quinta-feira, 25 de junho de 2026

Bang Pa-In. Palácio Real


Numa terra em que está sempre calor, mesmo que chova; em que o oceano de águas cálidas banha  quilómetros de costa, não contando com o quase milhar e meio de ilhas, parece que ir de férias para um Palácio de Verão no interior é singular.

Mas os reis tailandeses faziam-no. Ao Palácio Real de Bang Pa-In, chamavam-lhe Palácio de Verão. O calor está lá, mas o oceano não. Todavia, tem rios e lagos, um jardim gigantesco e um conjunto de edifícios ímpares.

Entramos no vasto jardim do palácio, depois do ritual da máscara cirúrgica na recepção e de uma advertência para vestir calças. A máscara saiu logo após transpormos os portões, mas as calças tailandeses, emprestadas, ficaram… calções não são permitidos.

O complexo inicial, construído na terceira década do século XVII, outrora usado pelos reis tailandeses, foi abandonado no final do século seguinte, e há quem defenda que chegou a ser parcialmente destruído.

Despois, ficou coberta de vegetação, até que, em finais do século XIX, foi reconstruído. Agora, além de haver obras no pavilhão do lago, o interior visitável do palácio estaria em limpeza para um evento próximo...

Por tal, apenas pudemos deambular pelo exterior dos edifícios. O complexo compreende um palácio e um templo real, a residência do rei, uma torre de vigia colorida e um pavilhão situado no meio de um lago.

O branco domina muitos dos edifícios. Embora haja muita influência chinesa na parte arquitetónica, na parte habitacional também já se revela uma grande influência europeia, tal como a ponte e as esculturas que a decoram.

Esta diversidade vai desde o estilo Khmer, passa pelo estilo coríntio grego, vai ao estilo chalet suíço e, ainda, ao estilo chinês, havendo ainda referência ao estilo cambojano. Um local amplo, excelente para passear. Foi o que fizemos!

quarta-feira, 17 de junho de 2026

O Cais Mágico

Tantas são as vezes, que nos esquecemos de quantas vezes lá fomos. O regresso à “Escola” é inevitável, quer pela gastronomia, quer pelo sítio. Se a gastronomia é relevante, o local parece ter uma simpatia ímpar com Troia. Mas não só.

Começamos pela “instrução primária” ao sabor de uma empada de lebre. Vamos com amigos. É assim que se está bem por aqui, partilhando boa comida e melhores momentos, bem como memórias de milhares de quilómetros a viajar de moto.

Pouco antes da homónima Turca, cuja península é um ex-libris da região, e faz parte de um circuito que liga Setúbal, Alcácer do Sal e Comporta, existe uma construção comunitária tão paisagística como socialmente relevante.

Uma obra-prima da arquitetura popular espontânea. Um caminho suspenso como solução engenhosa. Um porto de abrigo sui generis face às marés. Um caminho de subsistência para as famílias de pescadores.

O Cais Palafita da Carrasqueira pode ser tudo isto. Em seu redor, a impenetrável barreira de lodo, que isola qualquer acesso a embarcações, ditou o engenho. Emergente de uma necessidade comunitária, o cais palafita está lá há mais de seis décadas.

Erguido entre as décadas de 1950 e 1960, o porto artesanal respondeu à demanda de acesso seguro aos barcos, a qualquer hora do dia, sem estarem dependentes das marés do Estuário do Sado.

Como resolver este problema? Ao enterrarem estacas paralelas de madeira no lodo e, depois, ao estenderem entre elas um passadiço, os pescadores asseguraram caminhos de acesso aos ancoradouros e ao rio.

 

Portugal tem alguns exemplos de organização comunitária - como sejam as vezeiras, os fornos e as hortas comunitárias, p. ex. - que reflectem uma mobilização de recursos e a formulação de estratégias de ação com características de entreajuda.

No caso deste Cais Palafita, é a subsistência assente na pesca artesanal e na apanha de bivalves (ostras incluídas), que junta o engenho e o trabalho de um conjunto de famílias em prol da comunidade pescatória.


Uma comunidade que partilha o acesso e alguns apetrechos, mas cujas famílias possuem uma pequena cabana/armazém onde guardam as artes de pesca e cujo acesso é feito através do passadiço ziguezaqueante.

São centenas, se não milhares, de estacas rústicas de pinho que serpenteiam água for a, desfiando a gravidade e o tempo, num rendilhado de madeira, desgastado pelo sol e pelo sal e que sustenta um labirinto que parece flutuar sobre o Sado.

Na calmaria da maré, o cenário transborda silêncio, interrompido apenas pelo restolhar das aves aquáticas, um ou outro coaxar e pelo suave balanço dos barcos ancorados, tão leve que a maré parece adormecida.

A paleta de cores transforma-se com o passar das horas. Ao amanhecer e ao crepúsculo, o céu tinge-se de tons dourados, violetas e carmins, que se refletem na água estagnada e na lama húmida, transfigurando o cais numa tela viva.

Esta arquitetura frágil, erguida sem planos mas cheia de alma, ergue-se como um hino à resiliência humana, onde a mão do homem e a força da natureza se fundem num abraço melancólico e eterno.

