quinta-feira, 15 de julho de 2010

Ambientes Minhotos: entre Tibães e Lanhoso


Detalhes e referências: é  o que nos conquista num todo. Escolhemos uns e outros de acordo com um conjunto de circunstâncias e convicções. Desta vez, andámos em redor de Braga, entre Tibães e Lanhoso, levados pelo Clube Paneuropean de Portugal.
Começámos pelo hotel Sentir Falperra, recuperado das ruínas de um convento dos últimos anos do século XVIII, com espaços amplos e um panorama excelente sobre o vale que dá para Guimarães. Pormenor: naquelas duas manhãs, o vale esteve pintado por nevoeiro baixo e só mostrava raros picos e longínquos.
Depois, duas referências do nosso património monumental - o mosteiro de Tibães e o castelo de Lanhoso - a franquearem outras duas do património gastronómico - o "Victor" e a "Quinta do Pico". O mosteiro foi recuperado há alguns anos; o castelo há muito que devia ter sido. Depois do “Victor”, há que recuperar; depois da “Quinta do Pico”, não há recuperação possível!
Em Tibães – fundado no final do século X - percebe-se para onde vai algum do orçamento estatal da cultura, especialmente na obra de recuperação de que foi alvo. Entrada, pátios, corredores, dependências de registo, cavalariça, catres, hospedaria, passadiço, refeitório e fontes dos jardins, são espaços excelentes.
Detalhes, muitos. Por exemplo, a igreja, além de ricamente decorada, tem detalhes decorativos raros, sátiros, por exemplo, que adornam a varanda de um dos órgãos; outro exemplo, a área do Coro Alto encerra um espaço destinado às reuniões monásticas com curiosas cadeiras basculantes.
Em Lanhoso, descobre-se também para onde podia ir parte do orçamento para a cultura, estando o castelo (o que resta dele) relacionado com uma parte fundamental da nossa nacionalidade. Porém, não se percebe ser dada relevância ao castelo onde se diz ter estado presa a mãe do primeiro de Portugal.
Detalhes: se, para automóveis, o estacionamento disponibilizado deixa algumas viaturas em plano verdadeiramente inclinado, para motos, é bastante propenso à queda. Todavia o panorama cativa a trepar.
Pouco trânsito, bom piso, ambiente misto urbano/rural, estradas estreitas, muros de pedra, bermas baixas com escorredouros, muito verde. Mais verde a trepar para o Bom Jesus e/ou a descer a Falperra. Parece ser bem mais fácil e excitante subir ao Bom Jesus de moto do que trepar aquela escadaria interminável. Pormenor: alguma semelhança com o ambiente serrano sintrense, a que estamos habituados.


No "Victor", do senhor Victor, é o ambiente rústico e o célebre bacalhau assado na grelha que dominam. Sentamo-nos num alpendre fechado que podia ter janelas mais rasgadas sobre o vale. Detalhe: a preparação do bacalhau para a grelha tem segredos, e um deles é demolhá-lo em leite…
Na "Quinta do Pico", do nosso amigo Leal, impera a envolvência bucólica representada pelos animais, pelas vinhas, pelos socalcos, aliada a uns rojões de estalo.

