segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Horizontes alentejanos. O XXXII aniversário do CPEP


Vamos a Beja. E vai chover. Depois de Alcácer do Sal o céu estilhaçou-se e foi o dilúvio. Dez minutos de chuva foi o suficiente para alguns pingos escaparem para as espumas lateriais do capacete.

Apesar de a A26 já ter quase 10 quilómetros, a ligação a Beja, mesmo com piso novo durante grande parte do IC8, tem troços sem qualquer marcação. De noite, a circulação torna-se perigosa, especialmente para quem vai de moto.

Chegámos ao Holliday Inn já de noite, mas a tempo de um aperitivo a anteceder a salada de grão, a carne do alguidar e o minestrone de frutas com sorvete. Lá fora, o frio invernal pareceia ter chegado mais cedo.

Sábado nasceu nevoento. Estava destinado a Serpa, a pouco menos de 30 quilómetros. E foi por lá, depois de resolvermos o puzzle de estacionamento, que demos as boas-vindas a um novo casal que fará parte do Clube.

Depois, andámos em grupo numa visita guiada, que nos levou da praça da República, à Torre do Relógio, ao castelo e ao palácio dos Condes de Ficalho. Saímos por uma das portas do castelo e passámos pela emblemática muralha da cidade.

A péssima noite anterior deu lugar a uma manhã luminosa, excelente para um passeio pedestre. Fomos comprando uns queijos locais, entrando no Museu do Cante, numa ou noutra loja de artesanato, sempre sob um belo sol alentejano.

Ficámos a saber que a serpente alada, "serpe" (serpente), como se dizia no português antigo - que decora muitos dos candeeiros de Serpa -, é o símbolo que protege a cidade, daí a proximidade entre o toponímio e a lenda.

Continuámos pelas ruas estreitas  e fizemos uma paragem obrigatória no “Molhó Bico”, um icónico restaurante serpense, para degustar um saboroso bacalhau com espinafres e um não menos bom arroz de pato, ambos no forno.

Saímos a caminho do Museu do Medronho, perto de Alqueva, a pouco mais de 40 quilómetros de Serpa. O tempo continuou excelente para rodar: sol, bom piso, frio quanto baste, boa companhia.

Gin com medronho, foi uma estreia! Entre outras propostas destiladas ou não, esta foi a mais surpreendente. Depois, de percorremos uma cave onde este tipo de propostas são  produzidas e guardadas em generosos barris.

Sobrevivemos! A tempo de passarmos por  Portel, deixarmos o castelo à direita e apontarmos à Vidigueira. Mais 60 quilómetros por boas estradas, com o frio a apertar, mas com pouco trânsito.

A noite prometia, sobretudo ao jantar. Foi na Adega Tipica 25 de Abril e teve o condão de surpreender, de novo, com uma rapaziada especializada em Cante Alentejano. Sentados numa mesa, os três amigos brindaram-nos com interpretações especiais.

O resto ficou a cargo das diversidades de porco preto, da conversa sadia, do bolo de aniversário do Clube e do espumoso. Acabou no hall do hotel, entre conversas, novidades e alguns líquidos para  aquecer a alma.

 


Na manhã seguinte, regressamos a casa e não acompanhamos as actividades previstas que passavam pelas visitas à Adega Museu do Vinho da Talha e ao Museu da Vidigueira, para terminarem num almoço em Cuba.

Mais uma jornada catita, em boa companhia, com bons repastos e melhores passeios.



terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Sal, Bacalhau e Ruínas: secadouro de Alcochete

Salinas foi o mote, especialmente pela atractividade estética. Aliás, já da Ponte Vasco da Gama, se vê aquele reticulado aquático que decora as margens do Tejo naquela zona. Fomos por aí.

Porém, antes de chegar à Fundação para Protecção e Gestão Ambiental das Salinas do Samouco, a praia e, depois, (o que parecia) a entrada de uma quinta secular, apareceram sugestivas. Virei para  a praia. 

Esqueci-me das salinas, meti as rodas na terra, depois pela areia e avançei na praia. Quando as poças imensas me mandaram para trás, havia uma espécie de plantação de cavaletes de cimento, qual exército de terracota de Xian.

Aqui, surgiam pequenas construções - pareciam suportes -, que se estendiam pela areia como barreiras antitanque. Ali perto, erguia-se um conjunto de edifícios baixos, pouco comuns ao pé da praia. Eram ruínas.

O fascínio pelas ruínas continua a alimentar-me a imaginação. Sobretudo, mais a fantasia do que a creatividade. Talvez porque o sonho ainda “comande a vida” e a inspiração esteja a sumir com o tempo. 

Mudei de intenção. Voltei para trás até perceber qual era a entrada do complexo. Não foi difícil. Bastou ler, “Secadouro de Alcochete”, numa placa de azulejos, na entrada da tal quinta que já viu melhores dias.

Ao longe, a Ponte Vasco da Gama, domina a paisagem. Aqui perto, de um lado e de outro, é o rio e a areia que imperam. Mais à frente, como um ariete no rio, o farolim de Alcochete é guia costeiro das embarcações fluviais.


A chamada “Seca do Bacalhau”, aqui estabelecida, corresponde às antigas instalações industriais atribuídas às salinas onde,durante décadas, se procedeu à salga e secagem do bacalhau proveniente da Terra Nova.

Estas fábricas dependiam diretamente da produção de sal das salinas vizinhas. O espaço, hoje integrado na Reserva Natural, é atravessado por trilhos pedestres e habitat de várias espécies de aves.