Apanhar o cais ao entardecer, mesmo num dia de Inverno soalheiro mas frio, mas todavia envolvido por uma luz difusa e enigmática, parece transformar o sítio de labor num ambiente mágico. E a silhueta de Troia e da Arrábida? Mais magia. 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O Aikido Como Modelo


Voltámos à ribalta, uma vez mais, ao Sarau de 2026, do Real Sport Clube, tal como quando treinamos. E é uma ribalta egoísta. Quando treinamos, trabalhamos em nós próprios, não no agressor. Estranho? Nem tanto.

A prática envolve a síntese do conhecimento e a transformação da ação em um gesto natural. O verdadeiro objetivo não é vencer o oponente, mas alcançar uma harmonia invencível.  

A aprendizagem é um espelho de virtudes partilhadas. Exige do aluno a entrega do esforço, o manto da paciência, o caminhar da prática infatigável e o despojamento da humildade.

Se cada um destes pilares for eco de quem ensina no aprendiz, este conseguirá colocar-se em harmonia com o seu ambiente, limpar do caminho obstáculos e melhorar o desempenho.

Quando treinamos, o publico somos nós, praticantes. Somos nós que assistimos ao nosso desempenho. Treinamos para nós, não para atacar inimigos. Um pequeno egoismo, digamos, saudável.


Treinamos com adversários, não para os bater pela força, mas para lhes conter a energia ou conduzir o impeto de ataque. Mas, também, para neutralizar os nossos laivos de raiva, imprudências, agressividade.

Como diria O’Sensei, “a verdadeira vitória é a vitória sobre si mesmo”. Sou eu contra mim. Eu trabalho em mim, não nos outros. O Aikido pode ser um modelo de vida, uma referência para quem ensina e, sobretudo, para quem aprende.

Um modelo que é possível reconhecer nestes escassos minutos, em que cada um deles demonstrou de uma forma equilibrada, firme e vibrante, o que têm aprendido com serenidade, dedicação e elegância.


NOTA - Nenhuma das fotos é da minha autoria mas foram disponibilizadas on-line.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Bateria da Raposeira, a 5ª

O nome nasce do monte. Mas a degradação é tão notória que, não sendo alvo de intervenção, não irá demorar muito tempo até que a destruição total seja consumada. Ainda assim, entre ruínas, lixo e silêncio, persiste uma estranha beleza.

Ainda é possível lá chegar e estacionar na entrada. Porém, com a intempérie deste inverno - havia árvores caídas sobre as paredes -, e a continuação da degradação do lugar, o acesso, mesmo de moto, vai ser cada vez mais difícil.

Há sítios onde o tempo não se limita a passar, permanece como memória e como alerta. A 5.ª Bateria das Raposeiras, erguida entre finais do século 19 e início de 20, no alto da Trafaria, é um desses lugares suspensos entre o esquecimento e a quietude.

Integrada no sistema defensivo do Campo Entrincheirado de Lisboa, fazia parte do conjunto de baterias costeiras destinadas a proteger a barra do Tejo e a entrada marítima da capital, cruzando fogo com o Forte do Bom Sucesso, em Belém.

 

Também conhecida como Bateria Infante D. Manuel, ocupava um lugar estratégico no monte da Raposeira, dominando a paisagem entre o Tejo e o Atlântico, apoiando ainda a defesa do Bugio e da frente atlântica da Caparica.

O complexo militar articulava-se com o Forte da Trafaria, o reduto da Alpena - para visitar um dia destes -, e uma antiga estrada militar construída em 1890, formando uma rede defensiva que vigiava o horizonte marítimo de Lisboa.

Hoje, sobrevivem as três imponentes peças Krupp de 150 mm, fundidas em Essen, Alemanha, entre 1904 e 1907. Cada canhão, com quase oito toneladas, disparava projéteis de mais de quarenta quilos a dezenas de quilómetros de distância.

 

Exigia uma equipa de nove homens para alimentar o ritmo metálico da artilharia. São agora peças mudas apontados para uma paisagem sobre a Trafaria, outrora estância balnear frequentada pela rainha D. Amélia.

Entre muralhas de defesa e ecos de treinos, a bateria foi também território de inovação tecnológica e de modernidade. Foi neste lugar que se realizaram algumas das primeiras experiências de telegrafia sem fios em Portugal. 

Hoje, o cenário é de abandono e degradação contínua. Desde a desocupação militar, iniciada nos anos 1980 e concluída definitivamente na década de 1990, as construções foram entregues ao tempo e ao vandalismo.

 

Muitos dos subterrâneos permanecem ocultos sob a vegetação, os edifícios deterioram-se lentamente, e os graffitis cobrem paredes onde outrora ecoavam ordens militares e exercícios de tiro que faziam estremecer as janelas da Trafaria.

A 5.ª Bateria das Raposeiras continua a guardar a memória da defesa de Lisboa, da engenharia militar oitocentista e dos primeiros passos das telecomunicações portuguesas. É um lugar de património esquecido, de onde, porém, a paisagem ímpar apaixona.

A panorâmica, hoje algo oculta pelo crescimento selvagem da vegetação, é um dos aspectos mais atraentes do sítio. Outro, é o silêncio que acompanha o olhar sobre a porta do Tejo.