quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Forte Grande do Alqueidão

Erguidas no silêncio e no segredo das colinas torreenses, as muralhas defensivas de pedra resistiram com milhares de combatentes, unidos no justo dever de deter a ofensiva napoleónica do início de XIX.

Foram combates breves, mas derradeiros, que tombaram a audácia invasiva e obrigaram ao recuo de Massena. Estou nas Linhas de Torres, um sistema defensivo, erguido a norte de Lisboa, entre 1809 e 1810.

Em profundo secretismo, Wellington ergueu uma barreira destinada a salvaguardar Lisboa e a travar o avanço do exército do general francês. No alto das colinas, a estratégia aliou a inteligência humana à força natural da paisagem.

Entre a costa atlântica e o Tejo, mais de 85 quilómetros de terreno foram transformados numa muralha de pedra, terra e coragem. Três linhas defensivas, 152 fortificações, 600 peças de artilharia e cerca de 70 000 homens formavam um exército invisível e imenso.

Era uma obra grandiosa, mas também singular pela eficácia e pela economia dos seus meios. Em outubro de 1810, Sobral, Dois Portos e Seramena conheceram o choque das armas, combates suficientes para quebrar o ímpeto das tropas francesas.


Diante das Linhas de Torres Vedras, o poder de Napoleão encontrou finalmente um limite. A terra, o engenho e a resistência de um povo ergueram-se contra a força de um império. 

Enquanto os franceses esperavam reforços e mantimentos, a guerrilha portuguesa cortava-lhes os caminhos e enfraquecia-lhes a esperança. A 15 de novembro, Massena ordenou a retirada, iniciando-se a longa marcha da derrota napoleónica.

As colinas que defendiam Lisboa tornaram-se, assim, um símbolo de inteligência, coragem e resistência. Erguido nas alturas de Sobral de Monte Agraço, o Forte do Alqueidão foi o coração das Linhas de Torres Vedras.

O chamado Grande Reduto de Sobral, foi o principal posto de comando do Duque de Wellington e a sua maior fortificação. Do alto, dominava a paisagem e vigiava os caminhos que conduziam a Lisboa.

Hoje, o silêncio, a quietude e o ligeiro piar das aves que envolve o Forte de Alqueidão parecem uma homenagem derradeira ao espírito, à resistência e ao génio daqueles que conseguiram que Lisboa permanecesse livre. 

Eu também resisti. Por um lado, à mudez do GPS: lá em cima - embora me tenha levado - no regresso, já não tinha rede. Vim "à vela" a seguir as tabuletas. Por outro, à insegurança decorrente de desorientação: queria ir para Mafra e fui ter à Arruda dos Vinhos...


domingo, 18 de outubro de 2026

Passadiços Entre a Praia Grande e a Adraga

Entre Almoçageme e a Estrada do Rodízio, em Colares, abre-se um velho caminho sobre a costa de Sintra, onde a terra se inclina para o Atlântico e a paisagem se revela em toda a sua grandeza.

 

Os novos passadiços, primeira etapa do futuro Parque Ecológico, desenham uma promessa de descoberta entre a Praia da Adraga e a Praia Grande, por caminhos que alternam a madeira suspensa e a terra irregular.

 

Em Setembro, dava ideia que antigos trilhos - nesta altura vedados - se misturam ainda com os novos passadiços, acompanhando os contornos de um território onde o mar, o campo e a montanha se encontram.

Ao longo de cerca de 2,5 quilómetros, o percurso circular convida a caminhar sem pressa, a contemplar os horizontes abertos da Praia Grande - o panorama desde dois dos miradouros é excelente-, e a descobrir a beleza agreste de uma costa moldada pelo vento e pelo tempo.

Entre miradouros e lugares de paragem, cada passo oferece uma nova perspetiva sobre o oceano, enquanto as ligações a Almoçageme e Azóia nos vão mostrando a diversidade paisagística para o que contribui o tipo de vegetação que atravessamos.

Para norte, é a Praia Grande, a Pequena e a das Maçãs, que se esticam ao longo da costa. Para sul, é o Farol do Cabo da Roca que se vislumbra de imediato. Para baixo, é a Praia da Adraga que surge com alguma areia na maré baixa.

Paisagem que é também um livro aberto de milhões de anos, guardando pegadas de dinossauros - situadas numa parede rochosa a meio caminho entre a praia e o topo da falésia, inacessíveis nesta altura -, vestígios paleolíticos e monumentos geológicos.

Com um centro de interpretação ambiental previsto, novos circuitos e espaços de observação e descanso, o projeto estenderá progressivamente os seus caminhos, com conclusão apontada para 2027.

Por agora, entre passadiços e trilhos, o convite é simples e antigo como a própria viagem: avançar, respirar, contemplar e deixar que a imensidão do Atlântico nos devolva a medida da nossa liberdade.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Traveler's Event 2026

Motos, viagens, testes. Bom tempo, bom ambiente, bom sítio. Boas expectativas. Era isto, com algum desconto: os mais de 35 graus anunciados ameaçavam contrariar o perfil auspicioso da 19.ª edição do Traveler’s Event (TE).

 

Para mim, porém, havia uma novidade maior: a estreia num encontro onde a estrada se transforma em conversa e as viagens, tantas vezes solitárias, ganham outras vozes. Era a primeira vez que participava neste evento.



