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quinta-feira, 29 de abril de 2010

Passeio Pelos Impérios VIII - BURRIFOS, MACACOS E OMELETAS

A partir daqui, a Julieta passou de novo para a Pan. Sentia-se melhor. Para mim, seria uma ajuda bem-vinda, sobretudo na logística e na “leitura” da estrada. Para ela, um teste de robustez à espécie de convalescença que não terminara. Protegeu-se demais, pareceu-me.
Talvez neste dia tenhamos saído às nove e doze. A verdade é que, a partir de determinada altura, foi o horário de partida adoptado. Rodámos com piso aceitável mas, mais à frente, o perfil da estrada e o cenário envolvente mudaram. O Médio Atlas começou a espreitar sob um manto de nuvens que, ainda assim, não assustava e a estrada começou a torcer-se em colinas ainda assim bastante suaves. Não estava frio, ao contrário do que era de esperar.
O objectivo era visitar as célebres cascatas de Ouzoud. Quem chega ao local dá com uma aldeia de casas desordenadas, algumas em construção. Uma curva apertada, um largo que serve de paragem de autocarros e um baldio que serve de parque de estacionamento, marcam-lhe o centro. Contudo, sente-se alguma humidade no ar que, por vezes, era mesmo uma mão-cheia de gotas de água.
As cascatas estão quase a 1500 metros de altitude, incrustadas numa zona de sucessivos cumes e vales repletos de vegetação baixa, cujo verde garantia que a água das últimas chuvadas ainda não havia desaparecido. Três braços de rio serpenteiam até se precipitarem de uma altura de pouco mais de 100 metros. Ao cair, toda a aquela água parece vaporizar-se de volta ao local de onde se despenha.
Nunca pensámos poder almoçar com as quedas de água praticamente debaixo dos pés. Foi sobre um caramanchão de vides, com uma vista magnífica e exclusiva sobre a cascata – o local identifica-se próximo da base das duas árvores da fotografia - que almoçamos, primeiro em tímida quantidade, depois reforçada, excelentes pratos de omeletas berberes. Para nós, novidade gastronómica, deliciosa e económica: ovos, tomate e algumas ervas a condimentar. Um pitéu.
Em breve, descíamos uma (longa) rampa que daria acesso à base da cascata, assim como a uma série de promontórios de onde era possível apreciar melhor a grandeza das quedas de água. Demorámos para algumas fotografias, tal como alguns macacos também pousavam, habituados à proximidade humana e a algumas ofertas (doces) que lhe davam cabo do pêlo.
Evitámos descer mais. Ida e volta até ao fundo podia levar cerca de 2 horas, uma vez que a descida é muito suave e não se dá pelo cansaço. Em baixo, estou convencido de que precisaríamos de gabardinas, tal é a dispersão de água que bate forte numa espécie de lagoa. Partimos, depois de cumprimentarmos um italiano, acompanhado de uma americana, numa BMW com matrícula de Munique… mundices!
De Ouzoud a Efourer, a estrada sulca a montanha em baias estreitas e com piso sofrível. Mas a paisagem é estupenda. Tornaram o verde e os declives abruptos, as pontes e as curvas acanhadas, quando algumas notas alaranjadas já pairavam no céu a prometer um ambiente ainda mais estival. Estava um fim de dia admirável.
De Marraquexe a Fez, são quase 500 quilómetros, demasiados para fazer num só dia e perder a oportunidade de andar pela montanha e visitar as cascatas de Ouzoud. Para tal, era necessário encontrar apoio hoteleiro a meio do percurso entre as duas cidades, pelo que não podíamos ficar longe de Beni Mellal.

Música: Premiata Forneria Marconi, É Festa


segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Elogio da Montanha

Vales Pirenaicos 2006/07
































A montanha parece inóspita, instável, inacessível. É glosada por seres míticos, como na Montanha de Água Lilás, de Pepetela, ou por titãs na Viagem ao Tibete de Alexandra David-Néel, ou pelos sonhos e desafios de A Mais Alta Solidão, de João Garcia. Fantástica e sedutora.































