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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Espanha Árabe

Se pudesse escolher uma imagem que ilustrasse o tema da Espanha Árabe teria sido uma da Mesquita de Córdoba, um dos monumentos que representa o legado arquitectónico árabe em Espanha. Outra do Alhambra, das Alcabazas de Málaga ou Sevilha, também seriam elucidativas dessa riqueza estética. Porém, a opção recaiu num enlace entre essa excelência, o gótico e o barroco, representados na torre da Catedral de Sevilha.  
A ideia deste périplo era ir ao encontro sobretudo da arte que os árabes deixaram em Espanha. São três séculos em que o Al Andaluz recriou a arte visigótica, contribuiu para a invenção do mudéjar, produziu o nazari e deixou muitos elementos arquitectónicos de uma beleza incomparável.
Mapa do passeio á Espanha Árabe
Embora utilizasse materiais pobres, o efeito decorativo que obteve foi de uma opulência ímpar. Facilmente reconhecidos, o arco de ferradura (de origem visigótica) e o arco lobolado, são os mais característicos da arte árabe em Espanha.
Exemplos desta arte tão fascinante são a mesquita de Córdoba, o palácio de Medina-Azahara, e a imponente Alhambra de Granada. Falhámos o primeiro, o segundo não estava planeado, mas dominamos o terceiro.

Previsto

A proposta fechou-se com a visita a uma mesquita, um alcazar e duas alcazabas. Faríamos paragens de descanso e visita em Jaen (castelo), em Nerja (miradouro) e, perto de Marbelha, na marina de Jose Banus. Não cumprimos tudo, mas pareceu-me que ficámos com uma noção abrangente do que pretendíamos.
Fugimos em tempo oportuno do temporal. De Lisboa, diziam-nos que a manhã de tempestade já criara problema na "Baixa". No Caia, porém, sentimos especialmente frio, mas não chovia. Aliás, o céu mostrava-se auspicioso a caminho de Espanha. No entanto, como era costume dizer-se, "de Espanha nem bom vento, nem bom casamento". Desta vez, porém, seria apenas o vento.
Proveitámos estar perto e fomos visitar o Ricardo. É português, mecânico de motos, possui uma oficina em Badajoz e teve uma história de vida agreste. Trabalhou com o Armando Borges e o destino levou-o a Espanha onde, agora, vive dividido entre a família e a mecânica das motos. Há anos que não nos víamos. Um salutar encontro.

Chegámos por vagas ao restaurante, em Zafra, onde havíamos combinado reunirmos todo o grupo. A maioria já tinha chegado ao Ramirez. Depois apareceram os restantes. Serviram rapidamente, mas a comida não convenceu. Mesmo assim, demorámomo-nos e saímos mais tarde do que o previsto. Passámos pelo Parador – um castelo apalaçado do século XV – e perdemos um bocado de tempo para abastecer.
Serviço rápido nem sempre é sinónimo de boa cozinha
Como não há viagem sem um desencontro, o Quim e o Arlindo lá foram andando, tendo sido os primeiros a chegar a Córdoba. Para lá, as planícies estremenhas mostraram-se frescas, ventosas, monótonas, mas com bom piso, curvas largas e pouco trânsito.
Choveu, mas nada de especial. Parámos antes de Córdoba para acordar com um café e entrámos na cidade próximo da zona industrial para, depois, nos abeirarmos do Guadalquivir que serpenteia pelo burgo.


Aquele habitual caos saudável 
O acesso ao hotel – e também à Mesquita – estava vedado devido a obras. Esse facto obrigou-nos a passar para a outra margem, o que nos deu a possibilidade de poder observar de longe a parte histórica ao longe.

À volta da Mesquita

O hotel ficava exactamente no limite dessa zona histórica. Arrumámos as motos na garagem subterrânea – exceptuando a de Málaga, todas as garagens eram subterrâneas – e tivemos conhecimento pela primeira vez de que seria difícil visitar a Mesquita.
Saímos a pé. Estávamos a cerca de 800 metros do monumento. Apanhámos uma das muitas ruas apenas destinada a peões, cada vez mais frequentes nos centros históricos das localidades espanholas, e fomos até ao turismo, situado numa praça simpática também exclusiva para peões.
Aí, advertiram-nos de que a visita à Mesquita não tinha vagas… até 5 de Novembro! No email, haviam dito apenas que não reservavam. Mesmo com visitas nocturnas, não havia hipótese de visitar o ex-libris de Córdoba. Ficaríamos pelo exterior, vedado que estava o acesso ao interior da mesquita.
Jantar em camisa, num pátio, em Córdoba, no final de Outubro
Sem essa condição, demos prioridade ao jantar. Fomos para a judiaria. Encontrámos um restaurante com pátio andaluz e jantámos sob um tecto de tecido que o cobria. O “rabo de boi” foi um sucesso.
Depois, partimos a caminho da Mesquita. Chuviscou e ninguém quis arriscar uma gripe. Nós aventurámo-nos nessa tempestade de segundos. Ficámo-nos pelas paredes exteriores da mesquita ao longo da dezena de portas em estilo árabe que dão acesso ao interior.
A dois passos, fica a ponte romana dominada a norte por uma porta e a sul por uma torre. A primeira, a Porta do Poente, estava em obras. Perto, um museu junta memórias das culturas muçulmana, cristã e judaica. A segunda, a Torre de Calahorra, do outro lado da ponte, destinava-se a proteger a entrada na cidadela.
Depois, arremetemos para as muralhas que ficam perto do Alcazar. Fomos desde a porta de Sevilha até à de Almodóvar e perdemo-nos por ali. A Julieta conseguiu reconhecer o local por onde entrámos – a avenida do parque – e conseguimos recuperar o trajecto até ao hotel.

Do cimo de Jaen

Na manhã seguinte, saímos perto das 9 da manhã. Estava enevoado a prometer chuva. Esta tombou pouco antes de Jaen mas sem convicção. Não tinha sido aquele itinerário que havia delineado, mas pareceu-me que seria mais interessante do que optar pela autovia.

Por isso, rodámos pela “nacional” entre colinas e mais colinas. Tantas, que ao fim de uma quantidade de quilómetros a indicação de Jaen ainda não aparecia. Saímos para um desvio para verificar o mapa. Foi a polícia que nos confirmou estarmos no bom caminho. 
Perto de Baena foi preciso confirmar o caminho
O frio manteve-nos atentos e a convidar a um café. Fomos tomá-lo ao castelo de Santa Catalina. Este domina toda a cidade que parece um tapete de telhados aos pés do cerro.

