terça-feira, 14 de julho de 2026

20 anos de Encuentros de Grandes Viajeros


Partimos cedo, já sob o aviso subtil do verão, que soprava no ar a necessidade de um blusão leve. Às dez da manhã, na Área de Serviço de Montemor, o termómetro marcava uns generosos 26 graus, e o calor fazia-se sentir sem cerimónias. 

Não demorou muito até um motociclista polaco, montado na sua Ténéré, se render à evidência, deixando blusão e capacete a descansar sobre a moto e, só o percebemos, quando regressámos às motos.

Após uma pausa para almoço em Esperança, seguimos rumo a Albuquerque pelas estradas municipais espanholas. O asfalto corria suave sob as rodas, mas era o calor que dominava a paisagem. 

Em compensação, cada abastecimento sabia a pequena vitória, com o combustível a custar quase menos cinquenta cêntimos por litro do que em terras lusas. Se andássemos a gaz butano, seria o pleno...

Quando o calor aperta, os insetos não tardam a juntar-se à viagem. Vieram em enxames, colando-se às viseiras e carenagens, companheiros involuntários até Alba de Tormes. 

Pelo caminho, ainda vagueámos pelos arredores de Plasencia, à procura de energia para máquinas e viajantes. Já em Alba, o GPS decidiu brindar-nos com um toque de aventura, conduzindo-nos até uma praça cuja saída se fazia por escadas. 

E, como se não bastasse, ainda custei a acreditar quando descobri que o acesso à garagem passava por uma estreita rua empedrada de pequenos seixos, onde cada metro parecia desafiar a lógica e a confiança.

Alba ergue-se à margem do rio Tormes, nascida dos reis de Leão e moldada pelo curso da história. De forais e senhorios teceu-se o seu destino secular, até florescer nas mãos da nobre Casa de Alba.

Sentinela de pedra e memória, Alba é uma terra sagrada onde repousa Santa Teresa. O carácter devoto da urbe está omnipresente, quer nos muitos edifícios religiosos, quer na toponímia. 

Muito próximo da Plaza Mayor, erguem-se uma das muitas igrejas do burgo - quase uma dezena mo total - para uma população de pouco mais de pouco mais de 5 mil habitantes. 

Não muito longe, a Basílica inacaba, é um interessante exemplo de estilo neogótico. Nas chaminés, mas sobretudo nas torres, são as cegonhas que dominam. São dezenas que todos os anos escolhem o burgo para nidar. 

Íamos sobretudo pelo 20º aniversário do EGV. E este podia ter o título de, “O Elogio do Passado e do Presente”. Provavelmente, como o escolheria Emilio Scotto, um aventureiro motociclista argentino, o grande homenageado desta edição. Já lá vamos. E o resto?

O resto é um cansaço , mas daqueles prazenteiros e motivadores, uma chatice afectuosa que junta vontades, estórias, expectativas, aventuras mas, sobretudo, pessoas, pessoas que entendem a vida e o mundo como uma bela viagem.

Talvez por isso, Jaime Núñez, o mentor do projecto, juntamente com a mulher, Conchi Cosme, tenha sugerido que a designação do AGV, devesse passar para um AGP, um Encontro de Grandes Pessoas.

O AGV é  daqueles vírus que apetece apanhar, espalhar e reproduzir. E voltar com os mesmos sintomas, mais presentes, mais empolgantes, mais fatais. Um cansaço bem-vindo, tal como aquelas estradas, paisagens e pessoas que fazem parte da viagem.

Mais do que um simples encontro, é uma celebração da liberdade, da exploração e do espírito viajante. Em poucos anos, o Encuentro de Grandes Viajeros tornou-se uma referência internacional no mundo da moto-aventura. Também porque o endeusamento da viagem passa muito pela aventura, sempre presente nos diversos relatos deste AGV. 

A viagem vive disso: da adrenalina, do desconhecido, da estrada, da paisagem, do risco, do desafio, dos horizontes infinitos, de nós e dos outros. Há quem adore tudo isto ou muito disto. Do que nos preserva a memória, nos acompanha o presente e nos promete o futuro. É uma Energia invisível que nos acompanha o Caminho.

O encontro destaca-se pelo ambiente de amizade, descoberta e paixão pelas grandes viagens. Durante o evento, são apresentadas palestras, vídeos e relatos inspiradores de expedições internacionais. Mas, não só. Por vezes, bastam dois dedos de conversa sobre episódios divertidos ou projectos futuros, com a Paula Kota ou com o António Rosado, interessantes referências no universo dos grandes viajantes de moto portugueses.

Ou, basta apertar a mão e desejar boa viagem ao Toco Lenzi, um viajante brasileiro que está a caminho do Azerbaijão, e anda na estrada desde 2019, para alimentar o sonho, o desejo ou a vontade de viajar.

Ou, ainda, basta acompanhar o entusiasmo do José Luis Rico “Chefi” e da Pilar Molina, ou o bom humor do Jaime Pastor, outros grandes viajantes e conferencistas desta edição, gente que já viajou mais de moto do que eu a pé.

E, também, ouvir o regozijo do Emilio Scotto sobre a aventura da sua vida. E que belo documentário, de quase uma hora, com que nos brindou! Um testemunho na primeira pessoa, de quem percorreu o mundo e os acontecimentos e muitos protagonistas da época.

Entre 1985 e 1995 percorreu cerca de 735.000 kms em todos os continentes, exceto na Antártida. Durante a viagem atravessou 214 países e territórios, reconhecidos pelo Guinness, embora se desconfie que sejam mais.