Lá, o espaço e o tempo assumem outra realidade, uma existência firmada na diversidade e na diferença. Variedade, da panóplia de elementos que se distinguem no mesmo ambiente. Alteridade, porque a montanha não é igual ao mar, ao deserto, às cidades. Homens e natureza organizam-se de maneira diferente. Outra natureza, outra cultura.

























É distinta a organização familiar, a economia de subsistência, a arquitectura rude e sólida, o clima ríspido. Os rituais reforçam-se, a língua cala-se, o vestuário adensa-se, a pele tinge-se, os horários estreitam-se.

A natureza, essa, evidencia-se pela acutilância dos desníveis, pela violência das quedas de água, pelo isolamento dos píncaros, pelas intensidades das cores, pela tranquilidade dos lagos, pela solenidade das grutas, pela majestade das florestas, pela robustez da pedra. Um universo de contrastes.

É onde os rios tombam, os animais galgam, a terra se descobre e enclaustra, as rochas se agigantam, a vista se estende, a respiração se ofega, o vento amedronta, a agilidade se tolhe, o declive aturde, a altitude ofega. Uma soma de reptos.


VÃOS PIRENAICOS: Aragón, Tena, Ordesa de Aran














São vales de origem glaciar, onde a paisagem associa pardos largos a passagens estreitas, lagos a arestas aguçadas, bosques frondosos a maciços calcários. Rios, árvores, cascatas, bosques, pontes, rochas, sons, odores, cores e ar de outra natureza.

Como base de exploração para os três primeiros vales, o parque de campismo de Gavin - http://www.campinggavin.com/ - a cerca de 2 kms da localidade, é um local quase equidistante, com a vantagem de se situar próximo de Biescas.

A introdução à caminhada pirenaica pode ser feita através do vale de Aragón, ao longo do qual se alcança rapidamente a estação de Inverno de Candanchu - http://www.candanchu.com/es/index.asp - logo após Canfranc - http://www.canfranc.es/estacion-internacional.htm - onde a gigantesca estação ferroviária que levava à área termal está hoje perfeitamente recuperada.

Do lado francês há bosques menos abruptos do que do lado aragonês e catalão. Pontes, trilhos, ribeiros, vegetação luxuriante de alta e constante. Regressa-se pelo por túnel, que leva por um vale ladeado quer por escarpas com cumes esguios, quer por topos lisos à imagem das “mesas” americanas.



É no vale de Tena que se encontram situadas as localidades de Gavin e Biescas. Trepando a caminho do lado francês, pode optar-se por rodear pelo mais íngreme (direito) uma albufeira cercada por serranias
eminentes. Um miradouro provocador coloca-nos ao nível de alguns cumes, mas ainda longe dos picos que crescem até à estância de esqui de Formigal.

A meia montanha, um parque zoológico em plena floresta, o Lacuniacha http://www.lacuniacha.com/. Gamos, veados, cabras montesas, linces, lobos, bisontes, cavalos, vivem em extensos redutos a galgar a montanha, num ambiente fresco entre vegetação densa e alta. O percurso tem cerca de 4 quilómetros através de uma vertente escarpada mas acessível a crianças. A espaços, é a encosta oposta do vale que se mostra ainda mais elevada.


É onde se situa o Balneário de Panticosa, um misto de termas do Vidago e de Inatel de S. Pedro do Sul, envolvido por um jardim frondoso, à frente do qual se estende um lago de água verde-esmeralda, circundado por um trilho junto à água.

Uma ideia mais abrangente e documentada sobre os Pirenéus, aconselha umavisita ao parque temático Pirenarium, http://www.pirenarium.com/es/default.php, um amplo complexo lúdico-pegagógico sobre a cordilheira. Uma ampla zona de restauração, auditórios, uma exposição de diversos monumentos aragoneses de referência, em miniatura, além de filmes, teatralizações e um modelo enorme com o relevo pirenaico.




Parque Natural de Ordesa





























Torla é a localidade mais próxima do Parque Nacional de Ordesa - http://www.ordesa.net/. Daí, a estrada que leva ao início do percurso pedestre é muito estreita. Há vários trilhos que, durante cerca de 9 quilómetros vão de um para o outro lado do rio, ora mais acima, ora mais abaixo, com possibilidades de o atravessar através de pontes espaçadas por dois quilómetros. 


