terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Serra de Gredos Tour 1 - MEDELLIN, GUADALUPE e AUGUSTOBRIGA



O convite surgiu em Outubro do ano passado. Do mesmo grupo do passeio à Turquia e não só. Destino: SERRA DE GREDOS, em Espanha! O tempo está connosco, o atmosférico e o oportuno. Vamos, evidentemente! Porém, de há muitos anos na expectativa, podia ser desta a oportunidade de iniciar o passeio mais a sul.

Inicialmente, seria parar em MEDELLIN, para conhecer esse conjunto histórico, a pouco mais de 300 quilómetros de casa. Depois, pernoitaríamos em GUADALUPE, para visitar o Mosteiro. A seguir, iráimos para HERVÁS, ao encontro do grupo, para visitarmos um museu especial. 


MEDELLIN, DE ROMA AO IMPÉRIO ASTECA




De vez em quando, o calor de Verão perdura pelo Outono. Foi o caso: a temperatura, depois de almoço, em Medellin, andava muito acima dos 30 graus. Fora da zona urbanizada, trepar ao extenso castelo medieval do século XII, depois de almoço, sob sol abrasador e sem uma árvore a emprestar sombra, pareceu incómodo, se não impossível. 



Por tal, seguimos junto aos vestígios do segundo troço de muralhas, a caminho do teatro romano. Este, aproveita o desnível da encosta do castelo, moldando-se à topografia como era hábito nos teatros gregos da antiguidade. Curiosamente, deve datar de cerca do primeiro século antes de Cristo, mas só foi descoberto no início do século XXI.

Neste dia, porém, aquela hora, estava fechado. Havia obras, talvez de restauro, e um longa rede vedava o acesso ao palco e às bancadas. De esguelha, tornou-se difícil sequer observar a dimensão do teatro. Passámos pela igreja de Santiago, onde se entrevia um espaço museológico, fechado aquela hora, para onde foi levado um grande número de peças do palco. 

Mais abaixo, já em zona urbana, uma escola, um parque e um monumento comemorativo que representa o mais ilustre filho de Medellin, o “aventureiro, conquistador, descobridor, fundador, capitão general e escritor espanhol, Hernán (ou Hernando, ou Hernan) Cortés, também conhecido como Pizarro, que aniquilou o império azeteca na primeira metade do século XVI.

Atravessamos de novo a bela Puente de Medellín, de 20 arcos, sobre o Guadiana, a caminho de Guadalupe e passamos por uma localidade chamada… Hermán Corte. Deixamos ao longe Castillnovo, originário do séc. VII, mas posteriormente aumentado nos séculos XII e XII. Envolto em vegetação, hoje é uma unidade hoteleira dedicada a a múltiplos eventos.


GUADALUPE: MOSTEIRO E POVOADO




Daí a pouco mais de meia hora, estamos a trepar para Guadalupe, quando se começam a vislumbrar os montes do final da Cordilheira de Toledo, intitulados serra de Guadalupe. Avançamos entre moradias, depois pequenos prédios de 2 andares, para entrarmos numa rua mais larga de onde se vê, ainda ao longe, um grande edifício religioso de pedra, no topo de uma praça.



Chegamos à Praça de Santa Maria e estamos perante o Mosteiro Real de Santa Maria de Guadalupe.  É imponente, parecendo deslocado naquele espaço e numa povoação que não chega aos 2 mil habitantes.  Fundado no século XIII, mas posteriormente aumentado até ao século XVII, o mosteiro contempla diversos estilos arquitetónicos: gótico, renascentista, barroco e neoclássico.

Havíamos reservado acomodação no próprio mosteiro, na Hospederia del Real Monasterio. Apesar da localidade possuir um Parador, o preço no mosteiro é inferior. Deixámos a moto à porta da Hospedaria, trepamos ao quarto e, como era suposto, ficaríamos alojados numa antiga cela monástica.


Habitualmente, as celas monásticas, têm espaços exíguos… mas, neste caso, o pé-direito do quarto, com quase 5 metros de altura, surpreendia. Percebe-se pela altura da porta. Com um comprimento ainda maior, o quarto dispunha também de uma enorme casa de banho e, ainda, de uma pequena dependência onde existia mais uma cama.

