domingo, 10 de maio de 2015

Espanha Mudejar II - De El Gordo a Cuenca



"Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo / Dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo". 
O Dia Seguinte, Sérgio Godinho

De El Gordo a Cuenca, com Aranjuez e Chincón de permeio


A noite esteve escura mas tranquila. Parecia que já tinha chovido tudo e o céu por cima da albufeira de Valdanas estava enevoado mas seco. Talvez houvesse magia e o tempo se aguentasse. Em vez disso o sortilégio fez aparecer uma chave de uma BMW em cima do depósito. Podia ser um bom sinal. Mas não foi.

Se o princípio da noite anterior tinha estado chuvoso, a manhã acabou por não se fazer rogada e os aguaceiros sucederam-se praticamente durante uma centena de quilómetros que nos separava de Maqueda. Quando a chuva deu tréguas parámos para beber café numa cafetaria de estrada depois de Olias Del rey.


ARANJUEZ

Chegámos a Aranjuez, terra que consagrou a música de Joaquim Rodrigo, Concerto de Aranjuez, já com o tempo seco. Entramos devagar e prosseguimos à procura de estacionamento. Perto do palácio real há poucos lugares. Por isso, deixámos as motos à espanhola, em cima do passeio.

Em cima do passeio estava também uma colecção de velhos Fiat, que se reuniam do outro lado da avenida, irrepreensivelmente alinhados, antigos e mais recentes, coloridos, desportivos, utilitários, carrinhas, quatro portas, etc, etc. As Pan não são tão antigas, mas lá chegarão…
Aranjuez fica a cerca de cinquenta quilómetros de Madrid e já foi feudo da Ordem de Santiago. O Tejo passa por lá envergonhado entre margens estreitas, a abraçar o palácio e o jardim. Navegava-se nestas águas após o palácio ter passado a ser residência campestre dos réis espanhóis. 
Apesar de a versão actual não ser a original, é notório que a dimensão e a arquitectura do palácio lembram os anos áureos pós-descobertas, quando a Espanha e a Portugal chegavam as riquezas do mundo e o fausto se instalava. Por cá, não faltam exemplos dessa grandeza. O palácio de Mafra bate-se com este de igual para igual. 
Apesar de Aranjuez ser uma terra simpática, com casas baixas e muito espaço para andar a pé, não nos demorámos. Demos apenas um passeio em redor do palácio, vimos a fachada, passamos pelos edifícios de apoio e regressamos às motos. Tínhamos almoço marcado em Chinchón.
Deixámos Aranjuez sob um céu de chumbo ao longo de uma avenida que bordeja um jardim imenso. E não voltou a chover durante o percurso. Chinchón apareceu daí a pouco com a silhueta do seu castelo que domina a paisagem mas se encontra em mau estado de conservação.

CHICHÓN

Paramos na rua que dá acesso à Plaza Mayor mas rapidamente nos dissuadiram em estacionar ali. A zona é estreita e não dispõe de muitos lugares e, onde há espaço é proibido. Primeiro foi o dono de uma loja, depois o comandante da Guardia Civil, que nos aconselharam simpaticamente a procurar lugar mais acima. Foi o que fizemos.
Pouco depois, a caminho do restaurante La Iberia, fomos descobrindo as particularidades sobretudo estéticas desta praça. Trata-se de uma terreiro arredondado mas irregular, circundado por antigas casas de ganadeiros cuja origem remonta ao século XV.
Tem sido um lugar de relevo para diversas actividades culturais que incluem tourada, teatro, circo, festas populares e políticas, actos religiosos, e até foi cenário de uma corrida de touros no filme, “Volta ao Mundo em Oitenta Dias”. Hoje alberga alguns alojamentos turísticos, muitas lojas com produtos típicos e restaurantes.
Nós almoçamos num deles, um cordero lechazo, numa sala com decoração antiga. Também dispunha de um pátio – não é o único na praça – onde decorria uma festa para crianças. Choveu bem, enquanto almoçavamos. Neste dia, não seria a última vez que o céu se rompia com violência.
 
Quando deixámos a Plaza Mayor já um grupo de póneis retomara o passeio de algumas crianças. Em redor, as esplanadas esperavam dias mais soalheiros. Ali, o restaurante Columna, mais pequeno do que o La Ibéria,  também tem boas propostas gastronómicas e um pátio interior bem decorado.

O vídeo do trajecto, aqui  https://vimeo.com/127416632 

CUENCA

Cuenca vale a pena. Pela miríade de ruas estreitas, pelas casas penduradas nos penhascos, pelo Centro de Ciência, pela paisagem desde os miradouros, pelas vestígios árabes, pelo Parador, pela Plaza Mayor, pela catedral, pelas pequenas praças, pela torre Mangana, pela limpeza, pelo sossego.


