segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O Almoço do ARLINDO





O Arlindo faz parte da sociedade nem muito secreta nem demasiado pública que organiza de vez em quando o bem-estar de uma quantidade de gente. E, todos os anos renova o convite para nos juntarmos num almoço que tem "crescido”. Embora não fosse a primeira vez, desta a proposta alargou-se. Um fim de semana no Alentejo, longe do bulício urbano e em plena serenidade campestre. Ir às portas de Ródão, conhecer um lagar de varas, passar pela torre de um castelo, ter a tarde livre para descansar, visitar um museu e usufruir da gastronomia da região.
Parece pouco, mas não se fica por aí. Por que há sempre mais, muito mais. Há a viagem para lá e a viagem de regresso, há o trajecto pela região, as paragens aqui e ali, as novidades, as estradas, as comparações, as opiniões. Um mundo de possíveis. O ambiente está lá, mas as pessoas também. E são as pessoas com quem gostamos de estar e andar.

OS COLOSSOS DE RÓDÃO


Já saímos tarde. Ainda pensamos na opção de acompanhar a margem esquerda do Tejo, mas o percurso é lento… por isso não restou outra hipótese: fazer a A1 e a A23. O dia estava fresco, o céu algo enevoado, não havia muito trânsito mas, depois de Torres Novas, o sol apareceu em pleno e o tempo aqueceu. O blusão de Verão era bem-vindo.
O programa abriria com a vista a um lagar, mas vou começar pelo passeio de barco sobre as águas do Tejo, com a passagem num lugar especial. O sítio está numa falha geológica. O local é velho, de milhões de anos. Surgiu do colapso de algumas placas tectónicas e da erosão provocada pelo rio. Hoje é considerado uma das maravilhas naturais de Portugal.
Também por isso, duas vagas de excelentes companheiros partiram cedo Tejo dentro, rasgando as Portas de Ródão, sobre um rio calmo de um verde tão forte como as falésias onde nidificam grifos, águias e cegonhas. Ali a natureza foi pródiga e proporcionou ouro, alimento e ainda uma via de comunicação que só foi abandonada no século passado. 
Seja qual for a perspectiva, o envolvimento é colossal. Ninguém fica indiferente aquele espaço, sobretudo ao envolvimento geológico - a falha, a arriba, a vegetação, as aves - ao aspecto histórico - o castelo e a ermida - e aos elementos paisagísticos - a planície alentejana e os penedos beiões.

                       NO CASTELO DE WAMBA



Navegamos sob o olhar de séculos da torre do castelo do rei Wamba, para onde subimos e de onde pudemos ver praticamente outros dois castelos, Marvão e Belver. Seja de onde for, o Tejo domina. Lá em baixo as curvas do rio lambem tranquilamente as margens de pedra e envolvem um pequeno istmo que é condomínio privado de algumas espécies animais.
Supõe-se que o último rei visigodo, Wamba, possa ter ali erigido o seu castelo. Hoje, porém, apenas existe uma torre-atalaia que alguns autores atribuem à época da invasão muçulmana, uma estrutura que foi restaurada possivelmente pelos Templários., assim como uma pequena ermida, eventualmente reconstruída por volta do século XVI. Visitei a torre há muitos anos. Estava em ruínas e era perigoso sequer entrar. Hoje, com as muralhas da torre reconstruídas o lugar ganhou préstimo e notoriedade.
Do promontório onde está a torre a paisagem enche-nos o ego. Estamos no topo daquele mundo. Dali distinguimos facilmente o perfil acidentado da margem esquerda e o recorte chão da margem esquerda. Na primeira reconhece-se a Beira Baixa; na segunda, identifica-se o Alentejo.
Por ali, o ambiente é poderoso. A natureza sente-se no caudal do rio, no íngreme e disposição das escarpas, no território das aves de rapina, nos montes de calhaus rolados (conhos) provenientes da exploração mineira. E até o céu é fascinante, de um azul inimitável, suave e soberano. Melhor não é impossível, quando uma cegonha levanta tranquilamente, dá um pequeno passeio até o barco se afastar e regressa depois à serenidade da margem.
Mas são apenas os contrafortes do Tejo que fascinam. Aqui, natureza molda-se e a cultura ajusta-se. O relevo separa-se e deixa passar o rio, modela-se espremendo calhaus contra calhaus, erige-se margens fora; a fauna multiplica-se e dispersa-se pelas falésias, ocupa e domina os cumes; a flora preenche e prolifera nas falhas, cobre o relevo. A cultura veio depois e aproveitou a natureza: construiu nas escarpas e entre margens, pintou nas arribas e nas grutas, explorou os afluentes.  

