quinta-feira, 22 de abril de 2010

Passeio Pelos Impérios II - RABAT, DE UMA PONTA À OUTRA

Saímos na direcção de Rabat através da auto-estrada. Ainda alagados, estavam os campos que a ladeavam, a atestarem a quantidade anormal de chuva que este inverno também caiu em terras marroquinas. Foram cerca de 200 quilómetros, com uma paragem numa área de serviço cujo preço do café coincidia com o das nossas, compensado ainda assim pelo melhor custo da gasolina e por uma surpreendente exposição de antiguidades no interior da loja. Semelhanças e disparidades.

Chegámos à capital, depois de atravessar a ponte sobre o rio que a separa do burgo alvo de Salé. Trepámos ao longo das extensas muralhas ocre que a circundam, algumas do século XII, acompanhando um cenário épico que marca o visitante e aconchega a maioria do espaço urbano de Rabat. Do lado contrário, alongavam-se as muralhas de Chellah. Uma paisagem homérica.

Foi para aí, Chellah (antigo nome de Rabat), que nos dirigimos de imediato, um complexo murado que encerra ruínas romanas – Sala Colonia – e uma necrópole Almóada. Por entre ninhos de cegonhas e extensas irmandades gatais, fomos instruídos na arte da chamada do mulá (líder religioso da mesquita) para a oração, através do pregão “Alláhu Akbar” (Deus é Grande), estendido pelo nosso guia que, simultaneamente, colocava as mãos sobre os ouvidos, clamando fortemente a sua crença. Uma questão de fé.

Apesar de despojados dos capacetes, que ficariam na recepção, o calor acompanhou-nos durante todo o périplo e pareceu abrir o apetite. Mas ainda tivemos tempo para, à porta de 8 séculos, pousarmos para a primeira das fotografias de grupo. Saiu melhor do que a de Safi.

Meia hora depois, estávamos a caminho do hotel, um trajecto relativamente fácil, mas que a falha de uma rua obrigou a empenhar um polícia como guia de recurso. Após estacionarmos as motos em cima do passeio, surpreendemos certamente a logística do hotel, uma vez que alguns ainda encontraram hóspedes a dormir nos quartos que lhes estavam destinados…

O dia estava destinado à caminhada. Ao todo, percorremos a pé cerca de seis quilómetros, só mais tarde percebidos na totalidade. Começámos pelo mausoléu de Mohammed V e terminámos na Medina comercial de Rabat, depois de experimentarmos as primeiras travessias pedestres de ruas com tráfego intenso. Uma aventura digna dos mais afoitos.

O mausoléu é uma obra faustosa de dimensões semelhantes à parte central do nosso Panteão, mas com arquitectura e decoração tipicamente árabes. Dominam o gesso, o mármore e a madeira, sob uma iluminação discreta de candelabros gigantescos. O edifício, bem como o acesso ao parque que o circunda, estão permanentemente escoltados por guardas reais, que reflectem de forma elucidativa o culto dos reis e da dinastia mais recente. Pompa e circunstância.

Do lado oposto, ergue-se a enorme Hassan II, uma torre de 40 metros, vestígio de uma imensa mesquita da qual apenas restaram as ruínas das respectivas colunas, também elas danificadas durante o terramoto de 1755. um espaço imenso.

Demos uma volta à varanda interior do mausoléu e, no exterior, assistimos à cerimónia do baixar da bandeira, para depois avançarmos ao longo do rio para o Kasbah des Oudaias, uma pequena medina muralhada, cujo interior, à imagem da medina de Chefchaouen (no Rif), também mostra as paredes pintadas de um luminoso azul índigo. Imprescindível.


Antes, ainda passámos por uma espécie de bastião militar, em recuperação, de onde espreitavam algumas peças de artilharia antigas, e cujas obras se alargavam aos terrenos anexos. Estranhamente, não encontrei informação sobre este monumento, nem sequer imagens na internet. Não procurei em árabe…

Quem aviste, de longe, a área do kasbah, rodeada por altas muralhas ameadas, com torres defensivas e barbacãs de um ocre velho de séculos, dificilmente fará ideia do contraste que encontrará no interior. Aqui, tal como em Chefchaouen, é o azul e o branco que dominam. Aqui, à imagem de Essaouira, há muitos portais de origem judaica.

