino da higiene, do sabão e do sabonete, mas também do detergente. Mais à frente, Leblanc aparece acompanhado de Colgate, Solvay e Lever, os magos da limpeza. Ficamos a saber também que os suspeitos do costume – todos aqueles povos que por cá andaram enquanto Portugal não existia – fenícios e gregos, por exemplo, já utilizavam argila e cinza ou argila e areia para a sua higiene pessoal.



Antes, porém, aprendemos a fazer sabão, provavelmente sabonete, já que a matéria acessória eram corantes e odores. Curiosamente, a base dos sabões e sabonetes é glicerina, a mesma utilizada para dar brilho a pneus. Um dia que indústria da borracha perceba que venderá mais se der um cheirinho ao que produz, talvez possamos escolher o perfume dos pneus das nossas motos…



Passámos pelos antigos detergentes de roupa “Omo” – os que ofereciam talheres -, pelos sabonetes “Lux” – os tais das “estrelas de cinema”, que sempre foram portugueses – pelos velhos “Patti” da Ach. Brito, pelo “Chipre” da fábrica Confiança, pelo “Rexina” e por mais algumas raridades. E ainda trouxemos uma simpática miniatura de sabonete.


Descemos de novo ao largo central de Belver, a caminho do “Sabores Guindintesta”, um restaurante que recebeu o nome das antigas terras de Guidintesta, mais tarde Belver. Além de estar localizado na encosta e possuir o tal ”belver” o rio, a mista de sável e lúcio com açorda é um caso sério, bem como a tigelada.



Pouco depois, foi a vez de descermos até ao Núcleo Museológico de Mantas de Tapeçarias de Belver, sobrevindo de um forte empreendedorismo de Natividade Nunes Silva, uma mulher à frente do seu tempo, em matéria de emancipação e iniciativa industrial e comercial.





O acervo museológico mostra um conjunto de teares de pedal, assim com algumas peças ilustrativas dos diversos modos de tear, na altura exemplificados, quer pela conservadora, quer inclusivamente por quem, estando já num estágio moderno de produção têxtil, ainda sabe como puar…


Além dos teares tradicionais, o museu conta ainda com alguns instrumentos de trabalho e matérias-primas, como seja o linho, empregues na tecelagem. É isso que se pode encontrar na antiga Fábrica Natividade Nunes da Silva, vários testemunhos do trabalho rural e da arte da produção de tecelagem.



A meio da tarde, voltámos a atravessar a ponte, deixando para uma próxima oportunidade a visita à Capela da senhora do Pilar e à Anta do Penedo Gordo. Talvez até para um passeio pelo Caminho da Fonte Velha ou ao longo no Tejo no Passadiço do Alamal.

SUNSET EM ALPALHÃO


Está na moda. Não há dia em que não exista. Já ninguém pode passar sem um pôr-do-sol. Afinal, se tal acontece todos os dias há tanto tempo, não há maneira de o evitar. Por isso, juntamo-nos à natureza e à moda e, após um mergulho na piscina,  o sol oferece-nos um momento Pilates.


Sob o comando da Rosa de Oliveira, voltámos à relva, mais ou menos vestidos para o efeito, em formação de xadrez. Respirámos de todas e mais algumas maneiras, flectimos, rodámos, agachámos, estirámos, ora para um lado, ora para outro, para baixo e para cima.



Apesar de a harmonia ter sido a que melhor se conseguiu, quando a música se fez ouvir, o corpo seguiu o ritmo e não foi preciso mais nada para mexer também o espírito. Exercício para uns, incentivo apetitoso para jantar para outros, a verdade é que o Clube esteve representado quase a 100% na iniciativa!



Foi ainda à vista do “sunset”, que partimos para o restaurante Regata, já nosso conhecido de anos anteriores. Voltámos a ocupar duas longas mesas, para nos batermos com uma sopa de tomate, um bacalhau e uma sericaia que reuniram unanimidade de especialidade.




