terça-feira, 23 de agosto de 2016

Guarda, o Museu e a Catedral




O museu e a catedral são duas referências da Guarda onde a cultura se manifesta com conteúdos diferentes mas de forma complementar. O que pode ser visto também, como se o museu encerrasse uma escolha e a catedral fosse uma peça, como se o museu fosse uma colecção de peças e a catedral um monumento como um todo.
Na escolha das peças do museu assistiu uma intenção de mostra de património. Na catedral imiscuiu-se um intento de carácter religioso. Porém, ambas encerram um espólio cultural importante, uma estética própria interessante e uma função social determinada. Fomos por lá, como é habitual, com a intenção de olhar e nos fascinarmos com alguns elementos culturais. 

 O MUSEU, DA ARQUEOLOGIA ÀS ARTES

Na entrada, em túnel sob o primeiro piso, parece estarmos a transpor um portal temporal. Acabámos de entrar numa casa senhorial do fim da Idade Média. Nem sequer falta o brasão numa das esquinas do edifício, como anfitrião suspeitoso que nos observa de esguelha. Não estamos longe dessa aristocracia. Nuno de Noronha, bispo da Guarda, foi quem mandou este edifício do início do século XVII, paredes-meias com o Paço Episcopal. O museu aproveita as instalações do antigo Seminário.
Erigido em granito, o edifício tem um aspecto sólido, formal e austero, isento de elementos decorativos, que não sejam as “armas” do bispo e as poucas inscrições no portal e no cunhal de entrada. É “forte e feio”, embora não seja frio.
Foral outorgado pelo rei Manuel I à Guarda.
O espólio do museu, que conta com quase cinco mil peças, contempla colecções de etnografia portuguesa, numismática, escultura, pintura e desenho portugueses, arqueologia e armaria. Grande parte do acervo está exposto nos dois andares do edifício.
No piso térreo, a exposição encontra-se organizada por ordem cronológica, exibindo peças que vão da Pré-História à Idade Moderna, contando ainda com um importante acervo que contempla a Idade Média.
No piso superior, para além de alguns desenhos de António Carneiro ou Columbano, é sobretudo a pintura que está em destaque ao longo das paredes, embora também esteja exposta escultura e algum mobiliário datado dos dois últimos séculos.
O edifício dispõe de um pátio central, de uma biblioteca, de uma loja, de um centro de documentação, e de um auditório. Promove actividades e exposições temporárias e dispõe ainda de um serviço educativo.

ESPADAS, MARCOS E TORSOS


Na área de arqueologia salientam-se duas espadas da Idade do Bronze, uma fíbula anular dos séculos VI/VII a.C., uma colecção de moedas romanas e um altar votivo do século I d.C.
A destacar está também um marco miliário, dedicado ao imperador Constantino, “(…) Flávio Valério (…) Nobilíssimo (César e Príncipe), Fortíssimo, (filho) do divino Constâncio (…)”, que pertencia à via romana que levava de Bracara Augusta a Mérida.
Sobressai ainda o torso de uma estátua com couraça do século II, em mármore, também romana, encontrada na Póvoa do Mileu, não muito longe da Guarda – onde existe uma estação arqueológica - bem como uma lápide sepulcral consagrada aos deuses Manes, da mesma época e encontrada na mesma área.

ESTELAS, TÚMULOS E UM FORAL

Quando chega a época medieval, a pedra continua a impor-se, mas o pergaminho e a madeira pintada já se destacam. No início, o realce vai para um conjunto de estelas discoides, com decoração geométrica e uma cruz grega, de origem desconhecida.
Depois, surge um túmulo medieval, sem data, cuja tampa está decorada com uma espada e, numa vitrina, está exposto o selo de chumbo de Gregório, que foi Papa no século XVI durante treze anos.
Em destaque está ainda o Foral Manuelino do Jarmelo, um pergaminho com uma iluminura excelente, datado da primeira década do século XVI, além de algumas figuras religiosas do século XVI (?) em madeira.
A colecção de armas, cedida por um particular, e que ocupa uma das salas do museu, contempla peças dos séculos XVII a XX, destacando-se uma espada de meados século XVII e outra de um oficial general do início do século XIX.

PINTURA E ESCULTURA

Na área da pintura sacra estão representadas várias obras de oficinas portuguesas, há desenhos interessantes de Carlos Reis, António Carneiro, Eduardo Malta ou José Tagarro, bem como óleos de Columbano, entre outros.
Estão expostas algumas esculturas, que incluem espaldares de cadeirais e colunas de altar, embora se destaque uma obra do século XIII, em granito policromado, que representa uma Nossa Senhora da Consolação, uma das peças mais expressivas do museu.