Recordámos aquela envolvência anilada que tanto nos arrebatou há 3 anos. Aqui, todavia, parece não haver muitos habitantes, a tranquilidade é soberana, as ruas são mais largas e as casas mais baixas. Mesmo assim, há portas decoradas com motivos bastante originais.


Após recusarmos uma pintura com henna, entramos por uma espécie de túnel que ladeava uma porta majestosa do período almóada, também esta com mais de 800 anos. Mais à frente, vislumbrava-se para oeste um extenso cemitério islâmico que desce a colina até à praia, interrompido apenas pela marginal que envolve toda a cidade a poente. Uma vez que fazia parte do circuito que contornava as muralhas a poente, voltámos a passar por lá no dia em que deixámos a capital marroquina.


De um terreiro panorâmico a vista contempla a parte atlântica da cidade próxima de Salé – situada do outro lado do rio – uma praia abrigada – onde a prática do ‘bodyboard’ junta muitos praticantes – e outra muito batida pelas ondas atlânticas. Mais abaixo, os olhos também contemplam toda a urbe vizinha e o rio, estando no agradável Café Maure. Um deleite.


O interior, desnivelado, revela um conjunto muito harmonioso de portas, janelas e rodapés pintados com o tal azul de ganga clara. Muitos detalhes de ferro decoram algumas portas, algumas de dimensões diminutas. Casas baixas, pouca gente, ambiente sossegado. Saímos por um jardim andaluz, rumo à Medina comercial. Muito chique, mas mal cuidado.


Com entrada no espaço mercantil, recuperámos muito do que a memória havia guardado da viagem interior: a variedade das cores, a panóplia de tapetes, a multidão, a sujidade das ruas, os odores variados, a desordem dos artigos e a aparente desorganização geral. Uma satisfação, afinal!


Entra-se pela 'Rue des Consuls', uma das alamedas mais largas da medina, sob um telhado côncavo envidraçado. Mais à frente, sensivelmente a meio da rua, vira-se à direita para outra, mais estreita, que a atravessa de uma ponta à outra. Não tem uma planta tradicional, labiríntica, como as de Marraquexe ou Fez, o que permite percorre-la sem o recurso a um guia. Há edinas mais bonitas e cativantes, mas esta permite uma fácil orientação.

À noite, soubemos que estava por saldar um quarto no Ibis de Tanger, e que o pagamento havia sido reclamado aos elementos do grupo que lá haviam chegado no dia seguinte. Com efeito, tinha havido a presunção de que o alojamento estaria pago. Mas não. Talvez por isso, quando lá regressámos na última noite de viagem, nos tenham pedido pagamento antecipado…


O hotel Belere, com anos largos de uso, mesmo considerando a confusão inicial de distribuição de quartos ainda ocupados, não conseguiu encantar-nos, sobretudo quando a música de telediscos da televisão, concorria alto e bom som com o relato em outra de um jogo de futebol. O buffet não primava pela variedade e os quartos eram sofríveis. Escapamos.


Música: Colosseum, The Grass is always greener


quarta-feira, 21 de abril de 2010

Passeio pelos Impérios I - DE NORTE A SUL, RUMO A TANGER

Louco é o viajante que quer construir uma casa no caminho, Provérbio árabe

INTRODUÇÃO


Tal como o rei Sebastião, também nós falhámos Ksar El Kebir, aquela planície feroz que comprometeu Portugal por algumas décadas. Sebastião enfrentou cerca de 60 mil árabes, e nós apenas algumas dezenas de ciclistas magrebinos.

Porém, o objectivo primordial, cuja concretização se revelou mais abrangente do que o previsto, era visitar alguns dos vestígios da presença portuguesa em Marrocos. Essas pegadas existem – os baluartes de Azemor, a cisterna da antiga Mazagão, o castelo de Safi, os ‘canhões’ da fortaleza da idosa Mogador - mas estão fragilmente acessíveis, protegidas e apregoadas.


Acabámos por associar a este périplo pelos vestígios do império português quinhentista, as cidades imperiais marroquinas – Rabat, Casablanca, Marraquexe, Fez e Meknes - e, daí, juntar o significativo dos dois impérios. Mais, aliamos ainda uma perspectiva paisagística, que nos levaria das praias e falésias atlânticas aos vales verdejantes do Médio Atlas.

