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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Concerto Promenade, Queluz




Ouvir música clássica ao ritmo dos passos, 
foi ideia de inglês, Henry Wood, 
conceito que privilegiava a informalidade 
de passear enquanto a orquestra tocava. 
Este tipo de concertos ficou conhecido 
pelo nome de “Concertos Promenade”. 
Há anos, a televisão portuguesa foi pródiga 
na transmissão dos Concertos Promenade produzidos pela BBC.


Foi um raro Concerto Promenade que, em Queluz,
no cenário da fachada do palácio, 
encerrou o Festival de Sintra no último domingo, 27 de Maio. 
Com a cumplicidade de uma noite amena, 
a Banda Sinfónica do Exército, com a participação do Coro Lisboa Cantat, 
passeou por obras de Tchaikovsky, Chostakovitch, 
Verdi e Rossini, entre outros.


Com a direcção do maestro Artur Duarte Cardoso, 
a Banda Sinfónica do Exército “constitui-se para além de Banda Militar, 
como um Grupo de Música de Câmara, um Quinteto de Metais 
e um Quarteto de Saxofones”. 
Talvez não seja do conhecimento geral, 
que está agregada muito perto do local do concerto, 
ou seja, no Regimento de Artilharia Antiaérea Nº1, em Queluz.


O Coro Lisboa Cantat, cuja formação data de há quarenta anos, 
actuou sob a direcção do maestro Jorge Carvalho Alves, 
que está com o Coro há cerca de trinta anos. 
A participação vocal teve ainda como solistas, 
o tenor Pedro Rodrigues, a soprano Carla Simões 
e o barítono Diogo Oliveira.


Um dos momentos mais espectaculares da noite foi protagonizado
 por diversos disparos de peças de artilharia, 
situadas no exterior e junto ao portão do quartel do Regimento de Artilharia. 
Quem estivesse na parte de trás do espaço de audiência, 
pôde virar-se para assistir a uma bateria de meia dúzia de tiros, 
cujo ritmo e estampido acompanhava a peça tocada em palco.


O espectáculo durou mais de uma hora, 
sob um céu estrelado e uma temperatura aprazível. 
Talvez não tenha estado presente tanto público 
como o que o que assistiu ao Concerto de Videomapping, 
Todavia, a plateia estava repleta e nas laterais havia muita gente.


No entanto, não estava à espera que a plateia,
com lugares sentados, fosse tão extensa. 
Por tal, parecia estar-se numa sala de concertos, 
com a plateia em frente do palco e laterais com assistência em pé. 
Dava ideia de que a tal “promenade” dificilmente seria possível, 
a não ser passeando por trás das cadeiras da plateia e da ‘regie’ do evento.


O vídeo em https://vimeo.com/220476996

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Regresso ao Palácio - A Viagem Concerto


Já existira um convite em Setembro de 2015.
Era para visitar o palácio à noite.
Aconteceu por ocasião da conclusão da pintura da fachada interior.
Nessa altura, a diferença face à cor anterior, que também dominava os edifícios em redor – e que foi obrigatória durante anos – já era bem notória.
Com o azul, contrastavam agora o verde escuro das portas e partes dessa fachada interior pintadas de um amarelo quase torrado.

O palácio esteve pintado de cor-de-rosa desde que me lembro.
Descobriu-se há já alguns anos que a cor original era azul.
Para assegurar o rigor arquitectónico e histórico o Palácio Nacional de Queluz foi pintado de azul.
Mas a obra não ficou por aqui.
Integrou um conjunto de restauros, adaptações e melhoramentos.


Há notícias que colocam o valor total das obras praticamente em três milhões de euros.
Para celebrar o final desse projecto de requalificação foi realizado um espetáculo de videomapping.
Segundo consta, trata-se do primeiro concerto mundial e gratuito a ser filmado em videomapping.


Foram 200 metros de imagens projectadas na fachada que envolve a estátua de D. Maria I.
Apesar de haver repetição de cada um dos lados da fachada, o efeito permite um amplo desfrute das imagens.
Quarenta e cinco minutos de música, protagonizada pela orquestra Divino Suspiro.
Uma vintena de músicos que tocaram temas de Mozart e Handel, entre outros.