Fomos ficando ao longo das conversas de ocasião, de uma ou outra novidade e das trocas de opiniões sobre o curto e o médio prazo das iniciativas do Clube. Ainda fizemos escala na esplanada para, pouco depois, seguirmos o Arlindo em périplo pela vila.


Começámos pela Igreja matriz, de provável edificação original ocorrida na segunda metade do século XV, posteriormente alterada no século seguinte com outro estilo arquitectónico. Hoje ninguém diria cuja origem é tão remota, dado o excelente estado de conservação.


Mais recente, é mesmo a cruz estilizada em granito, bem como o dedo gigante, que ladeiam a igreja. Além destas esculturas, a vila está replecta de monumentos em pedra. Passámos pela “Anta”, pelo “Peixe” e pelas “Caras” do largo, tendo-nos faltado, a “Sereia” e a “Arca”, bem como o “Banco”.



Continuámos para a Fonte de Alpalhão, de finais do século XIX, granítica, brasonada com as amas de Portugal e encimada por uma Cruz de Cristo, local de brincadeira do Arlindo quando criança. Ainda hoje se enfeita a fonte com flores de papel por ocasião da Festa de Santa Cruz.


Regressámos ao hotel após um pedestre de cerca de 2 quilómetros. A noite estava óptima para andar a pé, sem ser preciso agasalho. Aliás, até estava fresquinho, comparando com a temperatura que, no ano anterior, no brindou em Arroches, mas sobretudo na visita aos fortes de Elvas.

DA AMIEIRA DO TEJO À HERDADE DA URGUEIRA



A meio da manhã de domingo, já se notava que a temperatura aumentara, a prometer um dia luminoso e talvez afogueado. O Alto Alentejo mantinha os horizontes dourados e os odores campestres acompanhava-nos a longo da estrada que nos levaria a Amieira do Tejo.

Do Monte Filipe à Amieira do Tejo são pouco mais de vinte quilómetros em estrada rectilínea e de bom piso, em parte IP2. Continuávamos na senda dos Hospitalários cuja heráldica é facilmente reconhecível sobre o arco de pedra que encima o portão de entrada no castelo.


Trata-se de uma edificação de pequenas dimensões, quer em área, quer em altura das muralhas. Por tal, dispunha de um fosso, hoje inexistente, bem como uma pequena cintura de muralhas, mais baixas, que possui o portão atrás referido.


Passámos elo pátio de armas onde tal como no castelo de Belver, ainda são visíveis duas cisternas. Este terá sido edificado, em meados do século XIV, por D. Frei Álvaro Pereira, pai do Condestável D. Nuno que mesmo tendo vivido aqui durante alguns anos, foi sepultado no mosteiro da Flor da Rosa.



É do adarve, estreito e alto, que a vista vai até à outra margem do Tejo, de onde dista mais de dois quilómetros. Em redor, o horizonte enrola-se em colinas, com a vila aos pés da muralha a nascente e campo a perder de vista a poente.


Na torre de menagem existe um pequeno núcleo interpretativo e, nesta altura, expunha um conjunto de fotos de época, com especial cariz sociocultural, que retratava as gentes e as actividades da vila durante grande parte do século XX.




Passeámos pelo adarve, espreitámos o Tejo e as colinas que envolvem a localidade, espreitámos as cisternas e passámos à Capela de São João Baptista, já quinhentista, onde se distingue a abóbada profusamente decorada, com elementos decorativos muito etilizados.



Saímos da Amieira do Tejo com a temperatura a tocar a trintena de graus. . Descemos para o Tejo, ao longo da estrada que leva à ponte de onde as Portas de Ródão se destacam no curso do rio. E de onde se reconhecia facilmente o cais de onde partimos num passeio no Tejo num anterior Almoço do Arlindo.


  

Atravessámos Vila Velha de Ródão e passámos pelo Museu Rural (que também visitámos naquela ocasião). Poucos quilómetros depois da vila, voltámos ao campo dourado a perder de vista, agora sobre uma estrada mais estreita e de piso bera.