O LAGAR DE VARAS

Ródão também recreou algumas memórias da produção de azeite, redescobrindo um lagar agora recuperado dentro de um conjunto de casas de xisto. Era o lagar de varas, há anos oculto sob mato, que percorremos detalhamento acompanhados por um especialista em história e produção de azeite, que também era o proprietário do restaurante onde iríamos almoçar.
A importância do azeite para economia regional está hoje patente neste núcleo museológico que reúne um conjunto vasto de aspectos ligados à produção deste ouro  líquido. Embora se situe numa região onde predominam os bosques de sobreiros, pinheiros e azinheiras, os olivais já tiveram nesta zona, inclusivamente desde há muitos séculos, uma importãncia fundamental para a economia local. Hoje, a produção em pequenas unidades visa sobretudo a qualidade e a diversidade das aplicações do azeite.
Mós, trancas, peneiras, varas, foles, prensas, tulhas, estão dispostas nas várias dependências da casa. Alguns detalhes da produção justificam o preço a que é vendido o azeite. Outros, mostram que a poupança não se aplica apenas nos bancos e que tudo se aproveita.

AO LONGO DO OCREZA

Do castelo de Ródão fomos para a Foz do Cobrão, oportunidade que nos pôs ao longo das margens do rio Ocreza, acompanhando os velhos traçados viários que seguem as curvas de nível das encostas. Por aqui os cheiros mudam e as cores revigoram-se, garantia de estarmos no bom caminho para um almoço excelente. Se vissem o incomparável serpentear das motos pela serra…!
Na Foz do Cobrão a paisagem e a conversa cruzaram-se desde cedo. Aliás, já passava das duas quando lá chegámos. Mas não era tarde. O restaurante Vale Mourão fica num sítio excelente, a meia-encosta entre um troço largo do rio junto da aldeia e o cume dos montes. Um restaurante com um traço urbano, mas construído com materiais da zona, um dois-em-um onde não faltava uma sombra para as motos.
Fomos pela Sarnadinha e saímos pelo Vale Cobrão, sempre envoltos na floresta que preenchia das colinas em redor. Chegámos a tempo de tudo. De assistir ao Holanda-Costa Rica, de dar um mergulho na piscina ou de ir descansar do bacalhau, da vitela, da mista de sobremesas…

MONTE FILIPE

O tempo ajudou quem quis aproveitar o sol alentejano deste dia. A piscina tinha cloro a mais (como é habitual), mas espaço e configuração suficiente para que o mergulho fosse aprazível numa água fria mas revigorante. Envolvida por oliveiras, casas de aldeia, relva e a fachada neutra do hotel Monte Filipe, apetece passar ali algumas horas.
O gin do hotel não estava tão bem servido como o do Parador de Ceuta… mas serviu de acompanhante até ao jantar de achigã e mista de carnes que fomos degustando até perto da meia-noite. Valeu a pena aguardar especialmente por aquela sericaia que vinha com uma admirável ameixa de Elvas. Se ganhamos apetite nos 200m pedestres pra lá, aproveitamos a mesma distância no regresso para fazermos a digestão.
Se os 30 graus de sábado nos tinham revelado a natureza da zona, os 20 e poucos graus de domingo divulgar-nos-iam a cultura da região. Nesta manhã, porém, a natureza estragou-se. Deve ter havido alguma avaria nos sensores e, ao mesmo tempo que a temperatura descia, a chuva tombava. Um mimo para qualquer blusão de rede…

                     NOITE EM ALPALHÃ




Saímos do Monte Felipe a pé. O fim da tarde estava ameno, propício a um passeio de pouco mais de 200 metros que nos separavam dorestaurante "Regata". E aquele entardecer não desiludiu, com os reflexos torrados de amarelo e vermelho do sol estampados a poente.