Pormenor: muitos "bichos" estavam curiosos, como estes dois exemplares em baixo, excepto os cavalos que estavam serenamente na hora da refeição. Ficou prometida uma “pega” de porco, seja lá o que isso for… 
... mas nem por tal deixou de haver "festa". A fechar, as lembranças da Quinta do Pico, vieram em branco e tinto, de produção própria.
E ainda outra referência, a das estradas por onde rodámos entre os espaços florestais verdejantes e as famosas vinhas minhotas, ao longo de muros de granito que circundam as propriedades.
Detalhe: rodar em grupo tem a vantagem, entre outras, de não ser preciso procurar referências para encontrar caminhos. Por isso, é rolar ao sabor da estrada, abrir bem os olhos para dominar tudo e encher a espírito da harmonia que o espaço nos oferece.
Neste domingo, o trânsito permitia vaguear pelas nacionais. Atravessámos sossegadamente a Trofa. Dali, em dias assim, é rápido chegar ao Porto. Já lá não íamos há muito. E há sempre um pormenor ou outro que nos espevita a memória sobre o Porto: ou nos perguntam se somos casados no registo de alojamento, ou assistimos ao vazamento de baldes para plena rua, ou nos confundem com turistas a caminho da Sé.
O Porto é uma cidade antiga e acolhedora, que conserva locais interessantes e pessoas de uma simpatia distinta. Guarda também as virtudes e os vícios de exercer como aldeia grande e cidade pequena, uma garantia de diferença, por exemplo, face à capital. Detalhe: o Casal Lounge, a meio da avenida, um café chic de proprietários da Trofa, estava cheio, de tal forma que, durante os 15 minutos em que estivemos na esplanada, não apareceu ninguém para nos atender…
O Palácio da Bolsa era um dos sítios que pretendíamos espreitar. Desta vez, a urbe suava, tal como as protagonistas da Corrida da Mulher. A avenida dos Aliados estava repleta de mulheres vestidas de cor-de-rosa, e de estruturas associadas ao evento. Do Palácio, ficámos com a fachada e com a sombra que projectava para o estacionamento onde parámos a moto.
Como é habitual, só a partir da Figueira da Foz começámos a sentir aquele vento carismático da costa oeste a fustigar a Pan. Outras referências e detalhes, já aqui em baixo.

Música: Emerson, Lake & Palmer, Pictures At An Exhibtion
Ver nesta dimensão, uma vez que o filme está muito comprimido. 

terça-feira, 13 de julho de 2010

O Dom dos Azulejos


A arte é um dos meios que une os homens
Leon Tolstoi, escritor

Parece que existem desde o século V a.C. no Egipto, tendo sido também utilizados por assírios e babilónicos. Depois, foram os romanos que os distribuíram pelo Mare Nostrum. Mais tarde, os árabes divulgá-los-iam na Península Ibérica.
Etimologicamente, ficamos entre origens árabes – zellij, azzelij, al zuleycha, al zuléija, al zulaiju, al zulaco – e persas – lazhward.
Independentemente de outra utilização – painéis decorativos, informativos, chãos, coberturas, molduras - há muitos prédios lisboetas, sobretudo nos bairros tradicionais, cujas fachadas são revestidas a azulejo decorativo.
Diz-se que durante o tempo de Salazar, aliavam a estética à poupança, associando esse padrão de revestimento utilizado nas mansões mais ricas, à menor manutenção desse material face a uma obrigatoriedade de manter as fachadas imaculadas. 
Os aspectos históricos, estéticos e económicos realçam o azulejo, que distingue, identifica, provoca. Diferencia-se pela forma e textura, é praticamente arte(sanal), estimula índoles estéticas e inflama sensações.
Talvez tenha sido a diversidade de motivos, a riqueza cromática, e algum sentido cenográfico, a levar-me a captar a profusão de azulejos que muitas das fachadas de Alfama, da Mouraria, do Castelo, ainda hoje revelam. 
As diversas incorporações confirmam-lhe o cosmopolitismo, o enriquecimento estético produzido num material pobre potencia-lhe dignidade, e a textura, a pigmentação e os brilhos acrescentam-lhe sensualidade.

Não são exemplos devotos, mas ficam aqui alguns modelos mais comuns, apostos em edifícios lisboetas que, ainda assim, já seduzem pelo colorido, traço, composição e efeito.
É seguramente esse cativar dos sentidos que o azulejo pratica. Nós gostamos de nos distinguir. O azulejo incorpora-se espontaneamente nessa capacidade única, que faz de nós pessoas.

Música: António Pinho Vargas, Vilas Morenas




sábado, 10 de julho de 2010

A Arte das Mansardas

É na mansarda que a terra acaba, lá em cima, no reino das nuvens próximo do firmamento. É no cimo da terra que a mansarda se estira para o céu, espicaça as nuvens, a caminho das estrelas. Estende-se como uma ponte, projecta-se como açoteia, liga-se como elo.
Para lá chegar, há que, habitualmente, galgar degraus, abordar uma subida íngreme, um sublime esforço para alcançar o último piso. O caminho estreita, o espaço confrange-se, a luz mingua. Ao ascender ao sótão, escala-se à quietude, ao isolamento, à meditação.
Lugar excelente para explorar os sonhos, recuperar memórias, reaver objectos de outras eras. Fica íntimo, criativo, poético. Dali, observa-se ou reflecte-se, espreita-se ou fantasia-se. Há muito para descortinar, mais para descobrir.
A mansarda é normalmente esconsa, apertada, coactiva, porém, harmoniosa, equilibrada, protectora. Alarga-se na medida da exiguidade dos segredos que esconde. Acanha-se conforme os silêncios que vulgariza. Fecha-se aos outros: recua nos telhados, esconde-se entre vegetação, oculta-se ao olhar diferente.

