quarta-feira, 10 de junho de 2026

Bateria da Raposeira, a 5ª

O nome nasce do monte. Mas a degradação é tão notória que, não sendo alvo de intervenção, não irá demorar muito tempo até que a destruição total seja consumada. Ainda assim, entre ruínas, lixo e silêncio, persiste uma estranha beleza.

Ainda é possível lá chegar e estacionar na entrada. Porém, com a intempérie deste inverno - havia árvores caídas sobre as paredes -, e a continuação da degradação do lugar, o acesso, mesmo de moto, vai ser cada vez mais difícil.

Há sítios onde o tempo não se limita a passar, permanece como memória e como alerta. A 5.ª Bateria das Raposeiras, erguida entre finais do século 19 e início de 20, no alto da Trafaria, é um desses lugares suspensos entre o esquecimento e a quietude.

Integrada no sistema defensivo do Campo Entrincheirado de Lisboa, fazia parte do conjunto de baterias costeiras destinadas a proteger a barra do Tejo e a entrada marítima da capital, cruzando fogo com o Forte do Bom Sucesso, em Belém.

 

Também conhecida como Bateria Infante D. Manuel, ocupava um lugar estratégico no monte da Raposeira, dominando a paisagem entre o Tejo e o Atlântico, apoiando ainda a defesa do Bugio e da frente atlântica da Caparica.

O complexo militar articulava-se com o Forte da Trafaria, o reduto da Alpena - para visitar um dia destes -, e uma antiga estrada militar construída em 1890, formando uma rede defensiva que vigiava o horizonte marítimo de Lisboa.

Hoje, sobrevivem as três imponentes peças Krupp de 150 mm, fundidas em Essen, Alemanha, entre 1904 e 1907. Cada canhão, com quase oito toneladas, disparava projéteis de mais de quarenta quilos a dezenas de quilómetros de distância.

 

Exigia uma equipa de nove homens para alimentar o ritmo metálico da artilharia. São agora peças mudas apontados para uma paisagem sobre a Trafaria, outrora estância balnear frequentada pela rainha D. Amélia.

Entre muralhas de defesa e ecos de treinos, a bateria foi também território de inovação tecnológica e de modernidade. Foi neste lugar que se realizaram algumas das primeiras experiências de telegrafia sem fios em Portugal. 

Hoje, o cenário é de abandono e degradação contínua. Desde a desocupação militar, iniciada nos anos 1980 e concluída definitivamente na década de 1990, as construções foram entregues ao tempo e ao vandalismo.

 

Muitos dos subterrâneos permanecem ocultos sob a vegetação, os edifícios deterioram-se lentamente, e os graffitis cobrem paredes onde outrora ecoavam ordens militares e exercícios de tiro que faziam estremecer as janelas da Trafaria.

A 5.ª Bateria das Raposeiras continua a guardar a memória da defesa de Lisboa, da engenharia militar oitocentista e dos primeiros passos das telecomunicações portuguesas. É um lugar de património esquecido, de onde, porém, a paisagem ímpar apaixona.

A panorâmica, hoje algo oculta pelo crescimento selvagem da vegetação, é um dos aspectos mais atraentes do sítio. Outro, é o silêncio que acompanha o olhar sobre a porta do Tejo. 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

COMO. A cidade, o lago e a montanha


Na cidade, o destaque vai para o Duomo local, catedral construída a partir do século XIV, com uma simpática área pedestre, para o Broletto, antiga sede municipal na Idade Média e para o Tempio Voltiano, o museu dedicado a Alessandro Volta.

O lago, circundado por montanhas com picos acima dos 2 mil metros, está polvilhado de pequenas e belas localidades, como sejam, Bellagio, Menaggio ou Varenna. Ou Brunate. É para lá que vamos.

Como fica a cerca de 40 minutos de comboio de Milão. A opção obriga a mudar de comboio, para quem saia da Centrale, e esperar uma dúzia de minutos em outra estação milanesa, a partir da qual fará a ligação final.

Porém, nesse entretanto, o tempo permite andar ao longo das paredes da estação de ligação, que são uma espécie de galeria de arte ao ar livre. Aliás, como a maioria das urbes italianas.