Anunciavam-se algumas estreias – Tanger, Rabat, Azemor, El Jadida, Safi, Essaouira, Ouzoud, Fez e Volubilis – e duas recapitulações – Marraquexe e Meknes. Se bem já conhecíamos as ligações entre Tanger e Casablanca, e entre Azrou e Volubilis, o restante percurso era novidade.



Outra novidade, relacionava-se com a imposição de, uma vez em território marroquino, apesar de rodarmos todos os dias - à excepção de dois em que estaríamos em Essaouira e em Fez - devermos chegar aos locais de visita e/ou pernoita, o mais tardar, a meio da tarde. Cumprimos, salvo num dia em que recebemos um convite particular para uma prova de vinhos…


Para mim, havia elegido como marcos da viagem, a visita à mesquita Hassan II de Casablanca, um pouco de tudo o que fosse herança histórica portuguesa, as cascatas de Ouzoud, o regresso à Medina de Fez e Volubilis. Era o suficiente, imaginei. Afinal, e como é costume, as minhas expectativas cobriam de maneira uniforme todo o percurso, desde a partida na área de serviço de Alcochete, até ao regresso quando da despedida na A5.


Todavia, face à viagem de há três anos, creio que as expectativas se enobreceram. Agora, era necessário, pelo menos, tentar rectificar o que não havia corrido tão bem: demasiados quilómetros por dia, melhorar em matéria de hotelaria, não chegar de noite, contar com os deuses no aspecto meteorológico.

As divindades excederam-se: nem muito calor, nem muito frio, choveram apenas borrifos, e neve, só ao longe nos cumes mais longínquos do Médio Atlas. O tempo bera, esse que abana, gela ou fustiga, esteve ausente. Por outro lado, o alojamento medrou e conseguimos chegar a horas decentes a todos os bares antes de jantar, factores-chave de sucesso para que o estimado tenha sido praticamente todo cumprido.


Já li um comentário à viagem que afirmava ter a realidade ultrapassado até as expectativas dos organizadores. Concordo, considerando fundamental o contributo da Marie (Nênê), cujo apoio logístico, e não só, foi uma mais-valia significativa durante a parte da viagem em que nos acompanhou, assim como já havia sido na reserva dos alojamentos e na escolha dos locais de refeições que se revelaram notáveis.


Exemplares foram também a tolerância e o entrosamento que o grupo confirmou. Acho que houve menos ansiedade, melhor solidez logística, uma cooperação uniforme. Talvez tenham sido estas as autênticas condições responsáveis pelos nove admiráveis dias que passámos juntos.

Onze motos – 8 STX, 2 ST, 1 KLT - dezasseis pessoas, cerca de três mil e seiscentos quilómetros percorridos, entre 24 de Março e 3 de Abril de 2010, uma média de duzentos e cinquenta quilómetros diários, reabastecimentos a cada trezentos quilómetros percorridos, paragens para descanso a cada cem, sistema de meia-pensão em hotéis de quatro estrelas, excepto em três locais onde a opção recaiu sobre a cadeia hoteleira Ibis.


Vamos viajar!


DE NORTE A SUL, RUMO A TANGER


Encontrámo-nos ao sabor das opções de cada um. Na AS de Alcochete pelas oito e meia, na AS de Loulé com mais três motos por volta das onze, na AS de Trigueros - onde almoçámos - com mais uma, no porto de Tarifa, cerca das dezoito, com os restantes, à excepção da BMW que só se juntaria ao grupo em Casablanca. Um despontar aberto, rumo a Tanger.


Cairam algumas pingas de chuva antes de Algeciras, que apaneas molharam a estrada. Junto ao porto da cidade capital do windsurf, dominam as muralhas do castelo de Guzman el Bueno, “paredes-meias” com o edifício da alfândega. Estava fresco, na espera pelo ferry, enquanto aproveitávamos para nos despedirmos desta Europa. Mas, como se fosse apenas um pequeno intervalo.

O catamaran da FRS apareceu lentamente na entrada do porto, quase em silhueta, mas rapidamente se desfez da carga que trazia, para a substituir pelos mais recentes passageiros com destino a Tanger. Assistimos com curiosidade à manobra de extensão de uma espécie de garra que servia de ponte às entradas e saídas do porão. Entramos-lhe no âmago, com a ideia de que começava ali mais uma etapa. Outro passo na viagem.

