quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Margens Altas Do Douro

Agosto 2009

Os sentidos são os primeiros a manifestarem um pasmo festivo quando são convocados para mesclas peculiares de natureza e cultura em sítios que os cativam. O vale do Douro é um desses lugares. Fascina porque a natureza foi pródiga na dimensão com que abraçou o suceder do rio, encanta porque os homens enfeitaram as margens com socalcos luxuriantes e gostosos.

Sobretudo na última década, a paisagem duriense foi surtida pelo aumento vastíssimo da área de cultura da vinha, sobretudo o Douro beirão, e um pouco menos ocupada por amendoais e por olivais. Cor, textura, cheiro, espaço, foram alterados ou ampliados. O ambiente mudou não há muito tempo.
Já não são apenas as vertentes que amparam o rio a mostrarem os socalcos riscados de vinhas. A paisagem para o interior devolve agora um raiado abrangente que acompanha as curvas de nível das encostas. Além disso, a divisão das propriedades (fazendas, no dizer dos durienses com costela beirã) é agora mais visível mormente desde os cumes dos montes.
É a actualidade a manifestar-se em patamares ecológicos, a querer ocupá-los definitiva e extensivamente, aproveitando as qualidades naturais dos terrenos. A aridez daquela terra, que de Verão afogueava e de Inverno gelava, atenuou-se; os declives suavizaram-se; a cor do chão esverdeou-se; a textura das encostas compôs-se.
Não tem sido, porém, apenas o presente a transformar o território. Ainda é notória a presença de vestígios remotos, de testemunhos milenares que, também eles, ao escolherem os “seus socalcos”, demudaram o espaço duriense. A presença do pré-histórico tardio e do romano, além de serem indícios precursores da mudança, são ainda hoje prova de que estes lugares durienses eram outrora sítios de eleição.
Os vestígios de fortalezas da idade do bronze ou as ruínas romanas do Prazo e de Rumansil, são disso exemplo. Localizadas em promontórios esplêndidos, quer logísticos, quer paisagísticos, dizem bem das estratégias que, antes, tal como hoje, foram decisivas na vida das populações. São obras cuja solidez lhes dá ainda um cunho de permanência, uma robustez firmada nos materiais (granitos), uma notoriedade assente no aspecto cultural que representam.
Fortificações, túmulos, habitações, templos, caminhos, objectos de culto, equipamentos sociais, representações de carácter religioso, com mais e com quase vinte séculos, são a face visível das civilizações antecedentes, uma herança que ombrea com a dinâmica da actualidade.
Hoje, a paisagem dos terrenos próximos do rio está prenhe de cultura vinícola. Os antigos muros das fazendas, criados por calhaus de granito há muito que se haviam emboscado na paisagem. Mas, recentemente, o tecido dos solos, penteado agora por linhas contíguas, marca claramente a divisão das quintas, dando ao cenário ares de mancha de retalhos patrimonial.
As margens do rio alteram-se nitidamente quando a sua vizinhança cambia. As vertentes do Douro mostram-se menos permeáveis quando abandona as Beiras e fica entre o Trás-os-Montes português e a congénere espanhola Castela e Leão. Aqui, as encostas não se têm deixado moldar com tanta facilidade, quanto muito autorizam a existência de laranjeiras, amendoeiras, oliveiras e algumas vinhas.
No chamado Douro Internacional as ondas de vinhedos que polvilham os socalcos do rio mais à frente, dão lugar às tramas de lodão, aliás as maiores manchas florestais da Península desta espécie. São milheiros de árvores iguais às que vemos nos passeios urbanos, aqui dispostas numa malha apertada e em declives acentuados.
Enquanto nas Beiras é mais evidente o trabalho do homem, aqui é mais notório o trabalho da natureza. Quando o granito surge destacado e solitário, parece uma composição estraçalhada, tal a desordem das rupturas e dos calhaus no terreno. É a natureza que molda os Caos de Blocos, que emprestam à paisagem ribeirinha um aspecto confuso e intimidante.
Imponentes, revelam-se as cristas quartzíticas, fracturas no declive que moldam perfis verticais, que resistem à erosão. Surgem como monólitos, guardiões das margens, memórias dos conflitos entre os quartzitos e os xistos. Guardam fósseis, definem a paisagem, metem respeito. Também garantem abrigo à biodiversidade que acolhem: aves de rapina - águias, grifos, abutres, falcões – e outras - garças e cegonhas negras, ou ainda, lobos, gatos-bravos, javalis, corços.
A cada curva do rio, o horizonte mostra perfis em “V”, onde imperam sentinelas pétreas altivas e poderosas, cavernas, nichos e plataformas inacessíveis. Após cada enseada, é possível observar a quietude de uma garça alva, ser surpreendido pelo voo de uma rapinante, ou pelo mergulho de um sardão. Mas é o gigantismo que predomina, o rio-espelho que nos conduz, o azul do céu que nos deslumbra. Que pena, o Douro fugir para o mar.