O restaurante recebeu-nos em três longas mesas com comida tradicional alentejana. Nas paredes percebia-se em azulejo alguns aspectos do património alpalhoense, o castelo provavelmente templário destruído no início do século XVIII, ou a espectacular anta de S. Gens.
A noite terminou com  a vitória da Holanda sobre a Costa Rica já nos penaltis e com os habituais licores alentejanos. O auspicioso por do sol não concretizou uma noite limpa cuja névoa anunciava uma manhã húmida.

BARROS E BORDADOS DE NISA

Até ao Museu do Bordado e do Barro não são mais do que 12 quilómetros desde o hotel em Alpalhão. Mas a chuva, ainda não muito atlética, já ensopava as luvas de Verão e embebia a sweat por trás do blusão. À chegada a Nisa a estrada já estava encharcada.
Deixámos as motos mesmo em frente do Museu do Bordado e do Barro. Foi lá que percorremos os três andares do antigo edifício da cadeia e entramos em contacto com a exclusividade da olaria e a beleza dos bordados.
Na olaria, hoje confinada a raras oficinas, é a técnica decorativa do empedrado que sobressai. Nesta, utilizam-se pequenos fragmentos de quartzo que são colocados habilmente por mãos femininas. Enquanto o homem usa a sua aptidão para transformar o barro em vasilhas e potes, a mulher usa o seu talento para decorar aquelas peças.
As peças são fruto da cooperação de homens e mulheres. Porém, os motivos decorativos, que são exclusivamente elaborados por mulheres, são esmagadoramente flores, talvez originárias dos motivos decorativos dos bordados, esses sim totalmente manufaturados por mulheres.
Joana Vasconcelos encontrou nos artesãos de Nisa a ajuda preciosa para compor a sua “Valquíria”, uma peça enorme, exposta, por exemplo, numa sala do palácio da Ajuda, mas precisa de mais outra para ser devidamente admirada. Parece que já há sítio em Nisa para tal.
O edifício ainda funcionou como cadeia até há poucos anos. Teria sido interessante saber mais sobre o edifício, cujo interior ainda deixa ver algumas portas das celas, bem como grades nas janelas. Fica junto de um dos panos da muralha, próximo de uma das antigas portas do castelo.
Cada vez mais me convenço de que as visitas, sejam a um museu ou a uma medina, se forem acompanhadas por quem sabe ou por quem lá vive, tem outro travo, o privilégio de receber a crónica em primeira mão. Leva mais tempo, mas também levamos mais novidades.

EM CASA DA TI AUGUSTA


Se já saímos do museu com uma chuvita molha-tolos, pouco depois de retomarmos a estrada o céu escureceu e a chuva tombou com alguma violência, sobretudo em cima de mim…que apenas tinha a rede do blusão de Verão por cima da camisola. Mas também não foi dramático. Ainda não tínhamos abandonado o IC rumo a Proença-a-Nova quando o aguaceiro desapareceu.
À chegada a Figueira, já o sol espreitava. Tal como o Vale Mourão parece estar perdido no meio dos montes e o Monte Filipe sumido no meio do campo, também o restaurante da Ti Augusta não está propriamente ao virar da esquina. Está, aliás, inserido numa aldeia de xisto, onde uma boa quantidade de casas estava a ser recuperada.
O restaurante, também em xisto, e que estava por nossa conta, foi o resultado da recuperação de uma antiga casa cuja proprietária era uma pessoa carismática da aldeia, a Ti Augusta. Todo o andar de cima, onde as mesas estavam postas, é muito agradável, com paredes em xisto e tecto em madeira com traves de troncos velhos a segurar um ripado esconso. Aqui, a tentação andava pelos nacos de cabra e pelo afogado de boda.
Depois da visita ao museu e da chuvada fria, voltavamos à gastronomia para equilibrar a relação entre a natureza e a cultura. Isto correspondeu a mais três horas de conversa, ideias, sabores, estórias, odores. A reunião terminou já no pátio da casa à vista das motos e com as habituais fotos de grupo. Despedimo-nos já com o sol a indicar-nos o caminho de casa.  
O Arlindo é um tipo de sorte! Andou a organizar um “almoço” e saiu-lhe um fim de semana catita, como há muito não se via. Antes, era uma lufa-lufa para ir, almoçar e regressar. Depois, uns começaram a ficar. Hoje ficam quase todos. Desta vez vez foram mais 570 quilómetros de gozo. Nós somos uns tipos de sorte!

Video em 
https://vimeo.com/103088713

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