quinta-feira, 22 de maio de 2014

MARROCOS 2014 - Meknès, Zagora e Agadir


A programação inicial contemplava uma etapa de Tanger a Marraquexe, dali a Agadir, depois Zagora, Marraquexe de novo, para terminar em Meknès e sairmos por Ceuta.
Porém, uma feira de agricultura e um festival religioso em Meknès, a coincidir com as datas previstas, deixou-nos sem vaga nos hotéis.
Todo o trajecto teve de ser refeito e reprogramado exactamente ao contrário.
Os contactos logísticos esticaram-se inclusivamente aos dias de viagem.
Desta vez, a novidade era, Meknès, Zagora e Agadir.
E também repetimos, Tanger, Chefchaouen e Marraquexe.
Andamos por sítios catitas, e outros nem tanto, entre medinas desconhecidas, ruínas esquecidas, mercados de levante, obras infindáveis, paisagens lunares, oásis imensos.
E ainda por vastas planícies, montanhas inóspitas e chegámos quase a pôr o pé no deserto.
Está lá tudo. Fomos aproveitar!

ATÉ TANGER, SOB O SIGNO DOS HORÁRIOS


Saímos às 7 da manhã. Como habitualmente.
Onze dias depois, regressávamos ao final da tarde. Como habitualmente.
Desta vez, éramos dez, em seis Pans. O que já não foi banal.
Há dois anos, somamos 24 pessoas em 16 motos.
Desta feita, o Carlos Mariano havia adoecido em cima da hora e o Luís Pereira partido os óculos no dia anterior .
Mesmo o Justino estava renitente em avançar.
Era importante chegarmos antes das quatro e meia da tarde a Tarifa.
Reservámos os bilhetes da travessia na FRS, mas precisávamos levantá-los no escritório da companhia, a tempo de apanhar o barco das 17 horas. Conseguimos. Mesmo considerando que a única vez que "perdemos" duas das motos foi na entrada de Tarifa.
De manhã, a reunião magna fez-se na área de serviço de Loulé, já um pássaro se deixara apanhar na frente de uma das Pans.
Pouco depois do meio-dia, parámos para almoçar na área de serviço La Florida, no início da autopista Sevilha-Cádis.
Ainda descansamos 5 minutos algures antes de Algeciras e chegamos a Tarifa a tempo de entrarmos para o barco das 5 da tarde.
A ideia era chegar a Tanger à mesma hora, uma vez que em Marrocos é menos uma do que em Espanha.
Contando com uma hora para expediente de fronteira, estaríamos no hotel por volta das seis, a tempo de dar um passeio pela medina.
Na fronteira, em Tanger
Despachamos a papelada fronteiriça em meia hora.
Mas um dos documentos andou perdido.
Desperdiçamos a vantagem.
Entretanto trocamos dinheiro logo a seguir à fronteira e o périplo pela medina foi substituído pelo jantar e por um passeio à beira-mar onde mais parecia estarmos num calçadão andaluz.
Ficámos no Hotel Rif e SPA, na avenida marginal de Tanger, perto da praia e da medina.
Dedicamos a manhã à medina, apesar da má fama de que goza.
Começamos pela bateria militar, no terrasse Borj al-Hajoui, que também é miradouro.
Passamos o hotel Continental, situado numa posição privilegiada entre o porto e a medina, e percorremos algumas das vielas, para depois desembocar numa praça que dá acesso ao Petit Socco, o mercado do sítio.
À porta do hotel RIF e SPA, Tangerr
Peça de artilharia de costa no miradouro Borj El-Hajoui, Tanger
Arquitectura colonial, Tanger
Construção sobre as muralhas portuguesas, Tanger
Banhos árabes na casbá, Tanger
Zona habitacional na Casbá, Tanger
Ainda entramos numa loja, daquelas que lembram a caverna de Ali Baba, recebemos saudações dos empregados dos cafés da medina e ainda nos surpreendemos com a construção de casas sobre as ruínas dos antigos torreões da fortaleza que foi portuguesa.
Saímos de Tanger por volta das 11 da manhã.
A partir daqui os horários estiraram-se bastante
Destino: Chefchaouen.

UM ALMOÇO DEMORADO SOBRE OS TELHADOS DA CIDADE DA MEDINA AZUL

De Tanger a Tetouan vai uma via rápida de faixa dupla.
Mas o piso é manhoso, polido, a aconselhar prudência na inclinação.
Faz-se rapidamente.
De Teouan a Chefchaouen, é pior.
A estrada estreita bastante e as bermas são de terra.
Os camiões sobretudo cortam as curvas e ficamos à mercê da terra e das pedras que saltam para o asfalto em plena curva.
Medina de Chefchaouen
Restaurante "Aladdin", Chefchaouen
Por volta da uma da tarde estávamos de novo na cidade da medina anilada.
Não sem antes a tal estrada manhosa já ter atravessado dois ou três, nós incluídos.
Falhei um desvio e cruzamos um mercado de rua local.
Estacionámos no já conhecido largo do hotel Parador que borda a medina.
Estava calor. Chegamos a acordo sobre o local de almoço e fomos a caminho do “Aladdin”.
Subimos os três andares trepando por uma escada estreita e almoçamos quase no terraço.
Foram praticamente duas horas, na conversa, a tirar fotografias, a olhar a paisagem.
Estávamos tranquilos e provavelmente saudosos.
Afinal, foi naquele sítio que muitos haviam almoçado pela primeira em Marrocos.
Terminamos já depois das três da tarde.
E ainda fomos dar uma volta na medina, cujas vielas são das mais simpáticas de Marrocos…

Voltamos à estrada já sem horário. O piso manteve-se bera e a velocidade ajustada.
Quando a escarpa de Moulay Idriss, a cidade do profeta, apareceu no horizonte, o pôr-do-sol já se havia instalado por trás das casas alvas.
Era tarde para visitar o mausoléu do descendente directo do Profeta Maomé, Moulay Idriss, o santo mais venerado de Marrocos.
Miradouro sobre Chefchaouen
Apesar de serem apenas 300 e poucos quilómetros desde Tanger, foi já ao anoitecer que chegámos a Meknès, em plena hora de ponta.
Quando entramos na garagem do hotel Menzeh Dalia era praticamente hora de jantar.
E valeu a pena. Além de ter sido o melhor hotel da jornada, foi também o que serviu a melhor refeição.
Ficou o despertar matinal pela medina de Tanger, a rapidez da via-rápida até Tetouan, a malvada estrada de Tetouan a Meknès, o agradável almoço em Chefchaouen.
E ainda um desvio desnecessário, mas curto, que nos levou pelo Marrocos profundo, numa estrada rural, a caminho de Zagota…

MEKNÈS: A MEDINA, A PRAÇA, A PRISÃO E O LAGO

Meknès seria um dos pontos de novidade da viagem.
Da cidade, conhecíamos o restaurante do hotel Ibis - onde os nosso blusões haviam deixado uma valente poça de água há uns anos - a praça Hedin e 20 metros dentro da medina - onde havíamos almoçado ao som de música local na mesma ocasião. 
Das cinco cidades imperiais, Meknès é que tem menor oferta hoteleira.
Ficamos alojados a cinco quilómetros do centro da cidade que já foi capital de Marrocos.

