quarta-feira, 4 de março de 2026

MACAM 200 obras de arte



O elogio da arte, em “projecto inédito de iniciativa privada”. É assim o Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, que reune arte moderna e contemporânea, portuguesa e internacional.

Mas não só. O edifício é também ele um elemento artístico, um “espaço historicamente conhecido como Palácio dos Condes de Vila Franca”, do início do século XVIII, mandado construir, em 1701, pelo Marquês de Nisa.

Trata-se de uma construção sólida, capaz de ter sobrevivido ao terramoto de 1755, um edifíco onde nasceu, João Zarco da Câmara, o primeiro português a ser nomeado, em 1901, para o Prémio Nobel da Literatura.

Hoje, o edifício do antigo palácio foi alvo de uma intervenção nas paredes, tectos e pavimentos, preservando a traça pombalina. Nas salas de exposição o abobodado ainda reflecte a estrutura arquitectónia de época.

Também foram mantidas a capela e a escada monumental, todavia com a primeira convertida em bar e a segunda com um tratamento estilizado, conciliando a integridade histórica com exigências funcionais técnicas de um hotel.

Os dois pisos superiores do palácio original são agora acomodações hoteleiras. O piso térreo tem muitas salas dedicadas sobretudo à pintura e escultura. Mas o espaço expandiu-se para as traseiras em novas galerias.

O piso superior do edifício paralelo, mediado por um jardim que se abre desde a escadaria, está também dedicadoa exposições, estas que me pareceram temporárias e com carácter de instalação.

A nova ala perpendicular alberga o hotel e espaços de restauração. O conjunto é agradável, sedutor mesmo e, apesar de visualmente serem, digamos três corpos diferentes, articulam-se harmoniosamente.

O museu possui mais de 600 obras de arte - mas apenas pouco mais d edua sdezenas em exposição - que contemplam uma grande diversidade de linguagens e estilos artísticos, entre pintura, escultura, desenho, vídeo, fotografia e instalação, que abragem os últimos 3 séculos.

A arte portuguesa incluiu um primeiro espaço, com um conjunto de obras do final do século XIX e vai aos vanguardistas e modernistas da década de 80 do século. Estão ali,   Malhoa, Almada, Amadeo, Vieira da Silva.

Está lá um “Fernando Pessoa” de Júlio Pomar, o “Diálogo” de António Dacosta, “The Knight, the Lady and the Priest 2”, de Paula Rego. Eduardo Nery, Nadir Afonso, Júlião Sarmento e Pedro Cabrita Reis, também estão representados.

Já tivemos a possibilidade de visitar o segundo núcleo, que contempla artistas estrangeiros e compreende obras datadas dos anos 80 até à actualidade. Está lá,  o curioso “Un jour de grève ou la lampe d'Aladin”, de René Bertholo.

 “Women Massaging Breast”, uma obra da série “Épico Erótico dos Bálcãs“, de Marina Abramović, não deixa muita gente indiferente. A instalação “Still Life”, de Paloma Varga Weisz, também surpreende. Atravessando o pátio, também ornamentado com esculturas, uma delas de Angela Bulloch, e outra de José Pedro Croft, ambas criando “jogos de luz, movimento e uma falsa rotatividade”.

O pátio dá também acesso outro edifício e, na sala do piso térreo, deparamos com uma exposição temporária, “O Antropoceno: em busca de um novo humano?”, sobre a temática ambiental. No piso de cima, outra temporária, “Guerra: Realidade, Mito e Ficção”, sobre um tema tão actual como abrangente, explorando um conjunto de temas que vão da violência às notícias falsas.

Ainda lá estão notas trituradas, de Fábio Colaço, numa alusão artística aos interesses da guerra, bem como uma impressionante escultura de dois cavalos mortos, de Berlinde de Bruyckere.

São mais de duas centenas de obras e artistas que estão, respectivamente, expostas e representados na exposição, em dois mil metros quadrados, “contemplando vários conjuntos autorais e diversos núcleos temáticos”.

É um sítio atractivo, mesmo cativante, um local esteticamente diferente que junta história e arte, arquitectura, restauração, hotelaria, espaços de lazer, com fácil estacionamento ao fim de semana.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Cimitero Monumentale di Milano


A morte e a religiosidade estão na base da construção simbólica dos cemitérios, tornando-os espaços onde a memória e a história se manifestam de forma coletiva.

