terça-feira, 11 de março de 2008

Hits de Marrocos


















Março/Abri 2007

Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir.
Amyr Klink, navegador brasileiro

Surpreendemo-nos, habitualmente, quando o homem morde o cão. Isso deve-se à ditadura da mesmice, ao império da normalidade. Felizmente, há movimentos reaccionários que minimizam aquelas inevitabilidades. Viajar, por exemplo, é um deles. Viajamos, para alterar a nossa regularidade, à procura de surpresas.


A inspiração surgiu via Zé Barriga. Foi quem mais se abismou com a surpresa. E disso fez jus, bisando a menção dos episódios que mais o deslumbraram.

E eu vou ao encontro desse pasmo folião, tão atraente e derradeiro como os pulos do Zamith, o vocabulário árabe do Mendonça, o bailado do Arlindo, a alegria do Murta, as camisolas do Joaquim, as águas-furtadas do Jorge, a pachorra do Menau, a chave do António, o pneu do Armando, a bateria do Marques, o alarme do Mariano, o “môr” do Luís ou a tampa do óleo da minha Pan European.

Sexta-feira, cedo, não havia muito trânsito… a não ser na ponte do Cinquentenário, em Sevilha. Ninguém se perde numa ponte. Mas, naquele dia, com tamanho tráfego, tão compacto e abundante, deixámos de nos ver uns aos outros. Um salve-se quem puder!

O sítio das auto-estradas espanholas na Net assegurava existir
uma Área de Serviço na AE Sevilha-Cádiz. Mas o que encontrámos foi uma saída, já muito poeirenta e disforme, rumo a nenhures. É sabido que, de Espanha, nem bom vento, nem bom casamento!

De Jerez a Algeciras, a via rápida deixou-nos inexplicavelmente a caminho de Tarifa. Eu já percorrera este itinerário há quase dois anos e a ligação directa existia. Afinal, todos os caminhos vão dar à ponte, mas quando o rio vai de monte a monte!



A entrada em Marrocos, por Ceuta, ali próximo de Fnideq, é um excelente caos organizado: angariadores, polícias, cambistas de ocasião, funcionários de fronteira, vendedores de droga, tudo numa roda-viva por clientes. Até é permitido tirar fotografias. E, uma imagem vale mil palavras!



Ainda não havíamos percorrido meia centena de quilómetros em Marrocos, e já havia dois grupos com itinerários diferentes. Uns foram pelo centro, outros pela periferia de Tetouan. Um mapa não e o território!
Foi no restaurante azul eléctrico da imagem. Discutir o preço de uma refeição é normal em Marrocos. Fazer baixar o preço significativamente, e depois dar uma gorjeta superior ao valor do diferencial negociado, é que é surpreendente. É ser mais papista que o Papa!


Habitualmente, os guias têm um percurso padronizado que leva aos estabelecimentos dos amigos de negócio, onde o grupo de demora com os vendedores. Em Chefchaoeun, o nosso não sofreu muito desse paradigma. Porém, o nosso guia deixou-nos numa ponta da medina, uma vez que havia acordado com outro grupo uma visita sensivelmente para a mesma hora. Era o "overbooking" a chegar às agendas dos guias marroquinos...

Uma professora portuguesa do grupo, guiada por um marroquino que estudou em Portugal, encontrou uma polaca a quem dava aulas em Aveiro, numa banca da medina de Chefchaouen. Afinal o mundo é pequeno!

No Hotel Parador, foi necessário discutir o preço dos alojamentos reservados. Pagámos menos do que constava no documento de reserva, valor que já era bastante favorável. Imita a formiga e viverás sem fadiga!

Numa das esplanadas de Chefchaouen, um dos empregados “pescava” os clientes assegurando ter cerveja, mas apenas podia vender chá. Fazia-o com aquela inocência dos argutos, e denunciava a atitude sem rodeios. Não existe verdadeira inteligência sem bondade.

Muitos pisaram o traço contínuo à saída de um posto de abastecimento, próximo de Chefchaouen. Afinal, o polícia só queriam saber se nós sabíamos para onde íamos, quando nos mandou parar a todos. A sorte é para quem a tem!

Em Meknes, passa quem mais apita. O alarme da moto do Mariano, que se ligava a espaços, contrariou a ordem de paragem do sinaleiro, que acabou por mandar parar os outros veículos e deixar-nos passar. Quem não chora, não mama!

Na Bab Al Mansour, um polícia autorizou o atravessamento do traço contínuo e permitiu o estacionamento de 14 motos, mesmo em frente da porta mais famosa de Meknes. Devia ser a tal “atenção ao cliente”!

Não sei se se queriam ver livres de nós. A verdade é que a Polícia escoltou a comitiva e abriu-nos caminho desde o centro até aos arredores de Meknes. Desta vez, não valeu a pena estar só, antes acompanhado!