 Na verdade, são 3 castelos, de épocas diferentes, que se juntam através da parte ocupada pelo Parador. As origens remontam ao período de ocupação árabe, mas também foi abrigo de uma guarnição de soldados franceses de Napoleão.  
O bar do Parador de Jaen
A leste do cerro, onde as muralhas são mais elevadas, é onde se reconhece quer a sua antiguidade quer vestígios da ocupação oitocentista. É a parte visitável e de onde é possível vislumbrar com um olhar panorâmico toda a cidade. Fiquei a saber que o castelo está a 820 metros no topo de um penhasco do mesmo nome.  
Jaen aos pés do castelo de Santa Catalina
Na parte do Parador é onde os salões mais impressionam pela dimensão, os objectos de decoração surpreendem, os materiais deslumbram e o requinte deste tipo de hospedagem melhor se nota. O tecto do salão feito com os habituais pequenos tijolos árabes é excelente. Também notável, o preço do café igual ao da área de serviço de Montemor.

Alhambra imprescindível

Descemos o cerro, metemos gasolina e apanhámos a via rápida que leva a Granada. Foi rápido. Dai a pouco estávamos no periférico que circunda grande parte da cidade. Esperava-nos uma valente fila de trânsito, aparentemente devido a obras numa das avenidas principais. Fomos entrando com alguma dificuldade e quase todos chegámos ao hotel pelo mesmo sentido.
Depois, foram duas ou três rampas para estacionar as motos em três exíguos lugares para carros numa garagem sob o hotel, onde conseguimos arrumar as 9 motos. Pagámos 17 euros por cada uma, o estacionamento mais caro da jornada, mas apenas ocupámos 3 lugares de carros. Alguém disse que devíamos ter estacionado cada moto num lugar de carro.
Duas horas à mesa num bar a romper pelas costuras
Não tardou em darmos três passos e abancarmos no primeiro bar. Uma tapa puxou outra e só nos levantamos quase ao fim de duas horas, tão demorada estava a cozinha. Foi a refeição mais demorada da joprnada, mas também a mais barata, já que a ficámos a dever aos três resistentes que aguentaram ainda mais_não_sei quanto tempo à espera da conta.
Daí a pouco, um representante do operador espanhol aparecia para nos informar sobre a visita ao Alhambra. Como ameaçava chover, apanhámos 3 táxis e lá fomos. Subimos por entre ruas estreitas onde os lugares de estacionamento são exclusivos de quem tem garagem. Mas ainda não eram as vielas do bairro Albaicín.
Entrámos no Alhambra pelos jardins/hortas, avançámos para os vestígios da zona residencial e chegámos ao palácio mandado construir por Carlos V. Este é uma jóia de arquitectura que foi buscar inspiração aos clássicos gregos e romanos, a contrastar com o envolvimento de estética árabe que o envolve. Dizia-se que era um palácio para a eternidade. Para lá caminha.

No pátio do Palácio de Carlos V
Apesar da cor já não ser notória ou estar ausente, quer os “arabescos” (o habitual baixo-relevo com inscrições corânicas), quer os arcos polilobados, lanceolados ou em ferradura (os mais frequentes na arquitectura árabe) dominam o espaço edificado. Só raramente se notam alguns azuis, dourados ou vermelhos, Julgamos que podemos imaginar o que seria a coloração de todas a aquelas superfícies, mas acho que nos enganamos.
Nos tectos, ainda se notam pequenos espaços pintados de azul
A paisagem que se abarca das janelas cai sobretudo sobre os bairros alcantilados. Para sul, é o cenário da serra Nevada que domina. Embora não o tenhamos visto, o pôr-do-sol costuma ser arrebatador. Mas, para o observar, é preciso trepar às muralhas junto da zona militar. De preferência no Verão.

No pátio das recepções, onde a ilusão dominava
Tivemos o privilégio de contar com uma guia que falava português do Brasil e nos evidenciou alguns dos detalhes mais interessantes do complexo. Acompanhou-nos depois ao longo das muralhas. Mesmo assim, não acedemos nem à zona militar nem aos jardins do Generalife que ficavam mais afastados da entrada.     
Pátio dos Leões, mas cujos felinos, após recuperação da pedra (ainda) estão expostos na sala contígua 
Depois percorremos a orla do bairro Albaicín, numa rua que o separa do monte e das muralhas do Alhambra. Foi lá que bebemos um aperitivo, antes de descermos à zona histórica, num bar que passava flamenco num televisor. Ali perto, era grande a profusão de lojas com objectos decorativos "made in Morocco". 

A catedral estava aberta, a aguardar por um casamento. Porém, foi a animação das ruas que surpreendeu. Estávamos a chegar ao Halloween e a movida jovem já invocava os deuses primitivos aos berros calles acima e abaixo.
Vista sobre o bairro Albaicín desde as janelas do Alhambra
Jantámos no “Centro de Granada”, um restaurante situado numa simpática praça da zona antiga da cidade, que parecia ter sido assaltada por pequenos pássaros que chilreavam no topo das árvores. Estava fresco, mas não chovia. Depois de um passeio pelo centro histórico, ainda sobraram pernas para alcançarmos o rio e acabarmos a caminhada entre pontes.

Ao sol no Balcon de Europa

Esperávamos que a Serra Nevada nos gelasse, uma vez que íamos rodar no sopé ao abrigo do sol que, naquela manhã, não apareceu. Depois, esperar-nos-ia a vertente mediterrânica da serra, com uma altitude significativa. No entanto, o frio não foi além do razoável, mesmo que tenhamos estado a dois passos de cumes nevados.

