quarta-feira, 27 de maio de 2026

Malmo, de relance

 

Quarenta minutos de comboio. É o tempo que leva da Central de Copenhaga à Central de Malmo. E, a maior parte do tempo, vai sobre a Ponte do Øresund, a olhar o imenso Báltico e as enormes e numerosas turbinas eólicas.

Estreamos a Suécia por um túnel subterrâneo. Emergimos na Central envidraçada, à vista do porto, da universidade e de uma zona residencial. A arquitectura não muda muito face a Copenhaga, mas há algo de diferente, luz, traço e/ou cor.

Porém, muito se mantém: há vidro, muito vidro. A luz exterior é escassa, claro! A repetição por superfície, o modular, estende-se nas três dimensões. Bicicletas, também não faltam. Um barco nomeado “TinTin” é que já não é comum.

Argolas coloridas e dezenas de sapatos em bronze, também não. Mas o vidro e os tijolinhos das fachadas, continuam a marcar o ambiente, conjugando o tradicional com o funcional, o antigo como o moderno.

Apesar de o barroco também estar muito presente, surgem linhas fluidas e formas esféricas, algumas obras abstractas, quase como contraste ao retilíneo e ao perpendicular tão típico da Escandinávia.

Encontrámos uma loja de arte fascinante na Praça Lilla Torg, onde almoçamos numa esplanada aquecida. Obras em vidro, madeira, cerâmica, pedra, tinta, numa diversidade de materiais, motivos, estilos e autores.

Nas ruas, há apontamentos exóticos, como sejam, sapatos de bronze numa ponte, identificados com nomes de artistas suecos, músicos e actores, por exemplo. Ou uma escultura com uma pilha de animais no jardim do Kungsparken.

De um lado, o mundo natural assume uma presença assídua e marcante nos parques, com a coexistência de animais e plantas, tal como a natureza humana também se revela notável num cemitério em pleno parque urbano.

 

Mais à frente, mas ainda no coração da cidade, ergue-se o Castelo de Malmö como um testemunho silencioso do tempo, de quando Malmo ainda pertencia à Dinamarca e era governada por Cristiano III.

A sua história começa  nas fundações de um baluarte erguido em 1434, pensado para defender e resistir. Décadas mais tarde, entre 1537 e 1542, reinventou-se: pedras antigas acolheram novas ideias e o castelo renasceu.

Entre a herança medieval e o sopro renovador do Renascimento, tornou-se um marco pioneiro no Norte da Europa, o exemplar mais antigo de uma fortaleza no estilo renascença nos Países Nórdicos.

Hoje, já não guarda soldados, mas memórias. O fosso profundo e as torres de canto continuam a vigiar, mas agora acolhem visitantes, curiosos e sonhadores. No seu interior, a arte e a ciência substituem o eco das batalhas. Mas tínhamos horário de regresso…

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Forte de Santo António da Barra

 

Sobranceiro ao mar, o forte ergue-se como velha atalaia, de olhar fixo no horizonte. Mais uma fortaleza que vigia o tempo e o espaço da barra do Tejo. É uma construção austera  preparada para resistir ao inimigo, ao vento, ao desgaste dos dias.

Já nadei até à praia que lhe fica no sopé, antes de ter sido recuperado pela Câmara de Cascais. Já lá vi alguém a dançar, à noite, com holofotes, provavelmente numa produção artística. De lá, de dia ou de noite, a vista é deslumbrante.

Tem forma estrelada, mas uma frente de rio irregular, ladeada por 2 baluartes com guaritas que lhe vigiam as muralhas viradas ao Tejo. O perímetro muralhado voltado para terra possui fosso e mais dois baluartes.

Nascido sob domínio filipino, desenhado para a guerra e para o controlo do mar, foi perdendo lentamente o seu propósito. Como tantos lugares de defesa ao longo da barra, tornou-se vulnerável ao esquecimento. Estamos no Forte de Santo António da Barra.

De fortaleza a posto fiscal, de quartel a colónia de férias, de residência de verão a palco de um acidente que marcaria a história - queda de Salazar -, o tempo foi-lhe atribuindo novos papéis, cada vez mais distantes da sua origem.

Depois veio o abandono, a degradação, o fogo que consumiu parte da sua memória. E, ainda assim, como se recusasse desaparecer, foi resgatado, restaurado, devolvido à luz. Abre ao público desde 2019, mas apenas aos fins de semana e feriados.

Hoje, partilha cicatrizes - e algumas caliça a deslizar pelas paredes húmidas -, e histórias com imagens - exposição numa das salas -, permitindo que quem o visita escute não apenas o mar, mas também os ecos da respectiva História.

Há um interessante conjunto de azulejos, com versos de “Os Lusíadas”, de Fernando Pessoa, alusivos a episódios da História de Portugal, além de outros decorativos tradicionais portugueses de padrão "Ponta de Diamante".

Possui ainda uma pequena capela em invocação de Santo António. O forte permanece  não já como arma, mas como testemunho. Uma presença que resiste, agora com visitantes, entre pedra e sal, à passagem inevitável do tempo.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Patones de Arriba

Frondosa e pétrea, moldada pelo vento que percorre as encostas, esta aldeia parece emergir da própria montanha, como se sempre ali tivesse pertencido. Escarpada e silenciosa, guarda histórias que sussurram entre as pedras.

Dizem que, em tempos, chegou a ser um pequeno reino independente, perdido entre vales e neblinas no século XVIII. E, isto, mesmo com o consentimento do monarca de Espanha Carlos III.

