sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Madeira. Meia Ilha


Há muita luz no Funchal, vista cá de cima, antes da aterragem, às tantas da noite. Já passou da hora de jantar, o táxi apareceu tarde e já há pouca gente à espera de transporte desde o aeroporto. Na cidade, o destino é a Quinta Mãe dos Homens.

Daqui, a vista é uma das quais pela qual o Funchal é famoso: uma baía aos pés do alcantilado das edificações. Parece uma Sesimbra em ponto grande, mais íngreme, mais verde, mais alta. E, ao largo, um mar calmo, azul, a ilumnar a cidade.

Daqui ao “centro”, digamos até ao Mercado dos Lavradores, a descer, é num instante. Para cima, é ao contrário, um cansaço. Mas vale a pena descer lentamente as ruas estreitas e desfrutar de um panorama ímpar. Depois, é apanhar a Ribeira João Gomes e descer até à Zona Velha. Mas, hoje, vamos dar um passeio mais alargado. Começamos no Cristo Rei, no Caniço, junto da Reserva Natural Parcial do Garajau. O miradouro, dominado pela estátua semelhante à do Cristo Rei de Almada, está lá desde 1927, ou seja, quase a fazer um século de existência.

A vista para o mar e para a falésia, uma ravina valente com praia em baixo, é suficientemente paisagística para motivar a paragem. E quase tocamos o Funchal com os olhos. Há nuvens, o mar está sereno e a vegetação luxoriante como habitualmente. Estamos prontos para continuar até ao Miradouro do Caniçal. Apanhamos a via rápida que nos voltamos a passar no aeroporto e, depois, na concha do Machico, sempre ao longo de pequenas zonas urbanas sobretudo com moradias dispostas nos socalcos.

Daí a pouco, já se vê ao longe a Ponta de São Lourenço. Passamos à vista da do Vulcão Penha de Águia e paramos entre os miradouros de Ponta do Rosto e do Caniçal. A vista para as falésias e para o mar é deslumbrante. Ao longe, a ilha de Porto Santo recorta-se no horizonte.

Estamos praticamente no ponto mais oriental da ilha da Madeira. Daqui, além do Porto Santo, vê-se meia ilha, descobrindo-se o formato pontiagudo do que parece quase estarmos num istmo. Não há refúgios e a vegetação é escassa. O vento sente-se à vontade para nos abanar de alto a baixo.

O chão é estranho. A cor das rochas vai do encarniçado ao beije, passando por algumas quase negras. O solo é árido, de pedra clara mas, por vezes, também mais escura. Há uma zona repleta de “bacias” lisas, com pequenas pedras em redor.

Estes sítios paracem ter sido “bombardeados” por pequenos meteoritos. O que parece é que, ali, certas rochas são muito ductéis, enquanto outras são duríssimas. A verdade é que o conjunto cria formas curiosas. Mas também parece que ninguém liga nenhuma aquilo.

E saímos para Porto da Cruz. Aqui, são os Engenhos do Norte que dominam. Estão lá desde 1927 e são um marco significativo na produção de açucar na ilha. Dispõe de um núcleo museológico, parte ainda era da Revolução Industrial.

É ainda possível assistir à produção de aguardentes de cana-de-açucar e fazer provas de rum no interior e na esplanada da loja. Cá fora, também há engenhos, e valentes. Lá dentro, entre tonéis e passadiços, uma das marcas destaca-se, a 970. Numa loja onde até há rum em spray!

Próximo da loja, a praia da Alagoa, ladeada por um enorme penhasco, e apesar de ser em calhau rolado, tem uma grande freguesia de surfistas. Curiosamente, é numa das extremidades da praia, já fora de pé, que surge uma pequena língua de areia clara.

Continuamos entre montes, onde a paisagem se robustece com o verde da vegetação e o cinzento das rochas. Paramos no miradouro da Senhora dos Bons Momentos e debruçamo-nos sobre o panorama da praia do Faial. O recorte da costa é tão atractivo como perigoso.