Parece Verão em Nerja
O que surgiu bravo foi o vento, sobretudo nos muitos viadutos que atravessámos a caminho de Motril. Abrandou, assim que atravessámos aquela localidade costeira, mas regressou mal tomámos a via rápida para Nerja. Disseram-me que a Pan estava a fazer um ângulo de 45º com o asfalto, um autêntico veleiro.
No Balcon de Europa com a típica paisagem mediterrânica
Deixámos as motos num parque de estacionamento próximo da zona de circulação pedestre que leva ao “Balcon de Europa”. Trata-se de um promontório mandado fazer pelo rei Afonso XII, que lá tem uma estátua em bronze. O sítio é desafogado e permite vislumbrar muitos quilómetros de costa, pequenas praias e o cenário alvo das casas penduradas nas escarpas.
Nerja
Na Alcazaba de Málaga

Regressámos à estrada da ventania. Só na zona urbana de Málaga o vento nos deixou. Rodámos sempre perto uns dos outros e, quando chegámos juntos ao hotel Bahia de Málaga, a porta da garagem já se abria devagar.

Almoçámos ali perto e, como habitualmente, saímos a pé para a zona histórica por volta das 4 da tarde. Parámos a meio percurso para assistir ao streep tease de uma palmeira provocado pelo vento e a um convívio musical de imigrantes de leste.  
Uma das simpáticas pequenas praças na zona histórica
Optámos por subir à Alcazaba, ao longo das duas plataformas / jardins que levam aos aposentos do sultão, onde dominam os pátios, a água e sobretudo uma excelente varanda que serve de miradouro. Desta vez, uma dançarina e um músico animavam o que presumo ter sido uma imitação pequena do Pátio dos Leões do Alhambra.   
À entrada da Alcazaba, em Málaga
À saída da Alcazaba apareceu um autocarro do tipo "city tour". Foi impulsivo. Corremos para lá como se fosse o último comboio do dia. A volta vale a pena: percorre vários bairros, passa pelo porto e pela praça de touros, trepa ao castelo. Mesmo com a cara gelada da brisa ao anoitecer, e os ouvidos arranhados pelo som embrulhado dos auscultadores chineses, ficámos a conhecer a cidade de alto a baixo. 
Ver Málaga desde o sótão do autocarro
Tal como os anteriores "cascos viejos", também este possui várias ruas exclusivas para peões. A partir daqui percebemos que, tal como os de Córdoba ou de Granada, também neste centro histórico a zona edificada havia sido criteriosa e praticamente toda recuperada: as pedras limpas, as paredes pintadas, os estores substituídos, as estátuas limpas, o piso melhorado. Semelhante a alguns centros históricos nacionais, protegidos por milagre. 
A única torre acabada da Catedral de Málaga
Entrámos para um aperitivo no Puerta Oscura, um bar decorado à antiga, onde fomos pondo em dia as novidades do périplo e antecipando o dia seguinte. Voltámos às ruas sem trânsito do centro histórico onde a animação do Halloween estava em crescendo.
Espanha mantém o gosto pela estatuária
Desta vez, o jantar foi num primeiro andar, num restaurante decorado com o tema do cinema e acompanhado ao piano por uma estranha personagem. Segundo me confidenciou um dos empregados, quando eu observava uma primitiva máquina de filmar, o restaurante pertence a Antonio Banderas. Não era difícil adivinhar: os preços estavam de acordo com os cachets do actor.
Os espanhóis levam o Halloween a sério. Até os pianistas...
Espanha Árabe 1 - De Zafra a Ronda
Música: Yanni, Aria

Em busca de El Chorro

De manhã, o dono do hotel aconselhou-nos a alterar o roteiro. Estava previsto irmos beber um café a Puerto Banus, logo a seguir a Marbelha. Depois, "subiríamos" para Ronda, pela estrada que trepa a montanha. Disse-nos que estaria muito vento, muito trânsito e contaríamos com muitas motos a descer de Ronda, o que podia ser perigoso. O melhor seria optar pela região de Ardales e El Chorro em plena Rede Patrimonial de Guadalteba. A estrada não teria tanto trânsito e a paisagem seria fabulosa. Era tentador.
Dizia, a lápis: "Ardales, embalses, El Chorro"
Rabiscou algumas indicações num mapa tirado da net e pegou na GS 1200. Depois, deixou-nos na saída de Málaga, sem perceber que o nosso grupo se havia dividido entre os que queriam cumprir o percurso e os que acabariam por ir à descoberta. Daí a pouco, estavam 4 motos - 2 ST's e 2 STX's - a caminho do parque natural e seis STX's rumo à zona costeira. Seis a quatro, ganhavam os "solteiros". 
Ardales
Aliás, desde cedo se organizaram 2 grupos: o dos "casados" e o dos "solteiros". Se bem que no almoço do primeiro dia tenha sido conjunto, só em Málaga voltámos a almoçar juntos. As refeições estavam programadas em regime livre, o que nos dava toda a liberdade de escolha gastronómica.
Pizarra: o que se vê desde a falésia
Acabamos por verificar que a sugestão viária, mas sobretudo a paisagística, havia sido excelente, mas também por saber que não tinha havido vento na estrada costeira e o trânsito não iria além do habitual. Além disso, o tempo estava bom junto ao Mediterrâneo. Um falso alarme, à espanhola.  
António Carvalho em Pizarra
A sugestão apontava El Chorro como local a visitar. Não demos com ele. Em vez disso, embrenhámo-nos na montanha a caminho de Bobastro, a cidade de Omar Ibn Hafsún, um povoado muralhado dos séculos IX-X, onde ainda são visíveis as ruínas de uma basílica. Os vestígios ficam na alta montanha e é preciso trepar em terra até lá. Não estávamos apresentáveis para tanto.
Estava frio no cimo de Pizarra 
Por isso, fomos mais para a frente, até a estrada terminar junto de uma casa situada logo após uma represa. Ladrava um cão, não havia café e estava um frio de rachar. Mas a paisagem era soberba desde aquele píncaro, um misto de Picos de Europa e Pirenéus. Estávamos num sítio que o "google" identifica como Pizarra, que deve ter como tradução algo semelhante a "gelo"... 
A zona de Pizarra, já próxima do fim do mundo...
   Na Ponte Nova de Ronda


Voltámos para trás e fomos até Ardales beber café. Daí para a frente, a estrada estreitou, ma o piso não se alterou. Deste lado, também nos cruzámos com bastantes motos. Suponho que Ronda seja um destino privilegiado de motociclistas, quer pela beleza do sítio, quer pela estrada plena de curvas que lá chega, quer desde Marbelha, quer desde Ardales. Foi lá que há anos vi duas motos com matrícula japonesa.

