domingo, 5 de julho de 2026

Harleys em Cascais

Quatro dias de motos. Exposições, comércio, concertos e desfiles. Animação,  passeios, e alegria. Depois de edição de 2019, Cascais voltou a acolher o maior encontro europeu de motociclistas da Harley-Davidson.

São milhares os que participam, aos quais se juntam outros tantos que vão para os ver, outros ainda que são turistas e também por lá passam. O “centro de operações” é na baía, um palco habitual para eventos na vila.

Há muita gente a deambular por ali. As lojas dedicadas estão cheias de fregueses. O ambiente está tranquilo, enquanto se ouvem alguns acordes de guitarra no palco e se procura lugar para estacionar.

Não é possível mas, alguns mais distraídos… até invertem a marcha para insistir no que não viram perfeitamente. Ainda há lugares, mas não tarda que a rua esteja plena de motos, estacionadas.

Além dos portugueses, há muitos espanhóis, franceses, ingleses, italianos e alemães. Mas também há matrículas da Estónia, da Ucrânia e da Bulgária. Os modelos contemplam toda a gama Harley, incluindo algumas raridades.

A marca que ultrapassou há duas décadas um século de existência, ainda mantém uma aura mítica que os HOG não deixam desaparecer e testemunham na simbologia que o vestuário e os acessórias das motos exibem.

No ponto alto do evento, dizem que o Grande Desfile Oficial de sábado, reuniu cerca de 20 mil motas no Autódromo do Estoril, tendo o percurso levado a caravana até à Baía de Cascais.

Já não via tantas Harleys desde Setembro do ano passado, por ocasião da European Bike Week, em Faak am See, na Áustria, quando nos cruzamos com centenas a caminho do nosso FIM Mototour na Croácia.



quinta-feira, 2 de julho de 2026

Na ruína do Casal do Vale do Milho

Dizem que parece uma fábrica, mas há quem se lembre de lá ver vacas a pastar. E há mesmo quem assegure que aquelas “estruturas pertenciam a uma exploração agro-pecuária com matadouro”, e quem se lembre que “havia o celeiro onde ainda estavam carroças”.

Extinta há cerca de meio seculo - “a exploração agropecuária manteve-se activa até meados dos anos 70/80 do séc. XX” -, e está hoje muito degradada, com paredes e telhados caídos, muito entulho e invadida por vegetação agreste.

 

Realmente, ainda se percebem muitas estruturas, tais como, canais de água, armazém, reservatório, assim como um bebedouro exterior, quase oculto por ervas silvestres. Estou no Casal de Vale do Milho que, segundo dizem, a toponímia remonta ao século XVI.

 

Diz-se ainda que, numa noite de Março de 1805, o Casal do Vale do Milho foi palco de um crime que abalou toda a região, quando cinco pessoas perderam a vida. Entre rumores e lendas, surgiu a suspeita de que o crime escondia segredos da corte.

Os edifícios parecem pairar sobre as ervas esguias que, hoje, abanam fustigadas por um vento forte. Para lá chegar, ou a pé ou de moto - o trilho é estreito com algumas pedras baixas -, há que ultrapassar cerca de 200 metros de “terra”.

De moto, não se sente que o piso tenha grandes irregularidades, mas é preciso avançar com cuidado, não vá algum calhau estar escondido pelas ervas. Junto das ruínas há um pequeno terreiro óptimo para deixar a moto.

Faz-se bem, apesar da quantidade de ervas que cobrem os campos. É possível que, fora do trilho, o piso mude, uma vez que não se consegue ver. Junto das ruínas, o cenário é idêntico, sendo que, em alguns locais, as ervas escondem alguns buracos valentes.

A serra e a silhueta do Palácio da Pena, a sul, a torre de controlo da BA1 (na Granja do Marquês), a norte, e o Tribunal da Comarca de Sintra, a oeste, envolvem o cenário da ruína  E o céu é o único espaço onde as ervas não bloqueiam o acesso.

Todavia, os finos carreiros por onde é possível andar, mostram que ainda há quem por lá ande. O sítio é sossegado, mas algo isolado. A paisagem é atraente, quer para a serra de Sintra, quer para norte onde o olhar é capaz de chegar ao Palácio de Mafra.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Bang Pa-In. Palácio Real


Numa terra em que está sempre calor, mesmo que chova; em que o oceano de águas cálidas banha  quilómetros de costa, não contando com o quase milhar e meio de ilhas, parece que ir de férias para um Palácio de Verão no interior é singular.

Mas os reis tailandeses faziam-no. Ao Palácio Real de Bang Pa-In, chamavam-lhe Palácio de Verão. O calor está lá, mas o oceano não. Todavia, tem rios e lagos, um jardim gigantesco e um conjunto de edifícios ímpares.

