sexta-feira, 1 de maio de 2026

Arte e História em Sydney. O AGNSW


Não deixa de ser fascinante encontrar uma combinação tão rica entre a história e a arte, num tão longínquo, diverso e recente país/continente como seja a Austrália. Onde encontrei essa simbiose? Pelo menos em Perth e em Sydney.

Perth esteve aqui - https://cordeirus.blogspot.com/2025/12/arte-aborigene-i-wa-museum-perth.html - com a dinâmica da arte aborígene no WA Museum, onde se descobria a relação entre a arte aborígene e as ancestralidades: as histórias e as mitologias.

Hoje, é o patrimónioartístico de Sydney que se destaca. E porquê? Porque os ricos conteúdos dos museus / galerias de arte da cidade também se articulam com a fértil história colonial e aborígene, tendo a cultura aborígene um forte elo de ligação com a arte.

Mas não só. A Austrália não tem apenas no seu seio uma rica cultura aborígene, mas também uma forte proximidade a outras culturas do Pacífico Sul, especialmente com a Melanésia e com as ilhas do Estreito de Torres.


Essas relações não são apenas genéticas, por exemplo, entre aborígenes australianos e  melanésios, mas também na forte herança cultural melanésia e influências da Nova Guiné nos australianos, bem como nas relações comerciais estabelecidas entre estas comunidades.

Outra partilha é a vertente geográfica que enfatiza a relação entre a terra e o mar e as múltiplas cumplicidades na cena artística, especialmente no que respeita à música, à escultura, à pintura e à dança. 

São algumas desssas particularidades artísticas que estão expostas, por exemplo, no Museu de Arte Contemporânea. Hoje, vamos pela Art Gallery of New South Wales (AGNSW). Escolhemos esta última, para onde vamos a pé numa caminhada de cerca de 15 minutos.

Passamos por Woolloomooloo e Wharf Terraces, uma pequena urbanização de apartamentos virados para a água, onde paramos numa espécie de miradouro com uma vista fantástica sobre o porto mais próximo.

O espaço corresponde, também, ao ARTPark Australian Sculpture, onde a arte abstracta domina. Está sol, não há vento, e basta trepar uma escadaria valente para chegar ao  edifício mais recente da AGNSW. Depois, vamos ao antigo.

Esta galeria, conhecida como "Sydney Modern Project" (2022), é uma espansão da AGNSW, “pavilhões interconectados de vidro e cimento que descem em cascata até o porto de Sydney, integrando arte, paisagismo e sustentabilidade”. 

Paisagisticamente, o conjunto é um tão harmonioso como ecológico, tendo sido desenhado pelos arquitetos vencedores do prêmio Pritzker, Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, de Tóquio.

Um das curiosidades / soluções arquitectónicas, passa por antigos tanques de óleo, depósitos em formato de bunker de combustível, datados da Segunda Guerra Mundial, convertidos num ímpar espaço subterrâneo de arte.

No vasto pátio exterior, percebe-se logo onde estamos e ao que vamos. Há  três pares de gigantes amistosos, cujas formas decorrem das figueiras que circundam a galeria, criação do neozelandês Francis Upritchard, significando um mundo de cooperação e ajuda mútua.

Entramos, é gratuito. O átrio que dá acesso às diversas salas de exposição já é uma obra de arte: o espaço, a transparência, as esculturas, a luz, aliam-se para nos receber e motivar à visita.

Reservamos uma pequena visita guiada. Antes, porém, somos já atraídos por algumas das obras expostas, talvez pela grande dimensão ou pela novidade estética, parecendo haver uma identidade plástica que nos cativa a entrar.


O percurso leva-nos por um conjunto de obras, onde a cor, os pontos, as formas, os traços, as texturas se articulam com as histórias, as mitologias, o meio ambiente e relação entre este e o homem.

A mitologia contempla muitos dos trabalhos artísticos expostos. As “seven sisters”, por exemplo - Lenda das sete irmãs perseguidas, cujas pegadas moldaram a paisagem e os caminhos ditaram costumes e normas sociais - , surgem frequentemente na pintura.

A simbologia protectora através de animais lendários, a transfigurações e estórias ancestrais, bem como os frequentes mapas com percursos através dos territórios indígenas, tanbém são regularmente mote artístico.

 As Interacções entre homens e o território, protagonizado muitas vezes pelos próprios autores, (re)criam até as funções dos objectos, mas sobretudo evidenciam a relação entre o espaço e o artista. As criaturas da imaginação e das lendas como, por exemplo, o caso dos “Mimiths”, seres do folclore aborígene frágeis e esguios, que vivem nas fendas das rochas, também aparecem nas telas e na escultura.