Nas tapas, em Ronda
Como não é possível estacionar nas proximidades da ponte, arrumámos a motos num parque exclusivo para as duas rodas, mas que já estava praticamente cheiro. Daí a pouco, chegavam 3 ingleses com trails e mais um espanhol com uma chooper. Algumas motos ficaram numa rua sem trânsito. De lá ao centro foi um ápice. Há sempre lugar para uma moto. Neste caso, para meia dúzia.
Um pequeno palácio na falésia de Ronda
Quem gosta de contrastes, gosta de Ronda. A ponte é o seu ex-libris, um monumento de pedra do século XVIII que liga a parte antiga, a sul, à parte nova, a norte. Andámos de um lado para o outro, atraídos pelo precipício a fotografar o declive, os pombos, o declive, as casas "colgadas", o declive, o fio de água que corre no fundo, o declive, os pequenos palacetes, gente a trepar a fraga. Arrebatador, aquele declive, medonho o precipício!
A famosa Ponte Nova de Ronda
Aos pés da cidade, para poente, um vale esverdeado de vegetação baixa mostra o quão alto estão os dois penedos. Pouco depois, volta-se a notar as silhuetas de outros montes. Para leste, a montanha reaparece ali próximo quase como muralha que separa Ronda do Mediterrâneo. Parece cercado o burgo, mas nem por isso está isolado.

O pequeno ponto vermelho é um escalador,
dos muitos que trepam a falésia próximo da ponte

O centro de Sevilha está deslumbrante

À medida que nos aproximamos de Sevilha a campina volta a dominar, a envolver a estrada nacional, de bom piso e pouco trânsito. Foi assim que entrámos na capital andaluza e, em pouco tempo, chegámos ao hotel Dom Paco.
No topo do hotel a espreitar o cocuruto de Sevilha
Liguei ao outro grupo, mas não consegui estabelecer contacto. Mensagens também não saiam. Entretanto subimos ao telhado onde talvez se pudesse garantir melhor rede, mas a comunicação não melhorou. No entanto, descobrimos uma piscina e um cenário que mostrava os telhados de Sevilha, aquela hora a exporem-se em silhueta.
Telhados de Sevilha
Deixámos o hotel a pé ainda com a luz do dia a iluminar o bom tempo. Estávamos a cerca de mil metros da catedral que percorremos ao longo das ruas estreitas que levam até ao centro histórico. Entrámos na maior catedral de Espanha, mas apenas tivemos acesso a meia dúzia de metros quadrados no interior.
O fim do dia projectado no campanário
Fora, já tinha sido notório a qualidade da recuperação urbana que os bairros típicos que circundam a zona histórica apresentavam. Quer as ruas, quer os prédios, pareciam novos, com as cores fortes a sobressair num céu azul de bonança.
A maior parte do centro histórico foi alvo de substituição do pavimento. Este está agora sem desníveis. Sobre carris, passa uma espécie de metro de superfície pelo meio do trânsito pedestre. As fachadas dos prédios estão irrepreensivelmente limpas.  
Pátio do hotel Afonso XIII
Aproveitámos para entrar no hotel Afonso XIII, uma jóia de arquitectura, construído no final dos anos vinte do século passado, que espelha bem o traço cuidado da herança árabe da Andaluzia. À entrada, as cinco estrelas estavam acompanhadas pelas letras “G” e “L” (iniciais de Grande Luxo) dizem muito do que se pode encontrar no interior.
Catedral de Sevilha, a maior de Espanha
Depois, voltámos à rua no intuito de procurar um restaurante para jantar. A escolha caiu sobre o Dom Raimundo, um espaço que mais parece uma loja de antiguidades, e que alia um bric-a-brac de objectos a um menu bastante diversificado. Aqui, a garrafa que escolhemos inicialmente para acompanhar a refeição também pareceu fazer parte mais da lista de antiguidades do que da carta de vinhos.

Dom Raimundo, entre a restauração e a antiguidade
De manhã estava fresco mas ensolarado. Deixámos Sevilha em bandos. Uns sairiam mais cedo a dois, outros mais tarde sozinhos, outros ainda mais tarde mas em grupo. Nós acompanhámos os primeiros quilómetros destes últimos até perto de Las Pajanosas. Abastecemos pouco depois e só voltamos a fazê-lo em Badajoz. Comemos qualquer coisa na área de Serviço de Montemor e a meio da tarde estávamos de regresso a casa. Nós e os restantes. 13 à partida, 13 à chegada. 
O grupo dos "solteiros" deixa Sevilha
Nota: As fotos anteriores a Ronda foram cedidas pelos participantes, já que um dos cartões SD onde fotografei e filmei não quis devolver as imagens

Espanha Árabe 2 - Sevilha
Música: Yanni, Deliverance

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Málaga, Almeria e Carmona 2010

Cota da muralha romana", lê-se na Porta de Sevilha, em Carmona
O Tejo arreara. Da ponte Vasco da Gama percebiam-se os baixios e viam-se alguns pescadores de bivalves pendurados da cintura a mergulhar as mãos no rio como ancinhos.
Para baixo, poucos iam. Eram duas da tarde, estavam mais de trinta e cinco graus em Lisboa, temperatura que, ainda assim, o Alentejo superava.
Quando o vento serenou - aquele sopro que se sente ali por altura da Marateca e vai quase até Álcacer do Sal - pedimos à Pan para invadimos a campina com mais alma. Embrenhámo-nos naquele ambiente fogoso porém esgotante, até a serra vencer a planície e ceder alguma frescura depois de ainda bufar quente por entre os vales.
Mais ameno, o Algarve reflectia na temperatura da água do mar um convite inquestionável a mergulhar. A praia de Quarteira estava plena de gente, o mar repleto de cardumes de pequenos peixes e, no ar, um aroma cheio a férias.
Nas traseiras do Hotel Dom José, Quarteira
Jantámos no “Veneza”, próximo de Paderne, onde nos sentámos em plena garrafeira, entre garrafas das mais afamadas marcas e exímios sabores. O João e a Hermínia foram de novo os anfitriões de uma gôndola de especialidades, onde não faltaram os lombinhos, as iscas e os cachaços de confecção distinta. 
Para lá, e desde Quarteira, levei uma almofada de gel sobre o banco. É mais confortável, mais quente, e parece que o efeito é também massajador. Todavia, a relação com a moto altera-se - há um ténue abanar/molejar do cóccix - e o centro de gravidade aumenta ligeiramente, tal como a superfície exposta do capacete/cabeça (face ao vidro frontal). Em tiradas longas deve ser útil, desde que não esteja muito calor.
À porta do Atismar, Quarteira
Deixámos a noite entregue aos cerca de vinte mil motociclistas que este ano estiveram presentes na Concentração do MCFaro. A manhã, essa, também estava adjudicada aos motociclistas, tantos os que já deixavam a capital algarvia, sendo que a maioria eram espanhóis. O nosso destino matinal era Málaga, início de um périplo andaluz que iria contemplar também Almeria e Carmona.
Na travessia da Ponte do V Centenário, Sevilha
De Lisboa a Málaga por Quarteira 1