UMA HERDADE ESPECIAL



 
Mas não demorou a surgir a miragem da Herdade da Urguiera. Depois de um portão, aparece um lago sobre a direita, fronteiro a um edifício de dois andares com dois restaurantes e, junto, uma piscina, uma esplanada e espaços de lazer entre oliveiras.



Próximo, um conjunto de moradias, de materiais e traça de transição entre o Alentejo e a Beira, também envolvidas por oliveiras, dispunham-se ao longo da rua principal do complexo. Foi à sombra delas que deixámos as motos e nos dirigimos ao piso inferior para almoçar.



Fomos recebidos numa sala envidraçada, luminosa, virada para o lago, onde nos acomodámos para mais uns instantes de convívio, na companhia de um bom arsenal de aperitivos e onde esquecemos o calor que já se fazia sentir em cima das motos.


Foi uma escolha excelente do casal Matos. O sítio é uma espécie de oásis que aproveita a natureza, `aboa maneira alentejana, com pouco mas suficientemente interessante, constitui um polo de lazer, e não só, com muita qualidade.



A piscina, a dois passos do restaurante e das casas, foi imediatamente um dos sítios de atracção, sobretudo dos mais novos. Do exterior do restaurante, e logo após a zona das oliveiras, a vista anda pelo lago e perde-se na vinha a poente, num pequeno núcleo de árvores a sul e num descampado a nascente.



A jornada gastronómica teve um começo muito saboroso com uma sopa de peixe espantosa, continuou para medalhões de bovino, tendo terminado com uma tijelada excelente. Um almoço que deu para lá das três da tarde, onde vagueámos entre os sabores e as últimas (boas) novidades do percurso da Selecção Nacional de Futebol.



Tivemos ainda oportunidade de visitar duas das casas do complexo, um T2 e um T3, e verificar que também teriam sido uma boa alternativa a Alpalhão. Talvez fiquem à nossa espera até para o ano, ou para uma próxima oportunidade de alojamento no Almoço do Arlindo.



Saímos da Herdade da Urgueira com saudade do fim-de-semana. Ou não fossemos portugueses! Eram quase quatro da tarde quando nos pusemos a caminho. O calor aumentara, como estava previsto. Certificámo-nos disso à passagem por Santarém, quando a temperatura nos termómetros das motos chegaram aos 39 graus!


O vídeo em, https://vimeo.com/226831172



Concurso de Interpretação do Estoril


Quando a voz canta, diz-se que tem voz. 
Quando a voz toca, diz-se que é um instrumento. 
Não será disparate dizer que a voz é um instrumento natural. 
E mais, que quando canta e toca, a voz encanta.


Tecnicamente, desconheço os padrões de aferição de uma boa voz. 
Se os agudos isto, se os graves aquilo.
Se o tom estava não sei o quê.
Mas sei quando a voz me cativa.
Foi esse o caso.
Deixo-vos alguns minutos de vídeo e áudio.



Tratava-se do Concurso de Interpretação do Estoril, que vai na sua 19ª edição.
Concorriam, a soprano Filipa Portela, que venceu a competição geral.
Raquel Saraiva, em fagote, que ficou em 2º, 
Marina Pacheco, soprano, que obteve o 3º lugar, 
ex-aequo com Maria Nabeiro, violoncelista. 


Marina Pacheco ganhou ainda o Prémio do Público, ex-aequo com Filipa Portela. 
O evento teve lugar no Centro Cultural de Cascais, um antigo convento, entretanto recuperado.
A capela, onde decorreram as provas, ainda está sob gestão da autoridade eclesiástica local.


O Centro tem também uma gestão partilhada com a Fundação D. Luís. 
Esta, é responsável pela programação do centro de exposições.
A Câmara Municipal de Cascais assegura a programação do auditório.



O meu voto foi para o desempenho vocal da Marina Pacheco. 
Mas o certame tinha outras performances excelentes. 
É o dilema do concurso. 
E quando todos são exímios? 
Ah, há sempre alguém melhor do que outro - pode-se aventar. 
Sempre? Talvez não! Deve ter havido uma razão para tantos ex-aequo...