Entramos no vasto jardim do palácio, depois do ritual da máscara cirúrgica na recepção e de uma advertência para vestir calças. A máscara saiu logo após transpormos os portões, mas as calças tailandeses, emprestadas, ficaram… calções não são permitidos.

O complexo inicial, construído na terceira década do século XVII, outrora usado pelos reis tailandeses, foi abandonado no final do século seguinte, e há quem defenda que chegou a ser parcialmente destruído.

Despois, ficou coberta de vegetação, até que, em finais do século XIX, foi reconstruído. Agora, além de haver obras no pavilhão do lago, o interior visitável do palácio estaria em limpeza para um evento próximo...

Por tal, apenas pudemos deambular pelo exterior dos edifícios. O complexo compreende um palácio e um templo real, a residência do rei, uma torre de vigia colorida e um pavilhão situado no meio de um lago.

O branco domina muitos dos edifícios. Embora haja muita influência chinesa na parte arquitetónica, na parte habitacional também já se revela uma grande influência europeia, tal como a ponte e as esculturas que a decoram.

Esta diversidade vai desde o estilo Khmer, passa pelo estilo coríntio grego, vai ao estilo chalet suíço e, ainda, ao estilo chinês, havendo ainda referência ao estilo cambojano. Um local amplo, excelente para passear. Foi o que fizemos!

quarta-feira, 17 de junho de 2026

O Cais Mágico

Tantas são as vezes, que nos esquecemos de quantas vezes lá fomos. O regresso à “Escola” é inevitável, quer pela gastronomia, quer pelo sítio. Se a gastronomia é relevante, o local parece ter uma simpatia ímpar com Troia. Mas não só.

Começamos pela “instrução primária” ao sabor de uma empada de lebre. Vamos com amigos. É assim que se está bem por aqui, partilhando boa comida e melhores momentos, bem como memórias de milhares de quilómetros a viajar de moto.

Pouco antes da homónima Turca, cuja península é um ex-libris da região, e faz parte de um circuito que liga Setúbal, Alcácer do Sal e Comporta, existe uma construção comunitária tão paisagística como socialmente relevante.

Uma obra-prima da arquitetura popular espontânea. Um caminho suspenso como solução engenhosa. Um porto de abrigo sui generis face às marés. Um caminho de subsistência para as famílias de pescadores.

O Cais Palafita da Carrasqueira pode ser tudo isto. Em seu redor, a impenetrável barreira de lodo, que isola qualquer acesso a embarcações, ditou o engenho. Emergente de uma necessidade comunitária, o cais palafita está lá há mais de seis décadas.

Erguido entre as décadas de 1950 e 1960, o porto artesanal respondeu à demanda de acesso seguro aos barcos, a qualquer hora do dia, sem estarem dependentes das marés do Estuário do Sado.

Como resolver este problema? Ao enterrarem estacas paralelas de madeira no lodo e, depois, ao estenderem entre elas um passadiço, os pescadores asseguraram caminhos de acesso aos ancoradouros e ao rio.

 

Portugal tem alguns exemplos de organização comunitária - como sejam as vezeiras, os fornos e as hortas comunitárias, p. ex. - que reflectem uma mobilização de recursos e a formulação de estratégias de ação com características de entreajuda.

No caso deste Cais Palafita, é a subsistência assente na pesca artesanal e na apanha de bivalves (ostras incluídas), que junta o engenho e o trabalho de um conjunto de famílias em prol da comunidade pescatória.


Uma comunidade que partilha o acesso e alguns apetrechos, mas cujas famílias possuem uma pequena cabana/armazém onde guardam as artes de pesca e cujo acesso é feito através do passadiço ziguezaqueante.

São centenas, se não milhares, de estacas rústicas de pinho que serpenteiam água for a, desfiando a gravidade e o tempo, num rendilhado de madeira, desgastado pelo sol e pelo sal e que sustenta um labirinto que parece flutuar sobre o Sado.

Na calmaria da maré, o cenário transborda silêncio, interrompido apenas pelo restolhar das aves aquáticas, um ou outro coaxar e pelo suave balanço dos barcos ancorados, tão leve que a maré parece adormecida.

A paleta de cores transforma-se com o passar das horas. Ao amanhecer e ao crepúsculo, o céu tinge-se de tons dourados, violetas e carmins, que se refletem na água estagnada e na lama húmida, transfigurando o cais numa tela viva.

Esta arquitetura frágil, erguida sem planos mas cheia de alma, ergue-se como um hino à resiliência humana, onde a mão do homem e a força da natureza se fundem num abraço melancólico e eterno.

Apanhar o cais ao entardecer, mesmo num dia de Inverno soalheiro mas frio, mas todavia envolvido por uma luz difusa e enigmática, parece transformar o sítio de labor num ambiente mágico. E a silhueta de Troia e da Arrábida? Mais magia.