Música: Xenophobia, Autophobia

No palácio da Alcazaba de Málaga

Soltámo-nos por volta das nove, envolvidos por muitos motociclistas espanhóis que iniciavam o regresso a casa após após a Concentração de Faro. Muitos guiavam choopers. Parámos para beber café na “area de servicio” de Trigueros, onde meses antes havíamos almoçado a caminho de Tarifa, rumo a Marrocos. Já estava quente, a anunciar a chegada ao braseiro de Sevilha. 
Clara e Jorge, à chegada a Málaga
Mais à frente, já na capital andaluza, voltámos a passar a ponte do V Centenário, de onde se vislumbra meia cidade, incluindo a ilha Cartuja  que alberga a Isla Magica, o parque temático que decorreu da Expo 92. O desvio no periférico sevilhano para Málaga fica depois da saída para Cádiz. Foi já nesse troço que ultrapassámos um casal, numa maxi trail, salvo erro uma Varadero, com matrícula portuguesa. Surpreendentemente, Sevilha (ainda) não estava ao rubro.
Teresa e Armando, junto a La Rosaleda, o estádio onde joga o Málaga CF
Próximo de Antequera foi preciso optar pelo acesso a Granada ou a Málaga. Distraí-me a olhar para o odómetro da moto – os números já andavam perto dos 100 mil - e quase falhei o desvio. Valeu a atenção da Julieta e os ‘abrandadores’ da Pan.
Quando parámos para abastecer numa área de serviço, a menos de uma hora de caminho de Málaga, o calor já se instalara. Foi altura para a Clara experimentar um "colete frigorífico", uma espécie de frapé humano, ideal para quem já tem o corpo "bem passado".
Teresa e Armando no Paseo de Los Martiricos, Málaga
Após uma descida longa em autovia, no meio de falésias, entravamos em Málaga. Fizemo-lo pelo acesso norte, através de uma avenida com duas faixas ladeada por um jardim, passámos pelo estádio, por uma feira de levante lá perto, e metemo-nos pelos bairros centrais atravessando ruas estreitas.
Na Taberna Del Fraile, Málaga
Desembocámos na proximidade de um túnel que tinha sobre si um dos motivos da viagem: a Alcazaba de Málaga. Apesar de a termos visitado há dois pares de anos, é um lugar que apaixona: pelo cenário interior e pelo panorama exterior. E está envolvida por vegetação alta, o que lhe confere alguma frescura, ideal para visitar em dias quentes, como o que estava.
Puerta de Las Columnas, na Alcazaba de Málaga
Do complexo, faz parte a Alcazaba – de cerca do século XI - uma muralha de ligação e um castelo – o Gibralfaro. A Alcazaba é uma edificação que encerra vários pátios, em outras tantas plataformas, tendo o último uma admirável arcaria califal. A muralha de ligação estende-se a cobrear monte acima e junta a extremidade da Alcabaza a uma das extremidades do castelo. Este está situado no ponto mais elevado do morro sobranceiro à cidade.
Paredes decoradas no interior do palácio nazari
Na Alcazaba, a entrada é ainda efectuada em corredor assimétrico, passando-se depois para uma zona mais elevada e sinuosa. Na ligação entre os terraços aparecem fontes e arcos, em ambiente fresco também provocado pela água que corre constantemente. Sobe-se, mas o esforço é mitigado pela frescura do espaço e pelo envolvimento paisagístico.
Acesso a um dos pátios
No cimo, uma excelente torre mudéjar, que não entrevi ter acesso, domina a Alcazaba. Mais abaixo, há um conjunto de arcos que comunicam com um estupendo miradouro sobre a cidade, espaço calmo onde não chega a atroada da metrópole, convida a descansar...
... e até a dormitar
A leste, está o Palácio Nazari cujo pátio "de la Alberca" parece querer roubar fama ao "de los Arrayanes" do palácio de Alhambra. No interior, apesar de já não se perceber a coloração original de alguns painéis decorativos, vislumbram-se ainda alguns troços com cor, o que permite ter uma ideia mais colorida do que seriam aqueles espaços há cerca de cinco séculos.
Patio de La Alberca
Na extremidade, a ruína da torre de menagem conserva mal o peso dos anos. Nas portadas e arcarias, bem como nos telhados, respectivamente, as arquitecturas árabe e mudéjar foram restauradas com êxito, dando-nos uma boa ideia do todo que há séculos fazia deste pequeno palácio um lugar magnífico. Nota-se sobretudo o esforço de reconstrução dos detalhes, sobretudo das aduelas decorativas árabes e dos telhados mudéjares, bem como a conservação dos mármores.
Detalhe dos arcos árabes ou de ferradura
Mas é também a vista sobre a cidade que deslumbra e enche o olhar com a planura da zona portuária e do passeio marítimo que se estende ao longo da orla costeira.
Andámos por lá à noite, em busca de maior frescura. À tarde, porém, é a praia que chama alguns veraneantes, mas não muitos. A água não aparenta grande limpeza, é choca e não se vê o fundo após um par de metros. A areia é escura e está suja, muito suja.

