domingo, 30 de julho de 2023

Turquia 2021. 2ª Parte. De Igoumenitsa a Istambul





Assim que saímos do barco, já em solo grego, enfiámo-nos num túnel. O que não parece ser fácil, já que até os GPSs ficam gregos para o encontrarem. Às sete da manhã estávamos a trepar serras em auto-estrada, sob temperaturas que pareciam abaixo de zero. Às tantas, foi preciso parar na berma e, logo após, parou um TIR ao nosso lado: pareceu-me que nos protegia do risco de estarmos parados numa descida valente... 


O pequeno-almoço aconteceu já ao amanhecer. Daí a pouco, já subíamos rumo ao primeiro local de visita na Grécia: METSOVO. Como tantas outras povoações gregas, esteve sob domínio otomano até pouco antes da Primeira Grande Guerra. Uma pequena igreja ortodoxa estava em plena celebração. Não foi fácil descobrir o celebrante, entre tanto incenso que o envolvia.


Metsovo é uma cidade de montanha ligada à agricultura e ao turismo, famosa pelos queijos e vinhos, possui uma estância de esqui e é um popular destino de férias de inverno. O artesanato é atraente e o ambiente respira tranquilidade. Pena o tradicional centro ter piso de paralelepípedos, tão ondulado como as águas do Mar Tireno.

ENTRE MOSTEIROS


Olhos na montanha e rodas no asfalto para METEORA. A estrada enrola-se, entre montes florestados ou nus, e desfiladeiros suaves ou bastante fundos. Chegamos a KALAMPAKA à hora de almoçar numa esplanada e de fazermos a primeira abordagem aos mosteiros. Alguns já se vêem cá de baixo no topo de montes, tão curiosos como fantasmagóricos.


Traídos pelo horário, voltamos a trepar para assistir ao por do sol no cimo dos rochedos. É um espectáculo inesquecível. Não só pelo ocaso da bola amarela, mas pelo envolvimento e contraste de um extenso vale e daqueles montes esguios tanto arborizados, ora nus de todo. A paisagem é notável! Talvez por isso, haja noivos que posam naqueles píncaros, para fotos icónicas, aquela hora.


Antes, porém, há que entrar na ortodoxia de um mosteiro. Não há muito turismo nesta altura. Melhor ainda! Apesar de o primeiro contacto com o ambiente ortodoxo tenha sido em Metsovo, foi no MOSTEIRO DE VARLAAM, situado a pouco mais de 500m de altitude, no cimo de um rochedo tremendo de grandiosidade, que o espaço museológico ortodoxo melhor esteve representado.


De finais de século XIV, foi abandonado durante 200 anos e durante outros tantos teve sempre ocupação monástica. Hoje, apenas dispõe de cinco monges. Uma ponte de acesso novecentista, um jardim admírável com vista, a igreja, o museu e a plataforma de abastecimento em madeira são surpreendentes. Lá, melhor do que nas fotografias. Daí a pouco, chegava o casal da BMW já com o novo veio. Agora, voltávamos a estar todos.


E, em redor, curva após curva, o cenário dá-nos um rochedo com forma invulgar, um mosteiro pendurado no topo, um desfiladeiro impressionante, um panorama invulgar. Andar por aqui de moto, além de possibilitar estacionar em qualquer espaço por mais estreito que seja, é um prazer. O piso é excelente e a paisagem inesquecível. Parecido... talvez o Monte Athos.

DA BAÍA AO CASTELO EM KAVALA


Vamos por LARISSA para não repetirmos a auto-estrada no regresso. A envolvência da estrada não é famosa, sendo relativamente árida. Masi longe, a vegetação surge a ondular nos montes. Mais à frente, passamos pelo Monte Osa e, depois, pelo Olimpo que deixamos ao longe. Ainda dizem que os deuses são inacessíveis...! 



Almoçamos numa área de serviço e partimos junto ao mar sempre em auto-estrada. Saímos depois e paramos numa geladaria: a Portugal ofereceram uns bolinhos, para a Grécia saiu uma bandeira de Portugal! Algures, antes ou depois, saudámos o reencontro de todos, quando de um desvio tardiamente notado nos separou.


Entramos na descida para KAVALA ainda a meio da tarde. Do último andar do hotel via-se de esguelha um aqueduto romano, um castelo medieval e as suas muralhas. Em frente, estendia-se a baía onde o porto de recreio e de pesca partilhavam cais.


Uma marginal simpática, tranquila, uma subida até ao castelo, uma chuvita de ocasião, um panorama giro. Jantar numa esplanada, um dos raros pratos de peixe da jornada. À noite, para desmoer, dedicámos meia hora aos 'plf' para entregar na fronteira turca. Uma alegria.