De manhã, o tempo molhou-se mas não passou de borrifos.
Abrimos o dia a caminhar para a praça de táxis. Teoricamente, porque tudo é negociado e o hotel não os chamava… A dividir por todos – o (grande) táxi leva seis passageiros, e nós somos apenas cinco por viatura – é barato.
Pouco mais do que se cada um desse gorjeta aos “gardiens” das motos.
Em frente do museu Dar Jamai, Meknès
Deixaram-nos na praça Hedin. É uma espécie de Jemaa Al Fna, de Marraquexe, embora de menor dimensão.
Mas tem os atractivos essenciais: algum caos, cobras, ginastas, comércio de levante, gente sempre a passar.
E, do outro lado da avenida, tem a Bab Mansour, talvez a porta mais bonita de Marrocos.

Duas perspectivas da Bab Mansour
A praça Hedin dá acesso à medina e ao museu Dar Jamai.
Foi este último que visitámos ainda de manhã, um palácio do século XIX, agora dedicado à arte marroquina.
Dez dirhams depois, entravamos nas salas que expunham joalharia, trajes tradicionais, objectos de uso doméstico, trabalhos em madeira e tapetes.
Vistosa é também a arquitectura do edifício, antes pertencente à família Jamai, hoje propriedade do Estado.
O museu é semelhante ao museu municipal de Marraquexe, que havíamos visitado há dois anos.
Enquanto o espaço do de Marraquexe é maior, sobretudo a área do salão central, o de Meknés é mais discreto sendo, porém, museologicamente mais rico.
Interiores do palácio-museu Dar Jamai
Surpreendentemente, tivemos a discreta companhia de um guia.
De vez em quando, chamava a atenção para um ou outro detalhe.
Exceptuando a visita a Chellah, há quatro anos, em Rabat, não me lembro de dispormos de guia em qualquer outro monumento ou museu marroquino.
Os guias, aqui, dedicam-se mais ao exterior, sobretudo às medinas.
Felizmente. Se não, em certos casos, andaríamos horas à procura da respectiva saída. 
Depois, arriscamos pela medina que sabíamos, como tantas, ser labiríntica.
Íamos à procura da Grande Mesquita que, com dificuldade, parecia identificarmos de vez em quando.
Embora não seja tão grande como a de Marraquexe, a medina de Meknès também não parece tão rica, melhor, tão faustosa em matéria de lojas e produtos.
Voltamos à Hedin e almoçamos junto às muralhas, num terraço que dominava a praça e os arredores.

Diversos aspectos da medina, Meknès

Há trabalhos em madeira surpreendentes mesmo no exterior
À tarde, atravessámos a avenida e fomos a caminho de Dar Kebira, a zona histórica da cidade também envolvida por muralhas.
Entrámos pela lateral da Bab Mansour, para a praça ampla Lalla Ouda onde observámos um carro possivelmente da Google a filmar em redor daquele espaço.
Praça Lalla Ouda
Qualquer dia, há mapas detalhados das medinas e já não nos conseguimos perder…
Enganamo-nos e tivemos de voltar para trás após uma tentativa de entrar na zona antiga.
Já não falhamos a Bab Filala e acabamos por desembocar em Habs Qara.
É uma prisão subterrânea cujo projecto foi encomendado pelo sultão Moulay Ismail, o mesmo que consagrou Meknès como capital.
Terá sido um português a realizar a obra, que havia de albergar milhares de prisioneiros.
A dimensão embora vasta, onde se multiplicam colunas, abóbadas e respiradores, não deixa de surpreender imaginando que estiveram ali milhares de pessoas, com luz escassa e ar rarefeito…
Notam-se os respiradores ao fundo, no telhado da prisão subterrânea Habs Qara  
O espaço esta vazio e dispõe de algumas luzes e reentrâncias sem função.
Notam-se os respiradores no tecto, sente-se alguma humidade e pareceu-me haver um leve odor a bafio.
Não houve, como de costume, qualquer acompanhamento, literatura ou informação histórica sobre o sítio.

Próximo, fica o mausoléu daquele sultão fundador da dinastia alauita que transformou a cidade num estilo hispano-árabe que ainda hoje evidencia.
Logo a seguir, ficam os muros esguios do palácio real, que levam às ruínas dos imensos estábulos construídos no reinado de Moulay Ismail.
Porta de acesso ao Mausoléu de Moulay Ismail
Ao longo dos muros / muralhas do palácio real em Meknès
Não entramos neste complexo que também incluía um enorme celeiro, mas andamos em redor do lago Agdal, um imenso reservatório de água destinado a irrigar os jardins vizinhos.
Naquele dia, alguém alimentava os peixes com pão, enquanto os patos iam aproveitando a fartura de peixes…


Homenagem à água, junto ao lago Agdal
Lago Agdal
Saímos por uma zona residencial, calma, moderna, uma espécie de bairro mais parecido com os nossos.
Pouco depois, voltamos a andar junto das muralhas.
Quando chegamos à avenida principal as muralhas continuavam.
Até à praça El Hedin.

Saímos pela Bab En Nouar e acabamos o dia a beber chá numa das esplanadas da praça Hedin, observando a preparação da dinâmica da noite que a tarde já fazia adivinhar.
As cobras e os acrobatas já tinham chegado.
Já se jogava para ganhar um refrigerante. 
Dois “grand táxi” depois e chegamos ao hotel onde já não eramos o único grupo de motociclistas presente no jantar.
À saída do hotel Menzeh Dalia, Meknès
Da cidade, fica a memória das extensas muralhas, da lindíssima Bab Mansour, da cosmopolita praça Hedin, da tenebrosa prisão Qara, dos altos muros do palácio do rei e do lago/reservatório onde os patos não passam fome.

