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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Na ruína do Casal do Vale do Milho

Dizem que parece uma fábrica, mas há quem se lembre de lá ver vacas a pastar. E há mesmo quem assegure que aquelas “estruturas pertenciam a uma exploração agro-pecuária com matadouro”, e quem se lembre que “havia o celeiro onde ainda estavam carroças”.

Extinta há cerca de meio seculo - “a exploração agropecuária manteve-se activa até meados dos anos 70/80 do séc. XX” -, e está hoje muito degradada, com paredes e telhados caídos, muito entulho e invadida por vegetação agreste.

 

Realmente, ainda se percebem muitas estruturas, tais como, canais de água, armazém, reservatório, assim como um bebedouro exterior, quase oculto por ervas silvestres. Estou no Casal de Vale do Milho que, segundo dizem, a toponímia remonta ao século XVI.

 

Diz-se ainda que, numa noite de Março de 1805, o Casal do Vale do Milho foi palco de um crime que abalou toda a região, quando cinco pessoas perderam a vida. Entre rumores e lendas, surgiu a suspeita de que o crime escondia segredos da corte.

Os edifícios parecem pairar sobre as ervas esguias que, hoje, abanam fustigadas por um vento forte. Para lá chegar, ou a pé ou de moto - o trilho é estreito com algumas pedras baixas -, há que ultrapassar cerca de 200 metros de “terra”.

De moto, não se sente que o piso tenha grandes irregularidades, mas é preciso avançar com cuidado, não vá algum calhau estar escondido pelas ervas. Junto das ruínas há um pequeno terreiro óptimo para deixar a moto.

Faz-se bem, apesar da quantidade de ervas que cobrem os campos. É possível que, fora do trilho, o piso mude, uma vez que não se consegue ver. Junto das ruínas, o cenário é idêntico, sendo que, em alguns locais, as ervas escondem alguns buracos valentes.

A serra e a silhueta do Palácio da Pena, a sul, a torre de controlo da BA1 (na Granja do Marquês), a norte, e o Tribunal da Comarca de Sintra, a oeste, envolvem o cenário da ruína  E o céu é o único espaço onde as ervas não bloqueiam o acesso.

Todavia, os finos carreiros por onde é possível andar, mostram que ainda há quem por lá ande. O sítio é sossegado, mas algo isolado. A paisagem é atraente, quer para a serra de Sintra, quer para norte onde o olhar é capaz de chegar ao Palácio de Mafra.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Bateria da Raposeira, a 5ª

O nome nasce do monte. Mas a degradação é tão notória que, não sendo alvo de intervenção, não irá demorar muito tempo até que a destruição total seja consumada. Ainda assim, entre ruínas, lixo e silêncio, persiste uma estranha beleza.

Ainda é possível lá chegar e estacionar na entrada. Porém, com a intempérie deste inverno - havia árvores caídas sobre as paredes -, e a continuação da degradação do lugar, o acesso, mesmo de moto, vai ser cada vez mais difícil.

Há sítios onde o tempo não se limita a passar, permanece como memória e como alerta. A 5.ª Bateria das Raposeiras, erguida entre finais do século 19 e início de 20, no alto da Trafaria, é um desses lugares suspensos entre o esquecimento e a quietude.

Integrada no sistema defensivo do Campo Entrincheirado de Lisboa, fazia parte do conjunto de baterias costeiras destinadas a proteger a barra do Tejo e a entrada marítima da capital, cruzando fogo com o Forte do Bom Sucesso, em Belém.

 

Também conhecida como Bateria Infante D. Manuel, ocupava um lugar estratégico no monte da Raposeira, dominando a paisagem entre o Tejo e o Atlântico, apoiando ainda a defesa do Bugio e da frente atlântica da Caparica.

O complexo militar articulava-se com o Forte da Trafaria, o reduto da Alpena - para visitar um dia destes -, e uma antiga estrada militar construída em 1890, formando uma rede defensiva que vigiava o horizonte marítimo de Lisboa.

Hoje, sobrevivem as três imponentes peças Krupp de 150 mm, fundidas em Essen, Alemanha, entre 1904 e 1907. Cada canhão, com quase oito toneladas, disparava projéteis de mais de quarenta quilos a dezenas de quilómetros de distância.

 

Exigia uma equipa de nove homens para alimentar o ritmo metálico da artilharia. São agora peças mudas apontados para uma paisagem sobre a Trafaria, outrora estância balnear frequentada pela rainha D. Amélia.

Entre muralhas de defesa e ecos de treinos, a bateria foi também território de inovação tecnológica e de modernidade. Foi neste lugar que se realizaram algumas das primeiras experiências de telegrafia sem fios em Portugal. 

