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terça-feira, 12 de novembro de 2024

SAKURA MATSURI


Há gente com sorte. Com a sorte de poder ir ao Japão, de visitar Tóquio, de estar lá em pleno Festival das Cerejeiras, de passar pelo Parque Ueno no dia em que milhares de famílias japonesas, colegas de trabalho e amigos se reunem para fazerem um imenso piquenique.

Ainda com a sorte de ver as cerejeiras em flor, ao longo dos canais, nos parques, junto de edifícios icónicos, de monumentos notáveis, em redor dos lagos, de dia e de noite. Mas não apenas em Tóquio. O Festival das Cerejeiras, Sakura Matsuri, é um dos festivais mais famosos do Japão.

Estamos no início de Abril, a melhor época para visitar o país, sobretudo no intuito de lá estar para o Festival. Fazê-lo nos parques ajardinados japoneses é uma mais valia. Mas os jardins japoneses são mais do que a época de florescimento das cerejeiras.


 

Os japoneses têm particularidades na apropriação e ordenação do espaço. Sabem usar sabiamente o espaço e torná-lo meticulosamente organizado. Tudo parece estar no lugar certo. Tudo parece ter sido feito com um propósito. E foi.

O que parece por vezes alietório, tem a mão da cultura. Até o que parece puramente natural tem intervenção humana. E vice-versa: a natureza é, também, uma formatadora. É desse “oportunidade” que a cultura se apropria.

A interacção entre a natureza e a cultura está sempre patente na concepção dos jardins japoneses. Em variadíssimos aspectos. Nas repentinas mudanças de trajectos e/ou na dimensão do caminho, bem como nos enquadramentos que consideram o horizonte como parte do espaço.

Os japoneses conseguem dimensionar o espaço de modo a que as ilusões de proximidade ou afastamento, de limitação ou extensão, se acerquem da realidade. Mas não é só a dimensão que cria sensações. Os elementos naturais também têm um papel importante no maneio do espaço

 

A água é um dos elementos que está frequentemente presente nos parques. Não apenas a água parada dos lagos, ou a que proporciona superfícies que espelham a proximidade, por exemplo, mas também o fluxo da água que cria movimento e som.

 

As pedras, as árvores, as rochas, a areia, as flores, aliados a elementos decorativos trabalhados/estilizados, fundem-se harmonicamente para criar um todo: as pequenas pedras organizadas ou os veios na areia, associam-se a lanternas de pedra, ou a um tapete de folhas secas pinta o chão.

Há lagoas ou pequenos cursos de água cortadas por pequenas pontes e decoradas por lanternas de pedra e, sobre as pontes, pendem ramos de cerejeiras. No solo, há verdes que contratastam com os cinzas das pedras.

 

Há paisagens pensadas como miniaturas, depois ampliadas para ambientes tão abstractos como místicos. É aqui que se articulam os princípios espirituais e estéticos. Aqui, há vínculos entre a natureza e a cultura.

A fomatação das árvores, por exemplo, bonsai, é (mais) um elemento decorativo altera o espaço, que molda o palco onde a natureza se expressa sistematicamente e a cultura lhe vai moldando a elegância e harmonia.

Essa fusão acontece um pouco por todos os jardins. O Parque Ueno, em Tóquio, é disso exemplo. É também aqui que o Festival das Cerejeiras tem lugar significativo, onde as flores se transformam num extenso manto cor-de-rosa.  

O parque é extenso. Alberga museus, um zoológico, templos, lagos, pontes, telheiros, pequenos cursos de água. Besta altura, anda-se literalmente sob flores de cerejeira. E, por vezes, o manto passa para baixo,

Outras vezes, o vento fustiga os ramos e as flores flutuam como flocos de neve. E o chão fica esbranquiçado. As flores brancas estão sobre tudo, a decorar cenários, a encantar horizontes, a recortar um lago ou a matizar um edifício.