LIGAÇÃO A MARRAQUEXE: AUTO-ESTRADA E PRAIA

Até Marraquexe são cerca de 470 quilómetros. Tudo em auto-estrada.
O trajecto é plano e monótono. Há muito trânsito na proximidade de Rabat, quando surge uma “nacional” de ligação, e perto de Casablanca, onde os 3 milhões de habitantes enxameiam os arredores.
Por isso, fizemos uma paragem em Mohamedia, na Zimmer Beach, um complexo turístico junto à praia., onde ainda trocamos algumas palavras com um casal português e um filho residentes em Marrocos.
Almoço na Zimmerbeach, Mohamedia
Almoçamos peixe junto de uma piscina em recuperação, com uma temperatura excelente, um sol radioso e uma paisagem de praia e mar soberba.
Ainda encontramos um grupo de motociclistas portugueses na auto-estrada Estes dispunham de motos de estrada. Saiam da portagem praticamente quando nós estávamos a chegar.
O sumo de laranja na praça Fna...
...os vidros e 

...aquela confusão que vai até aos fios.
Entramos em Marraquexe ao final da tarde pelo “palmeiral”, uma espécie de cintura ecológica formada por palmeiras que também abriga uma das zonas mais caras da cidade.
Ficamos alojados no já nosso conhecido El Andalous, um hotel de 4 estrelas que dista cerca de 15 minutos a pé da praça Fna.
À procura dos dirhams à porta do hotel
A noite não acabaria sem que alguns dessem um passeio pedestre até à famosa praça que bordeja a medina de Marraquexe. Estava animada. Prometemos lá voltar daí a quatro dias.
Apanhamos uma caleche e regressamos ao hotel ainda cedo.
Afinal, sempre estavamos com quase 500 quilómetros em cima e ainda não tínhamos feito a parte "in" da zona.
No dia seguinte, havia que trepar o Atlas.
Á saída do Al Andalous, Marraquexe

ATRAVÉS DO ATLAS ATÉ OUARZAZATE 

Estacionamento junto ao casbá Taourirt, Ouarzazate
Há dois anos, o piso pareceu-me melhor.
A estrada que sobe o Atlas está bera e continua a ter um tráfego de camiões que obriga a fazer alguns troços a velocidades que envergonham um ciclista.
Embalar é mesmo coisa árdua, a não ser que a subida seja feita com um ritmo mais vivo, mas que também pode afastar-nos uns dos outros.
Estamos a passear no estrangeiro, numa estrada com mau piso, mal conhecida. É para andar “piano”.
E para chegar inteiro ao famoso Tizi N'Tichka, um dos passos do Atlas, já cerca dos 2200 metros de altitude.
Lá estavam os habituais vendedores de artesanato, lá estacionamos próximo da indicação da altitude, lá bebemos o chá da praxe.
Almoço em Ouarzazate
Para baixo, os santos já estavam mais atentos, e quer o piso quer o trânsito melhoraram.
Entramos em Ouarzazate por uma nova rotunda alusiva aos estúdios Atlas que ali próximo já foram cenário de muitos filmes.
Atravessámos a avenida principal até à zona do casbá Taourirt próximo do qual almoçamos.
Desta vez, aproveitamos a vista panorâmica de um dos restaurantes de cujo terraço se domina a parte central de Ouarzazate e permite perceber a mancha rosada que constituiu a parte edificada desta cidade recente.

PELO VALE DO DRAA


Em estrada, a novidade ia começar a partir daqui.
Até Agdz, localidade que faz a ligação com a zona do Erg Chebbi, com Zagora e com Agadir, é a montanha que domina.
O terreno já há muito que se enrolou. As montanhas torcem-se como papéis amachucados, pintando a paisagem de uma variedade incomum de castanhos.
Não fosse o aparecimento de um ou outro oásis, à beira de um ribeiro minúsculo ou a envolver uma pequena localidade, pareceria estarmos fora do planeta.
O cenário aqui não é muito diferente da paisagem marciana.
É comparar e descobrir qual é onde.
Não é difícil distinguir: se aparecer alguém a vender caixas de tâmaras, é porque se trata de Marrocos.
A paisagem é relativamente homogénea de Ouarzazate a Agdz.
Até aqui é a rocha que domina.
Entre Ouarzazate e Agdz. Além do asfalto, daqui não se via outra coisa que não fosse pedra. 
Depois, porém, surge uma imensa e comprida mancha verde que percorre todo o vale do Draa e leva até Zagora.
É um palmeiral infindável que acompanha os cerca de 70 quilómetros de ligam Agdz a Zagora.
Nota-se ser uma zona mais pobre, com muitas habitações em ruínas, incluindo pequenos ksour (castelos) e kasbás (cidadela defendida por muralhas).
Porém, ao contrário de outras regiões, como seja a que fica entre Agdz e Agadir, há muitas aldeias ao longo do vale, algumas envolvidas pelo palmeiral.
Pena é que as edificações antigas mais atraentes e mesmo as ruínas mais majestosas obrigassem a entrar na terra e a fazer trajectos susceptíveis de furarmos.
Por isso, ficamos pela paisagem, aproveitando um ou outro sítio mais representativo para pararmos, descansarmos e observarmos as diferentes paisagens ecológicas da região.
E para cevar a dinâmica dos miúdos, também.

ZAGORA
ENTRE O PALMEIRAL E O DESERTO

Estreamos Zagora com um pé no "Palais" e outro no "Kasbah".
São ambos hotéis Asmaa, mas onde havia vaga era mesmo no mais fraquito.
Era um três estrelas de deserto, arquitectonicamente atraente, enfiado em pleno palmeiral, com condições suficientes para lá passarmos duas noites.
Se a temperatura estivesse mais alta, a piscina era capaz de ter feito jeito.
E uma garagem também.
A poeirada andava sem rédea no ar, sobretudo ao fim da tarde do dia seguinte.
Deixou tudo o que era fechadura com um manto acastanhado pouco recomendável.
A tampa do depósito de gasolina da minha moto – que já não abria muito bem desde Portugal – passou a necessitar de uma ponta de canivete sempre que precisava de a abrir para abastecer. O pó entrou mesmo na parte lateral do bocal do depósito de gasolina…
Saída matutina do Kasbah Asmaa
Saímos de Zagora para Tamegroute, a acerca de 30 quilómetros.
Íamos à procura do deserto, de uma medina coberta e de uma biblioteca do século XVII com manuscritos do século XIV.
A caminho, passamos por um ksar, rodeado por areia e com uma duna perto.
Mas o acesso era em terra batida e até lá a areia devia aparecer.
Continuamos e na primeira rotunda em Tamegroute encontramos de imediato um guia que se propus orientar-nos pela biblioteca, pela medina e pelas lojas da povoação.