Mais uma vez, as motos foram postas “a ferros”, bancos esborrachados pela pressão das cintas, que apenas permitem uma ténue protecção de panos ou cartões que lhe aliviam o garrote. Depois, é subir aos “decks”, espreitar do alto as pequenas vagas e fazer controlar o passaporte por um funcionário alfandegário que dizia aos portugueses serem os únicos a não preencherem o famigerado papel branco conforme o determinado. O rigor como pedra de toque...

A chegada à fronteira de Tanger não surpreende: há que ficar sob a jurisdição dos angariadores que tratam de toda a papelada. Desta vez, a situação resolveu-se com recursos influentes, que nos possibilitaram demorar pouco mais de meia hora a entrar em Marrocos. Daí a pouco, estávamos a fazer o que a economia marroquina (também) precisa: que muitos troquem divisas (e as utilizem no país), e não, ter de mostrar o passaporte de cinco em cinco metros, como se fosse a fotografia do nosso mais querido recém-nascido…

Trocámos dinheiro num instante, ainda à vista da fronteira, e avançámos sobre a “sortie” que, para nós, era decididamente uma “entrée”. O trajecto até ao Ibis é fácil: sair da fronteira, virar à esquerda, continuar na marginal até à rua principal e, a partir daí, continuar sempre em frente durante cerca de doze quilómetros. Na ocasião, havia muito tráfego, sobretudo no interior da cidade, mas era fluido. Mais à frente, alguns miúdos aproveitavam a boleia da traseira de um camião, para se transportarem, muito à imagem dos nossos que, há 40 anos o faziam amiúde. Num instante, estávamos perto do aeroporto: o Ibis fica a dois passos, num largo cruzamento. Também por isso, se ouçam os estilhaços que o trânsito deixa na proximidade. Fechámos o dia com uma conta difícil de resolver no que respeitava ao vinho do jantar. Parcimónias.

Música: Emerson Lake & Palmer - The Show That Never Ends

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Sintra Via Castelo

"Ficar perto dos homens, meus irmãos, e mais próximo da Lua e das estrelas, minhas amigas, tendo em frente a terra verde e o mar a perder de vista - o mar e a terra que tanto amei." Ferreira de Castro.

O castelo está lá, pétreo, altivo e provocante, porém, brutal, pardo e sinistro. Espia ao longe, abriga-se no bosque, protege-se além das muralhas. A mata cobre penedos e casas, do sopé ao cume da serra. Adiante, bruxuleiam as luzes do palácio, entre os ramos nus da vegetação baixa. Está áureo, resplandece num azul-cobalto enevoado que encena o pináculo do Monte da Lua.

É para lá que vamos! Trepar Sintra vai ser invadir o castelo, mirar o palácio, ascender à Cruz Alta, percorrer S. Pedro. Estimamos fazê-lo em menos de três horas. Dezasseis potenciais trepadores, cinco efectivos à partida e à chegada.

Somos poucos para quanta floresta, tanto calhau, tamanha ladeira. Mas o desafio mantém-se. Não é preciso alvitres peculiares nem rituais para partir. Todos vão engajados da ideia de escalar. Talvez não tanto, é verdade.

Deixámos S. Pedro através de uma viela que serpenteia entre casas antigas cujos muros lhe defendem o decoro. Trepámos ao pátio da igreja, e saímos por degraus minúsculos para a rua que galga o acesso ao castelo.

Entramos pela terceira cintura de muralhas, através de uma porta baixa rotativa. A ascensão parece extremar-se. O declive, em pedra irregular, apesar dos degraus simples e recentes, é terrível. É uma respiração vigorosa que sobrevém ao duelo com aquela escadaria que parece cada vez mais exigente.

Mas é alvoroço que só dura até ao miradouro Ferreira de Castro. É ali que jaz o escritor sob um banco talhado na rocha. De lá, espreita-se a "vila" e o palácio de onde sobressaem as alvas chaminés cónicas. Um banco de pedra serve de repouso, sobretudo aos pulmões que parecem ter dado tudo neste primeiro contacto.

Sentamo-nos por instantes, olhamos uma, duas vezes, arfamos outras tantas, mas não perdemos o ritmo. Não tarda, voltamos a trepar por entre árvores frondosas e calhaus gigantescos. Escurece. Os últimos visitantes abandonam o trajecto em sentido descendente.