Música: Sonic Mistery


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Por Terras de Viriato

Outubro 2009

O genuíno aparece cada vez menos. Talvez a imediaticidade o oculte, talvez não estejamos tão dispostos a observá-lo. Mas, apesar da inevitabilidade do tempo recente e das nossas idiosincrasias, o genuíno continua a encantar-nos. Percebe-se porquê: é raro, original, tem autoria reconhecida e identidade perene. Por terras de Viriato, ainda há coisas genuínas, validadas pela natureza e pelo homem.
Quando a natureza vinca a terra, dobrando-a ou elevando-a sobre si própria, estabelece limites, barreiras ao que fica e aos que ficam de um e do outro lado das montanhas, dos que ficam do lado das montanhas e dos que ficam nos sopés. Essas fronteiras marcam os homens, sobretudo "os de lá", e estes cunham o território que dominam com a sua autenticidade, com as suas práticas, com o quotidiano que, “mais protegido”, se vai reproduzindo à imagem ancestral. Foi essa relíquia que encontrámos nos lugares que vistamos neste fim-de-semana.
Abandonámos a área urbana viseense. Do vale, trepámos a Arada com os olhos na Freita, inicialmente pela floresta, depois entre urzes e carquejas. Num instante, as motos levaram-nos do Paraíso – aldeia no vale – até ao Portal do Inferno – um saliência abrupta quase a tocar o milhar de metros. É caso para dizer que, num ápice, ganhámos o céu!
A montanha continua a dominar um ambiente de que o homem abdica cada vez mais. Apesar da melhoria das estradas e das comunicações, há aldeias que vão sendo abandonadas; Maçagoso, ali próximo, foi uma delas. Fujaco, porém, ainda alicia os seus parcos habitantes, além de atrair forasteiros como nós.
Quem conhece Cain, nos Picos de Europa, pode concluir largas semelhanças no acesso à aldeia de Fujaco: uma plataforma estreita de paralelepípedos roça os outeiros e sobrevém ao regato que corre num vão fundo. Depois, é o xisto que avassala, ao longo de uma via rústica e sinuosa. Até ao cimo da colina, onde pontifica uma ermida, passa-se pelo Rochedo, um café-restaurante encostado a uma parede... rochosa.
Foi ao longo de muitas torceduras, algumas bem tortas, que escalámos até à ermida e abarrotamos o átrio. Daqui, soltamos os olhos à procura da arquitectura e da assimetria das casas, envoltas no verde luxuriante dos castanheiros, oliveiras, pinheiros e sobreiros. Apesar de o xisto claro dominar as habitações, vêem-se muitas telhas vermelhas.
Aqui, há sempre um “bom dia!” para o forasteiro, singelo e imperioso. O contacto não se faz rogado, quer seja pelo que se pode receber dos outros, quer sobretudo por aquilo que lhes é possível entregar. São coisas simples, originais, artesanais, que têm para trocar. É (também) destas permutas que a gente vive. É obra do homem.
Estimava-se que a restante digressão fosse semelhante, na tal singularidade, na tal rareza, no belo que a todos encantou, quando a estrada insistiu na subida e galgou até perto das colossais hélices que aproveitam o vento que sopra forte naqueles cabeços. Aqui, os contrastes iam do gigantismo das pás ao precipício que nos ladeava, da aridez do terreno, à luxúria do horizonte. Estávamos entre o céu e terra.
Na verdade, andávamos mais perto do Inferno, de abismos respeitáveis, das Covas do Rio, das Covas da Serra, e do Portal do Inferno, uma abertura numa parede rochosa, de onde que se vislumbra não o Inferno, mas um panorama abissal, ainda que longínquo, sobre os cumes que rodeiam o lugar. Da plataforma onde se deu uma derrocada de xisto, pode espreitar-se o vale contíguo que desce infinitamente ao longo de encostas abruptas. É certamente uma varanda alcantilada, singular e intimidante. É obra da natureza.
Um pouco mais à frente, descemos para a Aldeia da Pena ao longo de uma estrada estreita, pejada de pedras e de algumas covas não tão fundas, porém, como as do Inferno. Alguma dificuldade para estacionar – não entram veículos a motor na aldeia – mercê da enxurrada da semana anterior que havia dado cabo do espaço exíguo onde se deixavam as viaturas. Foi obra da natureza.