Voltámos ao vestuário “civil” e corremos, mesmo, até à recepção a tempo da última entrada no mosteiro. Infelizmente, não é permitido obter imagens na parte visitável do interior do mosteiro. Ficámos com algumas, sobretudo dos claustros e pouco mais, o que não espelha minimamente a sua riqueza estética, histórica e  artística.


Estamos num dos Patrimónios da Humanidade. Este, tem o condão de historicamente ter sido palco da audiência dos reis católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, a Cristóvão Colombo - ainda hoje, com polémica em redor da sua nacionalidade -, quando estes disponibilizaram uma pequena frota de navios ao intitulado descobridor da América.

E as referências a Portugal não ficam por ali. Consta que houve monges Jerónimos ligados à fundação do mosteiro. Mais tarde, Pedro I, de Portugal, terá sido devoto da Virgem de Guadalupe. Os seus dois filhos, e de Inês de Castro,estão sepultados no mosteiro. Nuno Álvares Pereira visitou-o para agradecer a protecção da virgem após a vitória obtida na batalha de Aljubarrota.

Num dos quadros expostos num dos claustros, é possível surpreender, quer o nome do monarca, quer a representação de Afonso VI, o Africano, que segundo o texto aí inscrito, a sua saúde também estaria sob a protecção da virgem. E, foi lá, que o Desejado, Sebastião, acordou com Filipe II a expedição a Marrocos.

Embora seja habitualmente designado como mosteiro mudéjar, tem uma estética rica e diversificada, com muitos elementos dos estilos gótico, renascentista, barroco e neoclássico. O claustro mudéjar é um espaço deslumbrante onde se destacam os respectivos arcos bem como as habituais sepulturas. Em redor, as paredes estão decoradas com quadros de grandes dimensões.

No interior, há diversas salas, algumas de grandes dimensões, que encerram vários acervos museológicos, desde livros com valiosas iluminuras, bordados e paramentos litúrgicos (muitos com pedras preciosas) de fabrico próprio e, ainda, um conjunto de pinturas de El Greco e de Francisco de Goya


Francisco Zurbarán, pintor seiscentista, também está representado com um conjunto de obras expostas na rica sacristia do mosteiro, profusamente decorada, onde já cabem mais elementos. Possui ainda um relicário que contempla uma vasta colecção de relíquias e uma peça das mais admiradas a coroa pontifícia da virgem.

Ainda era dia, por volta das 7 da tarde, hora a que fechava, quando saímos do mosteiro. A temperatura baixara sendo agora tão amena como o dia estava luminoso. O casario, de origem medieval (estivemos para reservar estada num alojamento junto da muralha), organiza-se em redor da Praça de Santa Maria, fronteira à fachada do mosteiro.

Viramo-nos para sul e entramos na judiaria, passamos o Arco de Sevilha (há mais quatro arcos), e continuamos até à Plazuela Tres Chorros, com uma fonte antiga do mesmo nome. Andamos entre moradias de rés do chão e 1º andar, sobre chão empedrado com seixo do rio e há muitos alpendres sustentados com colunas de madeira.

O tempo está tão bom que a escolha de restaurante para jantar recai obrigatoriamente sobre uma das esplanadas da praça. O ambiente é simpático, há muita gente a passar e a parar para o habitual petisco antes de jantar. 

Em redor, há pequenas lojas de artesanato e mais restaurantes. Apesar de estarmos no centro, a tranquilidade domina o local. Nesta altura, foi possível jantar ao ar livre, a observar a praça e o admirável cenário do mosteiro.


DOS “MÁRMORES” A PLACENSIA




De manhã, o pequeno almoço decorreu em outro claustro do mosteiro que, no dia anterior, tínhamos visto desde a galeia no segundo andar que levava aos quartos. Um espaço tão calmo, como amplo e esteticamente agradável. Seria a última ligação ao ambiente histórico-monástico.  Depois, saímos cedo, a tempo de passar por dois templos: o de Mármore e o de Placensia. 

