Partimos cedo, já sob o aviso subtil do verão, que soprava no ar a necessidade de um blusão leve. Às dez da manhã, na Área de Serviço de Montemor, o termómetro marcava uns generosos 26 graus, e o calor fazia-se sentir sem cerimónias.
Não demorou muito até um motociclista polaco, montado na sua Ténéré, se render à evidência, deixando blusão e capacete a descansar sobre a moto e, só o percebemos, quando regressámos às motos.
Após uma pausa para almoço em Esperança, seguimos rumo a Albuquerque pelas estradas municipais espanholas. O asfalto corria suave sob as rodas, mas era o calor que dominava a paisagem.
Em compensação, cada abastecimento sabia a pequena vitória, com o combustível a custar quase menos cinquenta cêntimos por litro do que em terras lusas. Se andássemos a gaz butano, seria o pleno...
Quando o calor aperta, os insetos não tardam a juntar-se à viagem. Vieram em enxames, colando-se às viseiras e carenagens, companheiros involuntários até Alba de Tormes.
Pelo caminho, ainda vagueámos pelos arredores de Plasencia, à procura de energia para máquinas e viajantes. Já em Alba, o GPS decidiu brindar-nos com um toque de aventura, conduzindo-nos até uma praça cuja saída se fazia por escadas.
E, como se não bastasse, ainda custei a acreditar quando descobri que o acesso à garagem passava por uma estreita rua empedrada de pequenos seixos, onde cada metro parecia desafiar a lógica e a confiança.
Alba ergue-se à margem do rio Tormes, nascida dos reis de Leão e moldada pelo curso da história. De forais e senhorios teceu-se o seu destino secular, até florescer nas mãos da nobre Casa de Alba.
Sentinela de pedra e memória, Alba é uma terra sagrada onde repousa Santa Teresa. O carácter devoto da urbe está omnipresente, quer nos muitos edifícios religiosos, quer na toponímia.
Muito próximo da Plaza Mayor, erguem-se uma das muitas igrejas do burgo - quase uma dezena mo total - para uma população de pouco mais de pouco mais de 5 mil habitantes.
Não muito longe, a Basílica inacaba, é um interessante exemplo de estilo neogótico. Nas chaminés, mas sobretudo nas torres, são as cegonhas que dominam. São dezenas que todos os anos escolhem o burgo para nidar.
Íamos sobretudo pelo 20º aniversário do EGV. E este podia ter o título de, “O Elogio do Passado e do Presente”. Provavelmente, como o escolheria Emilio Scotto, um aventureiro motociclista argentino, o grande homenageado desta edição. Já lá vamos. E o resto?
O resto é um cansaço , mas daqueles prazenteiros e motivadores, uma chatice afectuosa que junta vontades, estórias, expectativas, aventuras mas, sobretudo, pessoas, pessoas que entendem a vida e o mundo como uma bela viagem.
Talvez por isso, Jaime Núñez, o mentor do projecto, juntamente com a mulher, Conchi Cosme, tenha sugerido que a designação do AGV, devesse passar para um AGP, um Encontro de Grandes Pessoas.
O AGV é daqueles vírus que apetece apanhar, espalhar e reproduzir. E voltar com os mesmos sintomas, mais presentes, mais empolgantes, mais fatais. Um cansaço bem-vindo, tal como aquelas estradas, paisagens e pessoas que fazem parte da viagem.
Mais do que um simples encontro, é uma celebração da liberdade, da exploração e do espírito viajante. Em poucos anos, o Encuentro de Grandes Viajeros tornou-se uma referência internacional no mundo da moto-aventura.
A viagem vive disso: da adrenalina, do desconhecido, da estrada, da paisagem, do risco, do desafio, dos horizontes infinitos, de nós e dos outros. Há quem adore tudo isto ou muito disto. Do que nos preserva a memória, nos acompanha o presente e nos promete o futuro. É uma Energia invisível que nos acompanha o Caminho.
O encontro destaca-se pelo ambiente de amizade, descoberta e paixão pelas grandes viagens. Durante o evento, são apresentadas palestras, vídeos e relatos inspiradores de expedições internacionais. Mas, não só. Por vezes, bastam dois dedos de conversa sobre episódios divertidos ou projectos futuros, com a Paula Kota ou com o António Rosado, interessantes referências no universo dos grandes viajantes de moto portugueses.
Ou, basta apertar a mão e desejar boa viagem ao Toco Lenzi, um viajante brasileiro que está a caminho do Azerbaijão, e anda na estrada desde 2019, para alimentar o sonho, o desejo ou a vontade de viajar.
Ou, ainda, basta acompanhar o entusiasmo do José Luis Rico “Chefi” e da Pilar Molina, ou o bom humor do Jaime Pastor, outros grandes viajantes e conferencistas desta edição, gente que já viajou mais de moto do que eu a pé.
E, também, ouvir o regozijo do Emilio Scotto sobre a aventura da sua vida. E que belo documentário, de quase uma hora, com que nos brindou! Um testemunho na primeira pessoa, de quem percorreu o mundo e os acontecimentos e muitos protagonistas da época.
Entre 1985 e 1995 percorreu cerca de 735.000 kms em todos os continentes, exceto na Antártida. Durante a viagem atravessou 214 países e territórios, reconhecidos pelo Guinness, embora se desconfie que sejam mais.
A aventura durou 10 anos, 2 meses e 19 dias, sempre na mesma moto: uma Honda Gold Wing GL1100, de 1980. É impressionante ver a moto em desertos, montanhas e rios. E a recepção que teve por políticos, futebolistas famosos ou mesmo pelo Papa.
Às vezes, é bom sertirmo-nos pequenos. Não é vergonha, é entusiasmo e orgulho. É paixão porque partilhamos o mesmo propósito de viajar, e satisfação porque podemos cumprir esse objectivo de moto. A dimensão do feito não é domínio, é estímulo.
Mas não só. A construção da minha identidade passou por aqui, pelo acompanhamento dos que comigo partilham cada momento do Caminho, enlevando a proximidade que a moto oferece na interacção com as pessoas. Há muitos anos.
Evento sem repasto, não vale. Este, como os anteriores, juntou quase toda a gente num restaurante local. A panorâmica, desde lá, contemplava toda a Alba de Tormes. O cocktail inicial assegurou que todos teriam uma vista privilegiada do burgo.




















