Os jardins e os respectivos conteúdos todos seduzem. São dos lugares mais escolhidos para fotografar, quer espaço, quer pessoas. São cenários cativantes. Ás vezes, basta uma cerejeira em flor. É bom estar lá, onde as pessoas são felizes.  

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Instantes de Tóquio. Museu Nacional



O dia surgiu chuvoso e enevoado. A chuva não parou até chegarmos ao museu. Da estação de Metro até ao museu, atravessámos parte do Parque Ueno. Mesmo sendo perto, deu para ficar encharcado. O meu blusão, que devia ainda ser impermeável, deixou passar água até à pele. Por isso, ficou a secar guardado nos cacifos do museu, enquanto o visitávamos.

O Museu Nacional de Tóquio é o mais antigo e o maior museu do Japão. Fundado em finais do século XIX, está situado na extremidade norte do Parque Ueno, um dos parques de Tóquio mais carismáticos, agradáveis, populares e maiores da capital nipónica. Um dos sítios onde passeámos sob as cerejeiras em flor.

Embora não pareça (com a chuva, nem nos apercebemos da dimensão - parece que existem vários edifícios...), percorremos cinco andares que reúnem quase um milhar de  objectos/peças de valor arqueológico, etnológico e artístico da existência do Japão e não só, já que juntam muitas peças dedicadas à etnologia e arqueologia asiática.

Todavia, a arte japonesa está exposta em mais de duas dezenas de salas, incluindo espadas, escultura, cerâmica, que vão da pré-história até ao final do século passado. Um pouco à imagem do Museu Britânico, mas de muitos outros em geral, também possui uma área dedicada aos Tesouros Nacionais.

Foram, contudo, os espaços dedicados aos aspectos paleontológicos, tecnológicos, enciclopédicos e naturalistas que mais chamam a atenção. A fauna ancestral e contemporânea e a área de catalogação de espécies – tal como nos museus clássicos – também são dos aspectos mais relevantes.

O museu é enorme. Deixámos para outra oportunidade (!), uma quantidade de espaços de exposição, quer na área japonesa, quer a galeria de tesouros e a área de informação. Supomos ter visitado, numa manhã, apenas dois edifícios e nem sequer percorremos todos os andares.

A Paleontologia está bem representada com modelos de mastodontes, quer terrestres, quer marinhos, mas também com seriados de crânios humanos pré-históricos e vestígios de utensílios humanos com milhares de anos, bem ainda com colecções de fósseis, trilobites p.e., espécies com mais de 250 milhões de anos.

Na área ligada às tecnologias não faltam os equipamentos de detecção, desde o “velho” radar aos medidores de vibração; os motores, desde os industriais – geradores, etc - até aos de automóvel e, dos aviões antigos até às mais sofisticadas sondas espaciais, além de outros equipamentos de óptica, medida ou de corte.

Num espaço destacado, um "Zero" (e o respectivo motor), avião de caça japonês utilizado durante a Segunda Guerra Mundial - e consagrado no "ambito das acções "kamikaze", permitia perceber a respectiva simplicidade, sobretudo interiormente já que possuiu o mínimo necessário para voar...

Outra área ligada à etnologia junta objectos, equipamentos e maquetes que contemplam não apenas as comunidades japonesas mas também as da área asiática/Pacífico, reconstruindo testemunhos de espiritualidade, artísticos, mobilidade, etc.

A parte de catalogação, um dos legados científicos do século XIX, vai às pinhas, às conchas, aos insectos, aos cogumelos, aos pássaros, aos cervídeos, esponjas do mar, borboletas, seres unicelulares, num contexto não muito diverso dos museus de História Natural.

Apesar do ambiente ser contrastado, é pena a luz não ser cúmplice da fotografia e do vídeo. É normal, neste tipo de espaços, sobretudo para objectos iluminados em vitrines. Sobretudo os reflexos, ou mesmo pouca luminosidade, não ajudam a divulgar o espólio de uma forma esteticamente mais qualitativa. Através do audiovisual, fica-se com uma ideia. Já não é mau.