Enquanto o TE já experimenta a sua maioridade, Setembro tem sido, para mim, mês de FIM Mototour, de quilómetros e países. Desta vez, a estrada levava-nos a Avis. Éramos três, vindos das proximidades da capital, em motos diferentes, a que se juntaria outro companheiro vindo do Porto.

 

O propósito era simples: passear, rever amigos e ouvir histórias de quem fez da moto uma forma de conhecer o mundo. Afinal, como em tantos livros de viagens de moto, o destino é apenas metade da aventura; a outra metade está no caminho.

Saímos pelas nove, ainda com a frescura da manhã. Fomos d erecta em recta e recta, de rotunda em rotunda. sempre por nacionais. No Couço, o Alentejo já aquecia os 26 graus e, à chegada a Avis, diante das muralhas do castelo, os 28 anunciavam aquilo que o dia nos reservava.

Recebemos as credenciais e instalámo-nos no parque de campismo de Aviz, outra estreia, magnífico anfitrião à margem da Albufeira do Maranhão. Sombras, espaço, paisagem e, estupendo, um estuário: uma pequena trégua perante o calor.

Vieram as tendas, o terreno duro, algumas espias teimosas e três dedos de conversa com o carismático António Rosado. Depois, calções e sandálias e descida ao centro do evento.

 

Almoço no Clube Náutico, lojas, concessionários e inscrições nos test drive. Entre apresentações e reencontros, ainda houve tempo para conversar com Gracinda Ramos e Paula Kota.

 

Experimentei a Voge 625, evolução da 525, com mais potência, banco mais confortável e aderente e um guiador mais baixo. Mantém, contudo, a limitada protecção aerodinâmica e é ligeiramente mais alta.

Ficou o ensaio, mas também a sensação de que, nestes encontros, experimentar uma moto é sempre uma espécie de primeiro capítulo de uma viagem que ainda não sabemos se iremos escrever.

O jantar começou a quatro e rapidamente cresceu para oito. Paulo Mafra, de Viajar de Moto e Rota dos Ouriços, Márcia Moreno e outros companheiros juntaram-se à mesa, com a habitual troca de novidades e questões.

Depois vieram as histórias, essa matéria-prima essencial de qualquer viagem. No palco, João Beltrão apresentou a aventura Beyond T7nnis e André Sousa trouxe a ligação entre Alasca e Ushuaia,

Duas geografias , dois exemplos dessa inquietação que leva o motociclista a perguntar sempre: e se eu fosse por ali? Mesmo com o risco, mesmo com a logística, mesmo com a despesa: fica sempre um impressão, uma semente.

 

Sábado nasceu quente. Em vez do passeio de grupo, preferi recuperar uma viagem interrompida há décadas: percorri o centro histórico de Avis, descobrindo dois palacetes recuperados no alto da vila.

As muralhas do século XIII continuam a contar a história da Ordem Militar de Aviz; o Pelourinho manuelino permanece no coração da vila e os torreões guardam lendas, memórias e o silêncio de outros tempos. 

Também isto é viajar: regressar a um lugar e descobrir que, afinal, fomos nós que mudámos. Mesmo que quase tudo esteja na mesma, algo não terá sido visto, outro esquecido, outro ainda modificado.

A tarde trouxe o calor em força. Os test drive ficaram para trás e a Albufeira do Maranhão tornou-se a grande vedeta da tarde. Quase todos se renderam à água, incluindo mais três amigos que se juntaram na praia. 

Por momentos, a viagem deixou de ter quilómetros e passou a ser sombra, conversa e mergulho. Entre mergulhos, trocamos algumas ideias, impressões, vontades. Estamos bem, em boa companhia.

À noite, em Avis, brilhava o por do sol. Num ambiente quase tropical, o sol alaranjou-se para nos receber no miradouro Mestre de Avis. Foi aí que ficaram as motos, como se descansassem de uma viagem.

E as viagens voltaram ao palco. Vera Santos e Isa Imperial, na aventura rumo a Málaga, trouxeram o entusiasmo das primeiras incursões em trail, o risco, o imprevisto e até os episódios constrangedores que, mais tarde, se transformam nas melhores histórias. 

João Luís levou-nos ao Médio Oriente, Israel sobretudo e Iraque, demonstrando que viajar também pode significar atravessar geografias onde a coragem e a prudência caminham lado a lado. É difícil não pensar que, "este homem é judeu!"

 

E, quando a última apresentação decorria, chegou a notícia de um acidente: um participante fora abalroado, literalmente, por um javali. Felizmente, apesar da queda, não sofreu consequências graves. A estrada voltou a lembrar-nos que toda a liberdade tem o seu lado imprevisível.

Regressámos na manhã seguinte. Ficaram os quilómetros, as motos, os amigos, a água da albufeira e, sobretudo, as histórias. E, até, uma recordação institucional, apanhado pelas costas, já em acto de preparação de fuga.

Um dos meus companheiros de viagem, - que também não deixa de participar neste tipo de eventos, sempre que pode -, foi "apanhado" com o mentor do TE.  Conhecem-se? insistam!

Talvez seja esse o verdadeiro espírito de um encontro de viajantes: não apenas falar dos lugares onde estivemos, mas manter o contacto com quem viaja e alimentar a vontade de partir novamente.

Porque, como nos melhores relatos de estrada, a viagem nunca termina quando chegamos a casa. Fica dentro de nós, à espera da próxima curva, da próxima montanha, da estrada sem fim.