Vídeo




sexta-feira, 16 de junho de 2017

Lisboa Arte & Moto



Arte e Motos, dois temas que se cruzam e combinam cada vez mais,
sobretudo no meio motociclístico dos mais entrados na vida.
A arte empresta à moto o ambiente criativo da cor,
da forma, do design, do look, do ideal.
A moto, essa, está disponível para celebrar a identidade,
a camaradagem, a utilidade, a mudança, a liberdade.


É para esse conjunto de rituais 
que a personalização de motos e acessórios contribuem, 
moldando um estilo de vida, 
mais ou menos ligado à individualidade e à originalidade. 
Neste louvor da moto, mais do que a viagem, o passeio, 
a concentração ou outro evento destes tipos,
é a criatura sobretudo e o criador que estão em foco.


Trata-se da Lisboa Arte & Moto,
um evento que teve lugar na Lx Factory, em Lisboa,
e que ocupou dois dos edifícios situados nas traseiras da rua principal. 
Não visitava o certame desde 2013.
Nessa altura, foi assim,
http://cordeirus.blogspot.pt/2013/05/art-e-moto.html.
Desta feita, na Fábrica L, estava presente a exposição,
“O Mundo das Corridas”, um recuperar da memória da competição, 
com motos, vídeos, fotografias, pinturas e ilustrações alusivas ao tema.


No Fábrica XL, o maior espaço de exposição da Factory, 
destacava essencialmente as melhores obras de transformação 
– pinturas, acessórios, design – e personalização de motos executadas por profissionais. 
Entre essas, detectavam-se alguns modelos recentes. 
Viam-se também capacetes e pranchas de surf alvo de intervenção estética, 
para além de vestuário estilizado, vintage ou dedicado.


Há também por ali um conjunto de memórias, 
que datam do ressurgimento da moto em Portugal nos anos 70. 
Estão representadas sobretudo as “café racers” da altura, 
mas também há modelos sem transformações, completamente de origem, 
que recordam a aventura que era para muitos, em finais de 70, 
andarem com motos consideradas “artigos de luxo”. 
Uma CF750 Four tinha ficado bem junto da Goldwing 1000 e da Guzzi Le Mans...


Fora do recinto fechado, alinhava-se cerca de duas dezenas de motos 
personalizadas pelos proprietários, criações pessoais, recuperações ou modificações, 
com mais ou menos ferrugem, peças a mais ou a menos, 
fita isoladora ou amianto, pneus “quadrados”, bancos e faróis minimalistas.


Entrada gratuita. Há música ao vivo e de Dj. 
O bar adstrito ao evento pareceu-me exíguo, 
com fila até à escada havendo, porém, 
alternativas na rua principal. 


Por motivo de obras, a entrada fazia-se pela Avenida da Índia, 
embora travar na avenida, para depois, entrar em ângulo recto no portão, 
não me pareceu muito seguro. 
A alternativa obrigava também os carros a passarem pelo centro do evento,
em velocidade muito reduzida, também em fila. 
Os lugares disponível para estacionar escasseavam, mesmo para motos.


Nada que perturbasse este festival de tendências, como se diz agora, 
neste caso de tendências urbanas contemporâneas. 
Com efeito, não deixa de ser uma espécie de festa comemorativa 
de um grupo alargado de motociclistas, essencialmente citadinos, dos que gostam, 
pelo menos, de ver as propostas de customização de motos e acessórios.


Também não deixa de ser mais um evento/ponto de encontro de motociclistas, 
diferente do passeio ou da concentração, 
que privilegia a arte e a respectiva criatividade. 
E a escolha do espaço, assim como a correspondente decoração, 
onde a iluminação se destaca, estimula também a participação no evento.  


Desta vez, a disponibilidade de tempo não foi famosa, 
pelo que ficaram por esmiuçar alguns sectores, 
rever outros ou descobrir novidades. 
Pareceu-me, ainda assim, que havia mais espaço, 
mais motos em exposição e mais público, do que numa das últimas edições. 
O próximo promete não ficar atrás.  