Subimos mais, continuamos na serra de Guadalupe, entramos no Geoparque Villuercas Ibores Jara, um espaço natural com um património geológico e histórico significativo, pleno de  pinturas rupestres, dólmens, castros, castelos e, segundo consta, rico em gastronomia. Mas, também, com uma bela “pista” montanhosa para rolar de moto.


Estávamos de passagem. Mas tínhamos de parar num local que havia identificado como sendo um “tesourinho” arqueológico: o Templo de Augustobriga, mais conhecido como “Los Marmoles” (é assim que está escrito no Google Maps). Trata-se de uma ruína de um templo do século II d.C., construído em estilo coríntio.

Conta a lenda, como tantas outras semelhantes existentes em Portugal sobre princesas mouras, que em vez de templo, o edifício era um palácio de rei mouro, onde este encerrou a sua filha por estar apaixonada por um cavaleiro cristão. Realmente, aquele arco de pedra na fachada, onde habitualmente estaria um triângulo, não é muito comum na arquitectura romana…

Embora a albufeira tenha modificado significativamente a paisagem, o local de implantação é singular - será que o conjunto sempre esteve ali? -,, não só o templo, mas outros elementos arquitectónicos (colunas, sobretudo). É daqueles lugares isolados que se descobrem com edificações grandiosas, particularmente inesperadas.





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quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Mais de Paula Rego


Para quem gosta de Paula Rego, volta a Paula Rego, ou seja, à Casa das Histórias, em Cascais. O sítio é atractivo, a arquitectura e os jardins contribuem para tal. Contíguo, o Museu do Mar, dá outra ajuda. O conteúdo da exposição faz o resto.  A visita é gratuita, como a maioria dos sítios culturais da vila. A Casa das Histórias está ali desde 2009.

 

Desta feita, vão ser apresentadas pela primeira vez algumas obras em público. Vamos percorer sete salas, caminhar ao longo do percurso criativo de Paula Rego. Entre obras realizadas especialmente noa anos 80, estão trabalhos provenientes da colecção do museu, bem como obras de colecionadores privados e e entidades públicas.

 


Andamos pelas histórias da artista que reflectem uma linguagem visual enérgica, com protagonistas que adquirem qualidades e comportamentos humanos, sendo criaturas animalescas, e que convivem bizarra ou ambiguamente com humanos. Ou são simplesmente humanos em contextos peculiares e/ou complexos.

 

Nos trabalhos de  pintura, desenho e gravura, as personagens mantêm aspectos disformes, semblantes e movimentos agressivos, comportamentos eventualmente mordazes ou repugnantes, em situações tanto caóticas como serenas, numa linguagem figurativa com tanto de atractivo como de depressivo.

 

Passamos  por Dr. Gato e Romeu e Julieta. Depois, por Rapariga com Pássaro e Rapariga e Marabu. Continuamos com raparigas em Rapariga com Duas Mâes ou Pequenas Noivas com Suas Mães. Fechamos com Na Praia e O Cerco, para terminarmos numa tapeçaria, com vários tecidos sobre linho, intitulada Batalha de Alcácer-Quibir. Fascinante

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Aikido em Quarentena

  


A Covid-19 surgiu e instalou-se.

Nessa altura, a vida mudou!

Alteramos quase toda a vida pública, privada, familiar, social, profissional, desportiva.

As actividades de grupo, por pequenos que fossem - duas pessoas, até, p.e. - cessaram.

Neste cenário de afastamento, as artes marciais também foram arrastadas para o isolamento.

Que época!


Todavia, nestas alturas as pessoas reagem, criam, reinventam-se, solidarizam-se. 

Foi preciso “juntar” de novo os praticantes, dar seguimento aos treinos, continuar o Caminho. 

Fosse como fosse. Ou antes, da melhor maneira possível.

Foi preciso usar a imaginação!

Foi preciso esticar o Ma Ai (distância de segurança) até garantir que não nos contaminávamos uns aos outros.

 

AIKIDO À DISTÂNCIA


 

O que se faz quando não podemos estar juntos, quando a proximidade, desaconselhada, chega mesmo a ser proibida?

