domingo, 18 de outubro de 2026

Passadiços Entre a Praia Grande e a Adraga

Entre Almoçageme e a Estrada do Rodízio, em Colares, abre-se um velho caminho sobre a costa de Sintra, onde a terra se inclina para o Atlântico e a paisagem se revela em toda a sua grandeza.

 

Os novos passadiços, primeira etapa do futuro Parque Ecológico, desenham uma promessa de descoberta entre a Praia da Adraga e a Praia Grande, por caminhos que alternam a madeira suspensa e a terra irregular.

 

Em Setembro, dava ideia que antigos trilhos - nesta altura vedados - se misturam ainda com os novos passadiços, acompanhando os contornos de um território onde o mar, o campo e a montanha se encontram.

Ao longo de cerca de 2,5 quilómetros, o percurso circular convida a caminhar sem pressa, a contemplar os horizontes abertos da Praia Grande - o panorama desde dois dos miradouros é excelente-, e a descobrir a beleza agreste de uma costa moldada pelo vento e pelo tempo.

Entre miradouros e lugares de paragem, cada passo oferece uma nova perspetiva sobre o oceano, enquanto as ligações a Almoçageme e Azóia nos vão mostrando a diversidade paisagística para o que contribui o tipo de vegetação que atravessamos.

Para norte, é a Praia Grande, a Pequena e a das Maçãs, que se esticam ao longo da costa. Para sul, é o Farol do Cabo da Roca que se vislumbra de imediato. Para baixo, é a Praia da Adraga que surge com alguma areia na maré baixa.

Paisagem que é também um livro aberto de milhões de anos, guardando pegadas de dinossauros - situadas numa parede rochosa a meio caminho entre a praia e o topo da falésia, inacessíveis nesta altura -, vestígios paleolíticos e monumentos geológicos.

Com um centro de interpretação ambiental previsto, novos circuitos e espaços de observação e descanso, o projeto estenderá progressivamente os seus caminhos, com conclusão apontada para 2027.

Por agora, entre passadiços e trilhos, o convite é simples e antigo como a própria viagem: avançar, respirar, contemplar e deixar que a imensidão do Atlântico nos devolva a medida da nossa liberdade.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Traveler's Event 2026

Motos, viagens, testes. Bom tempo, bom ambiente, bom sítio. Boas expectativas. Era isto, com algum desconto: os mais de 35 graus anunciados ameaçavam contrariar o perfil auspicioso da 19.ª edição do Traveler’s Event (TE).

 

Para mim, porém, havia uma novidade maior: a estreia num encontro onde a estrada se transforma em conversa e as viagens, tantas vezes solitárias, ganham outras vozes. Era a primeira vez que participava neste evento.



Enquanto o TE já experimenta a sua maioridade, Setembro tem sido, para mim, mês de FIM Mototour, de quilómetros e países. Desta vez, a estrada levava-nos a Avis. Éramos três, vindos das proximidades da capital, em motos diferentes, a que se juntaria outro companheiro vindo do Porto.

 

O propósito era simples: passear, rever amigos e ouvir histórias de quem fez da moto uma forma de conhecer o mundo. Afinal, como em tantos livros de viagens de moto, o destino é apenas metade da aventura; a outra metade está no caminho.

Saímos pelas nove, ainda com a frescura da manhã. Fomos d erecta em recta e recta, de rotunda em rotunda. sempre por nacionais. No Couço, o Alentejo já aquecia os 26 graus e, à chegada a Avis, diante das muralhas do castelo, os 28 anunciavam aquilo que o dia nos reservava.

Recebemos as credenciais e instalámo-nos no parque de campismo de Aviz, outra estreia, magnífico anfitrião à margem da Albufeira do Maranhão. Sombras, espaço, paisagem e, estupendo, um estuário: uma pequena trégua perante o calor.

Vieram as tendas, o terreno duro, algumas espias teimosas e três dedos de conversa com o carismático António Rosado. Depois, calções e sandálias e descida ao centro do evento.

 

Almoço no Clube Náutico, lojas, concessionários e inscrições nos test drive. Entre apresentações e reencontros, ainda houve tempo para conversar com Gracinda Ramos e Paula Kota.

 

Experimentei a Voge 625, evolução da 525, com mais potência, banco mais confortável e aderente e um guiador mais baixo. Mantém, contudo, a limitada protecção aerodinâmica e é ligeiramente mais alta.

Ficou o ensaio, mas também a sensação de que, nestes encontros, experimentar uma moto é sempre uma espécie de primeiro capítulo de uma viagem que ainda não sabemos se iremos escrever.

O jantar começou a quatro e rapidamente cresceu para oito. Paulo Mafra, de Viajar de Moto e Rota dos Ouriços, Márcia Moreno e outros companheiros juntaram-se à mesa, com a habitual troca de novidades e questões.

Depois vieram as histórias, essa matéria-prima essencial de qualquer viagem. No palco, João Beltrão apresentou a aventura Beyond T7nnis e André Sousa trouxe a ligação entre Alasca e Ushuaia,

Duas geografias , dois exemplos dessa inquietação que leva o motociclista a perguntar sempre: e se eu fosse por ali? Mesmo com o risco, mesmo com a logística, mesmo com a despesa: fica sempre um impressão, uma semente.

 

Sábado nasceu quente. Em vez do passeio de grupo, preferi recuperar uma viagem interrompida há décadas: percorri o centro histórico de Avis, descobrindo dois palacetes recuperados no alto da vila.

As muralhas do século XIII continuam a contar a história da Ordem Militar de Aviz; o Pelourinho manuelino permanece no coração da vila e os torreões guardam lendas, memórias e o silêncio de outros tempos. 