De lá, mira-se habitualmente de frente, através de janelas redondas, quadradas, rectangulares, amplas, mas esguias e acanhadas na maioria dos casos. O horizonte apertado afaz-se ao olhar exíguo, porém, dedicado e preciso.
Do cume, o querer tem mais arrimo, sente-se protegido e poderoso na procura do secreto. É a intimidade da mansarda que abriga, a dimensão que aconchega. É nas mansardas que termina a terra e se chega mais perto do céu, para apresar as estrelas.

Musica: The Lord Of The Rings, Many Meetings
Howard Shore e Suzana Peric

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Passeio Pelos Impérios XIII - DE VOLUBILIS A MATMATA

De manhã, ainda assistimos através da janela à partida do Joaquim e do Arlindo. Nós fizemo-lo à hora prevista e já institucionalizada, 9:12. Fizemo-lo, ao longo das avenidas que, àquela hora, ainda não padeciam de muito trânsito. Tínhamos agora Volubilis como destino, um objectivo que havíamos falhado há 3 anos quando se abateu uma enorme carga de água sobre o lugar. Desta vez, o tempo estava fresco, sobretudo no percurso que atravessava os campos que mantinham um verde suspeito, cúmplice da muita chuva que o inverno havia emprestado à região.

Foram os estragos provocados pela ira das chuvadas que testemunhámos, quando aproveitámos um desvio que rompia por olivais a caminho de Moulay Idriss. A estrada, além de se ondular em curvas de quase 180 graus por cabeços cada vez mais elevados, estava quase impraticável para motos de estrada. Havia pouca estrada para tanto buraco. Um deles, não o evitei, e o estrondo foi violento.

A chegada a Moulay Idriss foi como descobrir um oásis. A estrada melhorou e o ar aqueceu significativamente à medida que íamos descendo esta povoação que declina ao longo de uma colina, caso raro nas grandes urbes marroquinas. Estávamos praticamente à vista do nosso próximo propósito.

Em Volubilis, entrámos poucos. Os restantes ficaram junto das motos. O circuito das ruínas faz-se em pouco mais de meia-hora se não nos detivermos nos detalhes dos mosaicos, a ler as placas informativas ou demorar a tirar fotografias junto dos locais mais significativos. Alguns espaços são monumentais, sobretudo a área do fórum, da basílica, e ainda o imponente Arco do Triunfo. À imagem de outros lugares cuja origem não é árabe, não pareceu haver guias e o espaço apareceu mal organizado e particularmente pouco protegido.

Se em Conímbriga já há muito que os espaços mais frágeis estão telhados e outros locais têm o acesso condicionado, aqui não parece haver preocupação de proteger os mosaicos do sol impiedoso, o acesso constante de visitantes aos locais mais importantes, bem como às ruínas da zona habitacional. Merecia melhor sorte.

À saída, despedimo-nos dos Cunhas, dos Leais e do Mariano, que queriam passar ainda durante o dia para Espanha e pernoitar em Porto de Santa Maria. Mais tarde, com o calor a aumentar, parámos para almoçar uma churrascada numa esplanada, em Souk El Arba du Rharb. Foi aqui que se deu o nosso "Alcácer Quibir". Uma prova ciclística, que terminava no cruzamento principal da localidade, vedou-nos o acesso à estrada mais directa para Ksar El Kibir.

Voltámos às estradas municipais, estas bastante degradadas e de cujas obras também estava ausente qualquer tipo de sinalização. As suspensões só repousaram quando chegámos à auto-estrada, sensivelmente entre Casablanca e Larache. E foi numa área de serviço que o Menau teve conhecimento da avaria na BMW dos Leais. As três motos estariam paradas na berma a poucos quilómetros de Tanger.

Na realidade pouco menos de 30 quilómetros faltariam para a cidade, quando parámos junto dos que nos tinham deixado de manhã em Volubilis. Foi ali que o tubo de gasolina da BMW se quebrara. Não havia solução imediata, uma vez que a pressão da bomba de gasolina inviabilizaria qualquer intervenção que não fosse suficientemente estanque.