SÉ DA GUARDA, FORTALEZA RELIGIOSA

A pé, são cerca de duzentos metros, saindo do museu da Guarda, entrando na zona antiga, a deambular por entre granitos ancestrais, desemboca-se na Praça Luís de Camões, uma das bonitas de Portugal.
Também conhecida por Praça Velha, é o rossio nobre da zona histórica da cidade. Não é difícil ao olhar distinguir um conjunto de casas medievais do século XIV assentes sobre colunas filipinas, que dominam o norte da praça.
Em local central, surge a estátua de bronze de Sancho I, que concedeu foral à cidade da Guarda no último ano do século XII. Envolvem a praça vários solares, destacando-se o dos Póvoas (hoje, junta de freguesia da Guarda) e os antigos Paços do Concelho (hoje, Comissão Vitivinícola da Beira).

DO ROMÂNICO AO BARROCO

Entrámos pela porta lateral virada à praça Camões. Do primeiro impacto surge imediatamente a vetustez do monumento. Percebe-se a origem românica, mas reconhece-se logo após o gótico, o manuelino, o maneirismo e o barroco. 

O românico nota-se de imediato na nave principal a única iluminada de maneira directa. Olhando em volta, a simplicidade, a ausência decorativa e a vacuidade da luz, reforça esse românico originário. 
O gótico expressa-se nas formas esguias e ogivais, que remetem o olhar para o cimo, para o céu, construindo abóbadas cada vez mais elevadas e maiores. Para compensar as superfícies altas e compridas, multiplicam-se janelas, criam-se rosáceas e vitrais. Deixam-se dos arcos redondos românicos e surgem os arcos quebrados, bem como os contrafortes e os arcobotantes.
A fachada principal mais tarde alterada mostra um portal manuelino ladeado por duas robustas torres sineiras octogonais que representam bem o conceito de igreja-fortaleza que o românico desvendou.
A igreja remonta ao século XIV e possui a habitual planta cruciforme latina e uma cobertura de abóbadas em ogiva. O barroco está muito no interior, por exemplo no cadeiral da capela-mor. 
O maneirismo está patente no imponente retábulo da capela-mor, datado de 1533, que representa a hierarquia celestial e é da autoria de João de Ruão/Rouen), um dos introdutores do renascentismo em Portugal.
Na Sé da Guarda há, como habitualmente nas igrejas antigas, uma profusão tumular significativa. Este costume ecuménico só terminaria com a secularização dos cemitérios após a revolução de Outubro de 1919.

CONTRAFORTES, ARCOBOTANTES E PAISAGEM

Se já as fachadas laterais apresentam contrafortes, quando se acede ao telhado do edifício através de uma estreita escada em caracol, percebem-se de imediato os arcobotantes.
Parece um rendilhado de pedra que tem uma função de suporte da estrutura (elevada) do edifício. A estética e funcionalidade casam-se de maneira harmoniosa e eficaz sobre os passadiços que leva ao topo da Sé. Talvez por isso, haja tanta gente a subir ao telhado para as descobrir.
Do cimo, a vista é deslumbrante. Mira-se em toda a volta do edifício mas é sobretudo o que pode ser avistado o importante desta estrutura. Como igreja-fortaleza, além da função religiosa de protecção, também a tarefa de vigia era essencial.
Se a cidade da Guarda já ocupava uma posição elevada no terreno – está situada a mais de mil metros de altitude - a altura a que o telhado da Sé se encontra melhorava sobremaneira a percepção que se tinha dos campos em redor.

CENTRO HISTÓRICO


 

A Guarda não fica por aqui. A zona histórica apesar de ter pequenas dimensões, é atraente e está excelentemente bem conservada. Conta ainda com a torre do castelo, três entradas preservadas e algumas muralhas que circundam alguns edifícios góticos e renascentistas.
Há ainda habitações dos séculos XIV a XVII, algumas pertencentes à judiaria onde chegaram a viver quase um milhar de pessoas, e que se reconhecem por marcas mágico-religiosas. Ainda lá está também a Porta do Sol que dava acesso ao bairro judeu.

Uma das zonas mais interessantes é a antiga Porta dos Ferreiros e o oratório do Senhor dos Aflitos, que ocupa uma das esquinas logo após o arco medieval. É um sítio onde se percebe o intrincado dos acessos mas também ser um lugar sacro.
A Torre dos Ferreiros, que fica ali muito próximo, subsistiu praticamente intacta à destruição progressiva de que acerca antiga foi alvo. No entanto, tal como a antiga muralha, já se mistura com a malha urbana residencial moderna.  


O vídeo em, https://vimeo.com/177713558