Há algumas passagens com areia, cascalho fino ou pequenas placas de xisto, desalinho criado pela forte chuvada da seman anterior. A estrada não tem bermas nem baias, mas tem um amplo horizonte por limite. Metem respeito, aqueles declives, mas também fascinam pela dimensão, pelo desafio, pelo dever de controlo.
No interior da aldeia, ao abrigo de um alpendre de xisto esperava-nos um aperitivo de queijo, presunto e vinho. Apesar de ser ainda cedo para tal insígnia, ninguém se queixou especialmente do aveludado da pinga. Anexo, ficava um restaurante com mais dúzia de mesas, recheado de cartões-de-visita e pedaços de papel onde os comensais dizem da sua jornada. O "Martelo", mais à frente, também os mostrava.
Fora, percebe-se a limitada dimensão da aldeia e o sossego diz da escassez de pessoas. Disseram-nos que não são mais de dez, sendo que dois estão ausentes. Uma família, por tanto. Isso não impede que, rapidamente, nos ponham ao corrente das últimas novidades da terra, especialmente do que lastimam: a velhice de alguns, o isolamento, a falta de estacionamento para os visitantes, a lonjura das instituições.
Mais concentrada do que a do Fujaco, a aldeia da Pena não mostra telhados vermelhos, antes um xisto mais escuro. Na loja-museu de artesanato são os objectos de madeira que predominam. As ruas são mais estreitas, tem menos habitantes e o acesso é mais penoso do que o da sua congénere do Fujaco. Deixámo-la, entusiasmados com a tal raridade com que nos brinda.
Daí a nada, estávamos no emissor de S. Macário, a invadir a ermida do mesmo nome que, lá no alto, está defendida com espessos muros de granito. Foi ao abrigo das antenas de rádio e de televisão que nos expusemos para registar a foto de grupo. Não aquecemos o lugar.
Descemos em fila indiana assimétrica, como é habitual. Para trás, iam ficando os precipícios que nos haviam acompanhado a manhã. Por aqui, há risco, minimizado porém pela velocidade baixa a que seguíamos. As motos queixaram-se de alguns ganchos mais sérios, da areia que borrifava algumas curvas e de uma ou outra rajada de vento no cume.