Daí a pouco, chegava um reboque. Depois de algumas tentativas para recuperar um cadeado mal fechado, os rapazes do reboque seguiram em velocidade reduzida a caminho de Tanger. Entardecia a passos largos e os nossos comPANheiros ainda não haviam almoçado e, pelo que soubemos mais tarde, também não jantariam cedo. A moto foi rebocada até ao porto, entrou à mão no barco e saiu da mesma forma em Tarifa, sendo daí enviada para Portugal em outro reboque.

Nós ficaríamos no Ibis, cujo alojamento repetíamos. Desta feita, porém, pediram-nos pagamento antecipado, não fosse alguém repetir o esquecimento da primeira estadia. No dia seguinte, saímos cedo a caminho de Tanger ainda a cidade dormia, mas onde um traço molhado no pavimento ainda fez "rabear" a Pan. Depois de termos esgotado os dirhams na “propina” do angariador da fronteira, embarcámos no ferry que nos levou de regresso à Europa.

Foi com um café espanhol que nos despedimos de Tarifa. A partir dali, e apesar de termos vaticinado que nos perderíamos todos, tal como há três anos, a verdade é que o único que não nos seguiu foi o Eduardo, que preferiu o itinerário por Cádiz. Ele virou para poente rumo a San Fernando, e nós para leste a caminho de Algeciras.

Optámos pelo mesmo caminho da jornada de partida, agor em sentido inverso, por Algeciras, Medina Sidonia e Sevilha, de onde prosseguiríamos de forma diferente, optando agora, via Zafra, por Badajoz. Almoçámos numa área de serviço recentíssima, por volta de El Ronquillo, e cerca das 4 e meia da tarde, estávamos a atravessar a fronteira onde a gasolina passa a ser mais onerosa.

O vento surpreendeu a nossa passagem na A6. É habitual. Talvez por isso, também seja costume pararmos a meio, em uma Área de Serviço, para o esconjurar. Chegámos a Massamá, a antiga Matmata árabe, a tempo de desmanchar as malas e preparar o jantar. Neste dia, teríamos pensão completa. Agora, é esperar pela próxima jornada. Insha'Allah!

Música: Yes, Mood For a Day


O QUE FICA

De momento, quase tudo, nova e exigente que está a memória. Porém, as recordações não dependem apenas da vontade de as agruparmos, sujeitam-se também à selecção que delas fazemos. E, dessa escolha, dessa multiplicidade, o que fica é, desde já: a exiguidade do espaço de bagagem; a possibilidade de ter levado o saco de depósito, para recolher algumas lembranças; a oportunidade de termos optado por vestuário mais fresco; o ensejo de levar menos peças de vestuário (já me segredaram); não termos levado antibióticos de largo espectro.

Outras memórias, ficam por repetição, ao estilo “lembro-me bem disto!”. Não é difícil recordarmos: a habitual loucura que é atravessar a pé uma rua de uma localidade marroquina, mas sobretudo nas grandes cidades; a simpatia dos marroquinos; a facilidade de encontrar um guia de Medina ou um guarda de estacionamento; a dificuldade de ir além do tema básico do futebol no primeiro contacto; a gasolina mais barata; a rotina da propina na fronteira.

Mas há novidades, como seja: o menor cerco do cliente pelo vendedor; os preços mais elevados face há 3 anos (dizem que por influência dos franceses); uma frase atribuída aos portugueses que diz muito da relação cliente/vendedor (“se queres, queres, se não queres não queres!”); as muitas obras urbanas e viárias; talvez haja mais mulheres na rua (sobretudo nas grandes cidades).

Lá, também é irremediável a presença do espaço, do tempo e da cultura, através dos quais se descobrem algumas diversidades interessantes.