(QUASE) TUDO A NU NA FRONTEIRA


Próxima etapa: Turquia! Mantemo-nos na auto-estrada por quase mais 200 kms. Passamos lentamente a fronteira grega e as guaritas com soldados gregos (bem) armados. Atravessamos uma ponte - onde parece estar uma fronteira virtual -, passamos por mais guaritas com soldados turcos (bem) armados. Depois, passamos um portal e ficamos numa fila que parecia não ir demorar muito.


Na fronteira, ficamos mais atrás e depois juntamo-nos ao grupo. Estamos na Turquia, quase na Ásia! Documentos aqui, retrato ali para os registos fronteirços turcos, puxa à frente, espera um pouco, agora o outro, passa um a um,... os nosso papéís são postos de lado... ups, estamos a ficar para o fim! Há qualquer coisa a acontecer!



Todos seguem, menos nós.
Chega à frente e tira a bagagem. Feito!
Alguma coisa a declarar? Nada! Feito!
Depois, leva a moto ao scanner. Feito!
Volta do scanner e estaciona. Feito!
Torna-se irritante.
O sol carrega aquecendo mais o ambiente.
Acompanhando a calma do protocolo, assim corre mais de meia hora.
Há que responder agora a um inquérito: nome do pai e da mãe, emprego, dinheiro, destino, e mais meia dúzia de questões.
Acabou com um olhar - para a Julieta que já estava sentada a controlar a bagagem, ao sol -, uma pergunta, uma resposta e uma exclamação.
Perguntei ao guarda fronteiriço: what is this for?
Taxes... - respondeu com cara de desconfiado!
Of course! - devolvi.

PRIMEIROS CONTACTOS


Meia hora depois, entravamos em IPSALA, onde trocamos dinheiro, compramos o cartão de circulação na auto-estrada e tomámos a primeira refeição turca, abundante e talvez a mais barata do trajecto. Foi também o primeiro contacto com uns cãezitos escanzelados. Por aqui, o amigo do homem, não se safa. Pouco depois, sim, confirmamos que estávamos a encher o depósito com a gasolina mais barata da jornada: oitenta cêntimos! Comer e andar (quase) a preço de chuva. Ainda faltavam cerca de 250 kms para Istambul.


O fim do dia projectou uma aura alaranjada nos muitos arranha-céus que se erguiam à nossa frente, à entrada da antiga CONSTANTINOPLA. Vários estão acima dos 40 andares. Um deles chama-se Sapphire e tem 54; o Varyap Meridian possui 59. O trânsito engrossa à medida que avançamos para o centro histórico da cidade. Há filas imensas em, por vezes, 4 faixas de rodagem. Nem a polícia consegue passar na faixa de emergência!


Vira aqui, desvia acolá, atenção a esse, cuidado com o outro! Talvez seja  melhor andar pela berma... olha, a polícia  também não passa! Por aqui, não nos safamos! É melhor mudar de estratégia e ir junto ao mar, há menos trânsito! Resulta!
Anoiteceu e ainda temos de trepar uma espécie de Bairro Alto, com piso em paralelepípedos, com ângulos rectos para fazer de uma vez, senão... moto no chão!


Estamos no Hotel Arena. Safamo-nos na recepção mas percebemos que o inglês não a melhor língua para nos entendermos. Mais tarde, confirmaríamos que além do inglês, o gelo também era sofrível, havia dispositivos em sítios de partir cabeças, paisagens virtuais em frente da janela de alguns quartos. Até havia um quarto na cave, mas com vista para o estacionamento das motos.


MIL E UMA NOITES NO TOPKAPI


Apesar de estarmos num bairro típico, tínhamos rápido acesso à zona histórica da cidade. Em cerca de 10 minutos, estávamos na Hagia Sofia e na Mesquita Azul, não sem antes termos atravessado o antigo hipódromo da velha Constantinopla. Mas foi no Palácio TOPKAPI, que apostamos para primeira visita.


Trata-se do maior palácio da cidade. De meados do século XV, foi mandado construir logo após a conquista de Constantinopla. Milhares de dourados, azulejos de com inúmeros desenhos, alguns frescos esplêndidos. E foi neste palácio que tivemos um acompanhante especial, um agente à paisana que ainda fingiu durante meia visita ser mais um visitante. Até tinha máquina fotográfica...


