
Março/Abri 2007
Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir.
Amyr Klink, navegador brasileiro
Surpreendemo-nos, habitualmente, quando o homem morde o cão. Isso deve-se à ditadura da mesmice, ao império da normalidade. Felizmente, há movimentos reaccionários que minimizam aquelas inevitabilidades. Viajar, por exemplo, é um deles. Viajamos, para alterar a nossa regularidade, à procura de surpresas.

A inspiração surgiu via Zé Barriga. Foi quem mais se abismou com a surpresa. E disso fez jus, bisando a menção dos episódios que mais o deslumbraram.
E eu vou ao encontro desse pasmo folião, tão atraente e derradeiro como os pulos do Zamith, o vocabulário árabe do Mendonça, o bailado do Arlindo, a alegria do Murta, as camisolas do Joaquim, as águas-furtadas do Jorge, a pachorra do Menau, a chave do António, o pneu do Armando, a bateria do Marques, o alarme do Mariano, o “môr” do Luís ou a tampa do óleo da minha Pan European.
Sexta-feira, cedo, não havia muito trânsito… a não ser na ponte do Cinquentenário, em Sevilha. Ninguém se perde numa ponte. Mas, naquele dia, com tamanho tráfego, tão compacto e abundante, deixámos de nos ver uns aos outros. Um salve-se quem puder!

De Jerez a Algeciras, a via rápida deixou-nos inexplicavelmente a caminho de Tarifa. Eu já percorrera este itinerário há quase dois anos e a ligação directa existia. Afinal, todos os caminhos vão dar à ponte, mas quando o rio vai de monte a monte!
A entrada em Marrocos, por Ceuta, ali próximo de Fnideq, é um excelente caos organizado: angariadores, polícias, cambistas de ocasião, funcionários de fronteira, vendedores de droga, tudo numa roda-viva por clientes. Até é permitido tirar fotografias. E, uma imagem vale mil palavras!

Ainda não havíamos percorrido meia centena de quilómetros em Marrocos, e já havia dois grupos com itinerários diferentes. Uns foram pelo centro, outros pela periferia de Tetouan. Um mapa não e o território!
Foi no restaurante azul eléctrico da imagem. Discutir o preço de uma refeição é normal em Marrocos. Fazer baixar o preço significativamente, e depois dar uma gorjeta superior ao valor do diferencial negociado, é que é surpreendente. É ser mais papista que o Papa!
Habitualmente, os guias têm um percurso padronizado que leva aos estabelecimentos dos amigos de negócio, onde o grupo de demora com os vendedores. Em Chefchaoeun, o nosso não sofreu muito desse paradigma. Porém, o nosso guia deixou-nos numa ponta da medina, uma vez que havia acordado com outro grupo uma visita sensivelmente para a mesma hora. Era o "overbooking" a chegar às agendas dos guias marroquinos...

No Hotel Parador, foi necessário discutir o preço dos alojamentos reservados. Pagámos menos do que constava no documento de reserva, valor que já era bastante favorável. Imita a formiga e viverás sem fadiga!
Numa das esplanadas de Chefchaouen, um dos empregados “pescava” os clientes assegurando ter cerveja, mas apenas podia vender chá. Fazia-o com aquela inocência dos argutos, e denunciava a atitude sem rodeios. Não existe verdadeira inteligência sem bondade.

Em Meknes, passa quem mais apita. O alarme da moto do Mariano, que se ligava a espaços, contrariou a ordem de paragem do sinaleiro, que acabou por mandar parar os outros veículos e deixar-nos passar. Quem não chora, não mama!
Na Bab Al Mansour, um polícia autorizou o atravessamento do traço contínuo e permitiu o estacionamento de 14 motos, mesmo em frente da porta mais famosa de Meknes. Devia ser a tal “atenção ao cliente”!

