segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Ruinas Entre Linhas. Freiria



Não é fácil lá chegar. Pelo menos, não seguindo o caminho aconselhado que leva à porta principal. Eu fui ter ao portão secundário, à “porta dos fundos”. Entrei de moto e deixei-a num pequeno pátio de entrada. A seguir, há um carreiro que parece não levar a lado nenhum. 

Embora esteja em plano alto, ainda não se vê um chavo. Depois, começa a vislumbra-se um telheiro que protege a casa de Titus Curiatis Rufinus. Estou nas Ruínas de Freiria, em São Domingos de Rana.

Ruínas que guardam a memória de milhares de anos de presença humana, num território moldado pela abundância de água e pela sucessão de povos que ali viveram desde o Paleolítico. Contudo, foi a época romana que lhe conferiu a monumentalidade que hoje a distingue.

É um dos mais completos exemplos de villa romana da Península Ibérica, sítio que se julgava perdido e que continua a desvendar novos capítulos da história local. A redescoberta deste lugar começou em 1912, quando o arqueólogo Vergílio Correia identificou uma sepultura romana e assinalou os primeiros vestígios da antiga ocupação.

Retomada a investigação, décadas mais tarde, revelou-se um vasto complexo arqueológico. Freiria conheceu o seu apogeu entre os séculos I e V d.C., período em que a villa se expandiu e prosperou. 

 

A residência senhorial, ou domus, possuía átrio, peristilo, espelhos de água e salas decoradas com mosaicos policromos e estuques pintados. Entre elas destaca-se o triclínio, a sala de refeições onde ainda hoje se preserva um magnífico mosaico associado à casa de Titus, um dos proprietários conhecidos da villa. 

É neste espaço que se poderá observar três dos quatro tapetes em mosaico que a compunham. E que tapetes! Em redor da área residencial desenvolvia-se um complexo agrícola e produtivo notável, composto por celeiro, moinho, lagar, forno de pão e sistemas de armazenamento e abastecimento de água. Não muito diferente de hoje.

As termas, equipadas com hipocausto e tanques de água quente e fria, testemunham o conforto e a sofisticação do quotidiano romano. Hoje, estavam ao sol, retemperador, a facilitar algum tratamento ou diversão fortuita.

A importância de Freiria revela-se também no espólio encontrado: moedas, cerâmicas, instrumentos de trabalho, objetos decorativos, um raro quadrante solar e uma ara dedicada à divindade indígena Triborúnio, símbolo do encontro entre tradições locais e cultura romana. 

Do outro lado da ribeira, a necrópole recorda os rituais da morte e da memória, enquanto as sucessivas campanhas arqueológicas continuam a revelar a riqueza deste lugar singular. Hoje, um percurso interpretativo em passadiço permite percorrer estas ruínas sem as ferir, sendo o visitante conduzido por entre vestígios de casas, termas e mosaicos. 

Volto por onde cheguei. A Husqvarna ainda lá está, a contrastar com a paisagem, tão anacrónica como harmoniosa, misturando a tecnologia e a História, o passado com o futuro, neste curioso presente.  

terça-feira, 14 de julho de 2026

20 anos de Encuentros de Grandes Viajeros


Partimos cedo, já sob o aviso subtil do verão, que soprava no ar a necessidade de um blusão leve. Às dez da manhã, na Área de Serviço de Montemor, o termómetro marcava uns generosos 26 graus, e o calor fazia-se sentir sem cerimónias. 

Não demorou muito até um motociclista polaco, montado na sua Ténéré, se render à evidência, deixando blusão e capacete a descansar sobre a moto e, só o percebemos, quando regressámos às motos.

Após uma pausa para almoço em Esperança, seguimos rumo a Albuquerque pelas estradas municipais espanholas. O asfalto corria suave sob as rodas, mas era o calor que dominava a paisagem. 