A vegetação adensa-se à medida que subimos, pedras e arvoredo vão-se confundindo e é a humidade que passa a dominar. O declive refreia-se já perto da segunda cintura de muralhas. É lá que garantimos junto de um guia que a entrada principal do castelo ainda está aberta. Não precisamos saltar muros…

Ali, além de um túmulo mouro, são as ruínas da igreja cristã, de S. Pedro de Canaferrim (séc. XII), que dominam o acesso à primeira muralha do castelo. Não vamos lá, as admissões há muito que encerraram. Além disso, é preciso assegurar que a porta está mesmo aberta e que não ficamos fechados no castelo. Estava. Deixamo-la com a noite a iluminar o céu. Ofuscante, contudo, estava o palácio da Pena, a luzir de ouro no topo do Monte. Parece um tesouro de piratas a espreitar de um baú.

Agora, é a vez de investir na terra através de degraus feitos em troncos. Descemos à luz das lanternas. Está mais húmido, o piso escorregadio, mas caminhamos ao abrigo do vento. Há por aqui muitos cogumelos, aliás há-os pela serra inteira, de todos os jeitos e feitios.

Na antiga casa dos cantoneiros, é para cima que vamos, a galgar uma ladeira recentemente empedrada, outrora uma vereda onde passeavam salamandras ensopadas e indolentes. É mais uma subida íngreme que desafia a resistência, a caminho de pequenas luzes mortiças e silhuetas imprecisas.É mais à frente que a terra volta, com sulcos valentes e pedras soltas que vão formando um trilho arriscado. Olha-se para a noite à procura de referências. Mas já todos estão à vontade. Há muito que a respiração se moldou ao ritmo e à escarpa. Passamos as "famosas" ruínas das raves, desistimos de outras que lhe servem de tecto, e seguimos ao longo do edifício das "matas nacionais", envolto num ambiente tétrico. Ainda assim, há alguma luz que tranquiliza a progressão.

Mais à frente, deixamos os olhos na Pousada da Juventude também ela envolta num cenário de vampiros, lobisomens e formas caprichosas. É por mais uma antiga vereda, que recebeu recentemente uma capa de cimento, que trepamos. O vento regressa qaundo a protecção arbórea desaparece.

Quase todos já conheciam a Cruz Alta, o miradouro de Santa Eufémia que contempla a planície de Sintra a Lisboa, de Almada a Cascais. É um céu de luz aos pés da serra, uma espécie de firmamento terrestre que cobre quase tudo o que a vista alcança.


O vento trepassa os tecidos. Ali não há abrigo, a não ser um murito baixo que envolve o varandim. De lá, vislumbram-se os contornos da Pena, cada vez mais envolta em brumas de cinza. Valeu pelo cenário do rendilhado luminoso. Vamos começar a descer.


Lá em baixo, também se revela o sossego que a serra sente, mal se penetra na zona urbana. A pedra volta a dominar as habitações, de cores secas, decoradas com azulejos, pequenos tijolos, ferros e perfis pontiagudos. Há minas de água, muitas, perto das casas.


Identificamos algumas moradas e certos protagonistas, mas fomos sobretudo metermo-nos pelos quelhos que desvendam arcos, becos e escadarias, muitas escadarias, na vila de S. Pedro.

Concluímos pouco mais duas horas depois de começarmos a trepar. Como escreveu Ferreira de Castro, estivemos mais perto da lua e das estrelas, mas também mais próximo da natureza e da aventura, junto da sorte que é trepar com amigos.


As fotos nocturnas são na maioria do João Calado http://www.joaocalado.net/

Música: O Senhor do Anéis, Howard Shore

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Margens Altas Do Douro

Agosto 2009

Os sentidos são os primeiros a manifestarem um pasmo festivo quando são convocados para mesclas peculiares de natureza e cultura em sítios que os cativam. O vale do Douro é um desses lugares. Fascina porque a natureza foi pródiga na dimensão com que abraçou o suceder do rio, encanta porque os homens enfeitaram as margens com socalcos luxuriantes e gostosos.