A interligação entre a indústria do peixe e a exploração salineira encontrava aqui um forte elo, enquanto durou a actividade da frota bacalhoeira portuguesa, cuja actividade cessou em 1974.

Embora desativadas desde 1990, as ruínas existentes constituem um importante testemunho histórico e patrimonial. Porém, nos edifícios é sobretudo a probabilidade de derrocada que contribui para a perigosidade do espaço.

Fora, os dispositivos de seca, que também parecem obstáculos antitanque ;-)), formam um conjunto quase artístico, estruturas construídas em betão armado com ferro e arame galvanizado.

Talvez possa ser esse o elegante legado, um símbolo da antiga actividade de seca do bacalhau. E, é possivel que, a curto/médio prazo, as ruínas sejam substituídas por um  projecto de reconversão que prevê um grande complexo turístico no local.


domingo, 21 de dezembro de 2025

Arte Aborígene I. WA Museum. Perth


Austrália, aborígenes, quase um milhão de pessoas, praticamente 4% da população australiana distribuídos por um território que vai de Lisboa a Minsk. São mais de 250 povos em territórios e com culturas e línguas diferentes.

 

Ainda hoje, há muitos aborígenes urbanos  párias e a situação dos restantes não é famosa, embora haja alguns esforços e sinais de preservação da identidade cultural e avanços em matérias de definição territorial.

Um dos aspectos onde a cultura aborígene tem uma face visível, intensa e fascinante é a arte. A arte aborígene realça ancestralidades, contando histórias, transmitindo mitologias, mostrando a forte ligação à terra e ao cosmos.

Fá-lo, através de uma simbologia ímpar, uma diversidade regional abrangente, bem como estilos e técnicas aplicadas a diversos materiais e suportes. A arte surge em casca de eucalipto, pinturas de pontos (dot painting), esculturas e arte rupestre.

Uma das mais fascinantes propostas artísticas, reproduzidas sobretudo na pintura, é a visão macro da paisagem territorial, autênticos mapas desenhados e pintados na tela. Mas não apenas itinerários terrestres.

Com efeito, não é apenas o espaço terreno que é mapeado, o espaço celeste também é profusa e esteticamente descrito mostrando o conhecimento astral dos aborígenes. 

A arte, para além dos aspectos estéticos, tem sido um dos elementos relevantes para vencer estereótipos e ignorâncias ainda hoje prevalentes na sociedade australiana. Há diversas comunidades artísticas a contribuir para tais desígnios. 


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

O Caminho Até Aqui


Na adolescência, o Aikido era apenas uma palavra distante e misteriosa. Raros o praticavam, poucos o conheciam, ninguém o via. Um colega de liceu era a excepção, mas estava ainda no início do Caminho.




Um dia, aos cinquenta anos, vi entrar num pavilhão um estranho grupo de praticantes. E assisti à demonstração. Movimentos suaves, firmes, quase poéticos. Havia ali ciência e arte, energia e leveza. Conhecia a ACPA.


Fiquei curioso: poderia eu também aprender? Quem lá estava: jovens, idosos, todos fluíam. Pensei: chego tarde, mas ainda a tempo. Onde praticar? Seria mais perto e mais familiar do que eu supunha.

Descobri o Dojo numa cave, com tapetes que tingiam o Gi. O Mestre, já septuagenário, ensinava com calma e rigor. E foram três meses de treino a dois, um privilégio raro.

Chegaram novos praticantes e o primeiro sarau. Senti-me parte de algo maior. Mas uma lesão no basquetebol obrigou-me a parar. Sete meses de pausa, sete meses de espera.

Voltei ao Dojo, mais prudente, mas também mais determinado. Vieram encontros, estágios, exames. Agora num espaço maior e mais digno, o Dojo crescia em praticantes e eu em motivação.

A Hakama marcou um novo patamar. E uma nova queda. O chão e o ombro encontraram-se violentamente. Outro hiato, mais fisioterapia, mais paciência. Mas o Caminho não se perde, apenas muda o ritmo.

Retomei o treino, passo a passo, com humildade e atenção. O corpo aprende, a mente desperta, a vontade sustenta. Chegou o Primeiro Dan, conquista e renascimento.

O Japão cruzou-se no meu percurso, juntando prática e cultura, em Tóquio e em Kamakura. Uma hora eterna de prática no Hombu Dojo da Aikikai, é outro privilégio, o de aprender na fonte.


Também estive com a Federação. A juntar as mesmas vontades e práticas diferentes. Pelo bem de todos. Excelente tempo de aprendizagem, do que fazer e do que não fazer.




A hipótese de ensinar surgiu no Caminho. Ensinar tornou-se a continuação natural do aprender. O aluno dá (também) lugar ao instrutor. Partilho o que recebi, repito o que aprendi, transmito o que compreendi.

A pandemia implicou mudanças. Transformou salas em parques e casas em Dojos. O Aikido resistiu e adaptou-se a novos espaços. Muitos aprenderam armas em meses o que demorava anos.

Recuperado o bem-estar, o regresso aos Dojos foi lento mas constante. Pouco a pouco, a magia do Aikido reforçou vontades e estimulou o Caminho. A cerveja também ajuda.

Hoje, há tantos ou mais praticantes do que naquela época, e mais eventos. Continuo, com amigos, Mestres e alunos, no mesmo Caminho, o bom Caminho do Aikido.

Dezoito anos depois de começar, a maioridade da prática é tão deliciosa como responsável, tão festiva como profícua.