"Montenegro: entre a memória histórica e a poesia da paisagem", podia ser um título para esta incursão neste país. Um passeio pela zonas históricas de Budva e Kotor, um mergulho no Adriático em Sveti Stefan e a paisagem desde a Serpentine, foram os ex-libris.
Vamos às montanhas que dominam a baia de Kotor, aos meandros da cidade, à originalidade de Sveti Stefan, à antiguidade de Budva. Cada paragem oferece uma combinação singular de memória, cultura e contemplação.
Voltamos à marginal croata. Paramos numa pequena reentrância e espreitamos Dubrovnik desde a encosta. É a imagem que aparece nos roteiros. Porém, aqui, parece que rodamos mais alto e a cidade se funde com o Adriático lá no fundo.
Não tarda, desviamos para o interior. Ainda não se vê a fronteira, mas já se vêm carros parados na estrada. Mais à frente, camionetas de turismo. Ainda não se vislumbram as cabinas fronteiriças.
Está calor e o avanço é lento. Estamos de moto e vamos ocupando os espaços onde cabemos. Estimamos que a entrada em Montenegro vai demorar mais do que o previsto. Há turistas a sair dos autocarros para verificação fronteiriça pessoa a pessoa.
Despachamo-nos em cerca de uma hora. O caminho vai compensar. A paisagem volta a ser de marginal. Todavia, aqui, Montenegro junta-lhe a lindíssima Baía de Kotor, escoltada entre montanhas esguias que lhe guardam a história e os panoramas.
O património histórico funde-se com paisagens de rara beleza. Kotor é um dos conjuntos históricos mais notáveis do Adriático, reconhecido pela UNESCO. A cidade parece protegida por uma muralha natural de montanhas abruptas que mergulham diretamente no mar.
Com origens romanas, Kotor prosperou sob domínio bizantino, sérvio e veneziano, entre os séculos XV e XVIII. Percorrer o labirinto das suas ruas é viajar através de séculos de influência veneziana e mediterrânica.
O centro histórico, Stari Grad, é um labirinto de ruas calcetadas, praças e palácios renascentistas e barrocos. A pedra é dominante, tal como o número de gatos, tal como a altura da amurada dos navios de cruzeiro fundeados às portas da cidade.
Mas não ficamos por aqui. Metemos pela serra e, mal ficou plano, apanhamos uma valente fila, em pleno troço em obras, numa recta com cerca de 10 quilómetros. Íamos a caminho de Budva.
Budva representa o encontro entre a herança histórica e a energia vibrante da Riviera Montenegrina. A Cidade Antiga, envolvida por muralhas medievais de influência veneziana, é um pequeno núcleo preservado que, ainda assim, fascina.
Ese núcleo histórico conserva ruas estreitas de pedra, igrejas centenárias - entrámos numa ortodoxa - e pequenas praças que evocam séculos de história marítima. Essa relação com o mar confere-lhe um encanto especial, aspecto mais atenuado no exterior das muralhas.
Com efeito, fora das muralhas, independentemente do cosmopolitismo da marina, a arquitectura e quantidade de prédios que ocupam a baía, emprestam um ambiente descaracterizado muito semelhante a uma qualquer cidade de férias costeira.
O melhor estava para vir, em Sveti Stefan, que podia ser, a “Ilha que flutua entre o mar e o tempo”. Sendo uma antiga povoação piscatória fortificada, erguida no século XV, parece emergir das águas como uma visão intemporal.
Hoje, a península funciona como um resort de luxo, restrita a hóspedes, e desenha uma das imagens mais emblemáticas do Adriático. Basta estar na praia ou, melhor ainda, dentro do cálido mar montenegrino, para perceber a beleza do sítio.
Foi aqui que nos perdemos dos restantes. Logo num país onde a rede móvel para nós é paga a peso de ouro e, por tal, estava desligada. Mas, quem tem mapa e boca recupera o engano e ainda fizemos uma dezena de quilómetros numa montanha com piso e curvas interessantes,
Reencontrarmos os demais entre as curvas com paisagem panorâmica sobre o Adriático e um bar/restaurante de montanha. Depois de todos reunidos, continuámos a estrada de montanha que ia estreitando à medida que avançávamos.
Daí a pouco, estávamos no Horizont Bar, situado num local tão panorâmico como elevado. Estamos a 900 metros de altitude “sobre” a baía de Kotor. Pedimos espumoso, saudámo-nos e apreciámos o início de um pôr do sol fantástico.
O restante foi admirado a descer a Serpentine, Serpentina, uma estrada tão desafiante como enrolada, com curvas consecutivas, tão apertadas como panorâmicas. Felizmente, só apanhámos um carro de frente...
São 25 curvas, mas parecem mais. Cada uma revela nova perspectiva. É uma paisagem de vertigem e contemplação, onde o Adriático surge muito abaixo, como um espelho azul encaixado entre gigantes de pedra.
Lá em baixo está Kotor. Voltamos a passar pelo porto e pelas portas da cidade antiga. Vamos guardar na memória este pequeno país, com um ambiente em jeito de extensão da Croácia, mas com identidade própria e vontade de, em breve, se juntar à UE.

















