E chegamos a Santana. Aqui, são as casas que se salientam do espaço florido, as famosas casas com telhado de colmo, em bico, e fachadas com janelas coloridas. O interior, de 2 andares, sendo o superior diminuto, tem expostos produtos regionais e lembranças. Lá dentro, cabem 4 fregueses simultanemente..

Há muito que deixámos as estradas largas da marginal a sul. Agora, as estradas são estreitas, mas têm bom piso, ladeadas por vezes com hortências - não tantas como nos Açores. Como o trânsito não é muito, é possível ir parando em pequenos miradouros, por estreitos que sejam.


Próxima paragem numa loja de artesanato perdida na floresta. Afinal, não estava assim tão perdida. Há mesmo muita gente a deambular por ali. Muitos, entram e saem, mas com uma poncha na mão. E parecem contentes. Foi a melhor poncha da viagem. Outros, muitos, parecem ter um destino determinado. Vão a caminho de uma “levada”, um canal de irrigação que entra pela floresta. Em redor, é o verde que esmaga. E o fresquinho que refresca. Acompanhamos a “levada” até que o caminho estreita.

Estamos na Levada dos Balcões. O trilho mistura-se com a Levada da Serra do Faial e culmina num miradouro excelente. O troço não tem dificuldade de maior, é constantemente acompanhado pelo estreito canal de água (levada) e sempre à sombra da densa vegetação arbórea.


Como está fresquinho, vamos manter essa aragem trepando ao Pico do Areeiro, o segundo local mais alto da ilha e o quarto de Portugal, com 1818 metros de altitude. 

É a trepar, realmente, mas acda vez está mais enevoado. Até que, lá em cima, vê-se 100 metros á frente dos narizes. O Observatório ainda se vê. Porém, o Curral da Freiras está sob uma névoa que teima em cercar o cume do monte. 

O ambiente até está mais quente mas, em redor, a vista sobreas falésias é cada vez mais reduzida. É melhor descer e voltar ao Funchal.

Vamos passear na cidade. Hoje, preferimos o centro. Dos Paços do Concelho ao vizinho Museu de Arte Sacra, da Catedral do Funchal ao Mercado dos Lavradores. 

E ainda houve tempo - aqui o tempo parece estender-se não sei para onde - para deambular pela rua de Santa Maria e por algumas obras do “Projecto Arte Portas Abertas”.









terça-feira, 27 de agosto de 2024

Noite Branca. Loulé


Para nós, uma estreia, em Loulé. Desde 2019 que não havia Noite Branca em Loulé. Pot tal, a expectativa era valente. E não desiludiu. Muita gente, talvez demais para certos espaços. Mas, sobretudo a animação valeu a pena.. Concertos, bares de rua, dança, animadores, artes de circo, dança.

De acordo com o previsto, seriam 30 bandas, 200 animadores, quase 20 palcos. E gente, muita gente a assistir. Numa das avenidas o tráfego humano encostava-nos uns aos outros. Nas ruas mais estreitas, o mesmo andar de desvio. Junto aos pontos de animação, mais ainda.



A música esteve sempre presente. Quer com DJ’s, quer através de músicos ao vivo, quer ainda com música de fundo junto de instalações artísticas, e sem se atropelarem uns aos outros. Cheio, estava o concerto dos Black Mamba, junto ao castelo.

 

Pelas ruas, o branco dominava, ou não fosse a Noite Branca o mote da festa. Os bares improvisados, com poucos lugares sentados, pareciam insificientes para tanta gente. Num pequeno largo, ainda assistimos a uma animação com fogo, acompanhada por copo alusivo e um banco improvisado.

 

Acabámos a noite sentados num pequeno declive relvado, entre as barracas de bifanas e um palco enorme. Em baixo, mais alguns milhares de pessoas a assistir ao concerto de Dino de D’Santiago. Uma noite catita, em boa companhia, com uma animação cativante.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

TORRES & BUNKERS I - Sancti Petri

Quase Mediterrâneo. A luz costeira, a água do mar, o relêvo avultado, o alvo das casas, as marginais cosmopolitas, a noite vibrante, os ócios amenos. E, muito mais. A Andaluzia, junto ao mare Nostrum, sempre foi um lugar intenso. De festa e contenda. Francisco Franco, o caudillo espanhol, esteve ao lado de Hitler durante a II Guerra Mundial. 