O que fazemos quando precisamos de outro para praticar e aprender?

“Fazemos” à distância!

O “on line” perfilou-se como uma das melhores soluções para trocar informações, opiniões, intervenções.

Tudo através da net.

 

Por este meio, através das palavras e das imagens, as artes continuaram a ser divulgadas.

Privilegiando, quer a teoria, quer as maneiras de fazer.

O conhecimento continuou a ser passado de uns para outros.

Os conceitos, práticas, evoluções, passaram a ser comentadas e até discutidas.

Até mesmo as diferenças e as semelhanças foram contempladas.

 

A cultura das artes marciais teve aqui um momento fascinante e enriquecedor.

Os praticantes juntaram-se em redor do ecrã do computador e partilharam ideias, práticas, anseios, problemas, alternativas, soluções.

Enfim, um conjunto de temas que, se não aprimorou, dinamizou a arte.

Prevaleceu sobretudo um espírito de partilha.

 

O NOSSO ESFORÇO



As ideias surgem dessa situação de isolamento.
Falamos sobre tantos aspectos do Aikido…
...por que não explorar esses diversos temas e divulgá-los para o grupo?
A expectativa é de o grupo esteja recepctivo e se envolva.
Passa-se à acção: reúne-se informação, organiza-se e escolhe-se um suporte.
Com o audiovisual a liderar, o vídeo foi decisivo e o Zoom o tal suporte que nos colocou a todos em contacto simultâneo.



No nosso AikiDojo, chamámos-lhes “videoconferências do confinamento”.

Através delas, pudemos percorrer em conjunto um Caminho, por,

  • Sugestões de treinos, nomenclaturas e links para vídeos;
  • O Fundador, Morihei Ueshiba;
  • Aikido no Feminino;
  • Trabalho de Armas: Tamura Sensei e Sugano Sensei; 
  • Aiki Taiso: de O'Sensei a Tamura Sensei;
  • José Azevedo e Silva Sensei, homenagem;
  • O Desequilíbrio (kuzushi) no Aikido;
  • Defesa pessoal: Tsuneo Ando (Yoshinkan Aikido); yudansha do Laos (linha Tamura/Fukakusa); Shirakawa Shihan (linha Kobayashi);
  • Semelhanças técnicas entre o Aikido e Shorinji Kempo, Karate GoJo Ryu e o Judo;
  • Atemi e Kuzushi;
  • Aikido e o Movimento da Espada;
  • Aikido e os Sistemas de Espada: Chiba Sensei, Saotome Sensei; Sugano Sensei;
  • Pioneirismo do Aikido em Portugal: De G. Stobaerts Sensei a T. da Cunha Sensei
  • Yoshimitsu Yamada Sensei e Donovan Waite Sensei, prática e influências;
  • Antoine Vermeulen Sensei;
  • Ueshiba Sansei (três gerações), Morihei, Kisshomaru e Moriteru,


e, mais, muito mais, conteúdos que abriram horizontes, mostraram outras maneiras de fazer, diversidades, afinidades e homogeneidades do Aikido.


Na nossa Associação, ACPA, o Zoom foi também um elo de ligação importante.

Manifestou-se, quer em matéria administrativa - discutimos alterações ao Regulamento Técnico, ao calendário técnico, votámos o PAO -, quer em termos culturais - a língua japonesa e o Aikido, p.ex.


Mas não só.

A possibilidade de estar com outras artes marciais, concretizou-se.

Foi possível ouvir, perceber e até reconhecer problemas comuns

As plataformas digitais, que permitiram, por exemplo, estarmos presentes no Fórum Artes Marciais Simultâneas, foram decisivas.. 

 

AIKIDO INDIVIDUAL


Enquanto as condições não o permitiram, os esforços para manter viva a prática, foram realizados por vários instrutores.

Mesmo isolados e em espaços exíguos, proliferaram demonstrações.

Por exemplo, de Jumbi Dosa (exercícios de aquecimento, flexibilidade e respiratórios), Aiki Taiso (exercícios preparatórios de técnicas) ou Bukiwasa (técnicas com armas).