O vídeo em https://vimeo.com/221202664

Concerto Promenade, Queluz




Ouvir música clássica ao ritmo dos passos, 
foi ideia de inglês, Henry Wood, 
conceito que privilegiava a informalidade 
de passear enquanto a orquestra tocava. 
Este tipo de concertos ficou conhecido 
pelo nome de “Concertos Promenade”. 
Há anos, a televisão portuguesa foi pródiga 
na transmissão dos Concertos Promenade produzidos pela BBC.


Foi um raro Concerto Promenade que, em Queluz,
no cenário da fachada do palácio, 
encerrou o Festival de Sintra no último domingo, 27 de Maio. 
Com a cumplicidade de uma noite amena, 
a Banda Sinfónica do Exército, com a participação do Coro Lisboa Cantat, 
passeou por obras de Tchaikovsky, Chostakovitch, 
Verdi e Rossini, entre outros.


Com a direcção do maestro Artur Duarte Cardoso, 
a Banda Sinfónica do Exército “constitui-se para além de Banda Militar, 
como um Grupo de Música de Câmara, um Quinteto de Metais 
e um Quarteto de Saxofones”. 
Talvez não seja do conhecimento geral, 
que está agregada muito perto do local do concerto, 
ou seja, no Regimento de Artilharia Antiaérea Nº1, em Queluz.


O Coro Lisboa Cantat, cuja formação data de há quarenta anos, 
actuou sob a direcção do maestro Jorge Carvalho Alves, 
que está com o Coro há cerca de trinta anos. 
A participação vocal teve ainda como solistas, 
o tenor Pedro Rodrigues, a soprano Carla Simões 
e o barítono Diogo Oliveira.


Um dos momentos mais espectaculares da noite foi protagonizado
 por diversos disparos de peças de artilharia, 
situadas no exterior e junto ao portão do quartel do Regimento de Artilharia. 
Quem estivesse na parte de trás do espaço de audiência, 
pôde virar-se para assistir a uma bateria de meia dúzia de tiros, 
cujo ritmo e estampido acompanhava a peça tocada em palco.


O espectáculo durou mais de uma hora, 
sob um céu estrelado e uma temperatura aprazível. 
Talvez não tenha estado presente tanto público 
como o que o que assistiu ao Concerto de Videomapping, 
Todavia, a plateia estava repleta e nas laterais havia muita gente.


No entanto, não estava à espera que a plateia,
com lugares sentados, fosse tão extensa. 
Por tal, parecia estar-se numa sala de concertos, 
com a plateia em frente do palco e laterais com assistência em pé. 
Dava ideia de que a tal “promenade” dificilmente seria possível, 
a não ser passeando por trás das cadeiras da plateia e da ‘regie’ do evento.


O vídeo em https://vimeo.com/220476996

Castelo Rodrigo



Podia ser Marvão. Ou Monsaraz, Juromenha ou Mértola. 
Talvez Castelo Mendo, Monsanto quanto muito.  
Mas Castelo Rodrigo é diferente.  
Aliás, como todos as outras localidades. 
Partilha o piso em laje medieval, as paredes pétreas das casas,  
as muralhas medievais, a alcáçova nobre e central. 
O palácio, por exemplo, marca a diferença.


Ao longe, a colina reforça-lhe a imponência.
Depois de a vencermos, entra-se pela Porta do Sol
e a paisagem estende-se sob os nossos olhos como um ecrã gigantesco
com grandes pedaços de verdes vigorosos e dourados secos. 
Das muralhas, avistam-se muitos cabeços e outeiros da Beira.


Mas é intramuros que Castelo Rodrigo mostra a sua monumentalidade, 
uma majestade medieval ainda protegida pelas provectas muralhas, 
reforçada pela presença, ainda que ruinosa, do palácio de Cristóvão de Moura. 
Mas não só. A igreja matriz, o pelourinho e a cisterna
são outros testemunhos da era medieval.