Mais do que locais destinados apenas aos mortos, os cemitérios existem para dialogar com os vivos, preservando lembranças e significados, guardando, por exemplo, a memória da família.

Mesmo numa sociedade ocidental que procura afastar a ideia da morte, esses espaços permanecem como territórios concretos de memorialização e de construção histórica.

Os símbolos, mausoléus e monumentos revelam que o cemitério não é apenas o lugar do fim, mas também da evocação. Por isso, assume a forma de um verdadeiro museu a céu aberto, refletindo a cultura, a arquitetura e a escultura.

Nessas “cidades dos mortos” convivem muitos estilos, expressos em jazigos, estátuas alegóricas, vitrais e, até, nas campas rasas. A arte fúnebre, para além da estética,  transforma o luto em memória visível.

As esculturas personificam a dor, a esperança e a própria morte, enquanto as alegorias celebram virtudes cristãs, trajetórias de vida e até profissões, enquanto muitos jazigos reproduzem a arquitetura urbana do seu tempo, como se fossem um segundo lar.

Essa riqueza artística faz de alguns cemitérios importantes destinos de turismo cultural. O Cemitério Monumental de Milão, construído em 1866, destaca-se pela sua grandiosidade, diversidade de estilos e pela atmosfera que transforma o espaço fúnebre numa impressionante exposição de arte e memória.

Entre as sepulturas mais notáveis estão uma torre branca, pertencente à família Bernocchi, uma pirâmide da família Bruni, e diversas esculturas pertencentes à família Campari.

Há mais famílias importantes representadas pelas suas sepulturas ou jazigos, tais como os Benelli ou os Pellegrini-Cislaghi, cujas esculturas e/ou baixos-relêvos revelam, quer o destaque social, quer o requinte da escolha estética respectiva.

História e arte, religiosidade e morte, articulam-se numa construção simbólica, na qual o cemitério é lugar de memória, mas também um espaço estético que reflete a cultura e sublinha a arquitetura e a escultura.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Desde o Forte de São Bruno

 

Está praticamente do outro lado do (agora, ruína) restaurante Mónaco. Já teve acesso e estacionamento para veículos, mas - soube hoje - está apenas acessível para veículos camarários e de abastecimento.

O Forte de São Bruno é uma pequena fortificação marítima com planta poligonal em  estrela, expressão típica do barroco militar. Privilegia a eficiência defensiva com dois baluartes robustos que lhe dão um perfil austero e estratégico.

Está lá desde o último quartel do século 17. Trata-se de uma das fortalezas que faz parte da extensa linha de defesa da barra do Tejo. Inoperacional durante algumas décadas teve uma ocupação bastante heterogénea.

Guarnecido, mas depois abandonado, só no início do século 19 foi rearmado com onze peças de artilharia. Mas não durante muito tempo. Foi invadido por areias, parte de  uma pequena muralha ruiu e chegou a ser utilizado como alvo para exercícios de tiro.

Foi morada civil, edifício administrativo fiscal, instalação da Mocidade Portuguesa, altura em que teve intervenção para recuperação. Depois do 25 de Abril pertenceu a um Fundo de Fomento e depois à Associação Portuguesa de Pousadas da Juventude.

Foi ainda instalação de Salvadores Náuticos, recuperado por duas vezes, e a Câmara de Oeiras reabilitou também o espaço envolvente com o objectivo de melhorar o acesso de visitantes ao forte.

Embora se note que não está nas melhores condições de conservação, foi cedido e encontra-se hoje como sede de honra da Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos, APAC, que também realiza aqui algumas actividades sobretudo para crianças.

Não precisei entrar à sucapa, o portão exterior estava aberto. Porém, o portão interior estava fechado.  A encimar este Portão de Armas, uma placa placa epigráfica faz referência ao rei João IV e ao Conde de Cantanhede, com data de 1647.

Afinal, o portão só parecia fechado. E, havia vozes vindas de lá. Aproveitei para dar uma volta ao longo das muralhas, e observar a paisagem através das aberturas dedicadas às peças de artilharia.

Voltei e a porta estava entreaberta. Aguardei e surgiu quem cuida do sítio, a responsável da Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos, APAC, pelo espaço. Gentilmente, mostrou-me as duas salas dedicadas a eventos e deixou-me trepar ao  terraço lajeado.