Música: Yin Yin, Pingpxing



domingo, 20 de dezembro de 2020

Agradáveis Momentos de Aikido

 


HOMBU DOJO

Todos os que praticam Aikido, conhecem o Hombu Dojo.

Tal como conhecem outros lugares referenciais de criação, aprendizagem e prática de Aikido.

Em Sakai, Tanabe, Shiratake, Ayabe, Osaka, Ywama, etc.

Sede da Aikikai, em Tóquio, é o órgão centralizador do desenvolvimento e divulgação do Aikido no mundo.


O QUÊ

Na impossibilidade de lá ir numa altura em que alguém lá estava, pedi-lhe que assistisse a uma aula e ma reportasse.

Bem como me informasse sobre o espaço, a logística, etc, para uma eventual visita e prática. 

O que aconteceu foi que, além de toda essa informação escrita, também recebi informação audiovisual.

ÉTICA

Guardei esta informação durante alguns anos, não a divulgando.

Tenho dúvidas e pergunto-me, como toda a gente. 

Antes de produzir este vídeo, perguntei-me sobre a respectiva publicação. 

Achei que não o devia fazer, uma vez que não tinha autorização para tal.

CULTURA

Numa cultura em que a etiqueta é mandatória, não seria polido fazê-lo. 

Seria mesmo uma vergonha que, naquele contexto, se tenta ao máximo evitar. 

Não estando lá, não pertencendo à cultura, apetece aproveitar/divulgar.

Mesmo sabendo que a comunicação actual nos coloca de imediato perante o mundo.

HUMANISMO

Por isso, mas sobretudo porque pensei em todos nós, na comunidade aikidoca: será isto útil para nós/para muitos...?! 

Decidi que seria mais interessante divulgar do que, retendo, a informação/conhecimento ficar na “Caverna de Platão”. 

Mesmo comprometendo a minha ética.

QUEM...?

Um dia, pouco antes de ter viajado para o Japão, perguntei ao nosso director Técnico Internacional, Antoine Vermulen Sensei, que aula de que Sensei me aconselhava a participar na Aikikai de Tóquio. 

A resposta foi elucidativa: “qualquer um, todos são excelentes!”

QUALQUER UM...!

No ano anterior, não tive oportunidade de fazer esta pergunta. 

Quem foi, filmou quem lá estava a dar a aula na altura. 

Disseram-lhe que era o instrutor mais idoso (66 anos) ou o mais antigo instrutor (desde 1973), do Hombu Dojo de Tóquio.

Independentemente disto, a resposta de Antoine Vermulen Sensei estava obviamente correcta.

SEKI SHOJI SHIHAN

E, naquele dia, era Seki Shoji Shihan, 8º Dan, hoje com 70 anos, que lá estava. 

Tendo iniciado a prática de Aikido em 1969, chegou a ser uke do Doshu Kisshomaru Ueshiba. 

Foi admitido como instrutor no Hombu Dojo de Tóquio em 1973, com a graduação de 2º Dan.

Segundo o Aikido Journal, “embora Seki Sensei não seja prolixo em sua explicação, ele repete a técnica que está demonstrando muitas vezes, e é possível captar os pontos delicados de seus movimentos por meio de uma observação cuidadosa”.

 

TÉCNICAS

É verdade. 

Uma parte inicial com “ushiro ryotedori kokuynage” e, depois, a incidência sobre “ushiro ryotedori ikkio”. 

É possível notar alguns dos princípios do Aikido: a utilização da energia (ki), o timing/oportunidade (deai/kikai).

Bem como, o desequilíbrio (kuzushi), o tai sabaki (movimento do corpo) e a criação do vazio (ma).

No final, surge um “ushiro ryotedori kotegaeshi”, também com demonstração repetida por diversas vezes e com movimentos lentos de modo a favorecer a aprendizagem. 

E, quando repete, Seki Shoji Shihan fá-lo também com os respectivos alunos.

Mas, vejam por vós,

Música: Kanpai, Adrian Von Ziegler

https://adrianvonziegler.bandcamp.com/album/the-complete-discography