 

Por tal, teve noção de que arriscava ser invadido pelos Aliados, sobretudo pelos Ingleses, estabelecidos há anos em Gibraltar. Mas não só através daquela península. Toda a costa mediterrânica estaria em risco, especialmente a costa andaluza, local de acesso desde o Atlântico. Aliás, a ameaça (e a concretização) de incursões, sempre foi uma realidade.

 

Desde os berberes norte africanos, passando pelos fenícios, cartagineses, romanos, até aos ingleses e holandeses. A costa mediterrânoca espanhola, sempre foi apetecível. Parece que os Fenícios foram os primeiros a colocar torres de vigia na costa. Provavelmente, por causa dos piratas berberes. Depois, vieram os romanos e estenderam a linha de torres de vigia.

Muito mais tarde, inquieto perante a possibilidade de invasão, Franco mandou reforçar algumas das fortalezas costeiras, e construir abrigos de betão para efeitos de defesa do litoral andaluz. Mas, não só. E, mesmo dentro de algumas fortificações, até apareceram bunkers.

 

Independentemente da sua função bélica - ou da sua completa inutilidade, como aconteceu com a esmagadora maioria destes bunkers - a verdade é que ficam situados em locais onde muitas gente gostaria de ter uma casa, montar uma tenda ou apena estar numa varanda, para poder desfrutar de paisagens ímpares.

 

SANCTI PETRI

 

Inicio aqui um périplo pelas torres e bunkers da costa andaluza. E, não só. No caminho, há castelos e ruínas romanas. Há monumentos tão estranhos como arrojados. Outros, situados em locais cujo acesso só se faz após uma valente caminhada ou sobre um trilho onde não posso meter a moto, ficarão para outra aventura.  


Sancti Petri é, digamos, a praia de Chiclana de la Frontera. Não difere muito das restantes localidades costeiras que que ligam Ayamonte a Tarifa. Possui uma marginal com passeio pedestre, quilómetros de praias - sem grande protecção, por tal algo assoladas pelo vento - muitos equipamentos de praia, urbanizações de vigeliatura.

O bunker da praia - bunker 2 de Camposoto (1936/39) no google maps - foi o primeiro revés da jornada. Fica na península arenosa que vem dos lados de San Fernando, Cadiz. Uma pequena enseada separa essa península de Sancti Petri.

Apesar de  estar plena de pequenos barcos, uns de pescadores, outros de recreio, as travessia entre margens estavam fechadas. O dia anterior tinha sido o último com ligação marítima. Ainda confirmei o facto num pequeno bar, mas restou-me ficar a olhar para o areal da outra margem.

 

Por tal, voltei para trás - aliás, a estrada não tinha outra saída - e fui na direcção que Hércules me indicou, de volta a Sancti Petri. Algures, o herói tinha um templo. O GPS voltou a fazer o seu serviço e mandou-me parar a meio de uma zona arborizada.

Procurei o estranho Templo de Hércules e dei com a entrada numa acesso da praia. Perdido no tempo fenício, era uma espécie de altar em honra do deus Melkart, quase em plena praia. Aníbal (o cartaginês) e Júlio César (o romano), diz a placa, estiveram aqui a contemplar o “entardecer dos equinócios”.

 

Fica no fim de um pequeno trilho na orla da praia. O culto manteve-se durante o período cartaginês, para durante o domínio romano o culto passar para Hércules. Quem ainda se mantém presente na praia é Melkart - o deus tutelar da cidade fenícia de Tiro -, através de esculturas de grande dimensão.

 

Gorada a hipótese do bunker, restava ainda uma suposta torre. E, dar com ela, não foi fácil. Pudera, ficava num terreno privado, provavelemente num espaço de hotelaria. Porém, tratava-se de uma reconstrução, uma espécie de ciclindro sem grande estética.

domingo, 14 de julho de 2024

Mais AZULEJOS. Berardo em Estremoz

Há paredes e corredores decorados com excelentes painéis de azulejos setecentistas, barrocos e rococó. Têm cenas campestres, históricas e mitológicas e datam sobretudo do século XVIII. Estamos no Palácio Tocha ou dos Henriques. 