À música associaram-se imagens animadas com cenas da corte do século XVIII.
Estas, envolveram muitas personagens onde não faltavam sequer as crianças.
As restantes imagens eram representativas do património arquitectónico, artístico e ornamental do palácio.
Aliás, como é praticado em projectos semelhantes que envolvem cenários do mesmo tipo.
Como sejam os espectáculos do Terreiro do Paço, em Lisboa, do Lumina, em Casacais, ou do Festival Aura, em Sintra. 


No que respeita às variadas cenas de época da corte, destacam-se os jogos, a conversas, os passeios a pé, de carruagem, ou de barco no rio Jamor.
Imagens que bem ilustravam o quotidiano da corte da altura.
Figuravam ainda outros lazeres, como fosse andar de baloiço.
A evocação do tempo passado com as crianças e as respectivas brincadeiras, também esteve presente.


Os conteúdos de imagem foram variados e exaustivos.
Nos conteúdos estavam ainda muitas imagens quer das fachadas, quer da estatuária dos jardins.
Outras, contemplavam as porcelanas, as tapeçarias os frescos dos tectos.
Outras, ainda, iam à vegetação e aos animais que animavam o palácio na sua época de ouro. 


A cor juntou-se à música, às imagens e aos contornos que a noite trazia.
Foi um convite simpático para passearmos os olhos pelas cores fortes e vivas, embaladas pela música, pelo som bem perceptível, pelos temas musicais apropriados.
Excelentes, as imagens de uma dimensão épica e de definição cuidada, a encenação tranquila e dedicada e bons executantes musicais.


Pena que o chão irregular em paralelepípedos de basalto não permitisse um estar mais confortável.
Não tivemos o ambiente de bel prazer da corte, mas o facto de apenas estar frio quanto baste e não ter chovido já foi uma mais valia para este excelente espectáculo.
Queluz já merecia um evento deste tipo.

O vídeo em  https://vimeo.com/205593761

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Pedestre em Queluz



Passear em Queluz, a pé, passando por alguns dos sítios mais emblemáticos da antiga vila. Era a proposta para um domingo que devia ter estado (sempre) solarengo. Mas lá fomos, encasacados ou nem tanto. Começamos no parque de estacionamento mais próximo da rotunda dos ‘Arcos Reais’. Já passava das dez da manhã.


Popularmente, o troço do aqueduto que está mais próximo do rio Jamor é conhecido por Arcos Reais. O nome institucional é Aqueduto da Gargantada, uma infraestrutura aquífera setecentista que corre maioritariamente em troços subterrâneos – que também tivemos oportunidade de ver - mas que mostra a sua arcaria a mais de vinte metros de altura quando acompanha e transpõe o Jamor, se estende até ao chafariz de D. Carlos e se esconde na rua Carlos Seixas.


A “nascente” fica no sítio de Gargantada e a caleira da arcaria levava água de Carenque ao Terreiro do Paço. A água não se destinava porém às habitações do percurso, mas sim as cavalariças de D. Pedro II, independentemente de existirem alguns chafarizes mandados construir pelo rei para distribuição de água às populações.



As casas que rodeiam o aqueduto já lá estão há muitos anos. Algumas perspectivas colocam os arcos à frente das janelas dos prédios Os mais próximos serão certamente vítimas da ausência de luz e sol. Mas também tem o privilégio de serem vizinhos daquela obra monumental daquele que seria o futuro D. Joao V.  


Logo após o arranque, passamos a Ponte Pedrinha e metemos a caminho do Mercado. Parámos antes de uma pequena ponte antes envolta num caniçal medonho onde os mais novos ou amedrontados não entravam sozinhos. Ali perto falta um ou outro prédio, vítima sobretudo das inundações de 1967.


Trepamos até à estação de Queluz, hoje irreconhecível face a aquela época em que ainda havia armazém de mercadorias e uma passagem de nível. Descemos pela “rampa da estação”, uma subida tremenda para quem tinha/tem de a trepar todos os dias para ir trabalhar, sede da célebre empresa J. Pimenta.


Continuamos pela rua de D. Maria para fazer uma vista à Marianita. Diz quem sabe que são os melhores pastéis de nata de Portugal. A paragem coincidiu com a primeira bátega de água. Esperamos ainda assim envolvidos pelo aroma do café e dos bolos.