Entrada do Palais Asmaa
Marcamos encontro por ali, mas seguimos na direcção de M'Hamid.
Havia souk (mercado) naquela manhã.
Era o chamamento do deserto.
M'Hamid é por assim dizer uma das portas do Saara, uma espécie de Merzouga mas na região do Souss-Massa-Draâ.
Noites serenas no Kasbah Asmaa
Pouco depois, logo a seguir ao único desvio existente no caminho, ainda vislumbramos um torvelinho que andava perdido a cerca de 500 metros da nossa rota. Ficou por lá.
Poucos quilómetros depois, a estrada de asfalto estava em obras, logo após a ponte sobre o rio Draa.
O lugar coincidia com o fim do palmeiral.
As obras continuavam a perder de vista.
Havia muita pedra solta e as faixas de rodagem estreitaram até ficar apenas uma.
A maioria continuou, mas eu dei meia-volta com o João.
Escolhemos mal. Aqui ainda havia vegetação...
Estavamos a cerca de 60 quilómetros de M'Hamid.
Parámos pouco depois, mandei uma mensagem a dizer que a coisa podia sair “furada” e estivemos um bocado no meio do nada entre areia e alguns arbustos.
Daí a pouco, a decisão foi unânime e os restantes voltaram também para trás. As obras vedavam o acesso das Pans ao deserto.

Não se nota, mas lá ao fundo a areia anda pelo ar como nuvem de gafanhotos
Regressamos a Tamegroute para reencontrar o guia e os gardiens das motos.
Deixá-mo-las à sombra, acompanhamos o guia e entramos no marabut de Tamagroute, uma espécie de espaço de recuperação espírito-sanitária onde se juntavam doentes na esperança de receberem as graças do santo.
A biblioteca era do século XX com estantes em alumínio, mas os manuscritos certamente mais antigos. Percebi que um Corão seria do século XI.
A única cadeira de rodas que vi em Marrocos pertencia a um dos guias da biblioteca, o mais velho.
Aquecia. Continuamos para a medina. As primeiras vielas já estavam cobertas, principalmente com canas e palmas, tornando o caminho escuro, mas mais fresco.
No interior da medina, Tamegroute
Deambulamos pelo labirinto, passámos pela forja e por bandos de crianças.
Até que o guia, Abdul, nos levou até à sua casa.
Entrava-se por uma escada estreita que se abria num primeiro piso para uma pequena sala, para a cozinha e para um quarto.
Estava uma tajine ao lume, mas aparentemente a casa estava vazia de gente.
Um piso acima, no terraço, ficava o redil, onde uma cabra enfezada esperava o destino.
Saímos e continuamos para a zona de olarias, onde os oleiros estavam “enterrados” até à cintura e o girar do barro se fez com os pés frescos…
A seguir, estavam os fornos. É difícil imaginar o calor que, no Verão, não estará ali, mesmo tratando-se de um espaço aberto.
Acabámos numa loja que vendia os produtos ali manufacturados.
O oleiro trabalha meio enterrado
A seguir, ficamos por uma tenda enorme onde almoçamos.
Talvez fosse mesmo o único albergue da aldeia.
Foi aí que nos disseram estar em obras a estrada de montanha logo a seguir a Agdz, que teríamos de ter atenção à estrada uma vez que também tinha uns “fundões” de vez em quando.
Se para estes já vínhamos a ser avisados desde Tetouan. Para tanta obra é que não estávamos preparados.
Uma cozinha numa casa da medina
A tarde foi passada em Zagora, uma cidade com uma avenida principal extensa mas sem grandes pontos de interesse.
Antes de anoitecer o céu turvou-se. Uma nuvem de poeira passou a rasar a copa das palmeiras e a dar um ambiente amarelado a uma espécie de pôr-do-sol que não tinha existido.
No dia seguinte, vimos o efeito da tempestade de areia.
Era mais terra e estava enfiada em tudo o que era fechadura ou estava oleado.
Terminamos a tarde a recordar em imagens o passeio de Marrocos de há dois anos, salvo erro.
Ficou o passeio pela medina de Tamegroute, pela biblioteca, pela casa do guia, a compra de um colar a um artífice local, e claro, a poeirada que nos acompanhou de manhã e a revoada do fim da tarde.