Tal como meses antes, quando trepámos os Pirenéus Atlânticos, a peregrinação motociclística serpenteou pelas serras percorrendo diferentes patamares ecológicos. Desde o planalto, onde a irregularidade do relevo ainda é ténue e a vegetação abundante e diversificada, passámos aos outeiros, mais acidentados e com a floresta a alinhar-se densa, para depois subir definitivamente aos cabeços, onde são as fragas e a aridez que subjugam.
Com pouco tempo para dedicar às pessoas, a diferença veio da observação da natureza, sobretudo da estratificação ecológica, onde os patamares ambientais se distribuem em altitude. É típico de regiões acidentadas, tão original como é emblemática a diferença cultural que as gentes de lá experimentam face aos outros, na espiritualidade, na economia, nos rituais.
Com a aproximação da hora de almoço, foi o “Martelo” que nos abriu as portas com um conjunto de deleitosos aperitivos que, ainda assim, não desacreditaram os manjares sequentes. Foi o primeiro sinal de que o fim-de-semana concretizaria um ciclone gastronómico. Houve quem se perdesse a caminho do restaurante mas, uma vez lá, todos encontraram o trilho para o excelente “branco” do Curral da Burra.
Depois, visitámos o velho “Martelo”, uma atarracada divisão em chão de terra batida, que estava pejada de vestígios de grandes farras e expectativas registados em todos os tipos de papéis possíveis. As carnes eram grelhadas na parede de pedra exterior, no espaço de um bloco mais estreito, sem chaminé, a tingir de negro de fumo a parede mais exposta à rua principal. Outra raridade, hoje institucionalmente banida.
Catita, mostrou-se Póvoa Dão, um antigo lugar de casas pétreas recentemente recuperado com objectivos turísticos. Passámo-lo em revista “sem tirar os pés dos pedais”. Resgatado à imagem do passado, segue a traça rústica da região, porém com uma irrepreensibilidade excessiva que copia o desenho antigo mas não reproduz o ambiente remoto.
De novidade em inovação, fomos surpreender a folia ao gelo. Minus 5, no centro comercial viseense, é um lugar que concorre com as temperaturas negativas que se fazem sentir na Concentração dos Pinguins. Trata-se de um bar construído em gelo, em que até os copos têm de ser pegados com luvas. Só vende bebidas frescas e obriga a vestir roupa quente que dispensa num bengaleiro polar.
Com a proximidade da noite, o tempo arrefeceu até perto dos valores sentidos na partida matinal. No entanto, um agasalho ligeiro foi o suficiente para nos abrigar uma curta caminhada até à Mesa da Sé. Foi lá que comemorámos o aniversário do Clube e do nosso companheiro Justino, ao som de aclamações a ambos, entre a diversidade das entradas, a delícia das carnes e a doçura das sobremesas.


Desta vez, tivemos a companhia de alguns amigos espanhóis e do Bernard, do 'Sy Hay Que Ir Se Va'. Também eles se juntaram à festa, o que, para espanhóis, é como estar em casa. Discursos, agradecimentos, votos, apagar de velas, alegria, piadas, tudo acompanhado por espumosos farristas. Estava cumprido o ritual.
De manhã, repetimos o trajecto, agora com destino à Sé e ao museu Grão Vasco. Percorremos os três andares deste último, entre esculturas, pinturas, e na sua maioria objectos sacros, datados desde a antiguidade cristã até à contemporaneidade. Corria a missa na Sé vizinha, pelo que o périplo foi sobretudo à volta do claustro, com os olhos a perderem-se por um extenso painel de azulejos.
Eira da Bica, nos arredores de Vouzela, recebeu o restante da comitiva CPEP, já praticamente com os membros da Trofa, meia dúzia de lisboetas e um portuense. Os espanhóis sairiam em sentido contrário, o Bernard e o António para algures. Para rematar a expedição, o almoço andou entre vitela e borrego celestiais. Mais longe, ficavam as Covas onde os Lusitanos resistiram, o Inferno onde romanos se instalaram, as Ribas onde muitos godos passaram. Nós ficámos sobretudo com Fujaco e Pena na memória, envolvidas naquele ledo e duro ambiente de gigantes, antes defendido por Viriato.