Na imagem em que o branco apenas nos rodeava, ainda não nos caía em cima. Mal saímos da Floresta de Cedros começou a nevar. Estávamos no final de Março, eram 7 da tarde, e o termómetro marcava um grau negativo. Íamos para o deserto, era o que estava previsto. Lá como cá, Março marçagão, manhã de Inverno, à tarde verão…!

Os recepcionistas do hotel de Midelt, entregaram as chaves a quem as pediu, mas não registaram que quartos ocupava quem. Colocaram um casal num quarto triplo e três num duplo. Depois, assentaram um colchão no duplo. Uns comem os figos, a outros rebentam-lhe os lábios!

Às vezes, confunde-se conhecimento com sofisticação e tecnologia. Felizmente, a electricidade não tinha segredos para o electricista marroquino que desligou o alarme da moto do Mariano em dois minutos. Mais vale burro vivo, que sábio morto!

O deserto tem muitas pedras, terra e sobretudo
areia. Do acampamento, vislumbravam-se efectivamente dunas consideráveis a escassos 100 metros. Mas não se via um grão de areia por cima dos tapetes entre as tendas. Ver para acreditar!

Supõe-se que Marrocos é um país pobre. Dizia-se que se passava fome. Contudo, depois de um ‘couscous’ bem recheado de carne, no fim do jantar no albergue do deserto, surpreendeu-nos um cabrito gigantesco. Não há fome, que não dê em fartura!

Em todas as refeições, lá
estavam algumas garrafas de vinho. Ficámos admirados por saber que em Marrocos também se produz vinho. Afinal, estávamos num país muçulmano… Nem tudo o que luz é ouro!

Deserto que se preze, não tem nada nem ninguém. No Erg Chebbi, porém, um dos mais conhecidos desertos marroquinos, o trânsito fazia pasmar. Havia grupos de motos 4, jipes em caravana, Peugeots, Mobylettes, e até um Mercedes enterrado na areia. Um deserto… a tradição já não é o que era!

É do senso comum,
considerar que deserto é uma porção de terreno onde não há água. Mas o que vimos à chegada, era um lago imenso a escassos metros do albergue… e não era miragem. Aquele que procura a verdade, é capaz de a encontrar!

O Erg Chebbi tem riqueza mineral que é simultaneamente arqueológica. Os vendedores de fósseis, faziam-no precisamente ao lado de uma jazida a céu aberto. Não sei se vendem muito, sei que alguns de nós se abasteceram na fonte. Cego, é o que não quer ver!

Enquanto há quartos vagos, vão-se ocupando, independentemente da respectiva dotação. Quando chegámos ao albergue do deserto, não havia quartos duplos e individuais para todos. Alguns casais dormiram em quartos quádruplos. Há sempre
lugar para mais um!

Rissani tem pizzas típicas, uma espécie de bola de carne amassada e circular, com um sabor excelente. São as especiarias que lhe dão o travo peculiar, mas também se aventou a hipótese de ser o suor das mãos que emprestavam às fatias aquele sabor tão gostoso. Só é útil o conhecimento que nos torna melhores!

Fomos de moto. Mas em cerca duzentos quilómetros abanámos mais do que em toda a viagem, tal foi a tempestade de areia que nos sobressaltou entre Boulmane du Dades e as montanhas do Atlas. Por tal, almoçámos de lenço na cabeça e durante a refeição caíram alguns candeeiros. Não podemos dirigir o vento... mas podemos ajustar as velas!

Pelos meandros das medinas, andam burros, motorizadas, velhos, carregadores, turistas, locais a dirigirem-se para os mercados ou empregos. Não vimos qualquer incidente, o número de polícias não ia além do normal (poucos), e o tráfego pedestre fluía em boa ordem. Quem não quer trabalhos, não se mete em atalhos?

Na praça El Fna, em Marraquexe, ouvem-se estórias, exibem-se cobras, faz-se teatro, vende-se água a copo. Destacava-se na altura uma mesa, que expunha centenas de dentes (o que está mais branco) e uma dezena de dentaduras (mesmo ao lado dos dentes). Aqui há tudo, como na farmácia!

Marrocos devia ser um destino diferente, onde as motos fossem uma raridade, por exemplo. Mas, por lá, cruzámo-nos com o Clube Goldwing de Espanha, com uma caravana de motos da Motomil, com um grupo de espanhóis com cerca de 30 máquinas, e até vimos uma Harley com matrícula marroquina. As aparências iludem?

Temos fama em demorar o almoço. Lá, tal como cá, a tradição ainda é o que era. Duas horas e meia para manjar peixe. A surpresa veio, porém, do trânsito de Casablanca, onde levámos mais de uma hora para deixar a cidade. A pressa é má conselheira!