DE ZAGORA A AGADIR
ENTRE OBRAS E AO LONGO DO SOPÉ DO ATLAS

Já sabíamos. Esta devia ser a etapa mais longa em estrada nacional e a mais penosa.
Mas em Tamegroute avisaram-nos: há obras na montanha.
Com efeito, na zona mais alta do trajecto, o asfalto desaparecera.
Passamos a andar sobre terra batida e pedras.
Em vez de terem escolhido uma das faixas para recuperar e a outra para permitir a passagem, arrasaram as duas.
Foi assim durante cerca de 20 quilómetros. Daqui a uns anos, aquele troço deve ser interessante.
Com piso novo, no meio de uma zona acidentada com montes de formas caprichosas, é capaz de ser um belo terreno para andar de moto.
Agora, porém, não passava de uma chacina de pneus, sob os quais resvalavam calhaus que saltavam como pipocas.
Até o regresso da estrada nacional bera se revelou tranquilo. Mas o piso não perdoava. Por isso, fizemos uma paragem "técnica" em Tazenakht.
À sombra em Tazenakht
Almoçamos numa tenda gigante à entrada de Taliouine.
Tínhamos feito 250 quilómetros durante a manhã.
Nada mau, para um piso daqueleS.
Talvez se perceba no vídeo que aquele chão é para cabras, não para motos de estrada...
A refeição foi à vista do ksar que tem o mesmo nome da localidade.
Estavamos num restaurante que também tinha quartos e dispunha de alguns metros quadrados para guardar animais, uma piscina em recuperação e umas quantas árvores de fruta.
A temperatura estava catita para andar de moto.
Almoçar à vista do ksar Taliouine
Cento e poucos quilómetros depois, paramos em Taroudant, uma cidade muralhada que dista pouco mais de 70 quilómetros de Agadir.
Entramos num hotel que ficava dentro das muralhas e ocupamos o jardim junto da piscina para beber uma Coca Cola, repondo açucares e recuperando os músculos mais doridos dos últimos quilómetros em estrada nacional.
Um copo algures em Taroudant
Preparávamos a entrada em Agadir. Até lá, vai uma via rápida que liga alguns "domaines" de produção frutícola e em cujas bermas pastam rebanhos de cabras ou pedalam em bando centenas de crianças.
Chegamos ao hotel Garden Beach ao fim da tarde e assistimos a um pôr-do-sol admirável.
À noite, à laia de reconhecimento, fizemos a digestão ao longo do passeio marítimo que ficava logo abaixo do complexo.
O monte da antiga casbá ao por do sol., Agadir
De manhã, reunímo-nos numa casa de câmbios, trocamos dinheiro e entramos na loja ao lado para procedemos à transferência do valor da reserva para o nosso guia habitual em Marrocos.
Ficamos a saber que o espírito motociclístico está ali a despontar.
O empregado da Wafacash tinha uma YZF, mas já tinha andado fora de estrada na montanha com essa moto de estrada e preparava-se para fazer meio milhar de quilómetros para participar numa concentração em homenagem a um motociclista falecido por acidente. Saiu do guichet só para trocar dois dedos de conversa sobre motos…
Vista de Agadir desde a ruína do casbá
A manhã foi dedicada a visitar a antiga casbá, no cimo do monte que domina a cidade a norte.
O terramoto de 60 destruiu-a, tal como metade da cidade que perdeu cerca de 20 mil pessoas.
A ruína, como a palavra indica, está muito degradada. Parece que apenas os palácios são conservados com uma bitola próxima da europeia.
Almoçamos no passeio marítimo, um espaço muito Europa do sul, onde o peixe reinou.
À tarde, deambulamos pela medina Coco Polizzi, uma edificação que reproduz de forma estilizada uma medina marroquina.
Junta a concepção do arquitecto italiano com a organização do espaço das medinas marroquinas.
Cores, materiais, espaços, dimensões, articulam-se de uma maneira harmónica.
Os 10dh de entrada valem a pena. 
Foi desenhada no início da década de 90 pelo arquitecto italiano Polizzi, nascido em Rabat, e dispõe de muitas lojas onde os artesãos, desde sapateiros a ourives, fabricam as suas peças à vista dos visitantes.
É um espaço nobre, muito atraente, pensado ao detalhe, com cantos e recantos simpáticos.
Porém, está longe da zona mais movimentada.
Foi construída em terrenos relativamente áridos, com mau acesso viário e pedestre.
Seria improvável apanhar um taxi por ali.
Felizmente, os nosso esperaram que visitassemos o complexo. 
Passamos o fim da tarde na marina de Agadir, que passa pelo padrão europeu, com esplanadas, lojas de moda e restaurantes.
A arquitectura é semelhante à de outras tantas marinas do Mediterrâneo.
E a de Vilamoura ou a de Lagos não são muito diferentes.
Está encostada ao enorme porto de pesca da cidade que é o maior exportador mundial de sardinha.  
Vista parcial da marina, Agadir

MARRAQUEXE, DE NOVO, PELO NOVO

São apenas 250 quilómetros que separam Agadir de Marraquexe.
parámos para beber um café numa área de serviço e, antes de almoço estávamos de novo à porta do hotel Al Andalous.
Almoçamos ao ar livre junto da piscina e saímos a pé.

Passamos pelo La Mamounia, um dos hotéis mais famosos e mais caros da cidade, que está a meio caminho entre o Al Andalous e a praça Fna.
Percorremos uma zona comercial e residencial onde algumas surpreendiam pela criatividade. 
Depois, desviamos para o palácio Badi.
Trata-se de uma ruína que dá ideia da grande dimensão do original.
No interior, numa sala fresquinha e bem iluminada, a exposição de um fotógrafo de guerra ilustrava diversos conflitos mundiais.

Duas perspectivas das ruínas do palácio Badi
Saímos a caminho dos Túmulos Saadis mas, tal como o palácio Badi, aquele também fechava às 5 menos um quarto…
Ficamos por ali, observando uma ou outra loja que para nós já são montra do passado, como seja o funileiro ou a drogaria, ou outras mais exóticas, como a dos fósseis ou do artesanato africano.
Depois, fomos direitos à Fna.
Estava muita gente, mesmo para aquele hora, a caminho do fim da tarde.
Não tardamos a enfiar pelas vielas principais da medina.
Conforme íamos andando as ruas mostravam produtos e objectos organizados por tema.
Ora eram as especiarias, ora cerâmica. ora antiguidades, ora cestaria.

Apesar de já as conhecermos, parece que aquela canseira de objectos não fadiga. 
Talvez por o assédio da compra ser escasso nesta zona os possamos olhar com mais tranquilidade.
Saímos de lá uma hora depois.
Infelizmente não nos perdemos.

Combinamos jantar na varanda de um dos restaurantes que ladeiam a praça.
Não foi fácil encontrar lugar vago.
Estava muita gente na praça, nos restaurantes, a espreitar desde as varandas.
Apesar de estarmos na semana a seguir à Páscoa, Marraquexe estava pejada de turistas.
É verdade que na Europa, nem todos passam férias antes da Páscoa...
E a animação correspondia a essa dinâmica.
Além dos vendedores de levante, lá estavam os diversos grupos que dançam, cantam, jogam, fazem teatro.
As pequenas lanternas continuavam a enxamear o chão e a contribuir para criar uma atmosfera de magia dificilmente conseguida em qualquer centro histórico de uma cidade europeia.
O tempo colaborava. Quase não havia vento.

MARRAQUEXE / CEUTA
A ULTIMA ETAPA EM SOLO DE MARROQUINO

Amanheceu fresco.
Esta foi a etapa mais longa em Marrocos por auto-estrada, 640 kms.
Também a mais monótona, não fosse a parte final com o atravessar dos montes próximos de Ceuta e aquela sensação de borboleta que o vento forte da zona impõe.
Almoçamos na área de serviço de Bouznika, logo após termos parado a seguir a uma portagem onde estava um grupo de portugueses com motos TT à volta de uma delas que, segundo nos disseram, tinha um problema grave.

