domingo, 3 de maio de 2026

Baan Kudichin, Portugal em Banguecoque

Chamam-lhe “Little Portugal”, um eco português distante, em Kudeejeen, onde o tempo suavizou memórias mas não as apagou. Entre ruelas silenciosas, plenas de vegetação, ainda se respira uma herança de mais de 500 anos.

O Baan Kudichin - ‘Baan’ significa casa e ‘Kudichin’ é o nome do bairro –, está situado numa zona de Banguecoque onde ainda se concentram os descendentes dos portugueses, que para ali se mudaram no século XVIII.

Provinham da antiga capital Ayutthaya, onde combateram ao lado do rei tailandês contra os birmaneses. A cidade caiu, mas os portugueses foram recompensados com um terreno onde está atualmente o bairro de Santa Cruz.

Em espaço aberto, muito perto do Chao Phraya, rio que cruza Banguecoque, ergueu-se a Igreja de Santa Cruz, símbolo de fé e integração, mas também marco histórico da presença portuguesa no Oriente.

Saímos do parque de Saranrom, atravessamos o mercado de flores e passamos a ponte Phutthayotfa. Kudeejeen mal se vê do outro lado do rio. O bairro revela-se quase em segredo, com portas fechadas e ruas despidas de gente. 

Passamos pela igreja e pelo colégio com o mesmo nome, Santa Cruz. Na praça contígua, as referências cristãs portuguesas são evidentes. Mas até há sinalética a indicar o museu português.

Este pequeno museu, instalado numa casa da família, abriu pela primeira vez no dia de Natal de 2015, e tem estado informalmente aberto desde março de 2016, foi inaugurado oficialmente em 2017.

Passamos um pequeno portão - como se o bairro fosse condomínio privado -, para, depois, entramos num cenário que não deve ter mudado muito ao longo dos séculos. 

O arvoredo e as casas de madeira contam histórias em silêncio. Ou em cartazes, onde se lê existirem ali doces pedaços da cultura portuguesa representados por delicioso bolos.

As ruas estreitam e as pequenas casas multiplicam-se, mas não há gente onde muros coloridos falam onde as vozes faltam. As ruelas estendem-se como ramos de árvore ao longo de meandros, alguns com subtis cursos de água.

Até que chegamos a uma porta encimada por um azulejo com uma caravela. Estamos no Baan Kudichin Portuguese Descent Museum, tal como está escrito logo abaixo. Entramos, saudámos e subimos os degraus que levam ao primeiro piso.

Ali, exibem-se artefactos, fotografias e há referências à influência gastronómica, como o bolo Khanom Farang. Há uma cama - com dois penicos! -, cortinas, vassouras, típicas, talvez uma Bíblia, além de muitas imagens e peças religiosas.

Há mapas, e um deles mostra a distãncia de Lisboa a Ayuthaya - 10700 kms -, e a rota do caminho marítimo para a Oriente via Cabo da Boa Esperança. Há referências a Vasco da Gama, aos Descobrimentos e uma miniatura de uma caravela.

O mobiliário típico, bordados, vasos, caçarolas, porcelanas, várias referências gastronómicas - onde não falta um guisado de carne e torresmos -, e, até, uma fotografia e uma nota de saudação de MNE João Cravinho, em visita no mês anterior.

No bairro revelam-se raízes diluídas pelo tempo. Kudeejeen não é Portugal, é a sua memória transformada, o seu eco distante que, ainda assim coexiste, ali bem próximo, com templos chineses e budistas.

Mas não deixa de ser uma cohabitação tipicamente portuguesa, a tal que “deu mundos ao mundo”. Eu também deixei no museu uma lembrança humilde, mas que levei para o Oriente e "calhau que nem gingas": uma moeda de 2$50 com uma caravela.

A presença portuguesa em Banguecoque não está apenas no "Little Portugal". Vai além do antigo Kudichin de origem portuguesa: no muro da embaixada lusa está mais uma obra assinada pelo nosso Vhils (Alexandre Farto), em fevereiro de 2017.




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