O percurso ferroviário faz-se em parte na planície do rio Pó e só perto da cidade se descobrem as montanhas. Como fica na extremidade sul do lago. Dali, é fácil perceber que se trata de um lago de origem glaciar, observando o perfil do relêvo envolvente.

Mal se chega ao lago, cerca de 15 minutos a pé desde a estação ferroviária, o cenário muda. Ali, as elevações surgem de imediato e o perfil sobretudo na margem direita é bastante íngreme.

De tal modo que, a maneira mais fácil de o trepar é apanhar um funicular. A ideia é subir até Brunate e daí seguir a pé até ao Faro Voltiano. Desde Brunate, o percurso pedestre tem um desnível de 150 metros.

E tudo começa na  pequena estação do funicular, de finais do século XIX, com paredes em tijolo e telhado em madeira. Mal começa a subida, é possível ver a totalidade da cidade de Como e perceber que está num dos vértices do lago.

O nosso horizonte vai abrindo até Brunate, situada no topo da linha do funicular. Lá de cima, a paisagem é soberba, abrangendo as localidades situadas nos vales e nas zonas planas junto ao lago ou nas escarpas.

Estamos na “Varanda dos Alpes”. Perto da estação, há lojas sobretudo com produtos de montanha, hotéis e miradouros para todos os gostos. As ruas são estreitas e a circulação, embora diminuta, é difícil e morosa, não havendo muitos lugares de estacionamento.

Aqui começa o percurso pedestre, primeiro pelas estreitas ruas da localidade que, mesmo assim, ainda tem alguns edifícios imponentes, como sejam, a igreja barroca de Santa Andrea e o Gran Hotel Milano.

Deixamos a zona urbana e começamos a serpentear pela serra. E as semelhanças com Sintra vão desfilando à medida que trepamos. Os chalets de montanha de telhados íngremes, surgem em cada curva da estrada acompanhada por árvores altas.

O percurso pedestre tanto vai pela estrada, com por caminhos exclusivamente pedestres. Estes últimos, sobretudo, a maioria em pedra, estão tapeteados com folhagem e ladeados por muros de pedra.

À medida que subimos, aqui e ali, num jardim relvado por exemplo, há vestígios de neve. Nota-se que está mais frio no início da rampa que dá acesso ao Farol de Volta, já há um ou outro monte de neve.

O percurso de pouco mais de quilómetro e meio - um pouco menos do que do Palácio da Vila ao Palácio da Pena, em Sintra - mas quase ao dobro da altitude, que anda nos quase 900 metros.

O Faro Voltiano tem quase um século. Construído em 1927, homenageia o centenário da morte do famoso inventor da primeira bateria eléctrica. A vista desde a base é lindíssima. Do cimo dos 29 metros de altura imagino que seja soberba.

Regressámos ao entardecer ao Natal de Como, quando as primeiras luzes já davam um brilho especial às decorações natalícias urbanas. Há muitas bancas iluminadas e uma diversidade de produtos, da gastronomia aos bonecos de peluche.

Passeamos ao longo do mercado e de alguns edifícios estilizadamnete iluminados. O ambiente fiérico está nas fachadas coloridas pelas projecções, bem como na profusão de luzes das bancas.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Até Dubrovnik


Deixamos Trogir entregue a uma manhã luminosa e não tardamos a encostar-nos ao Adriático. Depois, é por ali abaixo: mar, a perder de vista, sempre a acompanhar-nos, enquanto o azul domina o negro do asfalto.

O mar está calmo, como é habitual. Aqui e ali, uma enseada convida a parar. E o azul ali estendido é um horizonte tão cativante como o nascer ou o por do sol. Paramos, descansamos, damos dois dedos de conversa.

De vez em quando, surge uma ilha, depois outra, maior ou mais pequena, mais perto ou mais longe, árida ou frondosa. São mais de mil e duzentas ao longo da costa Adriática. O azul tudo medeia. Começamos a perceber o fascinio deste mar.

Do lado de terra, a escarpa tanto se agiganta como se atenua. A vegetação não é homogénea, sendo frequentemente baixa, fazendo lembrar amiúde a da serra da Arrábida. O mar compensa alguma aridez aqui e ali.