Em compensação, cada abastecimento sabia a pequena vitória, com o combustível a custar quase menos cinquenta cêntimos por litro do que em terras lusas. Se andássemos a gaz butano, seria o pleno...

Quando o calor aperta, os insetos não tardam a juntar-se à viagem. Vieram em enxames, colando-se às viseiras e carenagens, companheiros involuntários até Alba de Tormes. 

Pelo caminho, ainda vagueámos pelos arredores de Plasencia, à procura de energia para máquinas e viajantes. Já em Alba, o GPS decidiu brindar-nos com um toque de aventura, conduzindo-nos até uma praça cuja saída se fazia por escadas. 

E, como se não bastasse, ainda custei a acreditar quando descobri que o acesso à garagem passava por uma estreita rua empedrada de pequenos seixos, onde cada metro parecia desafiar a lógica e a confiança.

Alba ergue-se à margem do rio Tormes, nascida dos reis de Leão e moldada pelo curso da história. De forais e senhorios teceu-se o seu destino secular, até florescer nas mãos da nobre Casa de Alba.

Sentinela de pedra e memória, Alba é uma terra sagrada onde repousa Santa Teresa. O carácter devoto da urbe está omnipresente, quer nos muitos edifícios religiosos, quer na toponímia. 

Muito próximo da Plaza Mayor, erguem-se uma das muitas igrejas do burgo - quase uma dezena mo total - para uma população de pouco mais de pouco mais de 5 mil habitantes. 

Não muito longe, a Basílica inacaba, é um interessante exemplo de estilo neogótico. Nas chaminés, mas sobretudo nas torres, são as cegonhas que dominam. São dezenas que todos os anos escolhem o burgo para nidar. 

Íamos sobretudo pelo 20º aniversário do EGV. E este podia ter o título de, “O Elogio do Passado e do Presente”. Provavelmente, como o escolheria Emilio Scotto, um aventureiro motociclista argentino, o grande homenageado desta edição. Já lá vamos. E o resto?

O resto é um cansaço , mas daqueles prazenteiros e motivadores, uma chatice afectuosa que junta vontades, estórias, expectativas, aventuras mas, sobretudo, pessoas, pessoas que entendem a vida e o mundo como uma bela viagem.

Talvez por isso, Jaime Núñez, o mentor do projecto, juntamente com a mulher, Conchi Cosme, tenha sugerido que a designação do AGV, devesse passar para um AGP, um Encontro de Grandes Pessoas.

O AGV é  daqueles vírus que apetece apanhar, espalhar e reproduzir. E voltar com os mesmos sintomas, mais presentes, mais empolgantes, mais fatais. Um cansaço bem-vindo, tal como aquelas estradas, paisagens e pessoas que fazem parte da viagem.

Mais do que um simples encontro, é uma celebração da liberdade, da exploração e do espírito viajante. Em poucos anos, o Encuentro de Grandes Viajeros tornou-se uma referência internacional no mundo da moto-aventura. Também porque o endeusamento da viagem passa muito pela aventura, sempre presente nos diversos relatos deste AGV. 

A viagem vive disso: da adrenalina, do desconhecido, da estrada, da paisagem, do risco, do desafio, dos horizontes infinitos, de nós e dos outros. Há quem adore tudo isto ou muito disto. Do que nos preserva a memória, nos acompanha o presente e nos promete o futuro. É uma Energia invisível que nos acompanha o Caminho.

O encontro destaca-se pelo ambiente de amizade, descoberta e paixão pelas grandes viagens. Durante o evento, são apresentadas palestras, vídeos e relatos inspiradores de expedições internacionais. Mas, não só. Por vezes, bastam dois dedos de conversa sobre episódios divertidos ou projectos futuros, com a Paula Kota ou com o António Rosado, interessantes referências no universo dos grandes viajantes de moto portugueses.