Na imagem em que o branco apenas nos rodeava, ainda não nos caía em cima. Mal saímos da Floresta de Cedros começou a nevar. Estávamos no final de Março, eram 7 da tarde, e o termómetro marcava um grau negativo. Íamos para o deserto, era o que estava previsto. Lá como cá, Março marçagão, manhã de Inverno, à tarde verão…!
Os recepcionistas do

Às vezes, confunde-se conhecimento com sofisticação e tecnologia. Felizmente, a electricidade não tinha segredos para o electricista marroquino que desligou o alarme da moto do Mariano em dois minutos. Mais vale burro vivo, que sábio morto!
O deserto tem muitas pedras, terra e sobretudo areia. Do acampamento,

Supõe-se que Marrocos é um país pobre. Dizia-se que se passava fome. Contudo, depois de um ‘couscous’ bem recheado de carne, no fim do jantar no albergue do deserto, surpreendeu-nos um cabrito gigantesco. Não há fome, que não dê em fartura!
Em todas as refeições, lá estavam algumas garrafas de vinho. Ficámos admirados por

Deserto que se preze, não tem nada nem ninguém. No Erg Chebbi, porém, um dos mais conhecidos desertos marroquinos, o trânsito fazia pasmar. Havia grupos de motos 4, jipes em caravana, Peugeots, Mobylettes, e até um Mercedes enterrado na areia. Um deserto… a tradição já não é o que era!
É do senso comum, considerar que deserto é uma porção de terreno onde não há água. Mas o que vimos à chegada, era um lago imenso a escassos

O Erg Chebbi tem riqueza mineral que é simultaneamente arqueológica. Os vendedores de fósseis, faziam-no precisamente ao lado de uma jazida a céu aberto. Não sei se vendem muito, sei que alguns de nós se abasteceram na fonte. Cego, é o que não quer ver!
Enquanto há quartos vagos, vão-se ocupando, independentemente da respectiva dotação. Quando chegámos ao albergue do deserto, não havia quartos duplos e individuais para todos. Alguns casais dormiram em quartos quádruplos. Há sempre lugar para mais um!

Fomos de moto. Mas em cerca duzentos quilómetros abanámos mais do que em toda a viagem, tal foi a tempestade de areia que nos sobressaltou entre Boulmane du Dades e as montanhas do Atlas. Por tal, almoçámos de lenço na cabeça e durante a refeição caíram alguns candeeiros. Não podemos dirigir o vento... mas podemos ajustar as velas!

Na praça El Fna, em Marraquexe, ouvem-se estórias, exibem-se cobras, faz-se teatro, vende-se água a copo. Destacava-se na altura uma mesa, que expunha centenas de dentes (o que está mais branco) e uma dezena de dentaduras (mesmo ao lado dos dentes). Aqui há tudo, como na farmácia!

Temos fama em demorar o almoço. Lá, tal como cá, a tradição ainda é o que era. Duas horas e meia para manjar peixe. A surpresa veio, porém, do trânsito de Casablanca, onde levámos mais de uma hora para deixar a cidade. A pressa é má conselheira!
Buzinar em Marrocos, é dizer “estou aqui!”. Mas não expressões iradas, apenas um coro de

Em Tanger, aproveitei para substituir a lâmpada de médios que estava fundida. Não paguei o material nem o serviço. Estranhamente, a nova lâmpada parecia não iluminar o chão à minha frente. Quando a mandei substituir, além de ter visto que não tinha quaisquer características gravadas, verifiquei que metade estava escurecida, exactamente a que devia iluminar o solo. Não há almoços grátis!
Já no regresso, e após a saída do barco em Algeciras, todos já haviam traçado o seu destino,

No entanto, Impunha-se saber por onde é que tinham andado os restantes comPANheiros, e as respostas à mensagem de boas-vindas que enviei a cada um.
Diziam o seguinte:
- Chegámos bem, com alguma chuva...
- Desde o Porto, tudo OK!
- Houve n alternativas. Eu fiquei na Isla Canela.
- Não estou a ver de quem é este sms mas se é de alguém das Pans, então cheguei bem. Até vim só desde Espanha…
- Obrigado pelo sms, obrigado pelo excelente viagem que nos proporcionaste. Está tudo bem.
- Ontem fiquei no Algarve. Só hoje cheguei a Lisboa. Um cozido à portuguesa, não tem nada a ver com uma tajine. Já tenho saudades.
- Só agora vi o teu sms. Só fiz asneiras no trajecto, mas cheguei bem.
- Cheguei bem cá a cima.

"Tudo está bem, quando acaba bem".
o relato desta viagem pode ser lido em
http://www.rituais.com/Downloads/Marrocos2007-Carlos_Cordeiro/Marrocos2007-Carlos_Cordeiro.pdf
A maioria das imagens filmadas são da autoria de Lena Marques, a nossa realizadora de eleição. Há igualmente outras imagens - inclusivamente algumas das fixas que marginam o texto - que são da autoria dos participantes mencionados na 1ª parte do vídeo.
Música: Oliver Shanti & Friends. Álbum: Alhambra