Como sejam, as que se detectam no espaço, por exemplo: as disparidades de piso e trânsito com a passagem da auto-estrada à via nacional, daí ao tecido urbano, daí a certas estradas concelhias; do estupendo vaguear pelas estradas costeiras ao longo do mar (de El Jadida a Essaouira); do estender de quilómetros pelas planícies (de Essaouira a Marraquexe, de Ksar El Kebir a Tanger); do serpentear pelas montanhas (do Médio Atlas, na região de Ouzoud e Ifrane), mas experimentar o trânsito confuso, aligeirar radicalmente a velocidade em estradas que tinham mais buracos do que alcatrão; serviços muito agradáveis (na maioria dos restaurantes e hotéis) e outros deploráveis (um hotel, em particular);

Como sejam, as que descobrem no tempo: onde se passa um conflito entre lentidão e rapidez, sobretudo o vagar dos passos na edina quando sós e a rapidez desse percurso quando guiados; quando o sossego da montanha contrasta com a velocidade da campina; quando a morosidade das esperas (p.e. na fronteira) contraria a celeridade na angariação (de compradores); quando o tempo parece conservar-se nos olhares e nos gestos (ao esperarem ou motivarem para a compra), que contrastam com certos momentos de violência da voz (quando parecem discutir, zangados).

Como sejam, as que se descortinam na cultura, por exemplo: nas estratégias económicas que se percebem na fronteira, nos guias da medina, nos guardas de estacionamento (uma rede organizada de gestão de serviços, coisas e pessoas); como no caso dos produtos/objectos aos quais são atribuídos valores discrepantes, para serem vendidos por valores muito inferiores; como sejam as diversas hierarquias que se vão reconhecendo pelo simples trajecto de um guia (entre patrões e serventes) que altera cumprimentos e prestações mútuas.

Apesar da perspectiva quase compulsiva de ser surpreendido, essa condição tem sido progressivamente atenuada por um pacto que, ainda assim, permite que me maravilhe com pequenos nadas que parecem tanto, tais como: a graça do Kasbah des Oudaias, em Rabat; com aquele conjunto medina/porto de Essaouira; com alguns pedaços da medina de Fez; com os almoços programados ou não, desde o de Casablanca, passando pelo de Oualidia e Meknes; considerando o de Ouzoud tão saboroso e, arrisco, a sorte que tivemos com "o das bicicletas"; com o facto de que Marrocos estivesse tão verde; de beber um excelente vinho de Meknes em Casablanca; da festarola em Meknes; da excelente companhia da Nênê.

Também me sinto admirado de não ter caído redondo depois do almoço na praça de Essaouira; da moto chegar a casa com os amortecedores ainda a amortecer; de não ter sido preso por fotografar a fronteira; de não termos sido expulsos do hammam em Afourer; de não ter sido linchado depois da estrada(?) para Volubilis…

Fica ainda a lembrança dos que me acompanharam que, à imagem de uma espécie de confraria, cevou o espírito de viagem, num ambiente de cumplicidade, contribuindo sobretudo para o bem-estar de todos.

Mas também recordo aqueles que não puderam ir e, evidentemente, todos os que levamos na memória e no coração e, por tanto, nos obrigam sempre a regressar. É por eles que cumprimos o provérbio árabe que aconselha a não construir uma casa no caminho da viagem.


E o futuro? Por que não Atenas? Recuar mais um instante no tempo e no espaço da nossa cultura. Além disso, nesta altura, é consensual que precisam de ajuda.