Animada esta gente, na avenida principal de Ceuta.
Ceuta surgiu por volta das seis da tarde.
Atestámos em Fnideq para gastar os últimos dirhams e percorremos a marginal que liga a localidade a Ceuta.
A passagem na fronteira, apinhada de gente e de angariadores, foi rápida.
De carro, a coisa tinha dado para o triplo do tempo.
Preenchemos os papéis individuais de saída, entregamos os passaportes e os papéis da moto.
Esperamos pelo carimbo no passaporte e pela aferição do documento da moto.
Um quarto de hora depois, estavamos no último controlo fronteiriço marroquino.
E, além do passaporte, o polícia devolveu-me uma esfuziante informação: “o Benfica ganhou 2 a 1 em Itália!”.
Já tínhamos notado que os marroquinos estão muito adictos ao futebol. Em Tanger, havia muitos cartazes a anunciarem que alguns espaços transmitiam o desafio entre o Real Madrid e o Barcelona em ecrã gigante.
Plaza de los Reyes, Ceuta
O escudo de armas de Ceuta, um testemunho da nossa história
Estacionamos as motos no parking do Parador, a tempo de tomar uma banho, descer, beber um Gin tónico musculado e sair para o assador que fica na zona pedestre.
Exceptuando as Muralhas Reais, no centro da cidade, ainda não foi desta que visitamos as diversas fortalezas de que Ceuta dispõe.
Jantamos bem, em jeito de tirar a barriga de misérias.
Uma alegria a coincidir com o fim de festa.

BEQUE OUME

Nascer do dia em Ceuta
Apanhamos o barco das 9 da manhã.
Não estava muita gente, como é habitual.
Uma hora depois, estavamos a sair em Algeciras.
Paramos na primeira área de serviço da autovia para Jerez de La Frontera e despedimo-nos.
Fomos ficando pelo Algarve por Lisboa, Coimbra e Aveiro.
Nós, três áreas de serviço depois e depois de nos separarmos do João, chegávamos a casa no final da tarde.
Última foto da viagem na área de serviço de Palmela

POR LÁ

Desta vez, a logística foi facilitada pelo diminuto número de participantes.
Tomávamos refeições rapidamente, continuamos a ter desconto no ferry por ser um grupo “organizado”, despachamos a fronteira num instante, trocamos dinheiro rapidamente, reabastecíamos em dez minutos, a entrada nas cidades era mais simples, as motos estacionavam mais próximo uma das outras, dividíamos o grupo por dois táxis.
Nos hotéis não foi preciso fazer registo, pelo que bastou entregar uma folha com os dados dos participantes aposto o numero de entrada em Marrocos.
Ninguém se perdeu ou ficou sozinho durante muito tempo. Um susto ou outro. Algumas surpresas boas e outras nem tanto, mas tudo dentro do previsível em Marrocos.
Os bilhetes da travessia Ceuta-Algeciras
Os preços estão mais altos. O crescimento económico faz destas coisas.
Também há mais tráfego, mesmo na estrada. Há mais camiões e até meia dúzia de motos com matrícula marroquina.
E também mais carros, de todas as marcas, incluindo Mercedes, embora não se vejam tantos BMW’s como em Portugal.
A frota de “petit taxis" foi praticamente toda renovada, agora com muito material Renault.
E também há muitas casas, muitas delas ainda devolutas. Faz lembrar um país que com um perfil semelhante anda entroikado até às orelhas.
Parece no entanto que é o estado (por mão do rei) que está a assumir os empréstimos, pelo que a banca pode não vir a arrogar o protagonismo que por cá vingou.  
A gasolina subiu 3 cêntimos em dois anos, ou seja, cerca de 30%. O preço dos hotéis também subiu cerca de 20%. O sumo de laranja na Fna já vai em 4 cêntimos, mais 30% face há dois anos.
A discussão dos preços e o valor aparentemente insano do primeiro preço pedido mantém saudável o contacto entre os forasteiros e vendedores.
Os miúdos andam em bandos ao sair da escola.
E vão todos de bicicleta.
Mas só elas têm bata.
A polícia continua a estar à entrada das povoações.
Em alguns locais dispõe de dispositivos anti-fuga.
Os condutores marroquinos encostam e quase param nesses controlos.
Felizmente, a políca também “fecha” os olhos às secantes aos traços contínuos, essas linhas infinitas que se dão tão mal com os estrangeiros…
O famigerado documento de importação temporária de veículos
Vêem-se mais “seguranças” nas grandes cidades, mas nem por isso se nota mais insegurança.
A manutenção continua a ser algo com que os marroquinos lidam de uma maneira particular.
As estradas podiam ter um piso melhor se a maioria das obras não contemplasse apenas poucos quilómetros.
A circulação viária na estrada continua a ser lenta e nas cidades mantém-se o salve-se quem puder habitual.
A higiene também parece que não sofreu alterações.
As toalhas costumam ditar o padrão de limpeza e raramente mereceram nota positiva.
Desta vez, visitamos mais. Mas nem por isso sentimos que o que é mostrado tem sido valorizado ou interessa ser divulgado, muito menos “vendido”.
Almoço de grupo
Os preços das comunicações móveis são assustadores. Embora Marrocos esteja mais próximo de Portugal do que de França, o custo das chamadas por telemóvel atingem facilmente os dois dígitos.
A moda de reconhecimento dos portugueses chega a ser irritante, já que os vendedores, especialmente os de Zagora, repetem até à exaustão a eloquente expressão: "...se queres, queres! Se não queres, não queres"...

Apesar de o nível de vida estar mais caro, de haver muitas obras, mais carros, mais prédios, que estão a transformar o ambiente marroquino, a temperatura do ar, a simpatia das pessoas, as paisagens diferenciadas, o aumento da rede viária, a saborosa gastronomia, são aspectos que continuam a deixar uma estrada aberta para quem queira descobrir ou voltar ao Magrebe.