Buzinar em Marrocos, é dizer
“estou aqui!”. Mas não expressões iradas, apenas um coro de buzinas que se constitui como festa de muitos convivas. Surpreende ao princípio, depois atrai, e não tardou estarmos todos a apitar. Em Roma, sê romano!

Em Tanger, aproveitei para substituir a lâmpada de médios que estava fundida. Não paguei o material nem o serviço. Estranhamente, a nova lâmpada parecia não iluminar o chão à minha frente. Quando a mandei substituir, além de ter visto que não tinha quaisquer características gravadas, verifiquei que metade estava escurecida, exactamente a que devia iluminar o solo. Não há almoços grátis!

Já no regresso, e após a saída
do barco em Algeciras, todos já haviam traçado o seu destino, e cada um veio por onde quis. Muitos, só se voltaram a encontrar no passeio seguinte. Felizmente, todos os caminhos vão dar a Roma!

No entanto, Impunha-se saber por onde é que tinham andado os restantes comPANheiros, e as respostas à mensagem de boas-vindas que enviei a cada um.

Diziam o seguinte:

- Chegámos bem, com alguma chuva...
- Desde o Porto, tudo OK!
- Houve n alternativas. Eu fiquei na Isla Canela.
- Não estou a ver de quem é este sms mas se é de alguém das Pans, então cheguei bem. Até vim só desde Espanha…
- Obrigado pelo sms, obrigado pelo excelente viagem que nos proporcionaste. Está tudo bem.
- Ontem fiquei no Algarve. Só hoje cheguei a Lisboa. Um cozido à portuguesa, não tem nada a ver com uma tajine. Já tenho saudades.
- Só agora vi o teu sms. Só fiz asneiras no trajecto, mas cheguei bem.
- Cheguei bem cá a cima.

Não sei se todos encontraram as surpresas que procuraram, mas suspeito que gostaram de se espantar com as novidades, com as diferenças. Não sei se todos voltarão, mas sei que, se alguns o fizerem, se irão pasmar de novo por não encontrarem a placa indicando o “centro da cidade”, uma tabela de preços, um padre, aceleras de café, ou quem saiba dizer não.

"Tudo está bem, quando acaba bem".


o relato desta viagem pode ser lido em
http://www.rituais.com/Downloads/Marrocos2007-Carlos_Cordeiro/Marrocos2007-Carlos_Cordeiro.pdf


A maioria das imagens filmadas são da autoria de Lena Marques, a nossa realizadora de eleição. Há igualmente outras imagens - inclusivamente algumas das fixas que marginam o texto - que são da autoria dos participantes mencionados na 1ª parte do vídeo.

Música: Oliver Shanti & Friends. Álbum: Alhambra


quinta-feira, 6 de março de 2008

Ao longo da Poça Do Vau


















A Lagoa de Óbidos é uma zona húmida de particular valor económico e ambiental, já referida nos documentos das cortes de Évora de 1460, e que se encontra sujeita a uma grande diversidade de ameaças.
Maria João Carvalho in
http://www.naturlink.pt/canais/Artigo.asp?iArtigo=13318

Estimava que existisse uma, duas quanto muito. Afinal, a Poça estendia-se do Vau à foz do Arelho. Catita, este passeio! Pela entrega das pessoas, pela diversidade do percurso, pelo êxito das “surpresas”…

A proposta dos Rituais sugeria partirmos da Amoreira, perto de Óbidos, e terminarmos no Gronho, quando a Lagoa de Óbidos se funde com o mar. “Cerca de 13 quilómetros, quase sem relevo e em piso de terra”, assegurava o Paulo Alves. Assim foi, até que surgiu a água…

Com início numa pedreira, e sempre acompanhados pelo rio Rial, marchámos ao longo de um vale fértil, pleno de culturas hortícolas e frutícolas.

Está nublado. Há gente na faina agrícola: juntam canas, apanham morangos, chegam o tractor às leiras, regam as couves. Seguimos ao longo das hortas e do rio que pouca água leva.

Da pradaria à floresta, patos que levantam e retornam, rapinantes a sobrevoar a campina, e um cãozito guloso, foram quebrando a monotonia da paisagem.

Com a entrada no arvoredo, o terreno cresceu e minguou em picadas rasgadas por velhos sulcos de água. Ficou mais fresco, precioso face aos declives.

Subimos, descemos, espreitamos alguns cemitérios de mobiliário, paramos para um primeiro acerto do apetite. Em redor, a cor deixava o beije e o verde hortícola.
Surgem agora amarelos vivos, violetas fortes, verdes novos, carmins alegres. Como sentinelas, erigem-se pinheiros e eucaliptos.

Passamos a descer. As rugas do piso afundam-se, anunciam a proximidade da água, da lama, de um braço da lagoa.

O trilho empapa-se, os comentários animaram-se, as botas enterram-se, as silvas mordem-nos os polares. Saltamos, afastamos ramos, rimo-nos mais, em equilíbrio precário.