Mas há mais para ver: minimalismos, criaturas sinistras e turbulentas de universos utópicos ou futuristas, esculturas com estudos sofisticados de movimentos humanos e/ou mapas dos territórios.

O AGNSW junta arte aborígene e do Estreito de Torres, arte contemporânea e uma forte representação da arte do Pacífico. E, desde as extensas vidraças ou do pátio exterior virado a sul, é a paisagem urbana que domina.


Saímos na direcção do Edifício Naala Nura, atravessando apenas uma pequena parte do jardim First Nations. O Naala Nura tem uma arquitectura neoclássica e data de 1871. Tem vários andares. Visitámos dois.

A sensação à entrada é de estarmos no século XIX, o que corresponde tout cour à mostra de arte renascentista europeia do século XV até cerâmicas extraordinárias de diferentes épocas e origens, bem como de esculturas e pinturas relevantes do século XIX.

Mas não precisamos ir muito longe para encontrar a cultura do Pacífico sul. Melhor, descobrir os Fern, figuras icónicas melanésias, alguns de grande dimensão, símbolos de prestígio, uma espécie de totems de estética marcante.

Depois, a diversidade. Há quadros com cenas de trabalho, tosquia, um clássico cenário australiano, ou a canónica cena de uma carga de cavalaria que enquadrei com  alguns fern melanésios…

Continuamos nos clássicos, com um óleo sobre tela com  a “Visita da Rainha de Sabá ao rei Salomão” para, mais à frente, surgirem mais óleos sobre acrílicos abstractos, mais esculturas e mais cerâmica.

Mas também estão expostas obras mais recentes, de uma colecção dos últimos 40 anos do século XX, que traça as semelhanças e as distinções artísticas dos finais do século, contemplando quer arte pop, quer arte política. 





quinta-feira, 16 de abril de 2026

SPLIT, com Diocleciano



Saímos de Trogir de barco. Está fresco e uma nevoa contrastante, mas a paisagem abre-se a 360º, permitindo perceber que navegamos numa enorme baía do suave Adriático. É menos de meia hora até Split.

Visitar Split é entrar num lugar onde o tempo abranda e a história se deixa tocar. No coração da cidade está o Palácio de Diocleciano, não como um monumento fechado, mas como um museu vivo.

Trata-se de um espaço aberto, feito de ruas, praças e memórias que se revelam a cada passo. Caminhar por ali é percorrer séculos, entre pedras antigas e a energia vibrante de quem lhe dá vida.

Estivemos no seio da atmosfera da corte imperial para assistir a uma encenação teatral na praça central do palácio, onde um ator representando o imperador Diocleciano e a imperatriz, acompanhado por guardas romanos, saúda o público.

O centro histórico, classificado como Património Mundial, convida a deambular sem rumo: ruelas estreitas, fachadas de pedra, ruínas discretas e a presença marcante da Catedral de São Domnius.


A cidade velha é muralhada, constituindo-se como fortaleza desde o século IV, tendo dado origem à cidade moderna. Escondido numa das vielas mais estreitas da urbe, passamos pelo curioso Templo de Júpiter com uma esfinge à porta.

Pelo caminho, surgem pátios, onde colunas e luz se encontram num equilíbrio quase sagrado, e espaços como o Vestíbulo, que ecoam a grandiosidade de outros tempos. Até os mosaicos, simples e silenciosos, pedem um olhar atento.

A entrada na cidade antiga faz-se por portões carregados de história, como o Portão Dourado, outrora majestoso, ainda hoje imponente. Mas há outros acessos, como o Portão Prateado ou o de Ferro, que levam o visitante para além das muralhas.

Passamos por praças e recantos cheios de autenticidade. Tudo se liga, tudo flui, como se a cidade fosse um só organismo, antigo e presente ao mesmo tempo. A pedra volta a dominar e as fachadas transferem-nos para outras eras.

Fora das muralhas, Split continua a encantar. A Riva, marginal local, estende-se junto ao mar, elegante e luminosa, onde barcos e iates embalam o olhar. E, como ponto de partida privilegiado, a cidade abre portas a ilhas de sonho como Hvar, Brač e Korčula.

Porém, como estamos a meio da manhã, há muitos turistas, um rumor notório de gente. Teria sido ideal chegar mais cedo. Percorrer as ruas vazias, antes da agitação turística, e Split revelar-se-ia silenciosamente na sua forma mais íntima.

E, tão incontornável como em Dubrovnik, as referências ao Game of Thrones têm testemunho em loja. Aqui, foram os subterrâneos do Palácio de Diocleciano, em pleno centro histórico, que serviram como cenário importante na série.