quinta-feira, 4 de junho de 2026

COMO. A cidade, o lago e a montanha


Na cidade, o destaque vai para o Duomo local, catedral construída a partir do século XIV, com uma simpática área pedestre, para o Broletto, antiga sede municipal na Idade Média e para o Tempio Voltiano, o museu dedicado a Alessandro Volta.

O lago, circundado por montanhas com picos acima dos 2 mil metros, está polvilhado de pequenas e belas localidades, como sejam, Bellagio, Menaggio ou Varenna. Ou Brunate. É para lá que vamos.

Como fica a cerca de 40 minutos de comboio de Milão. A opção obriga a mudar de comboio, para quem saia da Centrale, e esperar uma dúzia de minutos em outra estação milanesa, a partir da qual fará a ligação final.

Porém, nesse entretanto, o tempo permite andar ao longo das paredes da estação de ligação, que são uma espécie de galeria de arte ao ar livre. Aliás, como a maioria das urbes italianas.

O percurso ferroviário faz-se em parte na planície do rio Pó e só perto da cidade se descobrem as montanhas. Como fica na extremidade sul do lago. Dali, é fácil perceber que se trata de um lago de origem glaciar, observando o perfil do relêvo envolvente.

Mal se chega ao lago, cerca de 15 minutos a pé desde a estação ferroviária, o cenário muda. Ali, as elevações surgem de imediato e o perfil sobretudo na margem direita é bastante íngreme.

De tal modo que, a maneira mais fácil de o trepar é apanhar um funicular. A ideia é subir até Brunate e daí seguir a pé até ao Faro Voltiano. Desde Brunate, o percurso pedestre tem um desnível de 150 metros.

E tudo começa na  pequena estação do funicular, de finais do século XIX, com paredes em tijolo e telhado em madeira. Mal começa a subida, é possível ver a totalidade da cidade de Como e perceber que está num dos vértices do lago.

O nosso horizonte vai abrindo até Brunate, situada no topo da linha do funicular. Lá de cima, a paisagem é soberba, abrangendo as localidades situadas nos vales e nas zonas planas junto ao lago ou nas escarpas.

Estamos na “Varanda dos Alpes”. Perto da estação, há lojas sobretudo com produtos de montanha, hotéis e miradouros para todos os gostos. As ruas são estreitas e a circulação, embora diminuta, é difícil e morosa, não havendo muitos lugares de estacionamento.

Aqui começa o percurso pedestre, primeiro pelas estreitas ruas da localidade que, mesmo assim, ainda tem alguns edifícios imponentes, como sejam, a igreja barroca de Santa Andrea e o Gran Hotel Milano.

Deixamos a zona urbana e começamos a serpentear pela serra. E as semelhanças com Sintra vão desfilando à medida que trepamos. Os chalets de montanha de telhados íngremes, surgem em cada curva da estrada acompanhada por árvores altas.

O percurso pedestre tanto vai pela estrada, com por caminhos exclusivamente pedestres. Estes últimos, sobretudo, a maioria em pedra, estão tapeteados com folhagem e ladeados por muros de pedra.

À medida que subimos, aqui e ali, num jardim relvado por exemplo, há vestígios de neve. Nota-se que está mais frio no início da rampa que dá acesso ao Farol de Volta, já há um ou outro monte de neve.

O percurso de pouco mais de quilómetro e meio - um pouco menos do que do Palácio da Vila ao Palácio da Pena, em Sintra - mas quase ao dobro da altitude, que anda nos quase 900 metros.

O Faro Voltiano tem quase um século. Construído em 1927, homenageia o centenário da morte do famoso inventor da primeira bateria eléctrica. A vista desde a base é lindíssima. Do cimo dos 29 metros de altura imagino que seja soberba.

Regressámos ao entardecer ao Natal de Como, quando as primeiras luzes já davam um brilho especial às decorações natalícias urbanas. Há muitas bancas iluminadas e uma diversidade de produtos, da gastronomia aos bonecos de peluche.