Pouco depois, sentamo-nos para picnicar em mesas de madeira, à beira do restaurante dos Musaranhos. O odor de um peixe grelhado mistura-se com o das sandes, com o ruído de um barco que puxa um esquiador, alguns ais de um entorse e estilhaços da abertura de várias minis.

A areia irrompe agora como praia tropical a ligar o pinheiral ao espelho de água. Aparecem bateiras, vestígios cais palafitas, algumas cabanas de pescadores.

O lado de lá vê-se melhor, o sol espreita mais vezes, reanima-se a passada. Não tarda a que a alternativa fique entre uma passagem a vau com água pelos joelhos ou voltar para trás. Descalçamo-nos.

Há lodo no fundo, a massajar a maioria dos pés nus. Há quem entre de ténis na água ou de calças de ganga, quem passe às cavalitas e quem grite sobre o que pisa no fundo da lagoa.

Depois, a bonança ao longo da margem de uma lagoa adormecida, agora mais arenosa, mais poluída, mais lodosa.

Uma espécie de caniçal abre-se como labirinto. Está encharcado. Dobram-se caniços, escolhe-se o trilho menos pantanoso, deixa-se de ver a cor das botas, das calças, do casaco…

A lama salta como gafanhoto apavorado. Pula-se sobre riachos. Atascamos. Uns safam-se com lama pela peúga, outros atiram-se para cima dos caniços como se o mundo acabasse lá fora.

Olhamos uns para os outros. Não havia provocações fáceis: estávamos todos impraticáveis. O creme pálido da areia ia tapando o castanhão da lama.

O último meio milhar de metros serenou o esforço, já à vista do Gronho, onde evoluíam alguns kites que se batiam com um solitário papagaio de papel.

Enfiámos alguns bolinhos, comentámos o inevitável, saudámos o sucesso da passeata.
Enquanto isso, a lagoa brigava com o mar e a tarde começava a esconder-se no horizonte. As nuvens haviam desaparecido.




Música: Beyond Words
Autor: Craig Chaquico

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Elogio da costa alentejana



















Vila Nova de Milfontes com o CPEP
09 Fevereiro 2008

Roendo uma laranja na falésia,
Olhando o mundo azul à minha frente.
Ouvindo um rouxinol nas redondezas,
No calmo improviso do poente
Carlos Tê


O tempo estava agradável. Uma leve brisa, fresca, não comprometia os quase vinte graus previstos. Em pleno Inverno, não se pode exigir melhor.

A proposta era tentadora. Uma caldeirada em Vila Nova de Milfontes, indo de moto, com amigos motociclistas. É o mínimo que se exige.
A expectativa cresceu. Um dia, com gente catita, a andar de moto, pela costa alentejana. Exigir mais?

Era o primeiro evento do Clube, este ano, cá dentro. Não é preciso exigir. Mais tarde ou mais cedo, acontece.

Com uma manhã luminosa e provocante, o motivo para atravessar o Sado, de barco, estava justificado. Lá, entre a península e a serra, a charneira de mar e rio é um cartão de visita excelente da costa alentejana.

Tróia já não resiste ao avanço do betão, como subsistia aos assaltos gregos. Mas, por enquanto, a travessia ainda dá um dos lados à serra que, apesar de esventrada, insiste em acentuar o verde da barra do Sado.

Previa-se que houvesse troços onde a raiz dos pinheiros rompesse o asfalto em apneia. Assim foi. Entre um e outro salto mais caótico, conseguimos seguramente não bater em todos.

O que não estava previsto foi o organizador ter sido obrigado a prescindir da Pan, a do Armando ter perdido muitos cavalos a sair do barco em Tróia, o Trica Espinhas ter sido um excelente local de concentração antes do almoço, a chegada a Vila Nova estar em obras, e não termos sido alertados para que a refeição seria das se estendem até ao próximo eclipse.

Tal como todos os almoços anteriores, este também não brotou de geração espontânea. Como se um não bastasse, foram dois Barrigas a encomendar o assunto. Como estão “em casa”, a coisa faz-se com alguns panelões que vão abastecendo pratos rasos, de sopa e de sobremesa. E podem ser todos com a mesma essência.

Resta acompanhar à viola, como o fizeram os convivas da mesa do fundo, convertidos entre uma trova com sotaque e um fado sem silêncio.

As gerações também se fizeram representar. Três de Barriga’s, as mais recentes dos Santos e dos Pontes, e até as das Pans se manifestaram com uma ou outra ST que reaparecia.

Se apetecia ficar a olhar o fim da tarde na foz do Mira, mais provocante estava o rubor do sol a esconder-se antes de Alcácer, ou se revelava nítida a silhueta de Lisboa oriental.

Milfontes amparava o Mira, cujo leito se despede com aparente serenidade do castelinho e do farol.

