quarta-feira, 17 de junho de 2026

O Cais Mágico

Tantas são as vezes, que nos esquecemos de quantas vezes lá fomos. O regresso à “Escola” é inevitável, quer pela gastronomia, quer pelo sítio. Se a gastronomia é relevante, o local parece ter uma simpatia ímpar com Troia. Mas não só.

Começamos pela “instrução primária” ao sabor de uma empada de lebre. Vamos com amigos. É assim que se está bem por aqui, partilhando boa comida e melhores momentos, bem como memórias de milhares de quilómetros a viajar de moto.

Pouco antes da homónima Turca, cuja península é um ex-libris da região, e faz parte de um circuito que liga Setúbal, Alcácer do Sal e Comporta, existe uma construção comunitária tão paisagística como socialmente relevante.

Uma obra-prima da arquitetura popular espontânea. Um caminho suspenso como solução engenhosa. Um porto de abrigo sui generis face às marés. Um caminho de subsistência para as famílias de pescadores.

O Cais Palafita da Carrasqueira pode ser tudo isto. Em seu redor, a impenetrável barreira de lodo, que isola qualquer acesso a embarcações, ditou o engenho. Emergente de uma necessidade comunitária, o cais palafita está lá há mais de seis décadas.

Erguido entre as décadas de 1950 e 1960, o porto artesanal respondeu à demanda de acesso seguro aos barcos, a qualquer hora do dia, sem estarem dependentes das marés do Estuário do Sado.

Como resolver este problema? Ao enterrarem estacas paralelas de madeira no lodo e, depois, ao estenderem entre elas um passadiço, os pescadores asseguraram caminhos de acesso aos ancoradouros e ao rio.

 

Portugal tem alguns exemplos de organização comunitária - como sejam as vezeiras, os fornos e as hortas comunitárias, p. ex. - que reflectem uma mobilização de recursos e a formulação de estratégias de ação com características de entreajuda.

No caso deste Cais Palafita, é a subsistência assente na pesca artesanal e na apanha de bivalves (ostras incluídas), que junta o engenho e o trabalho de um conjunto de famílias em prol da comunidade pescatória.


Uma comunidade que partilha o acesso e alguns apetrechos, mas cujas famílias possuem uma pequena cabana/armazém onde guardam as artes de pesca e cujo acesso é feito através do passadiço ziguezaqueante.

São centenas, se não milhares, de estacas rústicas de pinho que serpenteiam água for a, desfiando a gravidade e o tempo, num rendilhado de madeira, desgastado pelo sol e pelo sal e que sustenta um labirinto que parece flutuar sobre o Sado.

Na calmaria da maré, o cenário transborda silêncio, interrompido apenas pelo restolhar das aves aquáticas, um ou outro coaxar e pelo suave balanço dos barcos ancorados, tão leve que a maré parece adormecida.

A paleta de cores transforma-se com o passar das horas. Ao amanhecer e ao crepúsculo, o céu tinge-se de tons dourados, violetas e carmins, que se refletem na água estagnada e na lama húmida, transfigurando o cais numa tela viva.

Esta arquitetura frágil, erguida sem planos mas cheia de alma, ergue-se como um hino à resiliência humana, onde a mão do homem e a força da natureza se fundem num abraço melancólico e eterno.

Apanhar o cais ao entardecer, mesmo num dia de Inverno soalheiro mas frio, mas todavia envolvido por uma luz difusa e enigmática, parece transformar o sítio de labor num ambiente mágico. E a silhueta de Troia e da Arrábida? Mais magia. 

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