Música: Pat Metheny e Tiesto

terça-feira, 21 de julho de 2009

Mendiz Mendi* nos Pirenéus Atlânticos

* "de monte em monte", em basco
Julho 2009
Lisboa ficou para trás, tal como em outras tantas ocasiões que vão para mais de trinta anos. A ponte 25 de Abril voltou a ser, além de uma “passagem para a outra margem”, uma ponte para a viagem. Quando atravessámos o Tejo ainda estava fresco e o trânsito fluido, mas o sol já nos indicava a leste que a jornada seria soalheira. Até à fronteira, não havia programa. Era cumprir a solidão da A6 até Badajoz. Aí sim, podia haver compromisso: visitar o Ricardo, um antigo mecânico que trabalhara com o Armando Borges, e que hoje possui uma oficina na cidade espanhola. Não estava. A opção foi beber um café na Venta de Don Jose, na saída de Badajoz para Madrid, e reconhecer que até o Paulo Futre lá parava, pelo menos para ficar na fotografia com o dono.
Depois, quisemos nutrir ainda mais a nostalgia. Durante anos a fio percorremos de moto a “nacional” que levava a Madrid, quer fosse para assistir às provas no circuito de Jarama, quer para ir além Pirenéus. Próximo da ponte que atravessava o Tejo na região de Almaraz, era costume parar para reabastecer, após concluir umas quantas curvas valentes, algumas delas autênticos ganchos. A esse troço, chamávamos-lhe “serra” e terminava aqui junto do lago que o Tejo formava. Hoje, o restaurante está em ruínas e o posto de abastecimento já não existe. Se alguma saudade existia, pareceu melancólico lá passar. Madrid, atravessámo-la pela habitual M40. Estava quente, mas o trânsito corria suavemente, adensando-se à saída da capital sensivelmente até Guadalajara. Parámos para descansar e repor líquidos junto à Calle Mayor. O calor mantinha-se acima dos trinta e cinco e, surpreendentemente, os blusões já pingavam (!), uma estreia em matéria de viagens de moto.
O alvo era agora Siguenza, um burgo medieval situado a cerca de duzentos quilómetros de Saragoça. Chegámos ao fim do dia, após percorrermos uma "municipal" cálida e inóspita. Quando o alaranjado do ocaso iluminou as muralhas egrégias do castelo, erigido sobre uma colina que domina o casario da pequena encosta, pensei que descobrir Shangrila ou El Dorado devia ser semelhante. Aproveitámos um preço promocional da pernoita no Parador, mas declinámos o orçamento do pequeno-almoço. Lá dentro, encontrámos uma placa que relacionava Urraca, tia de Afonso Henriques, com o foral da vila e com o castelo. Desvendámos também um ambiente apropriado ao lugar, onde a pedra invadia as paredes, a madeira enfeitava os tectos e as dimensões das salas subjugavam. O passado ainda existia ali.
Do pátio, a vista apossa-se das muralhas em toda a volta, das pequenas janelas dos quartos, do poço central e de algumas varandas que prolongaram os aposentos mais atractivos. Fora, percebe-se imediatamente uma pequena barbacã que antecede a porta principal. Foi essa que nos defendeu a Pan durante a noite, adormecida aos pés de um dos torreões. O castelo estava em ruínas quando foi transformado em Parador. Salas, átrios e muralhas foram recuperadas e favorecidas; as paredes preenchidas com tapeçarias, quadros e espelhos; os tectos com ripados de madeira e candeeiros de ferro. Estivesse a pedra mais tosca e a sensação de outrora seria ainda mais notória.


Banho, roupa decente, observações ligeiras, e novo périplo pelos corredores do segundo piso. Descobrimos um átrio envolvido por quartos. Devia ser uma das torres que fechava dois panos de muralhas. Depois, descemos uma escadaria larga, passamos por duas armaduras que guardavam o salão e desembocámos na recepção. Foi lá que entregámos a chave da fortaleza. Rua abaixo, deixamos as ameias a argentar com o fim do dia. As casas são invariavelmente em pedra. Algumas têm datas remotas esculpidas por cima das portas, muitas ainda com arcos de volta perfeita. A igreja das Clarissas mostra-se com um pórtico particularmente interessante. A Calle Mayor leva à Plaza Mayor. Dessa centralidade, abarca-se a catedral, o palácio do Ayuntamiento, o museu Diocesano. A loja de artesanato, na imagem acima, é uma delícia de novidade cerâmica e de gosto nas peças expostas.
Na vila ainda se reconhecem várias "portas" que davam acesso ao interior do burgo medieval.
É por uma que verificamos apenas deixar espaço à passagem de um carro. As ruas são estreitas e o chão é em paralelos ou laje. Há muitas habitações em recuperação. Uma torre que liga dois panos de muralhas ainda mostra a grande dimensão da zona urbana medieva.
Mais tarde, foi procurar restaurante, espreitar uma possível entrada na catedral pelos "fundos", devorar meia dúzia de tapas, e deambular pelas ruas iluminadas sob o ocre das luzes baixas.