Porto Covo, onde se "roía uma laranja na falésia", parece um oásis, entre a rudeza pétrea dos penhascos costeiros e a aridez de cor dos campos limítrofes. Aos pés, protegidas por xistos e basaltos, abrem-se praias em concha, aliadas na maré baixa.

São Torpes, porém, destaca-se. Apertada e extensa, acolhe sempre como nómada, oferece o que tem de melhor e não precisa fazer disso alarde. Ali, é o brilho argênteo da água que atrai, a proximidade da areia, a planura da praia, os cenários gémeos de céu e mar.

É um Alentejo diferente. Distintas são as profissões (pesca-se e navega-se), a luz, a cor e o cheiro (o mar é decisivo), a paisagem (a falésia é determinante). Mas é o todo que deslumbra.

Depois de invadir o bosque que leva a Pinheiro da Cruz, deambular pelas voltas de Melides, dar largas às rectas de Sines, vislumbrar a serenidade do mar em São Torpes, rumar ao longo das falésias de Porto Covo, actualizar a conversa em Milfontes ao sabor da caldeirada, o regresso farto já não é glória, é prelúdio da próxima jornada.

Por mais que o adágio porfie que “se não deve voltar onde se foi feliz”, a costa alentejana parece estar imune à voz do povo. Não está ilesa, porém, de mais dia, menos dia, nos desvendar de novo.




Música: Alhambra Trance Flamenco
Álbum: Alhambra
Autores: Oliver Shanti & friends


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Alfama. Olhar o Tejo por Entre o Casario



















Lisboa de Séculos

No castelo ponho o cotovelo
Em Alfama descanso o olhar
E assim desfaço o novelo
De azul e mar,

i
n Lisboa, Menina e Moça,
de Ary dos Santos


Pertenceu, até há pouco mais de uma trintena de anos, aos descendentes do vice-rei da Índia, Afonso de Albuquerque. A Casa dos Bicos fica aos pés de Alfama.
Daí, atrevemo-nos por um túnel e trepamos à Sé. É perto e bom caminho. Lá em cima, recebe-nos a fachada românica afonsina, um cenário de séculos, do século da nossa nacionalidade.

É o estilo gótico que (me) surpreende (sempre). Simples, austero, estreito, alto, poderoso, o espaço compele à contemplação que leva à devoção. A nave central da sede da Caixa Geral de Depósitos, por exemplo, imita-lhe o estilo e o propósito.

De lá, apetece subir ao castelo. Mas é uma placa a indicar “Teatro Romano”, que altera o intento e motiva a entrada. Lá dentro, envolvem-nos vestígios de frisos, colunas, bustos e capitéis do teatro romano de Lisboa. Num instante, foram dois milénios que resgatámos. As ruínas são do início da era cristã.

Há outro piso que reúne mais peças e dá outra perspectiva das paredes do monumento. Das janelas, avista-se um Tejo tranquilo. Fora, como miradouro, uma espécie de varanda larga encontra o edifício contíguo e abre para a rua das traseiras. Atravessando-a, há mais teatro. Percebem-se paredes, colunas, bancadas num espaço mais amplo.

Depois descemos, a caminho do miradouro junto da Cerca Moura. Fica logo após um pano de muralhas mouriscas de dez séculos. Regressamos ao medieval.

Para baixo, as ruas estreitam, é Alfama, o antigo bairro mouro Al Hamma. Já lá vamos. Para cima, é a igreja de São Vicente cujo interior barroco e monumental esmaga. Depois, a passagem pelo terreiro da Feira da Ladra leva à Igreja de Santa Engrácia, vulgo Panteão Nacional, de arquitectura invulgar, já que se trata de uma igreja circular.

Muitos nomes da História nacional estão lá sepultados. Amália Rodrigues é quem monopoliza as romagens. Do alto do zimbório, após meia dúzia de lanços de escada, a vista vai de novo ao Tejo, ao porto mercante, ao convento de São Vicente, a arquitecturas recentes da capital.

Daí a pouco, o espaço aperta, recomeça o labirinto mourisco. Aparecem becos e pátios, entre vielas que, em escadaria, serpenteiam Alfama. Chefchaouen, em Marrocos, só é mais azul.
As janelas estreitam-se e encolhem, as portas mirram, a roupa aparece a secar, os cães surgem à janela. As pessoas aproximam-se, ouvem-se as conversas, entra-se em contacto.

Confudem-nos com estrangeiros. Descemos com paroquianos acompanhados pelo prior. As missas dominicais adiavam-se para o fim da tarde.

Descobrimos um recanto simpático, logo após passarmos pela porta lateral dos "banhos públicos". A Xauen marroquina salta imediatamente da memória e estala de semelhança.

Estão velhas, muitas habitações antigas. Algumas rivalizavam com as ruínas romanas, ali perto, a dois mil anos; outras, já foram recuperadas, com cores quentes, janelas com molduras de pedra, estores metalizados, gradeamentos pintados.

