sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Montenegro

 


"Montenegro: entre a memória histórica e a poesia da paisagem", podia ser um título para esta incursão neste país. Um passeio pela zonas históricas de Budva e Kotor, um mergulho no Adriático em Sveti Stefan e a paisagem desde a Serpentine, foram os ex-libris.

 


Continuamos a descer  a costa croata banhada pelo Adriático. Hoje, temos o Montenegro como alvo. Não esse, mas um mais antigo, pequeno, histórico, apinhado, paisagístico e com acesso mais complicado.

Vamos às montanhas que dominam a baia de Kotor, aos meandros da cidade, à originalidade de Sveti Stefan, à antiguidade de Budva. Cada paragem oferece uma combinação singular de memória, cultura e contemplação.

Voltamos à marginal croata. Paramos numa pequena reentrância e espreitamos Dubrovnik desde a encosta. É a imagem que aparece nos roteiros. Porém, aqui, parece que rodamos mais alto e a cidade se funde com o Adriático lá no fundo.

Não tarda, desviamos para o interior. Ainda não se vê a fronteira, mas já se vêm carros parados na estrada. Mais à frente, camionetas de turismo. Ainda não se vislumbram as cabinas fronteiriças.

Está calor e o avanço é lento. Estamos de moto e vamos ocupando os espaços onde cabemos. Estimamos que a entrada em Montenegro vai demorar mais do que o previsto. Há turistas a sair dos autocarros para verificação fronteiriça pessoa a pessoa.

Despachamo-nos em cerca de uma hora. O caminho vai compensar. A paisagem volta a ser de marginal. Todavia, aqui, Montenegro junta-lhe a lindíssima Baía de Kotor, escoltada entre montanhas esguias que lhe guardam a história e os panoramas.

O património histórico funde-se com paisagens de rara beleza. Kotor é um dos conjuntos históricos mais notáveis do Adriático, reconhecido pela UNESCO. A cidade parece protegida por uma muralha natural de montanhas abruptas que mergulham diretamente no mar.

Com origens romanas, Kotor prosperou sob domínio bizantino, sérvio e veneziano, entre os séculos XV e XVIII. Percorrer o labirinto das suas ruas é viajar através de séculos de influência veneziana e mediterrânica.

O centro histórico, Stari Grad, é um labirinto de ruas calcetadas, praças e palácios renascentistas e barrocos. A pedra é dominante, tal como o número de gatos, tal como a altura da amurada dos navios de cruzeiro fundeados às portas da cidade.

Mas não ficamos por aqui. Metemos pela serra e, mal ficou plano, apanhamos uma valente fila, em pleno troço em obras, numa recta com cerca de 10 quilómetros. Íamos a caminho de Budva.

Budva representa o encontro entre a herança histórica e a energia vibrante da Riviera Montenegrina. A Cidade Antiga, envolvida por muralhas medievais de influência veneziana, é um pequeno núcleo preservado que, ainda assim, fascina.

Ese núcleo histórico conserva ruas estreitas de pedra, igrejas centenárias - entrámos numa ortodoxa - e pequenas praças que evocam séculos de história marítima. Essa relação com o mar confere-lhe um encanto especial, aspecto mais atenuado no exterior das muralhas.

Com efeito, fora das muralhas, independentemente do cosmopolitismo da marina, a arquitectura e quantidade de prédios que ocupam a baía, emprestam um ambiente descaracterizado muito semelhante a uma qualquer cidade de férias costeira.

O melhor estava para vir, em Sveti Stefan, que podia ser, a “Ilha que flutua entre o mar e o tempo”. Sendo uma antiga povoação piscatória fortificada, erguida no século XV, parece emergir das águas como uma visão intemporal.

Hoje, a península funciona como um resort de luxo, restrita a hóspedes, e desenha uma das imagens mais emblemáticas do Adriático. Basta estar na praia ou, melhor ainda, dentro do cálido mar montenegrino, para perceber a beleza do sítio.

Foi aqui que nos perdemos dos restantes. Logo num país onde a rede móvel para nós é paga a peso de ouro e, por tal, estava desligada. Mas, quem tem mapa e boca recupera o engano e ainda fizemos uma dezena de quilómetros numa montanha com piso e curvas interessantes,

Reencontrarmos os demais entre as curvas com paisagem panorâmica sobre o Adriático e um bar/restaurante de montanha. Depois de todos reunidos, continuámos a estrada de montanha que ia estreitando à medida que avançávamos.

Daí a pouco, estávamos no Horizont Bar, situado num local tão panorâmico como elevado. Estamos a 900 metros de altitude “sobre” a baía de Kotor. Pedimos espumoso, saudámo-nos e apreciámos o início de um pôr do sol fantástico.

O restante foi admirado a descer a Serpentine, Serpentina, uma estrada tão desafiante como enrolada, com curvas consecutivas, tão apertadas como panorâmicas. Felizmente, só apanhámos um carro de frente...

São 25 curvas, mas parecem mais. Cada uma revela nova perspectiva. É uma paisagem de vertigem e contemplação, onde o Adriático surge muito abaixo, como um espelho azul encaixado entre gigantes de pedra.