O dia acabava com um ar cálido, com os vizinhos a conversar na rua, e as muralhas do castelo a reflectirem prata.
De manhã, tomámos o pequeno-almoço (ensurdcedor) ao som dos sinos da catedral.
Saímos depois das dez da manhã para percorrer a campina castelhana e passar para os enrolamentos de Navarra. Com efeito, para norte de Siguenza, o relevo transforma-se. Há planícies com salinas ou culturas cerealíferas, interrompidas com pequenos montes, alguns com uma cobertura escura que parecia xisto. Aliás, o cenário daquelas encostas repetiu-se até à zona do Parque Nacional de Bardenas Reales.

Uma vez que já conhecíamos Olite e o seu castelo apalaçado, optámos por descobrir Ujue, a cerca de uma dúzia de quilómetros, e visitar o seu conjunto monumental. É um sítio pequeno, hasteado numa colina a mais oitocentos metros de altitude. É a igreja-fortaleza de arquitectura gótica que rivaliza com a estética de "O Nome da Rosa", de Eco.
O conjunto é esguio, assimétrico, pétreo, com portais delgados, e duas torres ameadas. Exceptuando o caminho de ronda, as ruas são estreitas e curtas, as casas estão muito próximas umas das outras, a estrutura é caótica e pretendia ter funções defensivas, há varandas e telheiros de onde se vislumbram os vales em redor.
É um típico burgo medieval. Nesta altura, continuava a sofrer intervenções de restauro e o núcleo mais interessante estava fechado. Embora ainda situada no planalto, sente-se um ambiente serrano que se estende aos sabores da carne estufada.
Com a montanha ali próximo, não era provável que Pamplona estivesse tão quente. Enganámo-nos! Durante uma paragem num dos semáforos, vimos que o termómetro marcava 38 graus. Esclarecemos a direcção a seguir após termos falhado uma saída, e partimos a caminho dos Pirenéus. Subimos até ao Alto do Erro, com a temperatura a manter-se quente. Lá no cimo, parámos numa espécie de miradouro situado a 800 metros de altitude, onde bebemos água fresca, exactamente quando os blusões voltaram a pingar. Logo após, começámos a descer, serpenteando até Roncesvalles, agora acompanhados por bosques que não davam sinal de precisar de água.
Assim foi, até à famosa localidade que ainda faz parte do célebre Caminho de Santiago.
Trata-se de uma terra pequeníssima com alguns alojamentos, um complexo de edifícios religiosos, lojas de artesanato e recordações, um parque de merendas, lugar de paragem mais que não seja para recuperar alguma energia e arremeter para Santiago ou pela montanha.Esta começa a trepar um pouco mais à frente, exactamente de onde o céu de cinza troava. A estrada enrolou-se e estreitou, o bosque adensou-se e a frescura apareceu finalmente. Sem sabermos onde, passámos da Navarra espanhola para o País Basco francês. Subimos alguns quilómetros, mas foi na descida que as curvas começaram a dobrar-se cada vez mais, por vezes ao longo de um rio que corria silencioso alguns metros abaixo. Não tardou a termos companhia de três motos francesas que, porém, rapidamente nos deixaram, entretidas em aproveitar o bom piso e as curvas do declive.Chegámos a Saint Jean Pied de Port com a tarde a fechar-se. A cerca de dez quilómetros ficava o nosso destino dos próximos dias, Saint Martin D'Arrossa. Concluíamos com quase 1200 quilómetros percorridos desde casa. Parecia estar quase a chover quando deixámos a recepção do hotel, rumo ao quarto que nos estava destinado no anexo. Naquela região, a hotelaria não tem muitas camas, pelo que é difícil alojar um grupo grande no mesmo edifício.