Panorama desde o miradoro da Alcazaba
Assalto à Alcazaba de Málaga 2
Música: Al Di Meola, Rio Ancho

Por Nerja, no “Balcon de Europa”

Mais dominador do que o panorama desde a Alcazaba, apenas a vista desde o castelo de Gibralfaro, hoje ocupado por um Parador. Apesar de estar próximo e ligado por uma muralha – Coracha – à torre de menagem da Alcabaza, o castelo situa-se na parte mais elevada do mesmo morro, para onde o acesso se faz a norte, através de um bairro de moradias bem inserido naquele alcantilado. 
Com a Malagueta nos dedos, a praça de touros de Málaga
Do miradouro, abraça-se grande parte do casario, a zona portuária, com a Malagueta, a praça de touros de Málaga, e o Palácio da Portagem, ali bem aos pés. Ficou por visitar o museu Picasso, voltar à Catedral, ver melhor o Teatro Romano (que estava enredado), passear de novo pelas ruas pedonais da zona antiga. Legámos essa tarefa aos que lá deixámos.
Ruínas do Teatro Romano de Málaga
Saímos pela estrada mais próxima do mar, até sermos obrigados a tomar a autovia. Também ela se estende, a mais altitude, ao longo do Mediterrâneo. São quase cinquenta quilómetros de marginal seguidos.
Tal como a aridez do deserto ou a sinuosidade das montanhas, poder rodar ao longo do mar é, para mim, estupendo! Habitualmente a temperatura é mais amena, o ambiente é repousante, o recorte da costa empresta a diferença, há muitos lugares panorâmicos onde uma moto tem sempre espaço para parar, e capta-se frequentemente aquele cheiro distinto da maresia.  
Próximo de Torrox
Um senão: as milhentas estufas de vegetais. Parecem lagos dúcteis, em socalcos, ao longo das serranias que bordejam a costa, ou um parque de campismo gigantesco de extenso, onde o nylon colorido das pequenas tendas foi substituído por plásticos translúcidos que cobrem extensas armações. Já lá estavam em 80, mas em menor número. Hoje, ocupam as falésias, durante quilómetros.  
Um cantinho de devoção depois de Punta Lara
Quase à entrada de Nerja, ainda desviámos numa das rotundas a caminho da estrada costeira que vem de Torrox. Queríamos percorrê-la, tal como o havíamos feito, pela primeira vez, há cerca de trinta anos. Do percurso, ainda reconhecemos uma pequena torre no cimo de um morro, sob o qual corre um túnel.
Entre Punta Lara e Torrox-Costa
Há 30 anos, essa estrada acentava em terra batida. Naquela altura, os fatos de cabedal há muito que já haviam aquecido. Quando parámos logo após o túnel, deparámos com a via impedida por obras de pavimentação. Parar ao sol, naquela ocasião, era sinónimo de sufoco e, talvez por isso, a tenhamos registado em slide.
Desta vez, porém, o tempo estava mais agradável e os fatos eram de “cordura”, mais respiráveis, não havia obras e o mar estava convidativo. E, em fundo, a nossa memória de uma trintena de anos - a tal torre sinaleira - de quando, para chegar a Benidorm, se levava um dia inteiro desde Torremolinos.
Onde há anos se rodava em terra batida...
Nerja é uma terra simpática: casas brancas, ruas estreitas, algumas pedonais, ferros forjados, lojas engraçadas, restaurantes atraentes. Típica localidade espanhola mediterrânica, com os seus característicos ocupantes sazonais, a brancura das habitações, falésias altas, odor a maresia.

Uma rua de Nerja
Todavia, é uma plataforma num promontório que domina o burgo. Apenas com acesso pedonal, o miradouro, bem com como a praça contígua, funcionam como centro da terra. De lá, abarca-se com a vista a zona costeira para nascente e poente durante muitos quilómetros, assim como a imponente falésia adjacente.    
No Balcon de Europa, em Nerja
Quando entramos numa rua sem saída, vimos um “P”, de parque de estacionamento. Julgámos que teríamos alternativa com a moto, mas não. Foi mesmo num sobreaquecido parque subterrâneo que a deixámos. Dali ao “Balcon de Europa”, não foram mais de dois minutos a pé.
Fontanário em Nerja, próximo do Balcon de Europa 
A estátua de Afonso XII está ali desde Fevereiro de 2003. Não me lembrava dela(e), quando por volta de 80 do século passado por lá andámos. Percebemos por quê: os espanhóis evocaram-no há oito anos pelo título que em 1885 havia atribuído ao lugar: Balcon de Europa.

Afonso XII, bronzeado...
Em Nerja, no Balcon de Europa 3
 Música: Al Di Meola, Rio Ancho

Ao longo da Alcabaza, da catedral, da marina e do Passeo de Almeria

Voltámos à autovia marginal. Mantinham-se os miradouros, apareciam túneis, e rodávamos em curvas largas: é disso que me lembro, mas ainda em estrada nacional, quando por aqui andámos nos anos 80. Percebia-se que alguns troços estavam a ser beneficiados, mas não previmos que tomasse o padrão de autovia.
À vista de Salobreña
Entretanto passamos algumas localidades interessantes. Castell de Ferro mostrava a sua torre e Salobreña o castelo, erguidos em morros próximo das praias, com o azul do mar a servir de contraste ao diáfano plástico das colinas.
Regressavam também as serranias nuas e os lençóis de estufas. Até que, por volta de Castillo de Baños, a autovia terminou. Há que atravessar algumas localidades e cerca de uma vintena de quilómetros, em apenas uma faixa de rodagem para cada lado: é fácil perceber que o trânsito se 'engarrafa', com carros, camiões e motos, em marcha lenta e ambiente poluído.
É uma tortura, porém curta, estando de moto. Pouco depois, recuperamos a autovia, próximo de La Rábita. Deixámos Adra ao longe, a beliscar-nos a memória de trinta anos, num parque de campismo onde a “primeira” da CB 750 Four quase não era suficiente para trepar a rampa de entrada.