link para o passeio em vídeo       MARROCOS 2014 - VÍDEO






terça-feira, 1 de abril de 2014

Lisboa Típica de Moto


Último fim de semana de Março. Passeio organizado pelo Clube Pan European de Portugal. Destino: Lisboa. Alvos: bairros típicos e o Fado. Um dos protagonistas foi Alfama, mas também o foram a Sé, a Graça, quase o Castelo. Andámos por onde os eléctricos trepam e os Tuk-Tuk soluçam. Saímos do Sana Malhoa sob um sol tímido mas que se iria revelar bem acolhedor. Espreitamos o rio desde o cimo do Eduardo VII e descemos a Liberdade numa serena e compacta caravana. Atravessámos a Baixa e metemos pela Sé até ao miradouro das Portas do Sol.
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Guiados por um Tuk-Tuk, escalamos a Graça até ao miradouro da Senhora do Monte. À boleia do triciclo cruzamos a feira da Ladra como se fosse uma Jemna Al Fna. Descemos ao Panteão e penetramos na ‘medina’, em cruzada ao longo das escadinhas, dos becos e das vielas, uns atrás dos outros, que nem índios. Buscávamos outro património, o Fado. Desembocamos no museu do Fado, no largo do Chafariz de Dentro, em busca dessa tipicidade, deste património imaterial da humanidade. E fomos num périplo pela “Severa”, de Malhoa, pelas guitarras portuguesas, pelos discos de vinil, pelos painéis dos fadistas e dos músicos, pelos ambientes lisboetas do fado. A tarde também foi pelo centro da capital e a noite pelo Fado.
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No domingo, voltaram as motos e o périplo envolveu o Restelo e a “marginal” até ao Guincho. Apesar de o rio estar relativamente sereno, caía chuva ora miudinha ora mais frenética, acompanhada de vez em quando com umas rajadas de um vento que se tinha envergonhado no dia anterior. Só no Cabo da Roca o tempo deu tréguas e podemos posar no tal sítio mais ocidental da Europa. Na Praia das Maças, já o sol espreitava por entre as nuvens sombrias que agora telhavam a serra de Sintra. O Passeio de Lisboa acabou em Ribamar já a meio da tarde. 
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Música: Future World Music, Welcome to your Fantasy

domingo, 23 de março de 2014

Passeio na Quinta de Pisão

Andei por ali há anos. Entrava-se à esquerda, por uma estrada de terra, logo a seguir à descida na ´'curva da Lagoa Azul. A tal curva rápida que, nos bons tempos do Rali de Portugal, juntava milhares de pessoas, dispostas a vibrar com a perícia e as peripécias dos pilotos. Cheguei a entrar por ali perto, de moto - com um modelo 'único' de cross, uma CZ 250, 'transformada' - passar o bosque, romper um prado imenso e enfiar por uma descida entre árvores dispersas. Não estava sozinho. Ia com mais uma ou duas motos.
Na altura não achei muita graça, sobretudo porque, além de não saber para onde ia, desconhecendo se aqueles trilhos tinham outra saída, comecei a ver alguns rostos, ainda assim tímidos, a espreitar por trás das árvores.  Eles, os que espreitavam, não estavam mais tranquilos do que eu/nós. Viemos a saber que, ali perto, exactamente por onde saímos, havia um hospício... Desta vez, não fomos por aí.
Deixámos o carro num pequeno parque junto da entrada, exactamente do lado contrário ao desvio para a barragem do Rio da Mula, e que não comporta mais de uma dezena de viaturas. Optámos por seguir pelo trilho do lado esquerdo, a subir ligeiramente.
A tranquilidade é nota dominante, acompanhada por tons bucólicos e pelo chirriar dos pássaros. A luz e a claridade são ímpares sobretudo nos prados, e devem contribuir para a definição/contraste do ambiente. Praticamente sempre com a serra no horizonte, é nas zonas abertas que as cores sobressaem, que a luz preenche o espaço, que a claridade inunda os olhos.
Avançámos ao longo de um riacho, passámos por um pequeno prado e começamos a trepar por entre as árvores altas e esguias de um bosque, sob a vigilância sinistra de uma figueira seca. A humidade aumentou e a luz esmoreceu. Logo a seguir, porém, no cimo da vereda, a claridade despontou sobre um prado onde passeavam alguns burros lanudos limitados por uma cerca baixa, mas electrificada... Em fundo, o céu estava pintado de um azul sereno imensamente luminoso.
Apetecia andar. À frente, o horizonte visual estendia-se ainda mais. Depois da vegetação que parecia limitar o espaço a sul, viam-se já algumas moradias da cintura de Cascais / Estoril. Passamos uma pequena ruína que estava destinada a guardar equídeos, que se  descobriam, mais ao fundo, próximo de uma lagoa. Perto da ruína havia duas ou três mesas de picnic e em redor mais prado, verde, imenso, ondulado.
Mas foi a lagoa que nos atraiu, circundada por um grupo de árvores e envolta pelo céu azul e pela serra verde. Vizinha do pasto, dava de beber a meia dúzia de cavalos que se enterravam na lama até aos artelhos... num cenário que parecia idílico. Deviam ter ali uns bancos para se saborear aquele cenário de uma maneira mais confortável.
Havia muita lama onde apenas a terra dominava. Nos trilhos mais pedregosos andava-se calmamente. Todavia, as chuvadas dos últimos dias haviam deixado por terra alguns obstáculos que era preciso ultrapassar com mais ou menos empenho. Nada porém que não se pudesse saltar.
Um dos locais mais emblemáticos do percurso é a eira, enorme, "esculpida" sobre uma rocha agora irrepreensivelmente lisa. Uma pequena casa em ruínas e um curioso forno preenchiam um espaço muito agradável onde não faltava um par de bancos, estes sim, dispostos para podermos desfrutar de um panorama ímpar sobre a serra, sobre os prados e sobre o mar de Cascais.
Dali, onde uma quantidade de trilhos se juntam, optámos por seguir pelo caminho mais elevado que circundava uma colina. Transpusemos um tronco que estava atravessado e avançamos ora para chão seco, ora para passagens estreitas à beira de umas poças de água valentes.
A meio caminho, descobrimos uma ermida no vale escondida entre o arvoredo, a capela de Nossa senhora da Conceição de Porto Côvo. Dizem que há ali uma gruta. Ficou para a próxima. Desta feita, continuaríamos a observar a serra em fundo e os raios solares filtrados pelas folhas dos muitos arbustos que marginavam o caminho e que lhe iam dando tons encarniçados.
Mais à frente, encontramos um pai e dois filhos que estavam relativamente perdidos. Vinham em sentido contrário e diziam que não haviam encontrado saída... porque não tinham descoberto o fim do trilho. Não estavam propriamente vestidos para aqueles terrenos mas, que remédio, conseguiram ultrapassar alguns lamaçais com  peúgas brancas e sapatinhos rasos.
Assumimos a peritagem do itinerário e lideramos a descoberta e a aventura, assegurando que iríamos na direcção dos burros lanudos. Fizemos o resto do percurso juntos e, cerca de 15 minutos depois, estavamos a passar novamente pela figueira seca e a acompanhar o riacho que ficava já perto da estrada e da saída.
No final, ao entardecer, ainda nos chamaram a atenção para duas mãos cheias de gelo, acumulado num dos recortes do riacho. O dia esteve fresquito, apesar da claridade e do sol ter brilhado durante muito tempo. Mas a verdade é que também haviam estado 8 graus ao meio-dia...  
Prometemos lá voltar. Quando o tempo estiver mais quente e a lama mais seca. A cor do céu, da terra, dos lagos, das árvores, a lassidão dos asininos, a tranquilidade dos cavalos e o piar dos pássaros, podem estar como hoje. Perfeitas.