A vegetação cerrada oferece alguma frescura ao percurso. Quedas de água, miradouros, rochas em promontório, árvores, muitas árvores. A montanha muda de tez encarniçada para esbranquiçada, ora para castanha ou esverdeada, consoante se revela despida ou coberta por vegetação.


A primeira queda de água do percurso, 4 quilómetros após a partida, precipita-se de mais 50 metros, sobre um pequeno lago. Muitos aproveitam o lugar para merendar e especialmente para fotografar. Ouve-se falar línguas peninsulares, mas também francês, italiano, inglês e até brasileiro. Alguns levavam crianças de colo; outros, traziam ao colo um cansaço terrível, outros, simplesmente, descansavam em cada apeadeiro.



De Biescas a Torla, a estrada nacional é estreita e tem muitas curvas, sobretudo a partir de uma albufeira que domina o vale antes do relevo se encrespar a caminho de Ordesa. A estrada passa a rodear os montes, segue cada vez mais alta, passa um túnel estreito e atravessa pequenas aldeias. 
 
Parque Natural de Aiguestortes

Enquanto o vale de Aran circunda o Parque Natural de Aiguestortes - http://www.almadeviajante.com/trekking/aiguestortes-espanha.php - a nascente, o vale de Boi fá-lo a poente. O primeiro torna-se especialmente íngreme na zona de Viella, convertendo-se abrupto por volta da zona da estação de esqui de Baquera-Beret.


Lá em cima, a estrada é bera, para fazer lentamente e, por quem não tenha vertigens. Catita para percorrer de moto. Roda-se pelo cimo, em espaços onde vagueiam cavalos selvagens que de bravio nada têm, uma vez que deixam fazer festas na crina. São exemplares castanhos, quase dourados, que fazem um contrate perfeito com o verde dos prados e o esbranquiçado dos cumes áridos envolventes.

Os arredores de Espot são ideais para escolher o melhor lugar para acampar, sendo um deles o Parque de Campismo de La Mola - http://www.campinglamola.com/ang/index.htm - com sombra, piscina, relva, sossego e um rio ali perto.





















Desde perto de Espot, são 4,5 kms até ao Refúgio de St. Maurici, através de um pequeno bosque atravessado por um longo estrado de madeira. Depois é um vale largo e extenso, de paisagem aberta, que levava a uma subida estreita e cada vez mais íngreme, entre árvores e calhaus.

















Pequenos regatos atravessam um trilho irregular de raízes e pedregulhos, entre vegetação mais densa, dominada por coníferas de grande porte. A correr em fundo, um ribeiro cujo ruído das águas se vai afastando à medida que o trilho se avulta.

Em cima, o vento anuncia a chegada ao lago, de um azul brilhante e cristalino, a contrastar com as margens verdes de arvoredo e os montes circundantes castanhos e esbranquiçados. Em redor, os cumes parecem elevam-se em diferentes altitudes, só desaparecendo a leste, muito longe. Para norte, a indicação de uma queda de água, leva mais acima.


Desde Sort, o Vale de Aran comunica com o vale de Urgel através de uma boa ligação viária, de piso excelente para percorrer de moto. Liga-se a Andorra por intermédio de uma estrada mais estreita que leva às estâncias de esqui da parte ocidental.


A montanha é uma multidão. De espaços abruptos, largos, majestosos, esguios. De cores rudes e animadas. De pedra, água, madeira, céu. De árvores jurássicas e ervas rasteiras. De florestas, rios, vales, prados, lagos, cumes, desfiladeiros. De queijos, mel, enchidos, caça. De cheiros a urze, a pinho, a flores, a carumas, a musgos. De picos, gargantas, planaltos. De xistos, granitos, basaltos. Uma opulência.

























No Col du Somport, a 1640 metros de altitude, ultrapassa-se o antigo posto fronteiriço, rodeado por picos que se eriçam para além dos dois mil metros de altitude.


Músicos: Tangerine Dream
Faixa: White Eagle
(ver neste formato)