A proposta do Bernard contemplava um périplo por montes e vales nos Pirenéus Atlânticos, onde a paisagem seria o leit motiv para a alma. Para tanto convidou o Clube Paneuropean de Portugal, e o SyHayQueIrSeVa de Espanha, dos "nosso" catalão Jaime Palau-Ribes, e dos "nossos" galegos Ana e Antonio.
Abordar-se-iam as verdejantes encostas pirenaicas, visitar-se-iam queijarias e lagares, proceder-se-ia a provas de enchidos, queijos e vinhos. Para tal, juntaram-se 25 motos, 14 espanholas, 8 portuguesas, 3 francesas. Corria uma certa aragem na manhã do dia seguinte. Quando saímos da primeira prova de enchidos, começou a chover. Embora o céu estivesse plúmbeo, o ambiente coloria-se pelo vermelho das portadas e das malaguetas deixadas a secar nas varandas de madeira pintada. Perto, o rio que atravessava a localidade levava até uma casa apalaçada de torres redondas e telhados cónicos, típica dos espaços rurais franceses.
A incursão inicial pelas encostas aconteceu debaixo de chuva. A temperatura não ia agora além dos 15 graus. Mais á frente, foi a vez de visitarmos uma cooperativa de fabricação de queijos de recente formação. Além de produzirem ainda com algumas técnicas artesanais, as ovelhas que ordenham são de uma raça autóctone ainda levada pelos pastores para os viçosos pastos pirenaicos.
Foi esse ambiente frondejante que percorremos durante a tarde, ao longo da harmonia dos prados e da homogeneidade das fachadas das casas. O sol manteve-se e a caravana envolveu-se tranquilamente por aquele arvoredo ponteado de vinhas e árvores de frutos.
Ao almoço, a surpresa surgiu com a sobremesa, uma fatia de bolo basco servida após ter ardido em álcool. Enchemos a sala de refeições de outro pequeno hotel. Omnipresentes, os queijos e, desenquadrado do nosso padrão, o facto de servirem salada no fim da refeição. Já às tantas, voltámos ao verde, às curvas, às vacas, à floresta, às ovelhas. Pouco depois, regressámos ao hotel. O jantar foi, como no dia anterior, leve. Deitámo-nos cedo acompanhados pelo bucolismo do ambiente. Mas a chuva só nos deixaria no dia seguinte.
A primeira visita da manhã levou-nos a um lagar da região, onde são fabricados os tintos, os ubíquos rosés, e alguns vinhos brancos. Não fizeram grandes adeptos entre os portugueses. Detalhe curioso, o facto de cortarem as parras das videiras para melhor deixarem penetrar o sol nas uvas.
Daí a pouco, estávamos em Saint Jean Pied de Port, vila que pertence ao Caminho de Santiago, Património da Humanidade.
O castelo, a rua principal e a ponte são de visita obrigatória. Talvez por isso estes locais enxameassem de turistas.
Muitos dos forasteiros eram peregrinos (não faltam símbolos nem ícones ligados ao Caminho de Santiago), outros jovens em campos de férias (devemos ter enganado um, na resposta a um questionário), outros vizinhos espanhóis (que estão perto), outros emigrantes portugueses (que se surpreenderam ao ouvir falar a língua materna). Seja qual for a origem ou o intuito dos visitantes, a verdade é que daquela meia dúzias de ruas ainda parecem chegar os ecos medievais.