Voltamos aos “Arcos”, passamos o largo da Ponte Pedrinhas e subimos as escadas junto ao aqueduto. Prosseguimos pela Carlos Seixas até que paramos por baixo de um dos arcos do aqueduto. Dali, é possível divisar uma bonita panorâmica do parque urbano de Queluz, vendo-se também em primeiro plano o bairro de Nossa Senhora da Conceição, o chamado Bairro Económico, onde vivi durante mais de 20 anos.


Dali, fomos a caminho da Elias Garcia, uma das artérias viárias urbanas mais extensas de Portugal, mais de cinco quilómetros, desde a Ponte Pedrinha (onde ainda é avenida) - o nosso ponto de partida - até à Estrada de Benfica, às Portas de Benfica.  


Chegamos aso “Quatro Caminhos”, célebre cruzamento queluzense que marcava simbolicamente o centro da cidade. Há anos era mesmo o local mais central de Queluz, onde muita gente combinava encontrar-se. Era o sítio dos cafés, meio caminho entre casa e o liceu, entre a estação e o palácio, onde a rapaziada do liceu se encontrava depois das (e alguns durante as) aulas.


O casario ainda é dessa época. Alguns cafés, porém, desapareceram. O Lena e o Laúrea mantêm-se. O Mina Velha e o Mina Bela há muito que deram lugar a um supermercado e a uma loja de fast food. Mas o sítio continua a fazer parte do património de Queluz e a ser um dos locais mais movimentados da cidade.


Descemos pelo “Parque” e comentamos o facto de o parque infantil dispor de equipamento novo e sofisticado mas de não lá crianças a brincar já lá vai muito tempo. No meu, havia lá areia e baloiços, escorregas e cimento. E tinha crianças. As crianças de Queluz – não devem ser muitas nas casas antigas do centro – ficam apenas com o “Jardim” para brincar.



É nesta avenida, a da República, que se situa a Junta de Freguesia, a Casa de “Os Belenenses” e a farmácia Zeller (no rés do chão de um prédio em ruínas). Esta avenida, historicamente relevante em Queluz, é uma das que mostra mais ruínas. 



Dali fomos até à travessa da Bela Vista, lugar de onde se vê grande parte do Monte Abraão e Queluz Ocidental, o bairro “Económico”, o bairro da “Estação Nova” , o parque da Matinha, e ainda a parte norte dos jardins do palácio de Queluz.


Depois, metemos por uma viela no final da rua Vasco da Gama e desembocamos no largo Mouzinho de Albuquerque junto do chafariz. Subimos um bocado da avenida da República à procura de uma das mais bonitas moradias de Queluz. Foi nessa altura que caiu a segunda carga de água da manhã. Abrigamo-nos debaixo de uma varanda.




Descemos pela paralela a caminho do palácio, passamos em frente do quartel do Regimento de Artilharia 1 e do chalet da família do conde Almeida Araújo e entramos num dos ex-libris de Queluz, o bairro Almeida Araújo, mais conhecido pelo Bairro Chinelo.


O bairro nasceu com o palácio. Foi lá que os trabalhadores que o construíram, e depois quem serviu no palácio, se alojaram inicialmente. São casas baixas outrora de madeira, pedra e cal. Hoje, a maioria das habitações estão recuperadas. Com essa restauração, a pequena e escondida aldeia setecentista de artífices está mais simpática, ganhou cor e alguma diversidade populacional.  

Falhamos a Fonte da Carranca e atravessamos para o palácio já passava do meio-dia. Ainda entramos na recepção mas decidimos deixar a visita para oura oportunidade. Seguimos junto ao muro baixo dos jardins que dão o parque urbano ao longo de um laranjal que envolve o curso do rio Jamor dentro palácio.



Pouco depois, entramos no bairro de Nossa Senhora da Conceição, o tal das Casas Económicas. Passamos pela “praceta” e descemos a rua de Angola tentando recordar ou descobrir quem morava onde. Acabámos onde começamos, com o sol a permitir despedidas e a promessa de novo passeio para breve. Podíamos ter sido mais de vinte, mas a gripe só perdoou quatorze. Com corações rebeldes ou não.