Esse tipo de acções também favoreceram a prática individual, Hitori Geik.

Foi possível praticar um conjunto de exercícios de mobilidade, rolamentos, movimentação de corpo e dos pés, e exercícios respiratórios.

E, até, havendo espaço suficiente, exercícios com armas.

 

PRÁTICA DE ARMAS

 

Quando a situação pandémica criou condições para as pessoas voltarem a treinar juntas, mas não próximas, a prática focou-se nas técnicas com armas.

Os parques revelaram-se excelentes locais de prática.

E esta, de tão repetida, manifestou-se positivamente no desempenho dos menos experientes.

 

Em pouco tempo, poucos meses, os principiantes estavam a agir quase como conhecedores.

As técnicas que habitualmente se praticam com graduações médias, passaram a ser feitas frequentemente por principiantes.

Estes, não demoraram muito a executar com mérito, suburis (movimentos básicos), katas (movimentos padronizados), kumijo (bastão contra bastão) ou kumitachi (espada contra espada).

 

LEGADO

 

A pandemia teve alguma mais valia no contexto do Aikido.

Creio que foi, por um lado, na prática de armas que melhor serviu em matéria de continuidade.

E, por outro, melhores resultados demonstrou, especialmente nos principiantes.

Hoje, a prática de armas está a ser preterida face às técnicas de corpo.

Diz-se que, por falta de tempo para ensinar/aprender estas últimas.

Todavia, ainda se recorda com gosto esse período em que as técnicas de armas foram um elemento valioso, quer nessa altura, quer para o futuro da prática.

 

Ouvir alunos dizerem que, “algo ficou daqueles dias, que não mais se esqueceu”, é reconfortante e sinónimo de que realmente os praticantes sentiram que, aquele tipo de treino, foi uma mais valia na evolução do seu Aikido.






sexta-feira, 3 de novembro de 2023

A mão da espada ou do báculo?


Toda a gente conhece estátuas monumentais romanas. Habitualmente, as mais notórias, são dedicadas aos deuses, aos imperadores, aos militares, às personagens mais importantes. Quando aparece algo insólito, a curiosidade aguça-se, a dúvida instala-se, a descoberta precipita-se.

 

Desta vez, era um fragmento de um estátua de bronze com cerca de 2,2 metros de altura, que representaria um personagem importante, tendo-se avançado tratar-se de um imperador ou de uma figura militar de topo. Esse fragmento, em bronze, é uma mão, uma mão esquerda.

 

Mas não apenas a mão. Essa mão segura uma espada, com a respectiva guarda e o punho com os pomos decorados com uma águia de duas cabeças (bicéfala), datada do séc. I. Ora começa aqui a estupefacção: a águia bicéfala não é um símbolo do Império Romano do Ocidente.

 

Apesar da icónica águia ser um importante símbolo do exército romano dessa época, a “figura da  águia de duas cabeças era desconhecida na iconografia latina” sendo, por tal, um objecto ímpar, uma “peça que apresenta elementos que não foram documentados até o momento”.

 

Esta originalidade trouxe a Lisboa uma conferência, que decorreu no Museu de Arqueologia, em Lisboa, protagonizada por Manuel Doménech, director do Museu Arqueológico de Alicante, que abordou o achado no fórum da antiga cidade romana de Lucentum, em Tossal de Manises, Alicante.



Se a peça já colhia a singularidade de apresentar a águia bicéfala, outra faceta adensa o mistério que a envolve: o anel que envolve um dos dedos tem um lítuo gravado, um símbolo ligado à religião, um bastão recurvado na extremidade  utilizado pelos sacerdotes áugures, contrariando uma das teorias diziam pertencer a uma estátua de um imperador ou a militar proeminente.

Outro elemento que satura o enigma, prende-se com a particularidade de não existirem / nunca terem sido encontrados juntos, em estátuas de bronze, os dois elementos, uma mão e uma espada. Talvez daí, outra hipótese de a considerar, poder ser uma mão com um báculo, eventualmente pertencente a um clérigo. Será?