Sobretudo na última década, a paisagem duriense foi surtida pelo aumento vastíssimo da área de cultura da vinha, sobretudo o Douro beirão, e um pouco menos ocupada por amendoais e por olivais. Cor, textura, cheiro, espaço, foram alterados ou ampliados. O ambiente mudou não há muito tempo.
Já não são apenas as vertentes que amparam o rio a mostrarem os socalcos riscados de vinhas. A paisagem para o interior devolve agora um raiado abrangente que acompanha as curvas de nível das encostas. Além disso, a divisão das propriedades (fazendas, no dizer dos durienses com costela beirã) é agora mais visível mormente desde os cumes dos montes.
É a actualidade a manifestar-se em patamares ecológicos, a querer ocupá-los definitiva e extensivamente, aproveitando as qualidades naturais dos terrenos. A aridez daquela terra, que de Verão afogueava e de Inverno gelava, atenuou-se; os declives suavizaram-se; a cor do chão esverdeou-se; a textura das encostas compôs-se.
Não tem sido, porém, apenas o presente a transformar o território. Ainda é notória a presença de vestígios remotos, de testemunhos milenares que, também eles, ao escolherem os “seus socalcos”, demudaram o espaço duriense. A presença do pré-histórico tardio e do romano, além de serem indícios precursores da mudança, são ainda hoje prova de que estes lugares durienses eram outrora sítios de eleição.
Os vestígios de fortalezas da idade do bronze ou as ruínas romanas do Prazo e de Rumansil, são disso exemplo. Localizadas em promontórios esplêndidos, quer logísticos, quer paisagísticos, dizem bem das estratégias que, antes, tal como hoje, foram decisivas na vida das populações. São obras cuja solidez lhes dá ainda um cunho de permanência, uma robustez firmada nos materiais (granitos), uma notoriedade assente no aspecto cultural que representam.
Fortificações, túmulos, habitações, templos, caminhos, objectos de culto, equipamentos sociais, representações de carácter religioso, com mais e com quase vinte séculos, são a face visível das civilizações antecedentes, uma herança que ombrea com a dinâmica da actualidade.
Hoje, a paisagem dos terrenos próximos do rio está prenhe de cultura vinícola. Os antigos muros das fazendas, criados por calhaus de granito há muito que se haviam emboscado na paisagem. Mas, recentemente, o tecido dos solos, penteado agora por linhas contíguas, marca claramente a divisão das quintas, dando ao cenário ares de mancha de retalhos patrimonial.
As margens do rio alteram-se nitidamente quando a sua vizinhança cambia. As vertentes do Douro mostram-se menos permeáveis quando abandona as Beiras e fica entre o Trás-os-Montes português e a congénere espanhola Castela e Leão. Aqui, as encostas não se têm deixado moldar com tanta facilidade, quanto muito autorizam a existência de laranjeiras, amendoeiras, oliveiras e algumas vinhas.
No chamado Douro Internacional as ondas de vinhedos que polvilham os socalcos do rio mais à frente, dão lugar às tramas de lodão, aliás as maiores manchas florestais da Península desta espécie. São milheiros de árvores iguais às que vemos nos passeios urbanos, aqui dispostas numa malha apertada e em declives acentuados.
Enquanto nas Beiras é mais evidente o trabalho do homem, aqui é mais notório o trabalho da natureza. Quando o granito surge destacado e solitário, parece uma composição estraçalhada, tal a desordem das rupturas e dos calhaus no terreno. É a natureza que molda os Caos de Blocos, que emprestam à paisagem ribeirinha um aspecto confuso e intimidante.
Imponentes, revelam-se as cristas quartzíticas, fracturas no declive que moldam perfis verticais, que resistem à erosão. Surgem como monólitos, guardiões das margens, memórias dos conflitos entre os quartzitos e os xistos. Guardam fósseis, definem a paisagem, metem respeito. Também garantem abrigo à biodiversidade que acolhem: aves de rapina - águias, grifos, abutres, falcões – e outras - garças e cegonhas negras, ou ainda, lobos, gatos-bravos, javalis, corços.
A cada curva do rio, o horizonte mostra perfis em “V”, onde imperam sentinelas pétreas altivas e poderosas, cavernas, nichos e plataformas inacessíveis. Após cada enseada, é possível observar a quietude de uma garça alva, ser surpreendido pelo voo de uma rapinante, ou pelo mergulho de um sardão. Mas é o gigantismo que predomina, o rio-espelho que nos conduz, o azul do céu que nos deslumbra. Que pena, o Douro fugir para o mar.

Música: Sonic Mistery