Música: Sérgio Godinho, É tão Bom






























sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A Era dos Palácios I - QUELUZ


I
O INTERIOR E AOS JARDINS
O Palácio de Queluz está associado sobretudo ao lúdico. Está ligado às festas religiosas, aos aniversários reais, á música, aos bailes, aos espectáculos equestres, de fogo-de-artifício ou de combates de touros. Esse feérico, cuja época áurea ocorreu durante o terceiro quintal do século XVIII, tinha na Quinta de Queluz – designação inicial - o seu lugar de eleição, longe da capital, num ambiente íntimo, requintado, romântico.
Embora todas estas actividades tivessem um carácter transitório, eram abrangentes e relacionavam-se, umas mais do que outras, com o renovar de ciclos e com a celebração de momentos importantes da vida social e natural, numa clara articulação entre a natureza e a cultura. O palácio e os jardins mostram ainda hoje essa relação.
Tal como outras artes daquele tempo, como seja o caso da escultura, também a música - que teve um papel importante nas jornadas de ócio do palácio - foi influenciada por temas da mitologia clássica. Todavia, enquanto a reprodução da música dessa época tem de ser executada, a decoração, a arquitectura e a estatuária, estão lá, permanentemente, duradoras, charneiras permanentes entre a natureza e a cultura.

INTERIOR

No interior, o ambiente farto e pesado pode sugerir uma sensação de encarceramento. Por causa daquele sufoco de dourados, daquela pressão de manchas enormes da mesma cor, da complicação dos rococós, das telas sombrias, dos volumosos lustres, de tantos detalhes decorativos.
Algumas peças são curiosas, de outras percebe-se-lhes imediatamente a proveniência, outras ainda têm um excelente trabalho artístico, outras mais fazem parte de colecções raras. E falta bastante do que o palácio encerrava nos finais do século XVIII, muitas levadas pelos franceses, quer para outros palácios quer para França, quando das invasões no primeiro quartel do século XIX.
Apesar da altura dos tectos, apesar da existência de muitas linhas verticais, das dimensões generosas das salas, de algumas cores darem sensações de leveza, as outras cores, texturas, brilhos e o volume dos elementos decorativos, contribuem para aquele ‘efeito de estufa imagético’ que se estende desde a entrada, passa pela zona de quartos, vai da Sala dos Espelhos, à Sala dos Embaixadores e continua para até ao outro extremo do palácio.
Há toda uma tensão entre a talha dourada e os dragões, entre as representações do sol e da fé, alegorias à música, elementos decorativos representativos da vegetação africana, alegorias, temas campestres. Mesmo nas áreas de maior dimensão, destinadas a acolher muitas pessoas, o peso do interior esmaga. Embora, também seja brilhante, sumptuoso, coerente, rico. Porém, muito preenchido e policromado, quase angustiante. Pode-se sucumbir devagarinho sob aquela carga ornamental…
Os motivos decorativos baseados nos padrões clássicos greco-latinos e estilizados para modelos barrocos – folhas, ramos, bagas, grinaldas de flores, colunas com capitéis, esfinges, florões, palmas, talhas douradas, mármores – multiplicam-se pelas paredes e pelo tecto. Depois, os espelhos ampliam esse ambiente, num fulgor excessivo de contrastes, dramatizações e realismo.
No entanto, essa tensão atenua-se pelo facto do interior parecer estar virado para o exterior. Porque, afinal, a profusão de portas e janelas altas proporcionam um acesso rápido ao exterior, aos jardins. Interior e exterior misturam-se facilmente, fundindo os motivos decorativos íntimos com o ambiente natural exterior do palácio, mediados sobretudo por um conjunto de elementos escultóricos.
No final dos dias festivos de Verão, os convivas que aí passeavam deparavam com um extraordinário ambiente exterior: um panorama amplo, misto de lagos, fontes, estátuas, canteiros e vasos floridos, ante uma cintura de árvores altas. Uma paisagem desafogada sobre um conjunto de elementos que encerram, além de um ambiente natural agradável e de um ambiente edificado magnífico, um universo simbólico estimulante. 