O almoço voltou a surpreender pela quantidade e qualidade, mais uma vez servido num pequeno hotel. O tempo descobriu-se e sol iluminou-nos de novo, afastando a sensação de humidade que nos havia acompanhado a manhã. Quais lagartos pirenaicos, saímos do restaurante para a exposição às lentes das máquinas fotográficas, numa sessão cálida que apanhou ...

... em baixo, da esquerda para a direita, António Zamith, Carlos Cordeiro, Quim Soares, António (vizinho português do Bernard), José e Lena Marques, Pinto dos Santos, António Carvalho, Julieta Libório e António Branco.Mais tarde, voltámos à estrada. Apesar de ser Verão, o verde continuava a dominar o horizonte. A digestão fez-se ao longo de curvas que agora trepavam mais fechadas, onde as Goldwings eram obrigadas a apontar correctamente para as cumprirem de uma vez. Os ganchos sucederam-se cada vez mais pronunciados e sem visibilidade, contudo a circularmos num ritmo calmo e em ambiente muito agradável.
Quanto mais alto estávamos, menos vegetação alta nos acompanhava. A partir de determinado ponto, os penedos sobrevieram tal como se estivessemos nas Beiras. Ao longe, via-se gado, sobretudo ovelhas e vacas e, no ponto mais alto que atingimos, eram cavalos que também por lá se passeavam. Pouco antes, havíamos observado alguns predadores alados (nestes locais são habitualmente águias) que evoluiam praticamente à mesma altitude em que circulávamos.No cimo, paisagem e animais surpreendiam. As serras em redor tanto se elevavam acima de nós, como espremiam inexoravelmente os vales glaciares contíguos. Perto de nós, passeavam cavalos de longas crinas entre o pasto e o bebedouro. Embora a temperatura fosse baixando, sentia-se diferença na respiração e o ambiente mais tranquilo.
Ao descermos, voltámos a rodear os montes à beira de declives valentes. Mais abaixo, voltámos aos ganchos que se se iam imiscuindo na floresta.
Ainda passámos por Saint Jean para comprarmos recordações, bebermos uma cerveja basca e repetirmos algumas das fotos da manhã. O final da tarde parecia antever um novo dia com bom tempo.
À noite, a cidra foi rainha.
A bordo de um autocarro rumámos a uma cidraria que distava cerca de dez quilómetros do hotel, já nos arredores de Saint Jean. Propriedade de um motociclista francês, a cidraria dispunha de dois tonéis embutidos na parede, de onde jorrava, através de pequenas torneiras, a célebre bebida de maçã. Uma boa ideia do Bernard.
Divertida, foi a maneira de escaçar a cidra: um abria a torneira, a cidra esguichava e sucessivamente quem estava previamente em fila esticava o copo, que enchia até meio, dando depois a vez ao seguinte. Foi um ritual que durou até perto da meia-noite.

No final do jantar, o Bernard fez a habitual distribuição de recordações do passeio. A nós, calhou-nos uma garrafa de cidra, e um 'cooler' em barro mercê de termos sido os que haviam viajado de mais longe. A outros, a sorte cobriu-os com véus...Ficou combinado que seríamos os primeiros portugueses a sair no domingo e que viajaríamos sós, tal como sucedera para lá. Mais de mil quilómetros se perfilavam para serem consumidos durante o dia. Os restantes membros do CPEP, por morarem em ou acima de Coimbra, sairiam mais tarde e em grupo. Parece que o conseguiram durante os primeiros cem quilómetros.
À partida, estava fresco, o céu nublado e o trânsito diminuto na "nacional".
Num instante, estávamos na A63, perto de Biarritz. Conforme íamos descendo a caminho de Espanha, o céu foi ficando cada vez mais escuro e ameaçador. Próximo de San Sebastian já chovia. O regresso estragava-se.
No entanto, até Vitoria, o tempo arranjou-se.
O sol fugiu das nuvens (que se recolheram para norte), e o vento afastou a chuva. Quando parámos para comer qualquer coisa mais à frente, a área de serviço agitava-se com milhentos turistas magrebinos, invariavelmente carregados com mobílias francesas. A azáfama era tanta que já se mudavam fraldas em cima de um lavatório...A ausência de vento e o claro do céu anunciavam que o tempo iria aquecer. Nos arredores de Palência, já se sentia o calor do sol a malhar nos blusões. Aproveitámos para almoçar e sentir a frescura de uma área de serviço.
Aí, passava nos televisores o GP da Alemanha, quando Rossi e Stoner seguiam juntos na frente.
"Ganhámos o dia" quando, já na moto, uma das empregadas nos entregou a máquina fotográfica, esquecida nas costas de uma cadeira.
Há muito que a temperatura já havia ultrapassado a trintena de graus. Foi assim até Vilar Formoso. Depois, nem uma aragem e, perto da Guarda, o calor já era impressionante.Quando parámos próximo de Castelo Branco, onde nos deixou uma BMW GT que nos acompanhava há meia centena de quilómetros, nada mexia. Os blusões voltaram a ficar molhados e foi preciso baixar o índice térmico recorrendo a um par de bebidas geladas.
Em sentido contrário, seguiam os que regressavam da Concentração de Faro.
Só voltámos a parar para reabastecer perto de Santarém, onde já se sentia uma aragem fresca. Ao chegarmos a casa, porém, a brisa lembrou o ambiente dos vales pirenaicos.
Música: Fortadelis - Convergence