Mais abaixo, à imagem do Panteão, nova capela, também circular, muito iluminada pela luz que vem do rio. Voltamos a olhar o Tejo, ali aos pés.

A descer, o dédalo atenua-se, mas o aperto das ruelas resiste. Há mais pátios, onde rompem algumas lojas e restaurantes, casas de fado.

Desembocamos quase na margem do rio, com a sensação de que abandonámos uma fortaleza, cujos meandros dificultam a progressão, mas aproximam as pessoas que lá vivem de si próprias e dos outros que as visitam.

No final, uma rua estreita leva a uma viela. Ao fundo, um revistimento diferente nas paredes de uma casa grande. É um palácio que ainda resiste ao tempo.

Tal como este bairro de séculos…




Música: Asas Sobre o Mundo
Álbum: Dialogues


Autores: Carlos Paredes e Charlie Haden

domingo, 17 de fevereiro de 2008

De Ciudad a Xauen





















Pelas terras de D. Quixote
Final de Dezembro de 2007

“- acudam, senhores! depressa! valham a meu amo, que anda metido na mais renhida batalha que estes olhos nunca viram! Deus louvado! pregou já uma cutilada no gigante inimigo da senhora Princesa Micomicadela, que lhe cortou a cabeça pelo meio como se fora um nabo.”
D. Quixote de La Mancha (1605), de Miguel de Cervantes [Saavedra] (1547-1616)

O espaço estremenho que atravessa La Mancha e leva a Ciudad Real não surpreende. O ambiente imita a planura e a vegetação rasteira alentejana e, só à passagem sobre o Guadiana - o Wadi Ana árabe - o relevo se agiganta.

Enquanto novidade, Ciudad não espanta. É uma cidade calma, de gente sóbria, edifícios baixos, espaços sensatos, apesar do estacionamento exíguo e da manutenção urbana não parecer eminente.

A Plaza Mayor é, como habitualmente, um sítio vital da vida comercial e turística, além de passeio obrigatório das famílias. Não tem a dimensão monumental das congéneres de outras urbes, mas a arquitectura do edifício da Câmara, de um rendilhado particular, bem como um mecanismo constituído por bonecos robôs. marca a diferença.


Perto, a igreja gótica de S. Pedro, de século XVI, depois a Catedral de século XVI, e o Museu Municipal que ocupa um edifício antigo.

Mais longe, um pequeno pano de muralhas passa quase despercebido, mas a Porta de Toledo, uma relíquia do passado árabe, domina no periférico a rotunda que leva a norte. Tudo isto sobre uma planura imaculada, que permite percorrer toda a cidade a pé sem grande esforço.

A meia dúzia de quilómetros fica Calatrava La Vieja. Vê-se ao longe, no horizonte da ainda campina irrepreensível. É lá que o pequeno cerro que eleva o castelo espanta, raro local para edificar uma urbe que chegou a ser o local mais povoado entre Córdoba e Toledo, até ao século XIII.

É sobretudo o gigantismo dos sistemas hidráulicos, o perímetro das muralhas (1,5 kms) e o número de torres (44) que a fortaleza teria, que permite imaginar a dimensão passada do lugar.

Mas ainda é visível a extensão do Alcazar (1ha), a existência de um fosso (que era inundado artificialmente), entradas assimétricas, uma torre pentagonal em proa, várias torres albarrãs.

Inimaginável foi, porém, o vislumbre dos modelos dos engenhos hidráulicos, capazes de transferir a água do rio passando-a acima das muralhas, através de alcatruzes gigantescos.

Seria, porém, o complexo arqueológico de Alarcos a deslumbrar, situado do lado oposto a Ciudad. Foi difícil dar com o monte, mas, uma vez descoberto, percebe-se que a dimensão vai além do lugar de Calatrava la Vieja. Há vestígios, bastantes e notórios de ocupação ibera (ainda se percebe a planta das casas e as ruas), e ruínas medievais (um castelo árabe e uma ermida românico-gótica).

Do monte onde o castelo está implantado, a vista domina todas as elevações e campos em redor. A fortaleza esteve soterrada durante séculos, tendo sido de novo exposta nos anos 80, mas actualmente ainda é alvo de escavações arqueológicas, uma vez que se estima existirem ainda bastantes vestígios de ocupações do solo enterradas. Há poucos anos, junto de uma das muralhas viradas a sul, foi descoberta uma espécie de vala comum onde foram sepultados os cristãos que pereceram na batalha.


Um cemitério árabe antecede a escada de acesso ao castelo, em cujo interior ainda é perceptível a planta das habitações do século XII. Próximo, uma ermida em bom estado de conservação, com uma rosácea excelente. Mais abaixo, uma loja, um pequeno núcleo museológico e um auditório que projecta um audiovisual sobre a história do lugar. Duas horas, uma guia excelente, uma profícua lição de História.