O palácio foi residência dos sultões durante 400 anos. O espaço compreende cerca de 700 mil metros quadrados, entre pátios, salas de recepção, aposentos, salas de armas, cozinha, estábulos, área de tesouro, harém. Tem expostos objectos de ouro, prata e, sobretudo, cerâmica. E, dos jardins, apesar de não serem surpreendentes, avista-se meia cidade. Sítio tão estratégico como belo!


As paredes dos diversos edifícios são decoradas sobretudo com azulejos cujos padrões parecem não se repetir. Outros têm frescos, alguns a precisar de recuperação. O harém, onde residia o sultão, tem aposentos para cerca de meio milhar de mulheres.


O harém integra também o aposento da mãe do sultão, responsável principal por aquela área. A dimensão é de tal ordem que parece um bairro dentro do palácio. Possuiu ruas estreitas, algumas sombrias. Percebe-se que o espaço tenta preservar intimidades.

SAGRADA SABEDORIA



A HAGIA SOPHIA fica ali, a dois passos. Data de há 15 séculos, mas está tão bem conservada, que não lhe damos a idade que tem. Exterior, e sobretudo o interior, estão imaculados. Secularizada desde há quase um século por Kemal Ataturk, embora ainda tenha culto - talvez tenha sido agora regularizada -, ao qual tivemos oportunidade de assistirmos, é um ícone turco e mundial, quer pela sua história, quer pela arquitectura. Singular!


É realmente de ficar boquiaberto ao olhar para a enorme cúpula bizantina, acima dos 50 metros de altura, bem como a profusão de mosaicos vitrificados e pilares de mármore. A seguir, os olhos fixam-se nos quatro grandes medalhões nas paredes da nave principal com os nomes de Maomé, de dois dos seus netos e, ainda, dos primeiros califas islâmicos.


Outro aspecto expressivo é o motivado pelos candeeiros que iluminam a nave central, parecendo estar a pairar a poucos metros acima do chão. O efeito é harmonioso e funcional já que ilumina bem o espaço ocupado pelas pessoas e destaca a decoração das paredes e do tecto. É dos sítios onde passamos o tempo todo de nariz no ar!

ESPECIARIAS




Um dos mercados melhores e mais antigos de Istambul, sobretudo para comprar especiarias mais baratas, é o BAZAR EGPÍCIO. Basta passar um detector de metais para o percorrer agradavelmente, ora mirando as diversas bancas de especiarias, quer apreciando a pintura dos tectos, quer olhando com algum fascínio os objectos de ouro nas montras das dezenas de ourivesarias.


Ali perto, a PONTE GALATA leva ao bairro do mesmo nome. Mas é a azáfama das pessoas, as bancas comerciais e a dinâmica das partidas e chegadas – algumas apenas para atravessar o rio - no cais fluvial e em seu redor, que empresta um colorido especial aquela zona. Mais à frente, sobre as protecções da ponte, descansam dezenas de canas de pesca. 

SEIS MINARETES


Com efeito, a MESQUITA AZUL é a única que tem este número de minaretes. Data do início do século XVII – construída mais de dez séculos depois da de Santa Sofia – e é a maior mesquita de Istambul. É a decoração interior feita de uma profusão de azulejos azuis que lhe dá o nome. Infelizmente, estava em obras, pouco iluminada e com um estaleiro que não permitia vê-la em todo o seu esplendor.



Próximo, o BAZAR ARASTA – que ainda fez parte do complexo da Mesquita Azul, a par de uma madraça e de um hamame – apesar de se distribuir praticamente numa pequena rua, possuiu lojas de artesanato e de produtos de moda diferentes do habitual, além de possuir uma esplanada extensa com café e restaurante. 

SULTANAHMET


Estamos numa vasta área histórica e turística. A dois passos estão, a praça com o mesmo nome - que foi o hipódromo romano de Bizâncio -, a Mesquita Azul, a Santa Sofia, a antiga prisão (hoje, hotel de luxo!). É a zona habitacional mais "gira" do centro histórico. 


Na mesma área coexistem pequenos hotéís e hostels de charme, cafés com decoração criativa, edifícios com arquitectura e pinturas insólitas, lojas com artigos imaginativos. Até há por ali prédios em madeira. Talvez um sítio ideal para ficar numa próxima visita!


Foi nesta área que jantamos numa das noites. Na entrada de um restaurante, Paladium, um pequeno trecho de ruínas protegidas por um vidro grosso já deixava entender que por ali havia História. É no subsolo que surge.


Com efeito, sob a excelente esplanada ficam as ruínas do GRANDE PALÁCIO DE CONSTANTINOPLA, datado do século IV e habitado até ao século XI. São quase oito séculos de História agora "enterrados" sob o cosmopolitismo de Sultanhammet.