Foi construído no início daquele século para albergar o capitão Barnabé Henriques e a sua família, tendo sido adquirido pelo engenheiro José Tocha, um seu herdeiro, no início do século passado. Chegou a ser hotel. Hoje é o Museu José Berardo, em Estremoz.

Após uma exposição no Monte Palace, da Madeira, ainda núcleo de azulejaria, e a posterior aquisição do Palácio da Bacalhôa, que já possuía um acervo importantíssimo na área da azulejaria, José Berardo deu continuidade à sua atracção nesta arte.



Por tal, reuniu no Palácio Tocha uma colecção de colecções de azulejos, hoje considerada a maior colecção privada mundial. Trata-se de um espólio único na azulejaria nacional e mundial, uma homenagem à arte, aos artífices, à história e à cultura portuguesa.



Os azulejos, étimo árabe az-zulaiy, um legado hispano-árabe, em especial o estilo “alicantado” (brilhante como o ouro), já desde o século XI se estima ter tido um dos seus momentos mais radiosos, apesar dos exemplares mais importantes datam dos séculos XII, IV e XV.

A arte da azulejaria, dotada de técnicas, desenhos, ornamentos e estilos cerâmicos, já mostrava desde a génese, a importância da geometria e da química que proporcionava a pigmentação mineral das obras.

Oriundo provavelmente da região de Sevilha/Granada, o azulejo revelou-se um elemento crucial e aglutinador na construção e partilha de uma identidade estilística circunscrita à Península Ibérica, estendendo-se para a cultura como uma das suas singularidades mais antigas.


Há muitos exemplares provenientes de colecções privadas, como sejam os casos de Vera e Verónica Leitão, Colecções Bonaventura Bassegoda (Catalão) e Laura Salcines (Sevilhana). São as primeiras salas do piso térreo que possuem azulejos provenientes de Espanha, nomeadamente de Sevilha. 


De salientar, além do tecto revestido com placas cerâmicas seiscentistas, algumas mesmo provenientes de igrejas, os painéis com figuras religiosas ou cenas simbólicas, que também estão patentes nas salas do piso térreo. De duas das salas, há acesso a um pátio interior, também ele decorado com elementos cerâmicos estilizados.

Acede-se ao piso superior por uma escadaria monumental de mármore de Estremoz, ou não estivéssemos na cidade com jazidas de mármore tão próximas. A escada, revestida a azulejos oitocentistas, dá acesso à sal nobre do palácio onde está patente um valioso espólio de painéis decorativos temáticos.

Estamos na “Sala das Batalhas”, com paredes profusamente preenchidas com representações de batalhas vitoriosas da História portuguesa. Passamos à “Sala de Neptuno” e terminamos na “Sala de Hércules”. O azulejo volta a ser o elemento decorativo por excelência do espaço.


Outro elemento decorativo aqui salientado é o de episódios mordazes, até cómicos, com macacos, que também está representado em alguns acervos de azulejaria portuguesa, uma maneira de representar ironicamente, às vezes até de forma grotesca, os próprios disparates humanos.

O deslumbre continua com os diversos estilos representados nas paredes das restantes salas. Vamos ao Rocócó, passamos ao Neoclássico, depois ao Pombalino.  Aproximando-nos do século XX, e surgem os estilos Revivalista e Nacionalista. 

Da Fábrica de Louça ao Rato passa-se para a Fábrica de Louça de Sacavém, para a Fábrica de Sant’Ana, numa perspectiva industrial. E o azulejo, através de grandes painéis, passa também a “entrar” na publicidade., articulando até “esteiras chinesas” com “carpetes de Cairo”…

Aparecem exemplares de Arte Nova e de Arte Deco. Surgem obras de Siza Vieira, Júlio Pomar, Paula Rêgo, Salvador Dali, cujas peças não estamos habituados a ver em azulejo. Do século XII, chegamos ao Século XXI., quase uma década de séculos de arte em azulejo.