De lá, a vista é excelente, a par do cheiro da maresia, do azul do mar e da luminosidade que o sol empresta. O olhar vai desde a ponte 25 de Abril, passa pela outra margem do tejo e chega à extremidade da Marina de Oeiras.   

domingo, 25 de janeiro de 2026

Balcãs 25. De Montichiari a Trento



Estamos em Montichiari, a pouco mais de 80 kms de Melzo, onde recolhemos as motos que viajaram de camião até Itália. Chegamos à vista do castelo Bonoris, a minutos do hotel Elefante, onde temos estacionamento no pátio. 

Saímos, trepamos numa curta ladeira, mas o castelo já está fechado. Voltamos às ruas e entramos na Piazzetta da Basilica, damos a volta ao Duomo de Santa Maria Assunta e descobrimos uma esplanada simpática para comer gelados

Regressamos às ruas e não tardamos a sentar-nos para jantar na esplanada da pizzaria Al Cervo, mesmo nas traseiras do Duomo. O tempo está excelente, jantamos de manga curta as primeiras pizzas da jornada.

A visita a Sirmione está no programa da manhã. É para lá que vamos, acompanhando o final do Lago di Garda. Sítio turístico por excelência, há quase 4 décadas que não o vistávamos.

 

Hoje, já nem as motos têm direito de entrar no Castelo Scaligero. Ficam num parque estacionamento, onde também pagam! Fazemos um peqeno circuito pedestre, pelas ruas estreitas e voltamos à estrada.

Ficam por ver as restantes vielas, a villa de Maria Callas, as Cavernas de Catullo, o Lido e alguns vestígios arqueológicos que a pequena península encerra. O tempo continua soalheiro mas o trânsito está a ficar caótico.

É pouco mais de uma dezena de quilómetros até começarmos a subir pela margem do lago, mas já lá vai quase meia hora… até que, paramos quando o tráfego sossega num pequeno restaurante onde nos recebem (quase) em português.

Deixamos o almoço, acompanhado por prateleiras de garrafas de vinho, rotuladas e identificadas com graduação, casta e proveniência, e continuamos a acompanhar o lago, agora com menos trânsito e a paisagem a cativar deveras.

 

Paramos, fotografamos, conversamos e resistimos ao desafio da paisagem. Partimos de  para o próximo desafio, a Srada della Forra, que bordeja a falésia junto ao lago. O piso é bom, a estrada é estreita e parece que tem apenas um sentido.

Vamos trepando e passamos por um túnel, vegetação abundante, casas de montanha, sempre com um panorama ímpar. Quando paramos em Tremosine - onde, nem para motos, é fácil conseguir um lugar -,  estamos a meio do monte.

Desde o terraço de Brivido, de onde é possível ver grande parte do lago, também se vislumbra em Malcesine o seu castelo Scaligero, erigido no topo de um pequeno monte, mesmo à beira do lago.

Saímos para Riva Del Garda, navegando sempre junto à água, ora ao longo de uma outra mansão, ora  a olhar a montanha que se vai erguendo, cada vez mais alta, na outra margem. Está a ficar escuro, mas a paisagem mantém-se soberba.

Agora é preciso, como em redor do lago, conseguir lugar para parar as motos. Não é fácil e ficam encostadas a um enorme edifício que encerra uma central eléctrica. Saímos para a o centro da cidade.

Enquanto extermidade do lago, Riva tem um terminal fluvial e, pelo menos um dos barcos, fazia lembrar os velhos barcos a vapor do Mississipi. Sentamo-nos na praça 3 de Novembro, a sentir a dinâmica da zona lacustre.

À vista da Torre Apponale do século XIII, que tinha como propósito principal vigiar e defender a cidade, circundámos a praça e concluimos uma pequeno passeio pedestre ao longo do cais que circunda o sul da cidade.

Encurtámos o passeio, também porque o céu prometia chuva. E ele chegou, fortee acompanhada por vento. Abrigámo-nos num pequeno mercado de levante, próximo das motos e só arrancámos assim que a chuva deu tréguas.

Com a estrada alagada e os fatos de chuva vestidos, saímos a caminho de Trento. Começamos a subir não tarda. A estrada nacional, com bom piso e curvas largas, é agora acaompanhada por arvoredo típico de montanha.

Chegamos os arredores de Trento, ainda de dia e estacionamos em frente do hotel onde já está um grupo de motociclistas gregos. Jantamos num restaurante que estava  a fazer uma pela enorme paella e ainda temos direito a um pedestre nocturno para lá e para cá.