De tão estimulante, a costa obriga a parar. As praias não têm a “nossa” areia, mas o azul inspira e a temperatura da água recompensa. Há que parar, vestir o fato de banho e dar um mergulho.

A descida da costa Adriática é admirável. É a partir daqui que a viagem junta o romantismo ao desafio do equilíbrio, mistura a estética do ambiente ao deleite das águas calmas e cálidas.

Almoçamos à borda do mar. Enquanto uns reservam e escolhem o menu na espalnada do Hotel Riva - uma unidade pequena mas a meia dúzia de passos da água -, outros já mergulham na praia contígua.

Apesar dos seixos omnipresentes nas praias serem tão chatos como a areia para pneus de asfalto, há sempre uns chinelos que negoceiam o acesso. Por vezes, a água está a meia dúzia de passos das motos.

Damo-nos bem com a proximidade da água. Desde Trogir que tal acontece. Vamos continuar a bordejar o Adriático dando-lhe a direita, pelo menos até à ponte de Peljesac, que contorna  a pequena faixa costeira da Bósnia.

É a única maneira de evitarmos a fronteira do país vizinho, livrando-nos dos procedimentos inerentes à entrada, e depois à saída, de um país que não integra a UE. Parámos e descansámos numa área dedicada no início da ponte.

Dali vê-se o território da Bósnia. Passamos a ponte, recente de há pouco mais de um par de anos, e continuamos, agora com o Adrático do lado esquerdo, bem como do estreito território bósnio que confina com o mar.

Estamos a caminho de Mokosica, a poucos quilómetros da meta deste dia: Dubrovnik.  Ficamos alojados num Airbnb, uma moradia com mais de 6 quartos e um espaço exterior exctamente para as 6 motos.


Fomos recebidos com comida e bebida q.b. pelo anfitrião, talvez a compensar a existência de alguns bichinhos daqueles que mordem e deixam rasto. Saímos para Dubrovnik, onde o estacionamento até para motos é problemático, uma vez que é exíguo.


 Depois de, durante a Expo 98 em Lisboa, termos assistido, sentados em bancos de pé alto, à espectacular entrada de barco no porto da cidade, através de um ecrã de 180º, a espectativa era enorme.

Acrescia o facto de, além da vertente histórica e arquitectónica, a cidade ter sido palco de alguns episódios da série “A Guerra dos Tronos”, pelo que se esperava por cenários reais imponentes.

Aliás, na descida para o centro da urbe - uma escadaria tão íngreme, que só lembra a quem trepa do Martim Moniz para o Castelo, em Lisboa -, lá estava o manequim de Tyrion Lannister, também conhecido pelos apelidos "Duende" ou "Meio-Homem".

Dubrovnik não desilude. Possui muralhas medievais perfeitamente preservadas e um centro histórico, património da UNESCO, revelando séculos de influência veneziana e dálmata.

A principla artéria do centro histórico, a Stradun, é ladeada por palácios, mosteiros e edifícios renascentistas. O palácio do Reitor, hoje Casa da Cultura da cidade, é um dos edifícios mais emblemáticos, que combina elementos góticos e barrocos.

O antigo poder da República de Ragusa está bem patente na fortaleza de Lovrijenac, erguida sobre um rochedo costeiro, símbolo da resistência e independência da cidade. O passeio pelas muralhas é um circuito de rara beleza.

Percorremos apenas a parte gratuita, - que é bastante curta -, mas dá uma ideia curiosa do restante percurso. Depois, o itinerário segue pelas estreitas e íngremes ruas/escadas que levam a becos simpáticos e a algumas casas particulares…

Embora tenhamos percorrido 1/3 das muralhas, apenas estivemos em dois dos grandes portões fortificados da cidade. Apesar de termos visitado quase todo o centro histórico, apenas percorremos 10% da cidade.

Deixámos Dubrovnik à ainda folia dos visitantes, quando os restaurantes se começaram a encher de turistas, a Stradun acalmava e a escadaria para o Portão Buza, por onde havíamos entrado, já nos dava espaço para parar e descansar.