Não é fácil lá chegar. Pelo menos, não seguindo o caminho aconselhado que leva à porta principal. Eu fui ter ao portão secundário, à “porta dos fundos”. Entrei de moto e deixei-a num pequeno pátio de entrada. A seguir, há um carreiro que parece não levar a lado nenhum.
Embora esteja em plano alto, ainda não se vê um chavo. Depois, começa a vislumbra-se um telheiro que protege a casa de Titus Curiatis Rufinus. Estou nas Ruínas de Freiria, em São Domingos de Rana.
Ruínas que guardam a memória de milhares de anos de presença humana, num território moldado pela abundância de água e pela sucessão de povos que ali viveram desde o Paleolítico.
É um dos mais completos exemplos de villa romana da Península Ibérica, sítio que se julgava perdido e que continua a desvendar novos capítulos da história local.
Retomada a investigação, décadas mais tarde, revelou-se um vasto complexo arqueológico.
A residência senhorial, ou domus, possuía átrio, peristilo, espelhos de água e salas decoradas com mosaicos policromos e estuques pintados. Entre elas destaca-se o triclínio, a sala de refeições onde ainda hoje se preserva um magnífico mosaico associado à casa de Titus, um dos proprietários conhecidos da villa.
É neste espaço que se poderá observar três dos quatro tapetes em mosaico que a compunham. E que tapetes! Em redor da área residencial desenvolvia-se um complexo agrícola e produtivo notável, composto por celeiro, moinho, lagar, forno de pão e sistemas de armazenamento e abastecimento de água. Não muito diferente de hoje.
As termas, equipadas com hipocausto e tanques de água quente e fria, testemunham o conforto e a sofisticação do quotidiano romano. Hoje, estavam ao sol, retemperador, a facilitar algum tratamento ou diversão fortuita.
A importância de Freiria revela-se também no espólio encontrado: moedas, cerâmicas, instrumentos de trabalho, objetos decorativos, um raro quadrante solar e uma ara dedicada à divindade indígena Triborúnio, símbolo do encontro entre tradições locais e cultura romana.
Do outro lado da ribeira, a necrópole recorda os rituais da morte e da memória, enquanto as sucessivas campanhas arqueológicas continuam a revelar a riqueza deste lugar singular. Hoje, um percurso interpretativo em passadiço permite percorrer estas ruínas sem as ferir, sendo o visitante conduzido por entre vestígios de casas, termas e mosaicos.
Volto por onde cheguei. A Husqvarna ainda lá está, a contrastar com a paisagem, tão anacrónica como harmoniosa, misturando a tecnologia e a História, o passado com o futuro, neste curioso presente.











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