Como tantas outras terras da raia, foi só no século XIII,
que Castelo Rodrigo passou para a coroa portuguesa.
A partir de então, a sua importância foi crescendo
através da outorgação de cartas de foral,
mas decaiu a partir do final da primeira dinastia,
quando tomou partido por Espanha.


Por tal, a vila perdeu a sua autonomia e ficou dependente de Pinhel.
O castigo estendeu-se ao brasão da urbe
que ficou com as armas reais invertidas.
Castelo Rodrigo voltou ao seu esplendor do início da nacionalidade
atestado pela dimensão do seu pelourinho manuelino,
altura em que a vila foi repovoada e o castelo refeito.


Mas não foi apenas nesta época que a atracção por Castela
fez de Castelo Rodrigo uma espécie de vila maldita. 
A instituição de um ducado e de uma marca (marquesado), 
já sob o domínio dos Filipes, outorgados a Cristóvão de Moura Távora
 levou-o à edificação de um palácio que ocupou a antiga alcáçova.


Todavia, a partir da Restauração, o povo destruiu-lhe o palácio. 
Castelo Rodrigo só recuperou o prestígio nacional quando o duque de Ossuna a cercou.
Nessa ocasião, a vila resistiu com centena e meia de homens 
que reagiram ao ataque até chegarem reforços
que combateram os espanhóis na batalha de Salgadela.


Hoje, há apenas de vestígios arruinados do palácio 
e alguns dos panos de muralhas, 
uma cintura com treze torres que envolvia a vila. 
Mantém o traçado medieval das ruas, 
conserva algumas casas árabes e manuelinas, 
além da cisterna e do pelourinho manuelino de grandes dimensões.


Da casa da cisterna diz-se ter sido uma antiga sinagoga. 
Perto do pelourinho e da igreja matriz fica a Casa da Câmara. 
A igreja matriz, de traça românico-gótica, 
é dedicada a Nossa Senhora de Rocamador 
relacionada com a congregação religiosa 
que assistia os peregrinos que se dirigiam a Compostela.


A fundação do castelo precisa-se no alvor do século XIII, 
embora se julgue que já existiria dois séculos antes 
na era condal portucalense. 
As muralhas que veem desde longe
são do final da primeira década de 1200, 
reforçadas posteriormente por D. Dinis e por D. Manuel.


A antiguidade da linha de muralhas, 
cuja iniciativa é atribuída ao leonês Afonso IX, 
é confirmada pelas torres semicirculares que, 
embora de menor dimensão, 
alguns autores comparam às congéneres de Ávila. 
Hoje, quer da torre albarrã – a que se salienta de um troço da muralha 
– quer da torre de menagem – morada habitual do senhor do castelo 
– só existem vestígios diminutos.


Outra estrutura que ainda é possível reconhecer 
é o palácio de Cristóvão Moura,
mandado construir sobre a antiga alcáçova, 
e que foi residência deste filho de alcaide 
durante os séculos XVI e XVII, 
quando apoiou Filipe II e Filipe III de Espanha 
e recebeu destes várias benesses.


Hoje, o palácio não passa de uma “ruína consolidada”
onde é possível observar ainda algumas paredes muito maltratadas,
restos de fachadas e janelas esventradas.
O cenário é claramente simbólico, bem como algo tétrico,
com um “quê” de misterioso e altivo. 
O espaço está actualmente também dedicado a eventos.


Destaca-se a porta do palácio, cujas pedras angulares,
até hoje, não foram totalmente repostas. 
Mas é também a arquitetura popular
e o traçado medieval das ruas estreitas, 
íngremes e sinuosas, que cativam o deambular. 



A paisagem é outro elemento singular. 
Castelo Rodrigo é magnético. 
Junta um conjunto de encantos que atraem 
especialmente quem gosta de estar em ambientes medievais.
Estar ali, é viajar por séculos de história.

O vídeo em https://vimeo.com/220360956