quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Mais de Paula Rego


Para quem gosta de Paula Rego, volta a Paula Rego, ou seja, à Casa das Histórias, em Cascais. O sítio é atractivo, a arquitectura e os jardins contribuem para tal. Contíguo, o Museu do Mar, dá outra ajuda. O conteúdo da exposição faz o resto.  A visita é gratuita, como a maioria dos sítios culturais da vila. A Casa das Histórias está ali desde 2009.

 

Desta feita, vão ser apresentadas pela primeira vez algumas obras em público. Vamos percorer sete salas, caminhar ao longo do percurso criativo de Paula Rego. Entre obras realizadas especialmente noa anos 80, estão trabalhos provenientes da colecção do museu, bem como obras de colecionadores privados e e entidades públicas.

 


Andamos pelas histórias da artista que reflectem uma linguagem visual enérgica, com protagonistas que adquirem qualidades e comportamentos humanos, sendo criaturas animalescas, e que convivem bizarra ou ambiguamente com humanos. Ou são simplesmente humanos em contextos peculiares e/ou complexos.

 

Nos trabalhos de  pintura, desenho e gravura, as personagens mantêm aspectos disformes, semblantes e movimentos agressivos, comportamentos eventualmente mordazes ou repugnantes, em situações tanto caóticas como serenas, numa linguagem figurativa com tanto de atractivo como de depressivo.

 

Passamos  por Dr. Gato e Romeu e Julieta. Depois, por Rapariga com Pássaro e Rapariga e Marabu. Continuamos com raparigas em Rapariga com Duas Mâes ou Pequenas Noivas com Suas Mães. Fechamos com Na Praia e O Cerco, para terminarmos numa tapeçaria, com vários tecidos sobre linho, intitulada Batalha de Alcácer-Quibir. Fascinante

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Aikido em Quarentena

  


A Covid-19 surgiu e instalou-se.

Nessa altura, a vida mudou!

Alteramos quase toda a vida pública, privada, familiar, social, profissional, desportiva.

As actividades de grupo, por pequenos que fossem - duas pessoas, até, p.e. - cessaram.

Neste cenário de afastamento, as artes marciais também foram arrastadas para o isolamento.

Que época!


Todavia, nestas alturas as pessoas reagem, criam, reinventam-se, solidarizam-se. 

Foi preciso “juntar” de novo os praticantes, dar seguimento aos treinos, continuar o Caminho. 

Fosse como fosse. Ou antes, da melhor maneira possível.

Foi preciso usar a imaginação!

Foi preciso esticar o Ma Ai (distância de segurança) até garantir que não nos contaminávamos uns aos outros.

 

AIKIDO À DISTÂNCIA


 

O que se faz quando não podemos estar juntos, quando a proximidade, desaconselhada, chega mesmo a ser proibida?

O que fazemos quando precisamos de outro para praticar e aprender?

“Fazemos” à distância!

O “on line” perfilou-se como uma das melhores soluções para trocar informações, opiniões, intervenções.

Tudo através da net.

 

Por este meio, através das palavras e das imagens, as artes continuaram a ser divulgadas.

Privilegiando, quer a teoria, quer as maneiras de fazer.

O conhecimento continuou a ser passado de uns para outros.

Os conceitos, práticas, evoluções, passaram a ser comentadas e até discutidas.

Até mesmo as diferenças e as semelhanças foram contempladas.

 

A cultura das artes marciais teve aqui um momento fascinante e enriquecedor.

Os praticantes juntaram-se em redor do ecrã do computador e partilharam ideias, práticas, anseios, problemas, alternativas, soluções.

Enfim, um conjunto de temas que, se não aprimorou, dinamizou a arte.

Prevaleceu sobretudo um espírito de partilha.

 

O NOSSO ESFORÇO



As ideias surgem dessa situação de isolamento.
Falamos sobre tantos aspectos do Aikido…
...por que não explorar esses diversos temas e divulgá-los para o grupo?
A expectativa é de o grupo esteja recepctivo e se envolva.
Passa-se à acção: reúne-se informação, organiza-se e escolhe-se um suporte.
Com o audiovisual a liderar, o vídeo foi decisivo e o Zoom o tal suporte que nos colocou a todos em contacto simultâneo.



No nosso AikiDojo, chamámos-lhes “videoconferências do confinamento”.

Através delas, pudemos percorrer em conjunto um Caminho, por,

  • Sugestões de treinos, nomenclaturas e links para vídeos;
  • O Fundador, Morihei Ueshiba;
  • Aikido no Feminino;
  • Trabalho de Armas: Tamura Sensei e Sugano Sensei; 
  • Aiki Taiso: de O'Sensei a Tamura Sensei;
  • José Azevedo e Silva Sensei, homenagem;
  • O Desequilíbrio (kuzushi) no Aikido;
  • Defesa pessoal: Tsuneo Ando (Yoshinkan Aikido); yudansha do Laos (linha Tamura/Fukakusa); Shirakawa Shihan (linha Kobayashi);
  • Semelhanças técnicas entre o Aikido e Shorinji Kempo, Karate GoJo Ryu e o Judo;
  • Atemi e Kuzushi;
  • Aikido e o Movimento da Espada;
  • Aikido e os Sistemas de Espada: Chiba Sensei, Saotome Sensei; Sugano Sensei;
  • Pioneirismo do Aikido em Portugal: De G. Stobaerts Sensei a T. da Cunha Sensei
  • Yoshimitsu Yamada Sensei e Donovan Waite Sensei, prática e influências;
  • Antoine Vermeulen Sensei;
  • Ueshiba Sansei (três gerações), Morihei, Kisshomaru e Moriteru,


e, mais, muito mais, conteúdos que abriram horizontes, mostraram outras maneiras de fazer, diversidades, afinidades e homogeneidades do Aikido.