Passeamos ao longo do mercado e de alguns edifícios estilizadamnete iluminados. O ambiente fiérico está nas fachadas coloridas pelas projecções, bem como na profusão de luzes das bancas.


segunda-feira, 1 de junho de 2026

Até Dubrovnik


Deixamos Trogir entregue a uma manhã luminosa e não tardamos a encostar-nos ao Adriático. Depois, é por ali abaixo: mar, a perder de vista, sempre a acompanhar-nos, enquanto o azul domina o negro do asfalto.

O mar está calmo, como é habitual. Aqui e ali, uma enseada convida a parar. E o azul ali estendido é um horizonte tão cativante como o nascer ou o por do sol. Paramos, descansamos, damos dois dedos de conversa.

De vez em quando, surge uma ilha, depois outra, maior ou mais pequena, mais perto ou mais longe, árida ou frondosa. São mais de mil e duzentas ao longo da costa Adriática. O azul tudo medeia. Começamos a perceber o fascinio deste mar.

Do lado de terra, a escarpa tanto se agiganta como se atenua. A vegetação não é homogénea, sendo frequentemente baixa, fazendo lembrar amiúde a da serra da Arrábida. O mar compensa alguma aridez aqui e ali.

De tão estimulante, a costa obriga a parar. As praias não têm a “nossa” areia, mas o azul inspira e a temperatura da água recompensa. Há que parar, vestir o fato de banho e dar um mergulho.

A descida da costa Adriática é admirável. É a partir daqui que a viagem junta o romantismo ao desafio do equilíbrio, mistura a estética do ambiente ao deleite das águas calmas e cálidas.

Almoçamos à borda do mar. Enquanto uns reservam e escolhem o menu na espalnada do Hotel Riva - uma unidade pequena mas a meia dúzia de passos da água -, outros já mergulham na praia contígua.

Apesar dos seixos omnipresentes nas praias serem tão chatos como a areia para pneus de asfalto, há sempre uns chinelos que negoceiam o acesso. Por vezes, a água está a meia dúzia de passos das motos.

Damo-nos bem com a proximidade da água. Desde Trogir que tal acontece. Vamos continuar a bordejar o Adriático dando-lhe a direita, pelo menos até à ponte de Peljesac, que contorna  a pequena faixa costeira da Bósnia.

É a única maneira de evitarmos a fronteira do país vizinho, livrando-nos dos procedimentos inerentes à entrada, e depois à saída, de um país que não integra a UE. Parámos e descansámos numa área dedicada no início da ponte.

Dali vê-se o território da Bósnia. Passamos a ponte, recente de há pouco mais de um par de anos, e continuamos, agora com o Adrático do lado esquerdo, bem como do estreito território bósnio que confina com o mar.

Estamos a caminho de Mokosica, a poucos quilómetros da meta deste dia: Dubrovnik.  Ficamos alojados num Airbnb, uma moradia com mais de 6 quartos e um espaço exterior exctamente para as 6 motos.


Fomos recebidos com comida e bebida q.b. pelo anfitrião, talvez a compensar a existência de alguns bichinhos daqueles que mordem e deixam rasto. Saímos para Dubrovnik, onde o estacionamento até para motos é problemático, uma vez que é exíguo.


 Depois de, durante a Expo 98 em Lisboa, termos assistido, sentados em bancos de pé alto, à espectacular entrada de barco no porto da cidade, através de um ecrã de 180º, a espectativa era enorme.

Acrescia o facto de, além da vertente histórica e arquitectónica, a cidade ter sido palco de alguns episódios da série “A Guerra dos Tronos”, pelo que se esperava por cenários reais imponentes.

Aliás, na descida para o centro da urbe - uma escadaria tão íngreme, que só lembra a quem trepa do Martim Moniz para o Castelo, em Lisboa -, lá estava o manequim de Tyrion Lannister, também conhecido pelos apelidos "Duende" ou "Meio-Homem".

Dubrovnik não desilude. Possui muralhas medievais perfeitamente preservadas e um centro histórico, património da UNESCO, revelando séculos de influência veneziana e dálmata.