Das Casas Colgadas à Catedral,
Do Parador à Torre Mangana

Pouco depois de sairmos de Aranjuez, estavamos na A-3, a via rápida que culmina na rotunda de entrada de Cuenca. Mais duzentos metros e estamos à porta do hotel Torremangana. Trata-se de quatro estrelas na zona nova, com garagem e acesso rápido ao centro histórico.
Como caiu uma forte bátega de água enquanto procurávamos restaurante, não ficamos longe do hotel. Esgotámos as batatas fritas de um franchising de tapas, demos a volta a meia dúzia de quarteirões e regressamos cedo ao hotel. Ainda estava húmido e havia pouca gente na rua.
De noite e na zona nova, é impossível perceber que a zona histórica difere do resto da cidade. Essa divisão é rio Huécar que a faz. A área plana, com ruas largas e edifícios contemporâneos da zona nova e onde é fácil circular, contrasta com a zona histórica onde o ambiente é bastante diferente.

Logo de manhã, e após termos atravessado uma das pontes que ligam à zona antiga, percebemos que, para lá chegar, é preciso galgar ruas íngremes e estreitas, típicas de um traçado medieval influenciado pela presença árabe. Escalar este cerro é como subir a colina do castelo de São Jorge ou amarinhar desde a Ribeira à Sé.

Continuamos a trepar para um núcleo de muralhas que alberga a torre Mangana. Do miradouro é possível observar o desfiladeiro que envolve a cidade a norte, os bosques que cobrem os rochedos e o rio Júcar. O cenário é deslumbrante misturando os verdes da vegetação, os cinzentos das pedras e os ocres dos telhados.


Percebem-se de imediato, os desníveis, os contrastes de cor e textura, o alcantilado das casas, os patamares geológicos, o curso do rio – a estrada que o margina é daquelas que apetece repetir sobretudo de moto (vai aparecer outra semelhante antes de Albarracin – as passagens estreitas, os arcos, a vegetação adelgaçada, os telhados matizados.

Com o Centro de Ciência fechado – que não se compara ao de Valência, mas é interessante visitar -, a opção foi continuar pelas ruas estreitas para a Plaza Mayor. Esta como habitualmente circunscreve o centro histórico, que aqui coincide com o chamado “casco antíguo”.

Desemboca-se numa pequena praça fronteira ao edifício da Câmara, construído em estilo barroco, cuja particularidade é dar acesso à Plaza Mayor através de arcos romanos, desenvolvendo-se a parte habitável apenas a partir do 2º andar.

Na Plaza Mayor destaca-se ainda a catedral dos séculos XII e XIII, mas cuja fachada foi reconstruída no início do século XX. Em redor da praça, os edifícios esguios e coloridos, dão-lhe uma harmonia ímpar. Restaurantes, galerias de arte, lojas de artesanato completam o cenário da praça.

Entretanto havíamos descoberto uma entrada curiosa, depois outra e outra, para os túneis de Alfonso VIII. Compramos os bilhetes na loja de turismo e à uma da tarde lá estávamos à porta. Colocámos uma rede e capacete na cabeça e fomos ao longo de uma galeria.
Esta foi construída com recurso a detonações de pólvora, da autoria dos vizinhos do lugar, para se protegerem dos bombardeamentos durante a Guerra Civil Espanhola. Trata-se de um túnel com tecto e paredes toscas com muitas saliências. Fomos ouvindo as explicações da guia que ia assinalando os sítios onde se colocavam as cargas explosivas, chamando a atenção para os espaços de armazenamento ou cuidado a dar aos feridos, as várias portas de acesso.
Foi uma boa meia hora ao longo da história de Cuenca e da Guerra Civil. Percebemos aqui o porquê do ex-libris da cidade serem as Casas Colgadas, aquelas casas esguias, erguidas à beira dos penhascos, muitas delas com passagem inferiores que se constituíram como ruas, uma vez que já não havia espaço para outro tipo de acessos.
 
Parecem ninhos encavalitados nos rochedos, coladas umas às outras, construídas em altura, com uma estética semelhante e cores harmónicas. Ocupam sobretudo a zona adjacente à Plaza Mayor. Para as ver em pleno, fizemos o Caminho de Ronda, um circuito que vai em redor da zona histórica sempre com paisagens excelentes.
Aproveitamos para conhecer o Parador, um antigo mosteiro do século XVI. Para lá chegar há que atravessar a ponte de São Paulo, construída em pedra no século XVI e reconstruída em ferro no início do século XX. Ainda tive de me ampara em dosi que asseguravam que a travessia era tão fácil como encontrar wi-fi em restaurantes.



Paisagística é também a vista desde o alto das muralhas que ladeiam a porta do castelo, mais acima da Plaza Mayor. Daí percebe-se a posição estratégica do lugar. É possível praticamente uma visão de 360º, abrangendo praticamente toda a cidade, mas seguramente toda a parte antiga.

Do cimo, percebe-se um mar de telhados mas não se vislumbram ruas. Com efeito, só existe uma rua central e duas laterais, sendo as restantes pequenas ligações ou túneis sob as casas. É dali que também fica bem visível o monumento ao Sagrado Coração de Jesus, erigido no rochedo mais elevado que circunda a cidade e que aparentemente não está longe. Mas é preciso percorrer mais de cinco quilómetros por estrada para lá chegar.