Também isto é viajar: regressar a um lugar e descobrir que, afinal, fomos nós que mudámos. Mesmo que quase tudo esteja na mesma, algo não terá sido visto, outro esquecido, outro ainda modificado.

A tarde trouxe o calor em força. Os test drive ficaram para trás e a Albufeira do Maranhão tornou-se a grande vedeta da tarde. Quase todos se renderam à água, incluindo mais três amigos que se juntaram na praia. 

Por momentos, a viagem deixou de ter quilómetros e passou a ser sombra, conversa e mergulho. Entre mergulhos, trocamos algumas ideias, impressões, vontades. Estamos bem, em boa companhia.

À noite, em Avis, brilhava o por do sol. Num ambiente quase tropical, o sol alaranjou-se para nos receber no miradouro Mestre de Avis. Foi aí que ficaram as motos, como se descansassem de uma viagem.

E as viagens voltaram ao palco. Vera Santos e Isa Imperial, na aventura rumo a Málaga, trouxeram o entusiasmo das primeiras incursões em trail, o risco, o imprevisto e até os episódios constrangedores que, mais tarde, se transformam nas melhores histórias. 

João Luís levou-nos ao Médio Oriente, Israel sobretudo e Iraque, demonstrando que viajar também pode significar atravessar geografias onde a coragem e a prudência caminham lado a lado. É difícil não pensar que, "este homem é judeu!"

 

E, quando a última apresentação decorria, chegou a notícia de um acidente: um participante fora abalroado, literalmente, por um javali. Felizmente, apesar da queda, não sofreu consequências graves. A estrada voltou a lembrar-nos que toda a liberdade tem o seu lado imprevisível.

Regressámos na manhã seguinte. Ficaram os quilómetros, as motos, os amigos, a água da albufeira e, sobretudo, as histórias. E, até, uma recordação institucional, apanhado pelas costas, já em acto de preparação de fuga.

Um dos meus companheiros de viagem, - que também não deixa de participar neste tipo de eventos, sempre que pode -, foi "apanhado" com o mentor do TE.  Conhecem-se? insistam!

Talvez seja esse o verdadeiro espírito de um encontro de viajantes: não apenas falar dos lugares onde estivemos, mas manter o contacto com quem viaja e alimentar a vontade de partir novamente.

Porque, como nos melhores relatos de estrada, a viagem nunca termina quando chegamos a casa. Fica dentro de nós, à espera da próxima curva, da próxima montanha, da estrada sem fim.



terça-feira, 15 de setembro de 2026

Kōkyo. Palácio Imperial de Tóquio

 

Saímos na Estação de Metro e tínhamos o Palácio Imperial em frente do nariz. Estamos em Chiyoda - "campo de milhares de gerações" -, uma região especial de Tóquio, que alberga, também, o Templo Yasukuni, a Estação de Tóquio e o Budokan.

Atravessamos a estrada que circunda o complexo do palácio, passamos por uma ponte que cruza um largo fosso e entramos por Sakurada-mon, o maior dos portões remanescentes do que era o castelo de Edo (antigo nome de Tóquio). É o primeiro contacto com o passado da fortaleza.

Entramos numa sala enorme e preenchemos um documento acompanhados por dezenas de visitantes. Aguardarmos instruções. Pouco depois, saímos com um guia. Somos quase uma centena de visitantes.

Passamos por Fukimi-Yagura, uma torre de vigia de três andares, datada do período Edo (1603-1868), uma jóia arquitectónica envolta em pinheiros, um novo contacto com o Japão antigo dentro do complexo.

Ali perto, estende-se a ponte de pedra de dois arcos, chamada Seimon-Ishibashi -ishibashi, significa “ponte de pedra”) -, também do período Edo, construída em meados da segunda década de 1600, datando a actual estrutura de finais do século XIX.

Entretanto, os jardins vão surpreendendo com magnólias e azáleas, nesta altura também floridos com  as magníficas cerejeiras ornamentais japonesas (sakura). Não tarda, estamos na Praça Kyoden Totei.

Trata-se da única área onde os visitantes podem avistar de perto parte dos aposentos imperiais, complexo que inclui o palácio, (kyūden), bem como outros edifícios privativos da família imperial.

Construído sobre as ruínas do antigo Castelo de Edo, sede do xogunato Tokugawa, o Palácio Imperial de Tóquio foi destruído na Segunda Guerra e reconstruído, como outros edifícios japoneses relevantes, mantendo o traço histórico e original das muralhas.

 

Foi aqui que presenciámos (mais) um dos muitos factos insólitos que testemunhamos no Japão. Um grupo de algumas dezenas de voluntários/as, identificados com roupa igual, procedia à limpeza da praça.

Quando nos aproximamos, o grupo afastou-se ligeiramente para nos dar mais espaço para observarmos a parte da arquitetura moderna do palácio. Depois, pelo canto do olho, reparei que nos estavam a saudar com o tradicional de curvar o corpo e inclinar de cabeça.

 

Voltámos aos jardins, agora mais afastados do grupo. E o contraste entre a torre de vigia e o ambiente que o envolve extra-muros é intenso. Lá fora, são os edifícios com arquitectura minimalista geométrica, aqui dentro o confronto com a arquitetura militar feudal.

Outro contraste é o da natureza envolvente - da vegetação arbórea, dos lagos, das pedras e das zonas relvadas - com o típico cenário urbano de torres de vidro, aço e betão armado.

 

O antigo castelo samurai não se perdeu na espuma dos dias, antes manteve a sua personalidade - mesmo apesar da modernidade dos edifícios imperiais - preservando o local exato, os fossos de água, as muralhas de pedra e a traça paisagística do antigo Castelo de Edo.