Música: Craig Chaquico, The Drifter

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sábado, 22 de março de 2014

Casa da CERCA, Almada


Lisboa domina a paisagem. Com o Tejo aos pés, é o casario da capital que nos fica nos olhos. Com o sol a iluminar os alvos lisboetas e o rio a oferecer um forte contrate de brilho azulado, o olhar vai de Cascais ao Terreiro do Paço. 
A vista pode fixar-se durante um instante na ponte sobre o Tejo, no zimbório do Panteão ou nas torres da Sé. Mas é o conjunto dos detalhes que fazem perder a vista do outro lado do rio, uma paisagem que se vê desde o jardim-miradouro da Casa de Cerca. Lisboa, vista dali, é também uma obra de arte. 
Actualmente, a Casa da Cerca é um centro de arte contemporânea situado na Almada velha. Está ali há mais de 20 anos, encerra mais de uma centena de obras de três dezenas de artistas, entre Pintura, Escultura, Fotografia, Gravura, e entre outras produções artísticas, mercê de algumas aquisições mas sobretudo doações.
É pena a colecção artística não estar disponível para visita. Apenas o acervo literário parecia estar. Pelo menos, uma pequena dependência plena de estantes com livros estava acessível. A Casa faz exposições temática periódicas, mas é a diversidade do espaço que surpreende.
Dispõe de um jardim botânico, de uma estufa, de um herbário, de uma mata, de um pomar, de quatro jardins, de um anfiteatro exterior, e ainda de uma pequena capela, cujo tecto veio da Quinta do Pombal, da família Teotónio Pereira, que também já havia sido proprietária deste espaço.
A arte respira-se quer no espaço da recepção, quer nas esculturas dos jardins, quer no interior da capela, onde se destaca a azulejaria setecentista, de desenho figurativo com temas religiosos.
Originalmente edificada como solar típico dos séculos 17/18, a casa foi morada de Junot, durante as invasões francesas, e serviu como dependência do hospital de Almada a seguir ao 25 d Abril. Só 14 anos depois passou para a alçada da Câmara Municipal de Almada.
O edifício, bem como os jardins, tem ainda vestígios dos ambientes barrocos e românticos, sendo a casa considerada um ex-libris da arquitectura civil setecentista da cidade. No exterior, uma extensa galeria junto à falésia - intitulada Passeio das Damas - protegida por um muro, abre janelas a espaços, ladeadas por bancos, de onde a vista alcança desde o farol da Guia em Cascais, ao cais das Colunas em Lisboa. 
Sob a falésia, o Jardim do Rio estende-se pelo Cais do Ginjal, estando acessível desde o elevador panorâmico, situado do lado da Casa da Cerca. É um pedaço verde, tranquilo e fresco, de onde Lisboa parece estar aos pés.

Música: Focus Music, Hero's Theme

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

CABO DA MOTA

  

O sítio leva lá muita gente. Não é o mais próximo da América, nem o mais longe da Europa. Mas é local de romagem, de excursão. Quer de autocarro, quer de moto. 



Já lá fomos todos, de moto. A memória está próxima, pertíssimo da actualidade. Mesmo assim, já lá vão uns anos desde o início da iniciativa. Se recuarmos vinte, somos capazes de já perceber o peso dos anos. Porém, julgo que também sentiremos a leveza do argumento. 


No início, os extremos não se tocavam. As motos eram dos ricos e as motorizadas dos pobres. Lentamente, o universo motociclístico português foi perdendo essa dicotomia de classe. 



Apesar dos limites de importação e do preço desses “artigos de luxo”, o poder aquisitivo foi aumentando. Os modelos do início dos anos 70 foram sendo substituídos e, em meados dos 80, o mundo das motos estava recreado. O começo dos anos 90 assistia aos primórdios do “boom” motociclístico que se estenderia quase até ao final do século.


No final dos anos 70, na região de Lisboa, o espaço motociclístico começava a ser exíguo. Muitos haviam formado pequenos grupos e esses grupos haviam encontrado meia dúzia de sítios para "parar".



Depois de Cascais, que levava gente da linha de Sintra e de Lisboa, da ascensão e queda da “Mexicana”, que passara a juntar Lisboa e arredores, das corridas de moto no autódromo do Estoril e em alguns circuitos urbanos, e da súbita “Vela Latina”, o Cabo da Roca tornou-se no caso mais sério e perene de reunião de milhares de motociclistas sobretudo da Grande Lisboa mas também da Margem Sul.


A iniciativa do MC de Sintra começou a levar à “Roca” uma romaria cada vez maior de motociclistas. 


Todos os domingos de manhã as motos enxameavam as estradas de Sintra e do Guincho a caminho do local “mais ocidental” da Europa. A pretexto de uma “volta”, bebia-se qualquer coisa, trocavam-se impressões sobre os últimos modelos, combinavam-se viagens.

Nesta altura, viam-se muitas CBRs, GXRs, Ténérés e Africa Twins, embora também aparecessem algumas GPXs, as primeiras FJs e VFs. Por vezes, até uma Harley Davidson com matrícula americana por lá andava.

O “Cabo” tornou-se rapidamente numa Meca dos motociclistas, num lugar de culto misto de feira de vaidades, local de encontro ou de passagem. As estradas mais próximas chegaram a servir de pistas de talentos duvidosos, onde a polícia fazia incursões frequentes.

Porém, a maioria ia pelo baloiçar das curvas, pela paisagem, pelo encontro com outros. Nessa altura, ainda era possível identificar alguns dos que tinham frequentado as noites de oitenta da “Mexicana”, bem como outros que já andavam de moto desde o despontar dos anos 70. No filme, reconhece-se o Armando Borges, o Amadeu Pereira, o João Rei e a Marina Ramalhete.


O “Cabo” não se esgota nesta meia dúzia de parágrafos nem nesta meia dúzia de aspectos. 


O sítio já tem uma história motociclística. Foi dali que muitos partiram e onde muitos chegaram em viagens inesquecíveis. O “Cabo” é princípio e fim, motivador e charneira, passado e futuro, hoje uma referência importante dos motociclistas portugueses e do motociclismo nacional.

As imagens foram retiradas de dois vídeos mal tratados... 

Música: Memória de Peixe, 74
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