DIVINDADES

A criação de deuses é uma originalidade humana, capaz de representar a condição humana em toda a linha. Porém, ao contrário da natureza humana, os deuses atingem um nível ímpar, um ‘status’ de perfeição. É esse estatuto que a humanidade persegue, um imaginário que identifica a nossa singularidade de espécie.
Muitos séculos depois de o homem inventar a divindade, as cidades italianas “renasciam” com criações artísticas que “renovavam” o propósito de copiar o homem, de imitar Deus. Uma das formas de nos aproximarmos de Deus é consagrar os homens através da arte. Esse “renascimento” influenciou a arte europeia da altura em geral e Portugal em particular.
Deus é uma das criações mais recentes do Homem. Antes de Deus, o Homem concebeu os Deuses. Uma das dimensões que aproxima os homens dos deuses é a mitologia. A história mitológica é a explicação arcaica e primeira da vida, que antecede a religião, mistura homens e deuses, natureza e cultura.
Ao divino estão associadas imagens de perfeição. O detalhe físico, sobretudo, aproximava o homem da divindade. Os jardins estão cheios de alusões aos deuses da antiguidade clássica. É crível que os convivas se sentissem deuses entre deuses.

ESTATUÁRIA

Uma das particularidades da arte italiana da Renascença foi a profusão da estatuária, influenciada sobremaneira pela arte greco-romana. Antes, o classicismo greco-romano já tinha reproduzido os Deuses à imagem humana. A Renascença voltou a insistir nessa representação.
O jardim do palácio, onde a estatuária ocupa um espaço de relevo foi, ainda que tardio, herdeiro dessa inspiração, que se evidencia no Jardim de Neptuno, através das peças elaboradas em chumbo pelo inglês John Cheere.
É fácil imaginar que esse ambiente também tenha influenciado a corte portuguesa e os convivas do palácio. Afinal, para além da componente artística da estatuária, há elementos de celebração e de mimetismo que também ali estão presentes. A representação dos heróis mitológicos, além de os festejarem, também perenizam a extrema proximidade entre eles e os protagonistas daquele espaço.

RELAÇÃO INTERIOR/EXTERIOR

O palácio “abre” para o(s) jardim(ns). São as inúmeras portas e janelas que fazem a ligação entre o interior “pesado” e o exterior “ligeiro”. São essas numerosas aberturas que comunicam entre o interior extremamente decorado, excessivamente preenchido, e os amplos espaços exteriores.
É essa quantidade de charneiras que possibilitam a passagem entre o ambiente interior, fechado, cerimonioso e complexo dos salões de festas, das salas de música, dos aposentos de apoio, das salas de recepção, onde o convívio é mais directo e vigiado, e o espaço exterior, aberto, (mais) natural, extenso e simples, onde a convivência é mais informal e pública.
Ao sair de um ambiente essencialmente cultural, era preciso assegurar que do outro lado, nos jardins, natureza e cultura se associassem. E essa intenção foi garantida. A natureza está presente na água dos lagos e do rio, nas flores dos canteiros, nos arbustos que acompanham as avenidas, nas árvores que dominam alguns espaços. A cultura está sobretudo no estilo arquitectónico, nas fachadas, na estatuária e em muito do ela representa.
A pegada de época - o renovar do classicismo, o retorno às origens - também está presente nos jardins. Volta a mitologia e regressam os deuses. Mas não é apenas Pégaso, Neptuno, Vénus e Adónis, Diana e Apolo que ali estão representados. O aspecto religioso cristão, com Abel e Caín, no lago do Plátanos, também lá está.
Por outro lado, a natureza que envolve e participa nos jardins, também foi reforçada. As estátuas que representam a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno, as estações do ano como garantes da renovação, ocupam posições de igual para igual com as congéneres mitológicas.
O belo, atribuído às cores, às formas, aos objectos, é reconhecido através da sua própria representação. É essa representação que entrega um sentido para as coisas e para as pessoas. É na articulação da natureza e da cultura que esse sentido se baseia.
Como por exemplo: castanheiros, ulmeiros, buxos e murtas, rodeiam a Fama Heroica montando Pégaso; a água envolve Neptuno; Eneias e Anquises (de Troia) estão entre plátanos; a renovação das estações do ano surge ligada a Vertumno e Pomona.
Há uma celebração permanente da vida, com a presença simbolizada da natureza (árvores, arbustos, água, representações em pedra, mármore, etc) e da cultura (história, religião e mitos). Percebe-se neste cenário que a natureza e a cultura se misturam constantemente, entre as estátuas e os lagos, as flores e os vasos, a água e a escultura.
O século XXI português, herdeiro da modernidade, do expressionismo, do cubismo, do abstracionismo e de mais outros tantos ismos, logias e êuticas, continua a dispor da possibilidade de conviver com reminiscências clássicas transpostas para o século XVIII. Talvez hoje, como há mais de vinte ou há mais de dois séculos, o homem ainda continue a combinar a natureza e a cultura, e prossiga a representar através da arte a vontade de imitar os deuses, no sentido de se promover e reproduzir.