Estacionamento gratuito, à sombra, em frente do hotel Torreluz, Almeria
Demos com Almeria a ferver, quando chegámos à parte antiga, de ruas estreitas e muitos sentidos proibidos. Andámos perto do hotel, mas falhámos uma rua, e errámos outra, que era sentido proibido, segundo nos assegurou um guarda civil, com cara de pouco amigos. Mas acabou por nos confirmar onde ficava o Torreluz.
Ruas exclusivamente pedonais, excepto para motos...
Almoçámos a horas espanholas e partimos a pé para a Alcazaba de Almeria. Fechava á segunda-feira: devia ter confiado na única informação da net que o certificava! A fortaleza é imponente, sendo a maior alcáçova construída pelos árabes na península. Domina a cidade a poente e o porto a sul.
À "porta" da Alcazaba de Almeria
Do cerro onde assenta, vê-se outro cujos buracos organizados na rocha deixam perceber que se trata de casas. Pareceram degradadas. Supostamente seriam escavadas, tipo gruta, com fachadas coloridas e dariam pelo nome de La Chanca. Mas estava demasiado quente para atravessar uma zona árida que lhe dava a acesso…
Outra perspectiva das muralhas da Alcazaba
Estava bastante mais fresco na catedral. Seis torres e muralhas compactas defenderam-na de ataques frequentes dos piratas berberes. Dentro, tem a particularidade de contar com dois altares majestosos, um logo à entrada, e outro, no local tradicional, em fundo.
Uma das torres da catedral de Almeria
Uma obra meticulosa em prata dominava o lado esquerdo após a entrada principal e, numa capela, do lado direito, assistia-se a uma missa. A grossura das paredes não permitia de certo perceber que uma criança, no exterior, as havia escolhia como baliza…
Uma custódia que deve valer o peso em prata
Voltámos às ruas estreitas mas sombreadas do burgo. Fomos verificando que o horário de abertura da maioria das lojas, ia para perto das dezoito horas. Poucas estavam abertas a meio da tarde. Subimos e descemos o Passeo de Almeria, rua onde as habituais lojas dos grupos espanhóis que enchem os nossos centros comerciais, se multiplicavam por quarteirão.
Outra torre da catedral
Pelo final da tarde, fomos espreitar a marina de Almeria. Num canto discreto, estava ancorado um barco, réplica de uma nau fenícia. Porém, nem uma indicação, sequer uma placa, anunciava a presença da embarcação. Parecia maioritariamente privado o espaço da marina. Não nos demorámos muito, tal como no porto marítimo comercial, ponto de vai-vem para Marrocos e Argélia.
Réplica de uma embarcação fenícia
O entardecer abre a maioria das lojas e nota-se uma dinâmica mais intensa na circulação viária e pedonal. Toda a gente sai de casa ou dos empregos e aproveita para ir às compras ou petiscar. A noite é mais calma e fresca.
Edifício antigo na Puerta de Purchena
Para e por Almeria 4
Música: Al Di Meola, Rio Ancho 

Sob o signo do calor: Guadix, Estepa, Osuna e Écija

Rodear a Sierra Nevada leva-nos ao longo de terras áridas, para o deserto de Tabernas. É realmente o cenário do velho Oeste Americano que a paisagem relembra. Ainda lá está o Mini Hollywood, uma espécie de parque temático com tiros e pancadaria simulados, que miramos desde a estrada nacional – estreita e sinuosa há cerca de trinta anos – hoje via rápida que leva a Guadix.
Quando fizemos esta estrada, no início dos anos 80, em sentido contrário – íamos a caminho de Torremolinos, provenientes de Benidorm – a CB 750 estava para gripar. Uma fenda milimétrica nos cilindros, espalhava óleo pelas minhas calças de cabedal mas, sobretudo, pelo blusão de um alemão que, na altura, nos acompanhava, e me chamou a atenção para o facto de que não mais queria rodar atrás da CB…
Foi na “capital” das casas cravadas na terra que parámos para beber duas águas geladas, agastados pelo calor que teimava em aumentar à medida que nos aproximávamos de Granada. Depois, rodámos à volta da Catedral, na procura das casas que apenas mostram as fachadas, aproveitando a frescura do interior da terra para construção do resto da habitação.
A zona é muito árida. A vegetação apenas polvilha alguns espaços e não é muito densa ou elevada. Estávamos no sopé da Serra Nevada. Lá em cima, ainda visíveis de quilómetros, pequenas manchas de branco sujo, malhas perpétuas de neve que contrastam com o acastanhado da serra.
Pelo caminho, fomos surpreendidos por alguns lençóis prateados de placas solares, estendidos naquela planície cálida, dourada e luminosa. Começamos a perceber que o aparecimento de lavouras de placas solares é mau sinal: à imagem da Amareleja, devem estar plantadas nos locais mais quentes do mundo!
Mais quente. Cada vez estava mais calor. Não tivemos coragem para descer da moto e voltámos à estrada a caminho de Estepa, localidade disposta em redor de um pequeno morro, o cerro de San Cristobal, que havíamos achado interessante quando o vislumbrámos ao longe na ida para Malága. Foi lá que almoçámos, no primeiro restaurante que vimos.
Abaixo: ao longe, o morro de San Cristobal enciomado pelas muralhas do castelo.
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O ambiente árido do deserto de Tabernas
Estepa é uma típica localidade andaluza que, se estivesse em Portugal, seria certamente alentejana, com um branco inenarrável a cobrir-lhes as paredes. Tanto calor fazia, que desistimos de encontrar o centro histórico - onde encontraríamos o castelo - entre rampas valentes, sentidos proibidos e falta de indicações.
Vista parcal de Osuna desde a Catedral
Também não o fizemos em Osuna, terra de igrejas, tantas são visíveis desde a catedral, situada num morro sobranceiro à povoação. Daí, vislumbram-se dezenas de locais de culto. Julgo que nunca vi tantas torres e campanários em tão curto espaço.
A quantidade de igrejas e respectivos campanários em Osuna
De volta à estrada, optámos por sair da autovia. Dirigimo-nos à nacional, rumo a Écija. De novo na campina dourada, foi desta feita o vento a mostrar-se forte que surpreendeu. Andámos alguns quilómetros à bolina, até que entrámos na localidade, percorremos a via principal, fizemos algumas rotundas e demos a volta à Plaza Mayor. Depois, apanhámos outra autopista e, num instante, estávamos à vista de Carmona.
Entrada por leste em Carmona depois da Porta de Córboda 
A povoação surgiu como silhueta no horizonte poente. Recebeu-nos a Porta de Córdoba, na entrada nordeste, entre muralhas. Dali ao Rincon de Las Desclazas, onde iríamos pernoitar, era descobrir o beco que lhe dava acesso, entre ruas estreitas de sentido único.

Estepa, Osuna e Écija 5
Música: Al Di Meola, Rio Ancho

Carmona: o Alcazar, as ruas, as “portas”, e um Rincon de charme.