Almagro já foi uma localidade opulenta. Os pórticos e os brasões de algumas mansões assim o testemunham. Possui uma Plaza Mayor peculiar, com edifícios de 2 pisos e duas galerias comerciais paralelas que envolvem um jardim raso. A localidade é acolhedora, mas faz frio… o mesmo que estava de manhã, dois negativos.

Em Calatrava La Nueva, porém, o ar aqueceu. Fosse do vale que lá leva ou da excitação daquele horizonte casto, a verdade é que é difícil ficar indiferente ao local. Construído no píncaro de um monte aguçado, o convento-castelo é uma obra formidável.



Tem acesso moroso e difícil, complicado e estreito no interior. As muralhas são altíssimas, o ingresso no átrio de entrada obriga a serpentear e a entrar numa espécie de pátio coberto. As dependências são inúmeras e percebem-se bem as divisões do convento, os espaços de outras habitações, uma ermida da Ordem, uma igreja esplêndida e os vários panos de muralhas que envolvem a fortificação.

Do cimo, a vista é impressionante, vislumbrando-se alguns cumes acima do manto de nevoeiro que esconde os vales limítrofes. As pedras estão imaculadas devido à recuperação de que foram alvo. Lê-se que o Estado utiliza desempregados para aqueles trabalhos de restauração...


Depois foi Jaen, a antiga Xauen árabe, a estender-se em redor do monte que alberga o castelo de Santa Catalina. Tal como a fortaleza de Calatrava que havíamos visitado de manhã, este eleva-se a duas centenas de metros de altitude sobre a cidade e estende-se ao longo uma crista rochosa impraticável. Algumas das torres ainda estão perfeitamente conservadas, assim como o pano central de muralhas. O interior ainda alberga algumas divisões, sobretudo na torre principal, onde tem lugar a apresentação de um vídeo sobre a história do castelo. Outro panorama extasiante.


Desce-se à cidade e passa-se pela catedral a caminho das zonas comerciais e dos bairros mais antigos de traça árabe. Tal como as catedrais de Barcelona ou Burgos, também a de Jaen dispõe de um local central destinado a reuniões e concílios, além de capelas laterais ricamente decoradas com uma profusão de talha dourada.

Como habitualmente, foi um périplo com uma forte incidência medieval. Todavia, rara foi a presença de D. Quixote, o cavalheiresco fidalgo esquálido – o tal da “fraca figura” – ou do fiel Sancho Pança, o seu rotundo escudeiro.

Omnipresentes, muitos e saborosos acepipes típicos, como as migas, o pisto manchego, os tiznaos… surpreendente, afinal, foi mesmo um reserva tempranillo Valdepeñas com mais de dez anos, a preço de vinho comum.





Música: Senhor, perlos nostres peccatz
Álbum: Batalla de Alarcos, 1195
Autor: Eduardo Panagua



terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

1º Alcatrão do MC Lisboa

28/29 de Junho de 1986

"Houve precisamente o número de inscritos que se esperava para esta Concentração, cerca de 200 participantes vindos de diversas partes do país e estrangeiro", in Motojornal, Agosto 86

Foi assim que o Tó Manel, um dos impulsionadores da Concentração, abriu o artigo que escreveu para a célebre Coluna dos Motards da Motojornal.


Ainda a imposição do imposto de luxo vigorava sobre as motos, as Honda sete e meio e as Kawa 900 eram as motos de referência, existia a Butimoto Corba, o Toni Contente e o Manuel João limpavam as corridas, e a rapaziada de Lisboa se juntava na Mexicana, quando um grupo de carolas reactivou o antigo Moto Clube de Lisboa.

E a verdade é que até organizaram uma Concentração – o 1º Alcatrão – no miradouro de Santa Eufémia, em Sintra. Não se nota, mas foram os Xutos e Pontapés que tocaram nessa noite, onde era difícil perceber se o pó que andava no ar era dos ‘burnouts’ das dois e meio ou dos charros do Zé Pedro.

Os bigodes, as “nakeds”, o cabedal, moto clubes que já não existem, motos que já ultrapassaram há muito o rótulo de clássicas, enfim um marco do renascimento do associativismo motociclístico da capital, está aqui, em imagens bastante manhosas mas catitas… de quando o Tó Manel, a Marina Ramalhete, o Luís Bomba, o Manuel Gomes, o João Rei, o João Caldas, o Amadeu Pereira, o Armando Borges, o Manuel Gama, e eu, reinventámos um moto clube.