Aqui, o negro não é ausência de cor, mas identidade. A ardósia cobre o chão, sobe pelas paredes e envolve as casas numa harmonia austera, quase poética. Caminhar pelas ruas empedradas é sentir o peso do tempo.

O granito das moradias revela a resistência de uma arquitetura que desafia séculos. Patones de Arriba ou Arriva (de acordo com o mosaico), está a cerca de 70 quilómetros da capital espanhola, na Serra Norte da Comunidade de Madrid.

Este lugar mantém-se resguardado, como um segredo bem guardado. A pequena ermida, datada de meados do século XVII, observa tudo em silêncio, testemunha de uma história que continua a ecoar, apesar da passagem dos anos.

Com menos de meio milhar de habitantes - mas, apenas cerca de vinte permanentes -, a aldeia preserva um ritmo próprio, quase imutável. As ruas, estreitas e curtas, não cedem espaço aos carros; quem chega é convidado a abrandar e a parar antes da urbe.

O convite inclui deixar o mundo moderno à entrada e percorrer cada recanto a pé, com tempo e contemplação, através de ruas tradicionais de aldeia, umas onde só passa uma pessoa, outras onde se podem cruzar duas.

Durante muito tempo esquecida, como se estivesse suspensa no tempo, ganhou agora uma nova luz. A classificação como Bem de Interesse Cultural trouxe-lhe visibilidade, mas não lhe roubou a alma.

Pelo contrário, reforçou o encanto de um lugar onde o passado não é memória, é presença viva em cada pedra, em cada sombra, em cada passo. E aquela frecusra davegetação frondosa que lambe paredes e telhados, é um oásis.

domingo, 3 de maio de 2026

Baan Kudichin, Portugal em Banguecoque

Chamam-lhe “Little Portugal”, um eco português distante, em Kudeejeen, onde o tempo suavizou memórias mas não as apagou. Entre ruelas silenciosas, plenas de vegetação, ainda se respira uma herança de mais de 500 anos.

O Baan Kudichin - ‘Baan’ significa casa e ‘Kudichin’ é o nome do bairro –, está situado numa zona de Banguecoque onde ainda se concentram os descendentes dos portugueses, que para ali se mudaram no século XVIII.

Provinham da antiga capital Ayutthaya, onde combateram ao lado do rei tailandês contra os birmaneses. A cidade caiu, mas os portugueses foram recompensados com um terreno onde está atualmente o bairro de Santa Cruz.

Em espaço aberto, muito perto do Chao Phraya, rio que cruza Banguecoque, ergueu-se a Igreja de Santa Cruz, símbolo de fé e integração, mas também marco histórico da presença portuguesa no Oriente.

Saímos do parque de Saranrom, atravessamos o mercado de flores e passamos a ponte Phutthayotfa. Kudeejeen mal se vê do outro lado do rio. O bairro revela-se quase em segredo, com portas fechadas e ruas despidas de gente. 

Passamos pela igreja e pelo colégio com o mesmo nome, Santa Cruz. Na praça contígua, as referências cristãs portuguesas são evidentes. Mas até há sinalética a indicar o museu português.

Este pequeno museu, instalado numa casa da família, abriu pela primeira vez no dia de Natal de 2015, e tem estado informalmente aberto desde março de 2016, foi inaugurado oficialmente em 2017.

Passamos um pequeno portão - como se o bairro fosse condomínio privado -, para, depois, entramos num cenário que não deve ter mudado muito ao longo dos séculos. 

O arvoredo e as casas de madeira contam histórias em silêncio. Ou em cartazes, onde se lê existirem ali doces pedaços da cultura portuguesa representados por delicioso bolos.

As ruas estreitam e as pequenas casas multiplicam-se, mas não há gente onde muros coloridos falam onde as vozes faltam. As ruelas estendem-se como ramos de árvore ao longo de meandros, alguns com subtis cursos de água.

Até que chegamos a uma porta encimada por um azulejo com uma caravela. Estamos no Baan Kudichin Portuguese Descent Museum, tal como está escrito logo abaixo. Entramos, saudámos e subimos os degraus que levam ao primeiro piso.

Ali, exibem-se artefactos, fotografias e há referências à influência gastronómica, como o bolo Khanom Farang. Há uma cama - com dois penicos! -, cortinas, vassouras, típicas, talvez uma Bíblia, além de muitas imagens e peças religiosas.

Há mapas, e um deles mostra a distãncia de Lisboa a Ayuthaya - 10700 kms -, e a rota do caminho marítimo para a Oriente via Cabo da Boa Esperança. Há referências a Vasco da Gama, aos Descobrimentos e uma miniatura de uma caravela.

O mobiliário típico, bordados, vasos, caçarolas, porcelanas, várias referências gastronómicas - onde não falta um guisado de carne e torresmos -, e, até, uma fotografia e uma nota de saudação de MNE João Cravinho, em visita no mês anterior.

No bairro revelam-se raízes diluídas pelo tempo. Kudeejeen não é Portugal, é a sua memória transformada, o seu eco distante que, ainda assim coexiste, ali bem próximo, com templos chineses e budistas.

Mas não deixa de ser uma cohabitação tipicamente portuguesa, a tal que “deu mundos ao mundo”. Eu também deixei no museu uma lembrança humilde, mas que levei para o Oriente e "calhau que nem gingas": uma moeda de 2$50 com uma caravela.

A presença portuguesa em Banguecoque não está apenas no "Little Portugal". Vai além do antigo Kudichin de origem portuguesa: no muro da embaixada lusa está mais uma obra assinada pelo nosso Vhils (Alexandre Farto), em fevereiro de 2017.