Na nossa Associação, ACPA, o Zoom foi também um elo de ligação importante.

Manifestou-se, quer em matéria administrativa - discutimos alterações ao Regulamento Técnico, ao calendário técnico, votámos o PAO -, quer em termos culturais - a língua japonesa e o Aikido, p.ex.


Mas não só.

A possibilidade de estar com outras artes marciais, concretizou-se.

Foi possível ouvir, perceber e até reconhecer problemas comuns

As plataformas digitais, que permitiram, por exemplo, estarmos presentes no Fórum Artes Marciais Simultâneas, foram decisivas.. 

 

AIKIDO INDIVIDUAL


Enquanto as condições não o permitiram, os esforços para manter viva a prática, foram realizados por vários instrutores.

Mesmo isolados e em espaços exíguos, proliferaram demonstrações.

Por exemplo, de Jumbi Dosa (exercícios de aquecimento, flexibilidade e respiratórios), Aiki Taiso (exercícios preparatórios de técnicas) ou Bukiwasa (técnicas com armas).

Esse tipo de acções também favoreceram a prática individual, Hitori Geik.

Foi possível praticar um conjunto de exercícios de mobilidade, rolamentos, movimentação de corpo e dos pés, e exercícios respiratórios.

E, até, havendo espaço suficiente, exercícios com armas.

 

PRÁTICA DE ARMAS

 

Quando a situação pandémica criou condições para as pessoas voltarem a treinar juntas, mas não próximas, a prática focou-se nas técnicas com armas.

Os parques revelaram-se excelentes locais de prática.

E esta, de tão repetida, manifestou-se positivamente no desempenho dos menos experientes.

 

Em pouco tempo, poucos meses, os principiantes estavam a agir quase como conhecedores.

As técnicas que habitualmente se praticam com graduações médias, passaram a ser feitas frequentemente por principiantes.

Estes, não demoraram muito a executar com mérito, suburis (movimentos básicos), katas (movimentos padronizados), kumijo (bastão contra bastão) ou kumitachi (espada contra espada).

 

LEGADO

 

A pandemia teve alguma mais valia no contexto do Aikido.

Creio que foi, por um lado, na prática de armas que melhor serviu em matéria de continuidade.

E, por outro, melhores resultados demonstrou, especialmente nos principiantes.

Hoje, a prática de armas está a ser preterida face às técnicas de corpo.

Diz-se que, por falta de tempo para ensinar/aprender estas últimas.

Todavia, ainda se recorda com gosto esse período em que as técnicas de armas foram um elemento valioso, quer nessa altura, quer para o futuro da prática.

 

Ouvir alunos dizerem que, “algo ficou daqueles dias, que não mais se esqueceu”, é reconfortante e sinónimo de que realmente os praticantes sentiram que, aquele tipo de treino, foi uma mais valia na evolução do seu Aikido.






sexta-feira, 3 de novembro de 2023

A mão da espada ou do báculo?


Toda a gente conhece estátuas monumentais romanas. Habitualmente, as mais notórias, são dedicadas aos deuses, aos imperadores, aos militares, às personagens mais importantes. Quando aparece algo insólito, a curiosidade aguça-se, a dúvida instala-se, a descoberta precipita-se.

 

Desta vez, era um fragmento de um estátua de bronze com cerca de 2,2 metros de altura, que representaria um personagem importante, tendo-se avançado tratar-se de um imperador ou de uma figura militar de topo. Esse fragmento, em bronze, é uma mão, uma mão esquerda.

 

Mas não apenas a mão. Essa mão segura uma espada, com a respectiva guarda e o punho com os pomos decorados com uma águia de duas cabeças (bicéfala), datada do séc. I. Ora começa aqui a estupefacção: a águia bicéfala não é um símbolo do Império Romano do Ocidente.

 

Apesar da icónica águia ser um importante símbolo do exército romano dessa época, a “figura da  águia de duas cabeças era desconhecida na iconografia latina” sendo, por tal, um objecto ímpar, uma “peça que apresenta elementos que não foram documentados até o momento”.

 

Esta originalidade trouxe a Lisboa uma conferência, que decorreu no Museu de Arqueologia, em Lisboa, protagonizada por Manuel Doménech, director do Museu Arqueológico de Alicante, que abordou o achado no fórum da antiga cidade romana de Lucentum, em Tossal de Manises, Alicante.



Se a peça já colhia a singularidade de apresentar a águia bicéfala, outra faceta adensa o mistério que a envolve: o anel que envolve um dos dedos tem um lítuo gravado, um símbolo ligado à religião, um bastão recurvado na extremidade  utilizado pelos sacerdotes áugures, contrariando uma das teorias diziam pertencer a uma estátua de um imperador ou a militar proeminente.

Outro elemento que satura o enigma, prende-se com a particularidade de não existirem / nunca terem sido encontrados juntos, em estátuas de bronze, os dois elementos, uma mão e uma espada. Talvez daí, outra hipótese de a considerar, poder ser uma mão com um báculo, eventualmente pertencente a um clérigo. Será?