A principla artéria do centro histórico, a Stradun, é ladeada por palácios, mosteiros e edifícios renascentistas. O palácio do Reitor, hoje Casa da Cultura da cidade, é um dos edifícios mais emblemáticos, que combina elementos góticos e barrocos.

O antigo poder da República de Ragusa está bem patente na fortaleza de Lovrijenac, erguida sobre um rochedo costeiro, símbolo da resistência e independência da cidade. O passeio pelas muralhas é um circuito de rara beleza.

Percorremos apenas a parte gratuita, - que é bastante curta -, mas dá uma ideia curiosa do restante percurso. Depois, o itinerário segue pelas estreitas e íngremes ruas/escadas que levam a becos simpáticos e a algumas casas particulares…

Embora tenhamos percorrido 1/3 das muralhas, apenas estivemos em dois dos grandes portões fortificados da cidade. Apesar de termos visitado quase todo o centro histórico, apenas percorremos 10% da cidade.

Deixámos Dubrovnik à ainda folia dos visitantes, quando os restaurantes se começaram a encher de turistas, a Stradun acalmava e a escadaria para o Portão Buza, por onde havíamos entrado, já nos dava espaço para parar e descansar.


quarta-feira, 27 de maio de 2026

Malmo, de relance

 

Quarenta minutos de comboio. É o tempo que leva da Central de Copenhaga à Central de Malmo. E, a maior parte do tempo, vai sobre a Ponte do Øresund, a olhar o imenso Báltico e as enormes e numerosas turbinas eólicas.

Estreamos a Suécia por um túnel subterrâneo. Emergimos na Central envidraçada, à vista do porto, da universidade e de uma zona residencial. A arquitectura não muda muito face a Copenhaga, mas há algo de diferente, luz, traço e/ou cor.

Porém, muito se mantém: há vidro, muito vidro. A luz exterior é escassa, claro! A repetição por superfície, o modular, estende-se nas três dimensões. Bicicletas, também não faltam. Um barco nomeado “TinTin” é que já não é comum.

Argolas coloridas e dezenas de sapatos em bronze, também não. Mas o vidro e os tijolinhos das fachadas, continuam a marcar o ambiente, conjugando o tradicional com o funcional, o antigo como o moderno.

Apesar de o barroco também estar muito presente, surgem linhas fluidas e formas esféricas, algumas obras abstractas, quase como contraste ao retilíneo e ao perpendicular tão típico da Escandinávia.

Encontrámos uma loja de arte fascinante na Praça Lilla Torg, onde almoçamos numa esplanada aquecida. Obras em vidro, madeira, cerâmica, pedra, tinta, numa diversidade de materiais, motivos, estilos e autores.

Nas ruas, há apontamentos exóticos, como sejam, sapatos de bronze numa ponte, identificados com nomes de artistas suecos, músicos e actores, por exemplo. Ou uma escultura com uma pilha de animais no jardim do Kungsparken.

De um lado, o mundo natural assume uma presença assídua e marcante nos parques, com a coexistência de animais e plantas, tal como a natureza humana também se revela notável num cemitério em pleno parque urbano.

 

Mais à frente, mas ainda no coração da cidade, ergue-se o Castelo de Malmö como um testemunho silencioso do tempo, de quando Malmo ainda pertencia à Dinamarca e era governada por Cristiano III.

A sua história começa  nas fundações de um baluarte erguido em 1434, pensado para defender e resistir. Décadas mais tarde, entre 1537 e 1542, reinventou-se: pedras antigas acolheram novas ideias e o castelo renasceu.

Entre a herança medieval e o sopro renovador do Renascimento, tornou-se um marco pioneiro no Norte da Europa, o exemplar mais antigo de uma fortaleza no estilo renascença nos Países Nórdicos.

Hoje, já não guarda soldados, mas memórias. O fosso profundo e as torres de canto continuam a vigiar, mas agora acolhem visitantes, curiosos e sonhadores. No seu interior, a arte e a ciência substituem o eco das batalhas. Mas tínhamos horário de regresso…