Passeio Pelos Impérios XII - PELAS ENTRANHAS DE FEZ

Regressámos a Fez pela estrada nacional, que se encontrava em recuperação e com muito trânsito. À chegada, rodeámos lentamente as muralhas da medina já o sol andava baixo na parte mais recente da cidade. Pena foi que não tenhamos entrado por uma porta (bab) mais a sul, onde as casas fazem parte da muralha. Estacionámos as motos numa área construída não há dois anos, e que, curiosamente, está filmada, ainda em obras em http://www.youtube.com/watch?v=SGnYv4UrTSQ.
Agora, acompanhados do guia, penetrámos na medina através da Bab Guissa e dirigimo-nos de imediato para a mais antiga universidade do mundo, a madrassa (universidade corânica) de Attarine. Apesar de as paredes serem praticamente monocromáticas, está exemplar em matéria de conservação. Embora dispusesse de uma varanda no andar superior – de ligação aos quartos dos estudantes - não nos possibilitaram ultrapassar o pátio. Nunca protagonizei uma visita tão curta.
Antes, havíamos deixado passar um dos transportes mais populares naquele sufoco, o burro, animal que, à excepção dos gatos, é o único admitido nas estreitas ruas da medina. Nas albardas levam de tudo: roupas, garrafas de água, sacos de cereais, máquinas e ferragens. Tal como há séculos.
Próximo da madrassa de Attarine, espreitámos a mesquita Kairouine, a maior da medina e de Fez. Percebe-se a dimensão quando, ao circundá-la, se vão contando as muitas portas que lhe dão acesso. Pela primeira vez, percebi estarmos próximo do rio, cuja maior parte do leito está oculta na travessia da Medina, não sem antes termos passado por uma zona de tingimento exclusivo de cabedais negros.
Mais à frente, entrámos numa casa, subimos dois andares e desembocámos uma espécie de varanda, de onde era possível observar a famosa zona de tingimento de curtumes, onde domina o activo cheiro das peles e as cores fortes das tintas.
Quase tão fascinante, mas numa outra escala e tema, o elevado número de antenas parabólicas individuais que envolvem o sítio, naquela teia de telhados cor de terra e arquitectura de traços geométricos. Parecem favos.
Circunstancialmente caótica, a intensa circulação pedestre dentro das exíguas ruas da medina, é um elemento típico, em que a quietude de muitos – sobretudo dos lojistas – contrasta com agitação dos fornecedores e da passagem apressada dos turistas com guia. Outra constatação: a de que não existem lojas fechadas, ou seja, que a diminuta dimensão, escassez de stock ou fraca clientela, não são condições de “portas fechadas”.
Feliz, a paragem numa pequeníssima loja que vendia chá. Deixámos passar mais um burro e cercámos o balcão para comprar uns quantos pacotes de chá a um preço que agradou. O chá é bom, sobretudo quando acompanhado de algumas folhas de hortelã. Comprovámo-lo em Portugal.
Comprovámos outra teoria que, nesta fase, já é tese: a fraca manutenção de edifícios, redes eléctricas, e equipamentos públicos em geral. É frequente ver fios eléctricos à mostra, protecções de quadros eléctricos arrombadas, portas de madeira roídas da água, lajes levantadas ou em falta. E o panorama de alguns hotéis, também não é famoso: há tinta que caiu, madeiras empenadas, teias de fios, tapetes surrados. Também é preciso sorte para que não existam mais tragédias, e os marroquinos parecem tê-la.
Prosseguimos pelo labirinto, para desembocarmos pouco depois no largo dos caldeireiros, cujo trabalho de alguns é feito à porta das lojas. Estávamos ainda junto da Karouine, quando percebemos que já iniciávamos a caminhada de regresso às motos. Voltámos ao dédalo de ruas, muitas delas por onde não passam mais do que três pessoas lado a lado, outras cuja dimensão oculta inclusivamente torres de mesquitas, outras ainda que, por estarem cobertas, eclipsam qualquer referência de orientação.

Acreditava que ainda iríamos parar numa loja de artigos de madeira e/ou outra de adornos e, por tal, atrasar a nossa saída, mas o guia não devia ter comissão nessa área. Mesmo assim, chegámos junto das motos com a noite a tombar. Avançámos para o trânsito da hora de ponta e batemo-nos com uma imensa legião de “petit táxis”, alguns dos quais ocupavam uma das faixas de rodagem contrárias. Fiquei desapontado com o facto de, uma vez mais, ter percorrido as ruas da Medina de Fez ao ritmo do guia. Tinha esperança que pudéssemos ter tempo para captar mais detalhes e conhecer aquele todo, desde o rio que mal vimos, passando pelas vielas sem saída onde os braços abertos tocam as paredes, pelos túneis escuros e assimétricos.A Medina é um espaço ímpar. È das mais estreitas, das mais cobertas, é assimétrica a par da de Chefchaouen, labiríntica como a de Marraquexe, rica e variada. Mas, sobretudo, tem uma vida que não se percebe à passagem veloz e inquietada que protagonizamos. A noite no bar foi mais divertida do que a anterior e ainda mais do que o período do aperitivo para o jantar. Desta vez, envolveria também alguns franceses que viajavam em Citröens “Arrastadeira” e contestavam os critérios de quantidade no que respeitava a bebidas servidas pelo tal barman sovina. Depois, desdobramos mapas, efectuámos cálculos ligeiros e discutimos percursos com os que sairiam cedo no dia seguinte.

Música: Return To forever, Magestic dance