II
A RECONSTITUIÇÃO DA FESTA NO PALÁCIO DE QUELUZ NOS FINAIS DO SÉCULO XVII.

Por vezes, para perceber a diferença, basta ir, olhar e ver. Algumas diferenças percebem-se de imediato, sem teorias ou intermediários. Chega olhar e comparar. A distinção é clara. As diferenças soltam-se rapidamente. E antes que se percam nessa desigualdade, nós organizamo-las. No tempo, no espaço, nos modos, na estética.
Quando estamos no Palácio de Queluz é o que acontece. Percebemos-lhe imediatamente a beleza. Depois, detalhamos. As cores, as formas, as texturas, as dimensões, a arquitectura, tudo o que o distingue de outras edificações surge de imediato. Procuram-se os pormenores da diferença, habitualmente os mais agradáveis, - os menos polémicos - e reforçamo-los sem hesitar.
Depois, vem o espaço e o tempo, na senda da habitual mescla de primitividade que nos torna humanos. Do círculo do espaço, surge-nos o grandioso, o rico, o brilhante, o amplo, o diversamente opulento. Do complexo do tempo surge sobretudo o estilo, o modo.
Porque é de um tempo em que o tempo era outro, um tempo em que se fazia e pensava de outra maneira. Uma era em que os modos de saudar, comer, dormir, festejar, ensinar, dançar, conviver, era outros. Uma época em que se vivia de outra maneira.
Foi a representação de essa outra maneira de viver que acompanhámos em pequenos quadros vivos interpretados por actores. Aproveitámos a iniciativa do Instituto Nacional de Museus, “Noite dos Museus”, que também engloba outros palácios tutelados, e fomos para a fila.
O palácio de Queluz abriu as portas – por sinal, não a habitual porta da bilheteira, mas antes o portão fronteiro à estátua da rainha Maria II -, “convidando o povo a entrar numa festa de nobres”. Estava muita gente, de todas as idades, provavelmente também por serem tão raros estes eventos.
Após meia hora de espera, fomos recebidos pela criadagem na sala dos embaixadores. É uma dependência ampla e rica onde dominam dois espaços, um em cada topo da sala, um dedicado ao rei, outro destinado aos embaixadores.
Aí fomos elucidados sobre o que se iria passar naquela noite de festa. Os preparativos estavam a ser ultimados pelos restantes criados, por professores, camareiras, cantores, músicos, dançarinas. Da área dos embaixadores, passamos para uma sala onde estavam representadas algumas das actividades culturais da época: as mulheres dedicavam-se aos lavoures e os homens à poesia.
Mais à frente, foi a música e o canto a preencher mais uma das salas do palácio. Ao longo do trajecto, diferentes anfitriões iam complementando a visita com alguns aspectos históricos ou dando explicações sobre certos objectos expostos.
A seguir, era um professor que ensinava geografia e história os seus alunos. Depois, era a vez dos músicos que tocavam na sala da música. Logo após, no salão de jantar, as criadas andavam num frenesim sob as ordens de uma governanta, para poderem servir a refeição a horas.
Quem andava ligeiramente aflita com os preparativos da festa era uma baronesa (ou coisa que o valha), perguntando quem eramos e porque e o andavamos ali a fazer. Estávamos na antecâmara da festa propriamente dita. Quando passámos para a sala dos espelhos, esperava-nos um mestre-de-cerimónias e uma bailarina e a sua acompanhante. Vimo-la dançar uma dança tradicional de época.
Depois, o mestre-de-cerimónias desejou-nos uma boa farra. Embora o rei não tenha aparecido até aquela altura, foi como se estivéssemos a sair de um outro tempo, de uma outra era. Ou seja, como diria o poeta: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Todo o mundo é composto de mudança”.
É essa mudança que orienta o devir. Aqui, todavia, é o passado que se vai revelando, que nos mostra outro presente, um presente que vai ficando cada vez mais longe do nosso. Um presente que tem muito tempo, mais de duzentos anos. 

Música: Epic Music, Carved From Fire