Hoje, o cenário é de abandono e degradação contínua. Desde a desocupação militar, iniciada nos anos 1980 e concluída definitivamente na década de 1990, as construções foram entregues ao tempo e ao vandalismo.

 

Muitos dos subterrâneos permanecem ocultos sob a vegetação, os edifícios deterioram-se lentamente, e os graffitis cobrem paredes onde outrora ecoavam ordens militares e exercícios de tiro que faziam estremecer as janelas da Trafaria.

A 5.ª Bateria das Raposeiras continua a guardar a memória da defesa de Lisboa, da engenharia militar oitocentista e dos primeiros passos das telecomunicações portuguesas. É um lugar de património esquecido, de onde, porém, a paisagem ímpar apaixona.

A panorâmica, hoje algo oculta pelo crescimento selvagem da vegetação, é um dos aspectos mais atraentes do sítio. Outro, é o silêncio que acompanha o olhar sobre a porta do Tejo. 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Quinta da Arealva, uma ruína

 


Há um não-sei-quê de fascinante nas ruínas. Sejam elas de antigos castelos, baterias de costa ou, pura e simplesmente, edifícios. A Quinta da Arealva é um caso desses.  Está entre o cais do Ginjal e praticamente aos pés do Cristo Rei e fica na continuidade do Cais do Olho de Boi. 

Trata-se de uma uma antiga propriedade agrícola dedicada à produção de vinho. Tem vários acessos: desde o Ginjal, desde o Cristo Rei ou desde o Museu Naval. Eu optei por descer para o Cais do Olho de Boi.

Estacionei junto de uma antiga fábrica conserveira e perguntei a uma senhora que estav na proximidade se bastava seguir em frente. “Sim, é sempre em frente, passa o portão e precisa ter cuidade, isso está muito estragado!”, disse, com ar conhecedor.

Ultrapasso o portão e fico com a falésia à esquerda e o Tejo à direita. Dou os “bons dias” a quem me pareceu sair de uma pequena casa, degradada, e continuo. Daí a pouco, já estou à vista de um conjunto de edifícos em ruínas.

A vista para Lisboa, e não só, é deslumbrante. Vai quase até Cascais. A ponte 25 de Abril está ali quase em cima dos olhos. Alcântara parece estar a dois passos. Mas as ruínas estão muito degradadas.

Há grafitos por todo o lado e as madeiras há muito que mal suportam chão e telhas. É perigoso aceder ao interior dos edifícios. Mais abaixo, percebe-se a existência de uma espécie de eira em cimento, vasta mas também degradada.

Em certos sítios, a vegetação tomou conta do chão ao telhado, quando o há.  Alguns soalhos já ruiram e mostrama existência de caves. Há um miradouro, quase ttalmente coberto por vegetação. 

Pelo que consta, esta antiga proriedade, incluia diversos edifícios. Um palácio, armazéns, tanoarias, cais fluvial, estaleiro, residências e uma ponte. Algumas construções datam do século XVIII e seguem o estilo pombalino.

A quinta teve origem no Forte da Pipa, construído no século XVII como parte do sistema de defesa do Rio Tejo. Abandonado no final do século XVIII, o forte foi transformado em residência e centro de produção vinícola. 

A propriedade tornou-se importante na região e chegou a ser habitada pelo nobre irlandês João O'Neill, que mandou construir uma capela dedicada a São João Baptista. Já durante o século XIX, a quinta foi integrada na Sociedade Vinícola Sul de Portugal.

Mais tarde, o complexo foi abandonado, vandalizado e sofreu um incêndio, ficando em ruínas no início do século XXI. Há uma década, ainda acolheu festivais de música eletrónica. 

Quando saí, voltei a encontrar a mesma senhora que me havia indicado o acesso à antiga quinta. É uma moradora, vizinha do complexo. Queixa-se do abandono do local, onde a polícia não passa, e que já foi alvo de furtos.

Resumiu a estória do complexo e sabia que, nos últimos anos, apesar de terem surgido diversos interessados em avançar com projectos, nenhum se realizou.  Actualmente sabe que há um grupo económico interessado em toda a área que vai do Ginjal ao sopé do Cristo Rei.

Será desta?

Este lado do rio, junto à margem, pouco sol recebe. Havia muita humidade na estrada o que para as duas rodas não é muito tranquilo. Porém, quer o panorama que se vislumbra na subida /descida, bem como a singularidade do lugar valem a visita. Enquanto não for um complexo hoteleiro de topo…