UM PASSEIO NO BÓSFORO


Saindo do terminal de ferries junto da ponte Gálata é possível dar um passeio de hora e meia pelo Estreito do Bósforo. E, se a ideia fosse de que a parte europeia seria a mais sofisticada, é a parte asiática que mostra uma vegetação frondosa e atractiva, bem como uma zona habitacional maioritariamente de moradias de dimensão significativa, bem enquadradas naquele espaço. Uma zona de luxo.


Do lado europeu acompanhamos as muralhas da cidade, passamos pelo Palácio Dolmabahçe e pelo Hatice Sultan Palace e, depois, sob a PONTE DO BÓSFORO, muito parecida com a Ponte 25 de Abril em Lisboa. Do lado asiático, fica mais visível a malha urbana desafogada, bem como a enorme MESQUITA DE CAMLICA, aparentemente a maior de Istambul.




Em pleno Bósforo, canal que liga o Mar de Mármara e o Mar Negro, passa-se pela Tore de Leandro, uma construção milenar que já foi portagem de controlo da circulação marítima e farol. Passa-se ainda por diversos edifícios históricos, hoje museus, como sejam o Palácio de Beylerbeyi ou a Sadullah Pasha Mansion.

TREPAR GÁLATA



Atravessámos a ponte e entrámos no bairro Gálata, uma antiga colónia da genovesa desde finais do século XIII até meados do século XV. Com efeito, a famosa TORRE DE GÁLATA foi construída na parte mais elevada da cidadela. É daqui oriundo o mais recente Galatasaray Spor Kulübü. É sempre a trepar até à torre, o que pode sugerir beber um reconfortante sumo de romã a meio percurso.


Originariamente bizantina e com o objectivo de controlar a circulação no Bósforo, a actual torre já não tem as características daquela época, uma vez que foi destruída numa das Cruzadas no início do século XIII. A actual data de meados do século XIV. Do cimo, é possível ter um panorama de 360º sobre Istambul, sobretudo para quem consiga andar na estreita varanda que deve estar a cerca de 60 metros do chão... vertiginoso!


Dotada de nove andares, tem dois elevadores e alguns dos andares encerram um museu. Algumas das fotos de época são surpreendentes. É possível subir e descer alguns lances de escadas, estreitos e em espiral, desde que se consiga enrugar a coluna de modo a não raspar a cabeça no tecto de tijolos medieval.

COSMOPOLITISMO E FÉ


Descemos a colina e entrámos na rua Istiklal, cerca de três quilómetros destinados a pedestres ávidos de compras. De vez em quando, também surge um... eléctrico – não é só em Lisboa que passam – mas o que vamos vendo são edifícios de diferentes estilos arquitectónicos – muitos lembram Paris ou Londres – e muitas lojas de marcas sobejamente conhecidas. Muito europeu!


Mas não só. O piso confortável e o perfil plano da rua, vai favorecendo o descanso do olhar sobre a rua. O Çiçek Pasajı e a Avrupa Pasaji são uma espécie de centros comerciais, ou galerias, datando o primeiro de finais do século XIX.  Há por ali, muita diversidade, sobretudo em matéria de cultos religiosos, uma vez que existem sinagogas, mesquitas e, até, pelo menos, uma igreja católica. 


Foi nessa que entrámos, aliás na BAZILIKASI SENT ANTUAN, construída em estilo neo-gótico, com fachada baseada no estilo toscano do século XVI. Inaugurada em 1912, tem a forma de uma cruz latina. Dedicada a Santo António, foi porém São Francisco de Assis que fundou a respectiva irmandade.







terça-feira, 25 de julho de 2023

O meu Amigo Ivo

 


Andámos por cá, como amigos

Partilhamos muito.

Muito fizemos, muito ficou, tanto ficará.

Agora, porém, parece que o presente não aconteceu.

O passado, esse, não pára de chegar ao presente.

Passámos juntos muitas festas de Fim de Ano.

A moto que trouxera de Luanda foi montada na garagem dos meus pais.

Passamos muito tempo a passear com amigos.

Na primeira saída para Andorra de moto, terminámos no Algarve.

Dessa vez, percorremos toda a costa Mediterrânica espanhola.

Fomos a Jarama ver as corridas.

Trocamos muito do que nos era importante.

Celebramos aniversários um do outro.

Chegámos a passear com o Clube Pan European de Portugal

Andámos muito, muitos dias, junto com amigos

Fizemos muita praia., cá e lá fora.

Solidarizamo-nos frequentemente.

Desfrutamos.

Separamo-nos, agora.


Mas nunca definitivamente!