Lá em baixo está Kotor. Voltamos a passar pelo porto e pelas portas da cidade antiga. Vamos  guardar na memória este pequeno país, com um ambiente em jeito de extensão da Croácia, mas com identidade própria e vontade de, em breve, se juntar à UE.



segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Ruinas Entre Linhas. Freiria



Não é fácil lá chegar. Pelo menos, não seguindo o caminho aconselhado que leva à porta principal. Eu fui ter ao portão secundário, à “porta dos fundos”. Entrei de moto e deixei-a num pequeno pátio de entrada. A seguir, há um carreiro que parece não levar a lado nenhum. 

Embora esteja em plano alto, ainda não se vê um chavo. Depois, começa a vislumbra-se um telheiro que protege a casa de Titus Curiatis Rufinus. Estou nas Ruínas de Freiria, em São Domingos de Rana.

Ruínas que guardam a memória de milhares de anos de presença humana, num território moldado pela abundância de água e pela sucessão de povos que ali viveram desde o Paleolítico. Contudo, foi a época romana que lhe conferiu a monumentalidade que hoje a distingue.

É um dos mais completos exemplos de villa romana da Península Ibérica, sítio que se julgava perdido e que continua a desvendar novos capítulos da história local. A redescoberta deste lugar começou em 1912, quando o arqueólogo Vergílio Correia identificou uma sepultura romana e assinalou os primeiros vestígios da antiga ocupação.

Retomada a investigação, décadas mais tarde, revelou-se um vasto complexo arqueológico. Freiria conheceu o seu apogeu entre os séculos I e V d.C., período em que a villa se expandiu e prosperou. 

 

A residência senhorial, ou domus, possuía átrio, peristilo, espelhos de água e salas decoradas com mosaicos policromos e estuques pintados. Entre elas destaca-se o triclínio, a sala de refeições onde ainda hoje se preserva um magnífico mosaico associado à casa de Titus, um dos proprietários conhecidos da villa. 

É neste espaço que se poderá observar três dos quatro tapetes em mosaico que a compunham. E que tapetes! Em redor da área residencial desenvolvia-se um complexo agrícola e produtivo notável, composto por celeiro, moinho, lagar, forno de pão e sistemas de armazenamento e abastecimento de água. Não muito diferente de hoje.

As termas, equipadas com hipocausto e tanques de água quente e fria, testemunham o conforto e a sofisticação do quotidiano romano. Hoje, estavam ao sol, retemperador, a facilitar algum tratamento ou diversão fortuita.

A importância de Freiria revela-se também no espólio encontrado: moedas, cerâmicas, instrumentos de trabalho, objetos decorativos, um raro quadrante solar e uma ara dedicada à divindade indígena Triborúnio, símbolo do encontro entre tradições locais e cultura romana. 

Do outro lado da ribeira, a necrópole recorda os rituais da morte e da memória, enquanto as sucessivas campanhas arqueológicas continuam a revelar a riqueza deste lugar singular. Hoje, um percurso interpretativo em passadiço permite percorrer estas ruínas sem as ferir, sendo o visitante conduzido por entre vestígios de casas, termas e mosaicos. 

Volto por onde cheguei. A Husqvarna ainda lá está, a contrastar com a paisagem, tão anacrónica como harmoniosa, misturando a tecnologia e a História, o passado com o futuro, neste curioso presente.  

terça-feira, 14 de julho de 2026

20 anos de Encuentros de Grandes Viajeros


Partimos cedo, já sob o aviso subtil do verão, que soprava no ar a necessidade de um blusão leve. Às dez da manhã, na Área de Serviço de Montemor, o termómetro marcava uns generosos 26 graus, e o calor fazia-se sentir sem cerimónias. 

Não demorou muito até um motociclista polaco, montado na sua Ténéré, se render à evidência, deixando blusão e capacete a descansar sobre a moto e, só o percebemos, quando regressámos às motos.

Após uma pausa para almoço em Esperança, seguimos rumo a Albuquerque pelas estradas municipais espanholas. O asfalto corria suave sob as rodas, mas era o calor que dominava a paisagem. 

Em compensação, cada abastecimento sabia a pequena vitória, com o combustível a custar quase menos cinquenta cêntimos por litro do que em terras lusas. Se andássemos a gaz butano, seria o pleno...

Quando o calor aperta, os insetos não tardam a juntar-se à viagem. Vieram em enxames, colando-se às viseiras e carenagens, companheiros involuntários até Alba de Tormes. 

Pelo caminho, ainda vagueámos pelos arredores de Plasencia, à procura de energia para máquinas e viajantes. Já em Alba, o GPS decidiu brindar-nos com um toque de aventura, conduzindo-nos até uma praça cuja saída se fazia por escadas. 

E, como se não bastasse, ainda custei a acreditar quando descobri que o acesso à garagem passava por uma estreita rua empedrada de pequenos seixos, onde cada metro parecia desafiar a lógica e a confiança.