Acabámos o dia no Marlo, um bar de tapas a dar para o fino, mas que compensou bem os ovos com batatas fritas do fransuhing Lizzaran da noite anterior. No fim, percebe-se que os becos, as escadarias, as passagens estreitas, as pequenas praças, as cores das casas, a paisagem que se entrevê a espaços, o panorama que se abre em certos lugares, as portas de madeira e ferro, as janelas gradeadas, a cor da pedra, fazem-nos ficar. 

Mas é Terruel, a capital do Mudejar, que nos espera no dia seguinte. Até lá, porém, há muito que ver. A Ciudad Encantada, o Nacimiento del Tajo e Albarracin. E também há que procurar melhor o caminho. Dois nacimientos podem baralhar a jornada. E mapas pequenitos também.

O vídeo de Cuenca, aqui https://vimeo.com/127411052


terça-feira, 5 de maio de 2015

Espanha Mudejar I - De Lisboa a El Gordo


Mérida, Tejo, Belvís de Monroy e Valdecañas


"Vale a pena ver / o mundo aqui do alto / vale a pena dar o salto." 
É Tão Bom, Sérgio Godinho


Pouco mais de trezentos quilómetros nos separavam do local de almoço. Pelas nove da manhã, o tempo estava fresquito e encoberto. Juntámo-nos como de costume debaixo da ponte na saída Tercena-Massamá e avançamos devagar pelo IC19 a caminho da ponte 25 de Abril que também não tinha muito trânsito. do lado de lá, o céu não clareava como é habitual na margem sul. 

Depois de nos juntarmos ao João Almeida na área de serviço de Palmela, deixamos o Alentejo fresquinho e entramos em Espanha sem pararmos. Avançamos pela A-5 - que aproveita alguns troços da velhinha N-V - a caminho de Mérida, património da humanidade. 
A espaços, o céu toldava-se mas a temperatura mantinha-se aceitável. Deve ter sido das poucas vezes que não paramos logo a seguir à “fronteira”… 
Estava sol e a temperatura chegou a ultrapassar os 20º em Mérida. 

O restaurante Rex Numitor, que fica próximo da ponte romana e da alcáçova do castelo árabe, é recomendado pelo Guia Michelin. Foi aqui que nos encontramos com o casal Marques e com o casal Murta.

Felizmente, as cerca de duas horas que havia reservado para o almoço mostraram-se suficientes. Mas já não conseguimos dar um passeio pela Emerita Augusta romana. Aliás, o sítio exige mais tempo. O museu e o complexo arqueológico romano requerem pelo menos uma tarde para os visitar.

Como ainda tínhamos cerca de 180 kms até Valdecañas, era capaz de ser interessante fazer uma paragem técnico-cultural. Além disso, uma passagem junto ao Tejo também quebraria a monotonia da via rápida. O desvio devia ter sido feito em Puerto de Miravete, mas eu antecipei-me em Casas de Miravete.


E andamos de um lado para o outro até que tivemos de parar para endireitar a alma à BMW. Depois, seguimos por pouco tempo uma pequena albufeira do Tejo, onde há muitos anos, toda a gente parava para reabastecer no regresso de Jarama. Hoje, a estação de serviço é uma ruína.

Voltámos à A-5 e saímos em Belvís de Monroy, uma pequena localidade onde domina um castelo do século XIII em ruínas, masque ainda hoje se vê altaneiro desde a autovia. 
Estendemos as pernas, espreitamos as muralhas e houve quem as tenha franqueado. Uma boa meia hora de descanso e amena cavaqueira.

Daí a pouco, deixávamos El Gordo a caminho do Husa Golf Valdecañas. O acesso faz lembrar a estrada da Comporta para Tróia. 

Avançamos por espécie de istmo, com árvores a bordejar as margens de uma albufeira. Os peixes saltam ao acaso e nós vamos ao ritmo do por do sol que ora cria contrastes ora ilumina a paisagem com a cor cálida do poente.

Se a reserva já tinha sido a mais expedita – a primeira a criar código para cada utente – a recepção aconteceu em português. No balcão já figurava o logotipo do Clube e a recepcionista – que havia estagiado numa unidade hoteleira perto de Évora – acolheu-nos com um simpático sotaque alentejano.


O hotel é recente, com iluminação tranquila, quartos espaçosos e com vista para a albufeira. Apetecia ficar. Juntamo-nos na esplanada do bar, atualizámos as novidades, avançamos expectativas e revimos o plano para o dia seguinte, à luz do fim do dia. Ficou prometido um passeio após o jantar.

Fomos ocupando os lugares de uma mesa larga que nos pôs a comentar a ementa escrita em português. Até eu estava surpreendido com o ambiente, embora me tenham pedido o logo do Clube assim que reservei. Catita!

A chuva que começou a cair mal pusemos os pés fora da recepção é que não foi tão simpática. Gorara-se o passeio higiénico. Aproveitamos para registar a primeira das poucas fotos de grupo em que aparece o logo do Clube e depois descansar dos quase quinhentos quilómetros daquele dia.

Treze pessoas em oito motos. Estamos todos! Prontos para rolarmos rumo à Espanha Mudejar. 

O vídeo, em 
https://vimeo.com/126923768