Ou, basta apertar a mão e desejar boa viagem ao Toco Lenzi, um viajante brasileiro que está a caminho do Azerbaijão, e anda na estrada desde 2019, para alimentar o sonho, o desejo ou a vontade de viajar.

Ou, ainda, basta acompanhar o entusiasmo do José Luis Rico “Chefi” e da Pilar Molina, ou o bom humor do Jaime Pastor, outros grandes viajantes e conferencistas desta edição, gente que já viajou mais de moto do que eu a pé.

E, também, ouvir o regozijo do Emilio Scotto sobre a aventura da sua vida. E que belo documentário, de quase uma hora, com que nos brindou! Um testemunho na primeira pessoa, de quem percorreu o mundo e os acontecimentos e muitos protagonistas da época.

Entre 1985 e 1995 percorreu cerca de 735.000 kms em todos os continentes, exceto na Antártida. Durante a viagem atravessou 214 países e territórios, reconhecidos pelo Guinness, embora se desconfie que sejam mais.

A aventura durou 10 anos, 2 meses e 19 dias, sempre na mesma moto: uma Honda Gold Wing GL1100, de 1980. É impressionante ver a moto em desertos, montanhas e rios. E a recepção que teve por políticos, futebolistas famosos ou mesmo pelo Papa.

Às vezes, é bom sertirmo-nos pequenos. Não é vergonha, é entusiasmo e orgulho. É paixão porque partilhamos o mesmo propósito de viajar, e satisfação porque podemos cumprir esse objectivo de moto. A dimensão do feito não é domínio, é estímulo.

Mas não só. A construção da minha identidade passou por aqui, pelo acompanhamento dos que comigo partilham cada momento do Caminho, enlevando a proximidade que a moto oferece na interacção com as pessoas. Há muitos anos. 

Evento sem repasto, não vale. Este, como os anteriores, juntou quase toda a gente num restaurante local. A panorâmica, desde lá, contemplava toda a Alba de Tormes. O cocktail inicial assegurou que todos teriam uma vista privilegiada do burgo.



Para o ano, há mais. Mais viagens, mais aventura, talvez mais amigos para acompanharem o evento e o caminho. Se continuarmos a andar por aqui, somos capazes de passar por lá.



domingo, 5 de julho de 2026

Harleys em Cascais

Quatro dias de motos. Exposições, comércio, concertos e desfiles. Animação,  passeios, e alegria. Depois de edição de 2019, Cascais voltou a acolher o maior encontro europeu de motociclistas da Harley-Davidson.

São milhares os que participam, aos quais se juntam outros tantos que vão para os ver, outros ainda que são turistas e também por lá passam. O “centro de operações” é na baía, um palco habitual para eventos na vila.

Há muita gente a deambular por ali. As lojas dedicadas estão cheias de fregueses. O ambiente está tranquilo, enquanto se ouvem alguns acordes de guitarra no palco e se procura lugar para estacionar.

Não é possível mas, alguns mais distraídos… até invertem a marcha para insistir no que não viram perfeitamente. Ainda há lugares, mas não tarda que a rua esteja plena de motos, estacionadas.

Além dos portugueses, há muitos espanhóis, franceses, ingleses, italianos e alemães. Mas também há matrículas da Estónia, da Ucrânia e da Bulgária. Os modelos contemplam toda a gama Harley, incluindo algumas raridades.

A marca que ultrapassou há duas décadas um século de existência, ainda mantém uma aura mítica que os HOG não deixam desaparecer e testemunham na simbologia que o vestuário e os acessórias das motos exibem.

No ponto alto do evento, dizem que o Grande Desfile Oficial de sábado, reuniu cerca de 20 mil motas no Autódromo do Estoril, tendo o percurso levado a caravana até à Baía de Cascais.

Já não via tantas Harleys desde Setembro do ano passado, por ocasião da European Bike Week, em Faak am See, na Áustria, quando nos cruzamos com centenas a caminho do nosso FIM Mototour na Croácia.