Alba ergue-se à margem do rio Tormes, nascida dos reis de Leão e moldada pelo curso da história. De forais e senhorios teceu-se o seu destino secular, até florescer nas mãos da nobre Casa de Alba.

Sentinela de pedra e memória, Alba é uma terra sagrada onde repousa Santa Teresa. O carácter devoto da urbe está omnipresente, quer nos muitos edifícios religiosos, quer na toponímia. 

Muito próximo da Plaza Mayor, erguem-se uma das muitas igrejas do burgo - quase uma dezena mo total - para uma população de pouco mais de pouco mais de 5 mil habitantes. 

Não muito longe, a Basílica inacaba, é um interessante exemplo de estilo neogótico. Nas chaminés, mas sobretudo nas torres, são as cegonhas que dominam. São dezenas que todos os anos escolhem o burgo para nidar. 

Íamos sobretudo pelo 20º aniversário do EGV. E este podia ter o título de, “O Elogio do Passado e do Presente”. Provavelmente, como o escolheria Emilio Scotto, um aventureiro motociclista argentino, o grande homenageado desta edição. Já lá vamos. E o resto?

O resto é um cansaço , mas daqueles prazenteiros e motivadores, uma chatice afectuosa que junta vontades, estórias, expectativas, aventuras mas, sobretudo, pessoas, pessoas que entendem a vida e o mundo como uma bela viagem.

Talvez por isso, Jaime Núñez, o mentor do projecto, juntamente com a mulher, Conchi Cosme, tenha sugerido que a designação do AGV, devesse passar para um AGP, um Encontro de Grandes Pessoas.

O AGV é  daqueles vírus que apetece apanhar, espalhar e reproduzir. E voltar com os mesmos sintomas, mais presentes, mais empolgantes, mais fatais. Um cansaço bem-vindo, tal como aquelas estradas, paisagens e pessoas que fazem parte da viagem.

Mais do que um simples encontro, é uma celebração da liberdade, da exploração e do espírito viajante. Em poucos anos, o Encuentro de Grandes Viajeros tornou-se uma referência internacional no mundo da moto-aventura. Também porque o endeusamento da viagem passa muito pela aventura, sempre presente nos diversos relatos deste AGV. 

A viagem vive disso: da adrenalina, do desconhecido, da estrada, da paisagem, do risco, do desafio, dos horizontes infinitos, de nós e dos outros. Há quem adore tudo isto ou muito disto. Do que nos preserva a memória, nos acompanha o presente e nos promete o futuro. É uma Energia invisível que nos acompanha o Caminho.

O encontro destaca-se pelo ambiente de amizade, descoberta e paixão pelas grandes viagens. Durante o evento, são apresentadas palestras, vídeos e relatos inspiradores de expedições internacionais. Mas, não só. Por vezes, bastam dois dedos de conversa sobre episódios divertidos ou projectos futuros, com a Paula Kota ou com o António Rosado, interessantes referências no universo dos grandes viajantes de moto portugueses.

Ou, basta apertar a mão e desejar boa viagem ao Toco Lenzi, um viajante brasileiro que está a caminho do Azerbaijão, e anda na estrada desde 2019, para alimentar o sonho, o desejo ou a vontade de viajar.

Ou, ainda, basta acompanhar o entusiasmo do José Luis Rico “Chefi” e da Pilar Molina, ou o bom humor do Jaime Pastor, outros grandes viajantes e conferencistas desta edição, gente que já viajou mais de moto do que eu a pé.

E, também, ouvir o regozijo do Emilio Scotto sobre a aventura da sua vida. E que belo documentário, de quase uma hora, com que nos brindou! Um testemunho na primeira pessoa, de quem percorreu o mundo e os acontecimentos e muitos protagonistas da época.

Entre 1985 e 1995 percorreu cerca de 735.000 kms em todos os continentes, exceto na Antártida. Durante a viagem atravessou 214 países e territórios, reconhecidos pelo Guinness, embora se desconfie que sejam mais.

A aventura durou 10 anos, 2 meses e 19 dias, sempre na mesma moto: uma Honda Gold Wing GL1100, de 1980. É impressionante ver a moto em desertos, montanhas e rios. E a recepção que teve por políticos, futebolistas famosos ou mesmo pelo Papa.

Às vezes, é bom sertirmo-nos pequenos. Não é vergonha, é entusiasmo e orgulho. É paixão porque partilhamos o mesmo propósito de viajar, e satisfação porque podemos cumprir esse objectivo de moto. A dimensão do feito não é domínio, é estímulo.

Mas não só. A construção da minha identidade passou por aqui, pelo acompanhamento dos que comigo partilham cada momento do Caminho, enlevando a proximidade que a moto oferece na interacção com as pessoas. Há muitos anos. 

Evento sem repasto, não vale. Este, como os anteriores, juntou quase toda a gente num restaurante local. A panorâmica, desde lá, contemplava toda a Alba de Tormes. O cocktail inicial assegurou que todos teriam uma vista privilegiada do burgo.



Para o ano, há mais. Mais viagens, mais aventura, talvez mais amigos para acompanharem o evento e o caminho. Se continuarmos a andar por aqui, somos capazes de passar por lá.