A aventura durou 10 anos, 2 meses e 19 dias, sempre na mesma moto: uma Honda Gold Wing GL1100, de 1980. É impressionante ver a moto em desertos, montanhas e rios. E a recepção que teve por políticos, futebolistas famosos ou mesmo pelo Papa.

Às vezes, é bom sertirmo-nos pequenos. Não é vergonha, é entusiasmo e orgulho. É paixão porque partilhamos o mesmo propósito de viajar, e satisfação porque podemos cumprir esse objectivo de moto. A dimensão do feito não é domínio, é estímulo.

Mas não só. A construção da minha identidade passou por aqui, pelo acompanhamento dos que comigo partilham cada momento do Caminho, enlevando a proximidade que a moto oferece na interacção com as pessoas. Há muitos anos. 

Evento sem repasto, não vale. Este, como os anteriores, juntou quase toda a gente num restaurante local. A panorâmica, desde lá, contemplava toda a Alba de Tormes. O cocktail inicial assegurou que todos teriam uma vista privilegiada do burgo.



Para o ano, há mais. Mais viagens, mais aventura, talvez mais amigos para acompanharem o evento e o caminho. Se continuarmos a andar por aqui, somos capazes de passar por lá.



domingo, 5 de julho de 2026

Harleys em Cascais

Quatro dias de motos. Exposições, comércio, concertos e desfiles. Animação,  passeios, e alegria. Depois de edição de 2019, Cascais voltou a acolher o maior encontro europeu de motociclistas da Harley-Davidson.

São milhares os que participam, aos quais se juntam outros tantos que vão para os ver, outros ainda que são turistas e também por lá passam. O “centro de operações” é na baía, um palco habitual para eventos na vila.

Há muita gente a deambular por ali. As lojas dedicadas estão cheias de fregueses. O ambiente está tranquilo, enquanto se ouvem alguns acordes de guitarra no palco e se procura lugar para estacionar.

Não é possível mas, alguns mais distraídos… até invertem a marcha para insistir no que não viram perfeitamente. Ainda há lugares, mas não tarda que a rua esteja plena de motos, estacionadas.

Além dos portugueses, há muitos espanhóis, franceses, ingleses, italianos e alemães. Mas também há matrículas da Estónia, da Ucrânia e da Bulgária. Os modelos contemplam toda a gama Harley, incluindo algumas raridades.

A marca que ultrapassou há duas décadas um século de existência, ainda mantém uma aura mítica que os HOG não deixam desaparecer e testemunham na simbologia que o vestuário e os acessórias das motos exibem.

No ponto alto do evento, dizem que o Grande Desfile Oficial de sábado, reuniu cerca de 20 mil motas no Autódromo do Estoril, tendo o percurso levado a caravana até à Baía de Cascais.

Já não via tantas Harleys desde Setembro do ano passado, por ocasião da European Bike Week, em Faak am See, na Áustria, quando nos cruzamos com centenas a caminho do nosso FIM Mototour na Croácia.



quinta-feira, 2 de julho de 2026

Na ruína do Casal do Vale do Milho

Dizem que parece uma fábrica, mas há quem se lembre de lá ver vacas a pastar. E há mesmo quem assegure que aquelas “estruturas pertenciam a uma exploração agro-pecuária com matadouro”, e quem se lembre que “havia o celeiro onde ainda estavam carroças”.

Extinta há cerca de meio seculo - “a exploração agropecuária manteve-se activa até meados dos anos 70/80 do séc. XX” -, e está hoje muito degradada, com paredes e telhados caídos, muito entulho e invadida por vegetação agreste.

 

Realmente, ainda se percebem muitas estruturas, tais como, canais de água, armazém, reservatório, assim como um bebedouro exterior, quase oculto por ervas silvestres. Estou no Casal de Vale do Milho que, segundo dizem, a toponímia remonta ao século XVI.

 

Diz-se ainda que, numa noite de Março de 1805, o Casal do Vale do Milho foi palco de um crime que abalou toda a região, quando cinco pessoas perderam a vida. Entre rumores e lendas, surgiu a suspeita de que o crime escondia segredos da corte.

Os edifícios parecem pairar sobre as ervas esguias que, hoje, abanam fustigadas por um vento forte. Para lá chegar, ou a pé ou de moto - o trilho é estreito com algumas pedras baixas -, há que ultrapassar cerca de 200 metros de “terra”.

De moto, não se sente que o piso tenha grandes irregularidades, mas é preciso avançar com cuidado, não vá algum calhau estar escondido pelas ervas. Junto das ruínas há um pequeno terreiro óptimo para deixar a moto.

Faz-se bem, apesar da quantidade de ervas que cobrem os campos. É possível que, fora do trilho, o piso mude, uma vez que não se consegue ver. Junto das ruínas, o cenário é idêntico, sendo que, em alguns locais, as ervas escondem alguns buracos valentes.

A serra e a silhueta do Palácio da Pena, a sul, a torre de controlo da BA1 (na Granja do Marquês), a norte, e o Tribunal da Comarca de Sintra, a oeste, envolvem o cenário da ruína  E o céu é o único espaço onde as ervas não bloqueiam o acesso.

Todavia, os finos carreiros por onde é possível andar, mostram que ainda há quem por lá ande. O sítio é sossegado, mas algo isolado. A paisagem é atraente, quer para a serra de Sintra, quer para norte onde o olhar é capaz de chegar ao Palácio de Mafra.