Até hoje, raramente vira - talvez uma ou duas vezes em nove anos - o ponteiro de temperatura da água a lamber a zona vermelha. Todavia, nesta viagem, parecia habitual, sobretudo cada vez que parávamos dentro de uma cidade.
Um convento e uma igreja
Mas aqui, a frequência atenuou-se. Ficou mais fresco a caminho do fim da tarde, o que permitiu visitarmos a pé a zona antiga, antes totalmente muralhada, com uma planta aparentemente caótica de becos e vielas, uma ou outra praça acanhada, raros passeios, casas antigas e igrejas, mais igrejas, muitas igrejas.
Mais igrejas, outras fachadas
Ficámos alojados no Rincon de Las Descalzas, uma espécie de turismo de habitação cruzado com riad marroquino: pátios, água, fontes, cores quentes, desmaiadas ou fortes, e poucos quartos que, não tendo números, titulavam uma espécie de agenda monástica diária. O nosso dava pelo nome de “laudes”, a primeira oração do dia.
Um dos pátios do Rincon de las Descalzas, Carmona
Para variar, era outro Alcazar que nos interessava, o do rei D. Pedro. Actualmente, alberga um Parador e dispunha de poucas zonas públicas, sendo praticamente o pátio de armas – que dava acesso à recepção da unidade hoteleira - o único espaço visitável.
À entrada do Alcazar do rei D. Pedro
O interior, maioritariamente ainda em pedra, juntava também muita madeira e ferro, assim como outros elementos de decoração mais requintados. O pátio em estilo árabe complementava o ambiente simpático, tal como simpático também foi o barman que cobrou de imediato as bebidas a todos os hóspedes, inclusivamente a um grupo de japoneses, e a nós, "penetras", não o fez.

Pátio do Parador
Uma varanda altaneira olha para a Vega de Carmona, uma planície a perder de vista. Parecia orientada para Córdoba, tal como a “porta” do mesmo nome, que se confronta com a de Sevilha, na extremidade oposta da povoação.
A campina de Vega de Carmona, desde a varanda do Parador
Esta tem origem anterior e parece ser a entrada nobre da cidade. Alguns panos de muralhas que lhe estão próximos, mostram que a dimensão antiga não era muito diferente da actual. A velhice da “porta” nota-se nos materiais que foram necessários na intervenção que ainda decorre.
Porta de Sevilha, orientada para a capital andaluza
Do ponto de vista arqueológico, exceptuando alguns vestígios de fortificações fenícias e cartaginesas, a necrópole romana é o testemunho mais imponente da presença de povos que data de antes de Cristo. O complexo estava fechado e cercado por arames. Rodeámo-lo de moto no dia de partida e não percebi se estava numa fase primária de exploração ou avançada de abandono...   

Muitos edifícios possuiam janelas com arcos deste tipo 
Entretanto, no périplo pedestre pela povoação, metemo-nos pelos quelhos e fomos andando ao sabor daqueles meandros que, ora desembocavam numa pracita, ora na rua que bordejava o burgo antigo. Depois, mais branco e pedra, mais casas térreas e de primeiro andar, mais igrejas, passeios estreitos ou inexistentes, janelas típicas de madeira e ferro, pórticos antigos, pátios escondidos.
Mais uma cúpula de igreja
Ainda entrámos num mercado com configuração peculiar, à imagem das plazas mayores castelhanas, com dezenas de arcos. Um dos lados, pertencia ainda ao convento contínguo. Mas as lojas estavam quase todas fechadas, emprestando ao lugar um ambiente lúgrebe. 
Mercado de abastos
Pela noite, voltámos aos becos e às vielas, iluminados por luzes quentes. É como deambular por uma qualquer vila alentejana, porém com menos vegetação, sobre outro piso e ao longo de paredes mais nuas.
Á noite, pelas "calles" estreitas de Carmona
Jantámos no pátio do restaurante Molino de la Romera, num antigo armazém árabe que data do século XV. Foi nesse ambiente campestre que bebemos um Syrah, das Bodegas Andrade, que soube excelente com os espargos de carne servidos.
O pátio do Molino de la Gomera
Carmona 6
Música: Al Di Meola, Rio Ancho

Feria: num monte entre outros

Gosto de deixar algo para visitar no regresso. Desta vez, seria Feria, uma enigmática – não por secreta, mas por longínqua – aldeia estremenha próxima da raia. Durante alguns anos, o caminho para a Costa del Sol ou para as corridas de Jerez de la Frontera levara-nos a passar ao largo de um monte no meio de outros, que albergava um castelo cuja torre era visível ao longe. Por que não subir até lá?
Começa por silhueta, num monte entre outros
Saíamos de Carmona com a ideia de que conseguiríamos ultrapassar Sevilha ainda com uma temperatura aceitável. Acertámos. No periférico da capital andaluza ainda se rodava pela frescura. Aproveitámo-la e seguimos durante muito tempo à velocidade máxima permitida na autovia que liga a Mérida: um esmero de poupança aliado a uma sensação de calmaria muito agradável.
A torre do castelo destaca-se ao longe
Depois, saímos para a nacional que leva a Zafra, até que vislumbrámos Feria. Uma mancha branca na paisagem dourada no sopé de um monte despido, com uma torre que o encima. Subimos gradualmente e entrámos no aglomerado de casas brancas que trepava a encosta de forma suave. Uma praça apertada, uma igreja, mais casario alvo. Depois, a indicação “castillo”, numa das paredes da igreja.
Não passámos das muralhas
Subimos numa rua estreita, de novo entre casas, até que estas terminavam. Começava a escalada, esta sim, íngreme, numa espécie de alcatrão albino antigo de décadas. Estrada estreita e precipício, óptimo para quem não gosta de alturas...
A meio da subida, duas raparigas desciam. Mais uma volta e aparecia a porta do castelo, fechada. Pouco passava do meio-dia e meia hora em Espanha. As raparigas haviam fechado a porta meia hora mais cedo do que o previsto.
Com o castelo “cerrado”, ficámos pelo extenso e admirável panorama, e também com a moto estacionada num plano inclinado pouco abonatório. Descemos devagar dada a inclinação da rampa.
Daí a pouco estávamos a saborear um par de pratos típicos alentejanos, no Regional, em Elvas, levados por um magote de nuvens brancas que ocupava todo o céu à nossa frente. 
Entretanto, o motor da Pan havia feito 100 mil quilómetros. Chegámos a casa com mais trezentos e tal e com o júbilo de podermos ter repetido uma viagem a solo que não fazíamos vai para duas décadas. 
Regresso por Feria 7
Música: Al Di Meola, Rio Ancho