Apurem a vista, reparem bem e vejam se descobrem na versão anos 80, as identidades daqueles miúdos cadavéricos cheios de genica que aparecem nas imagens, muitos capazes de serem avôs e terem guardado uma Suzuki 750 GT, uma Yamaha 750 XT ou uma Honda 350 Four, para os netos …

É fácil descobrir que não foi o amadorismo da logística, nem a esclerose de alguns modelos, nem sequer a poeira do trilho a desmobilizar aquela rapaziada, que ainda não se inquietava com os últimos modelos, com os capacetes da moda, com roupa de marca, se eram motociclistas ou motards…

Muitos juntavam-se em Vila Real, em Jarama, em Santo André, em Paris. Quando todos se conheciam… Vão conhecer alguns, seguramente! Vejam o filme!


Música: Baba O'Riley

Autores: The Who

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Entre Pessoas e Lugares


Passeio de Inverno, com o Clube PanEuropean de Portugal
Novembro 2007

O grande slogan promocional da RTP para promover os seus primeiros Jogos Sem Fronteiras, que tiveram lugar em Albufeira há mais de duas décadas, apregoava haver “365 dias de sol no Algarve por ano”. No dia do “directo” choveu …

Não foi, porém, o nosso caso em finais de Novembro do ano passado.
Saímos tarde de Liboa, já com o entardecer a acompanhar as longas filas de trânsito que levavam à outra margem do Tejo. Aproveitámos a companhia dos Menaus, a ausência de vento e o trânsito diminuto. O céu alentejano, breu de limpo, salientava as luzinhas das aldeias alentejanas.

Andámos rápido, a caminho do restaurante Três Palmeiras, em Areias de S. João. Ao fim da noite, já de uma varanda do Cerro Mar, o aparthotel que nos recebeu na parte alta de Albufeira, pudemos disfrutar do contraste enre o horizonte límpido daquele anfiteatro de casas alvas e dos brilhos prateados do mar algarvio.


De manhã, uma ligação a Estói, para um café e um caldo de cultura na estação arqueológica de Milreu. Entrámos na Roma antiga pela mão do guia que estudara Antropologia em Bergen. Passeámos sob o primado da romanidade enquanto raiz do nosso ser, fazer e pensar actual, entre a história do lugar e as estórias do nosso presente.

Depois, rodámos para Faro. Realçadas pela presença do sidecar Zeus, as Pans estacionaram em plena praça D. Francisco Gomes, não sem antes termos percorrido “Vila Adentro”, como assinalado à entrada do Arco da Vila, no centro histórico.

Circulámos pelo interior das muralhas, rodeámos a estátua de Afonso III, passámos à Sé Catedral e saímos pela Porta Árabe.

Almoçámos na serra algarvia. De lá, saímos por entre as alfarrobeiras, estevas e sobreiros, numa toada serena e harmoniosa, suficiente para balançar um pouco mais as suspensões das Pans, depois carregadas com pacotes de bolachas de mel e de alfarroba da doçaria Tesouros da Terra.

Parámos na sede do carismático Moto Clube de Faro, que tanto tem feito pelo motociclismo nacional. Ser recebido de braços abertos é um privilégio! Aproveitei para “pagar” uma dívida de anos ao Zé Amaro, o ainda hoje presidente do MC Faro.

É que, no final dos anos 70, num célebre regresso de Jarama, em terra de nenhures, me deu a única vela suplemente que levava na sua Honda 750 Four, pequeno acto de solidariedade, suficiente para identificar o excelente carácter de um indivíduo.

Depois, voltámos ao Cerro Maior, guardámos as motos, jantámos “em família” e descemos à baixa de Albufeira, nessa noite bastante sossegada.

De manhã, o tempo brindou-nos com um sol excelente, a iluminar tudo e todos como só no Algarve acontece, coagindo-nos a ficar ou, pelo menos, a demorar. Daí o périplo pedestre que efectuámos pelos novos e renovados recantos e miradouros de Albufeira.

Ao longo das duas horas e meia de almoço em Messines, fizemos o que de melhor sabemos: conversar sobre o que nos rodeia, as nossas preocupações, desejos, fúrias, passando por aqueles instantes íntimos de evocação de Passeios anteriores ou deambulações motociclísticas por territórios de Jabugo a Aracena.

Abandonámos o Algarve aos seus. Mais tarde, de um lado, a lua recebia-nos com aquele tom alaranjado, tão acolhedor como auspicioso, a fechar um fim-de-semana fértil em convivência, festim e digressão.

Do outro lado, o sol desenhava o relevo com contraluz de negro/vermelho e deixava no Atlântico um horizonte de devir bonançoso. Antes, o Alentejo cercara-nos de um anoitecer límpido, mas algo ventoso.

Chegámos a Lisboa envolvidos por um ambiente cálido, quase estival, contrastado e cintilante. Quer a fila de faróis que se estendia pela ponte Vasco da Gama, quer a miríade de luzes urbanas da parte oriental de Lisboa, pareciam antecipar cenários à época natalícia que se aproximava.





Música: Peaches En Regalia (prt 1 e 2) e Happy Together (prt 2)

Autor: Frank Zappa